Começos inesquecíveis: Herman Melville

16/01/2008

Me chamem de Ismael. Alguns anos atrás – não importa precisamente quantos – tendo pouco ou nenhum dinheiro na bolsa, e nada que me interessasse particularmente em terra firme, decidi navegar um pouco por aí e ver a parte aquosa do mundo. É um jeito que tenho de espantar a melancolia e regular a circulação do sangue. Sempre que me pego ficando amargo, mandíbula tensa; sempre que em minha alma se faz um novembro chuvoso e cinzento; sempre que me vejo detendo involuntariamente o passo diante de agências funerárias e seguindo a cauda de todo cortejo fúnebre que encontro; e especialmente sempre que minha hipocondria leva a melhor sobre mim de tal forma que só um forte princípio moral me impede de sair à rua e, deliberadamente e com método, aplicar murros na cara dos passantes – nesses momentos, sei que está na hora de me fazer ao mar o mais depressa possível.

Há uma única e melancólica razão para que o início de “Moby Dick”, de Herman Melville, o começo mais “inesquecível”, citado e parodiado da literatura americana, tenha demorado quase dois anos para vir parar nesta seção: a insistência com que os tradutores brasileiros que conheço vertem a famosíssima frase de abertura do livro, Call me Ishmael, nesta fórmula criminosa: “Chamai-me Ismael”. Ressonâncias bíblicas, alegais em vossa defesa, ó escribas? E desde quando isso é motivo para decepar logo na primeira linha o barato de gerações e gerações de brasileiros diante de um livro de aventuras empolgante e, de certa forma, simples feito água? Será que o pernóstico imperativo na segunda pessoa do plural, que nos soa pomposo ou ridículo há séculos, tem alguma afinidade com o humor moderno de Melville em geral e especialmente neste parágrafo, em que o narrador confessa o desejo gratuito de sair à rua e “aplicar murros na cara dos passantes” – ou melhor ainda, no original, knocking people’s hats off?

Para mim, a resposta sempre foi não, de jeito nenhum. E foi assim que “Moby Dick” se manteve ao largo do blog, rodeando-o, arisco e furioso feito um cachalote ferido, até me ocorrer agora há pouco a idéia óbvia de traduzir o trecho eu mesmo. E já que estava pondo mãos à obra, achei melhor dar logo vazão a um ardor modernista que, sei muito bem, incorre no pecado do anacronismo: “Me chamem de Ismael”, com o pronome pessoal átono abrindo a frase – e, escândalo dos escândalos, o livro! É claro que o Brasil, proclítico por natureza, só começaria a se encarar no espelho ali por volta de 1922, mais de meio século, portanto, após o nascimento da baleia branca de Melville. Até então, engolíamos vossas ênclises disciplinadamente, escribas, para não mencionar vossos pronomes pessoais em desuso, como bons macaquinhos amestrados. Mas deixai estar, deixai estar, que o que se perde no anacronismo é restituído com juros na adequação do tom.

Quem for menos dado a traquinagens de estilo pode optar por um discreto “Chamem-me Ismael” – curiosamente (ou não?), uma solução que parece ser mais comum entre tradutores portugueses do que entre brasileiros.

63 Comments

  • Tibor Moricz 16/01/2008 at 13:33

    Me chamem-me de Tibor…rs.

  • Carlos Magno 16/01/2008 at 13:48

    Uai, sô! Esse trecho somente? E cadê o resto?

    Melífluo, cadente, ótimo!

    Prazer de ler!

  • C. S. Soares 16/01/2008 at 13:52

    Vcs concordam que o ínicio é sempre a última coisa que será escrita em um romance?

  • Carlos Magno 16/01/2008 at 14:09

    Já vi gente começar pelo prólogo!

  • Tibor Moricz 16/01/2008 at 14:13

    C.S… cumé?

  • C. S. Soares 16/01/2008 at 14:20

    Explico: isso teria lógica. Em monografias (ou qq outro texto acadêmico), a última coisa a ser escrita não é a introdução? Li essa idéia de algum autor (talvez Pascal) que não me recordo agora. Mas, parece ser uma idéia plausível, já que é no início que se precisa fisgar o leitor. Eu tenho uma esquisitice (não sei se alguém mais aqui me acompanha): sempre que folheio um romance, eu leio algumas páginas iniciais (o que achar necessário) e também o final. Deixo a surpresa do leitor para o intermezzo.

  • C. S. Soares 16/01/2008 at 14:22

    Carlos Magno, a obra é de domínio público, logo, pode ser copiada de um monte de sites.

  • C. S. Soares 16/01/2008 at 14:35

    Enquanto vc pensam, escutem aí: Moby Dick, do Led Zeppelin

    http://www.esnips.com/doc/7ed4a61c-b02f-404e-b39c-e5d14e2d6b0b/Led-Zeppelin—Moby-Dick

  • Noga Lubicz Sklar 16/01/2008 at 15:30

    Sérgio, prefiro a sua opção. Muito interessante mesmo esse seu comentário, particularmente num momento em que me decidi, finalmente, a ler o Ulisses de Joyce, e venho levantando questões mil quanto às traduções da obra para o português (do Brasil, mas com lusos cc’s à vontade). A coisa pega feio por lá em termos de indevida pomposidade. Abraço.

  • Carlos Magno 16/01/2008 at 15:35

    Postei duas vezes e não saiu. Então vai a terceira.

    Ok. C.S., anotado.

  • persia 16/01/2008 at 16:13

    oras, Sérgio, modernista ou não, “vazão a um ardor” (rs) à parte, ficou ótimo para a personagem: “Me chamem Ismael”.

    Cláudio, desculpe o jogo vulgar: mas que sinuca!, aguarde/o o próximo lance. :)

  • Murilo Gabrielli 16/01/2008 at 17:33

    Sérgio, frescura minha, mais acho que gostaria ainda mais de “Me chame de Ismael”, no singular. Difícil dizer qual a intençãoriginal do Melville, mais eu gos mia do leito sigularizado.

  • Tibor Moricz 16/01/2008 at 17:35

    traduzindo: “mas eu gosto mais do jeito singularizado”.
    Depois mando a conta, Murilo.

  • Murilo Gabrielli 16/01/2008 at 17:35

    PS – Gostei da referência a 22 na nota, quando vc tratou da colocação pronominal. Complementa bem a nota anterior (da importância de se ler Macunaíma em particular, e os Andrades em geral).

  • Murilo Gabrielli 16/01/2008 at 17:37

    valeu, Tibor. Mas era leitor, não jeito singularizado (vou te contratar para decifrar meus garranchos, que já nem eu mesmo entendo)

  • Paulo (Outro Paulo) 16/01/2008 at 18:22

    “Parte aquosa do mundo” é ruim. Aquática é o termo correto.

  • Felipe 16/01/2008 at 18:26

    Melhor que Macunaíma, né? :)

  • Sérgio Rodrigues 16/01/2008 at 19:11

    Murilo, poderia ser singular, sim. Optei pelo majestático.

    Paulo (outro Paulo): não é assim que a língua funciona, meu caro. Aquoso é tão “correto” quanto aquático, naturalmente. Questão de opção autoral (sim, tradutor também é autor). Aquoso é mais cômico, me parece ir melhor com o tom geral. Que tal você nos mostrar a sua tradução?

  • Carlos Magno 16/01/2008 at 22:10

    Li e reli Moby Dick, principalmente em meu tempo de estudante de inglês, no Easy Reading Books. Já tinha visto o filme, se não me engano o capitão perneta era o Gregory Peck, adorei.

    Li em Português também, e estava longe de imaginar que faria alguma diferença escrever parte aquosa do mundo ou parte aquática. Hoje vejo que talvez faça, nem tanto pelo purismo, mas por uma homenagem merecida da língua portuguesa ao encanto da obra.

    Não sei se pelos meus anos dourados, o que me fascinou foi a história, os personagens, o suspense. Faz bem o Sergio em trazer à lembrança esse clássico do gênero. Se não fosse bom não se discutiria, acho.

    E pelo andar da carruagem, ou do barco à vapor, verei aqui, quem sabe, falar de Mark Twain, As Aventuras de Tom Sawyer. Legal, gostei.

  • Pedro David 16/01/2008 at 22:38

    Ajuda!!!

    Coincidentemente, entrei no blog para pedir uma sugestão sobre uma tradução a você, Sergio, e aos comentaristas sempre presentes. Que bom que o assunto do post era esse, porque assim me sinto menos chato. É o seguinte: estou lendo Crime e Castigo na elogiada tradução do Paulo Bezerra, mas estou implicando com o texto. Tenho uma outra aqui, antiga, que foi traduzida por Natalia Nunes e ” funciona muito melhor”. Entretanto, o Bezerra diz no prefácio que por ser a primeira tradução direta do Russo, ela é mais fiel ao estilo de Dostoiewski, e que as outras, apesar de terem um texto mais elegante, estão marcadas pelas caracterísitcas das traduções francesas. Mesmo assim, estou com a pulga atrás da orelha…Convenhamos, se é para se aventurar por um livro desses, que seja direito… Vocês já leram esta tradução? O Que acham?
    Abs,
    Pedro

  • Sérgio Rodrigues 17/01/2008 at 10:21

    Caro Pedro, não conheço essa tradução. Falando em tese, me parece bem evidente que o fato de ser uma transposição direta e não feita por tabela com o francês não garante por si só um bom resultado. Se a tradução é pedregosa, até que ponto isso é uma característica do original – e a partir de que ponto o original vira só uma desculpa? Tradução é um negócio terrível. Mas seria legal se alguém mais que tomou contato com esse texto se manifestasse.
    Um abraço.

  • Atordoado 17/01/2008 at 13:06

    Todos para o curso de inglês, alemão, italiano, francês, latim – não. Latim não.
    Foi o decreto do fim do Latim que iniciou este problema todo.
    Ler Ulysses traduzido é uma afronta.
    Ler filósofo alemão por tradução é um absurdo.

  • George O. 17/01/2008 at 13:53

    Eu li Crime e Castigo na tradução direta, e outros livros do dostô nas traduções vindas do francês. Achei a leitura de crime e castigo mais mais fluida que a dos Irmãos Karamazov, por exemplo. Porém não percebi nenhuma diferença gritante, do tipo que atrapalhasse a leitura. A tradução de CC é bem nova também, enquanto outras são mais antigas, o que parece criar tempos diferentes de leitura, como se ouvesses sido escritos em épocas diferentes. Porém a qualidade do texto está sempre lá, independente disso.

    Mas é o tipo da coisa que não me incomoda de jeito nenhum. Formas de escrita também entram em desuso, como roupas e design. O que não me impede de ver a beleza de um quadro bom do século passado a a ruindade de um ruim da mesma época.

    Eu tenho um teoria sobre o medo do informal brasileiro: como é uma característica marcante da brasilidade para gringos, essa informalidade, quem quer tender ao culto foge do samba da praia e da linguagem cotidiana como o diabo, pois parece mais highbrow se aproximar da escrita portuguesa. É diferente de casos explícitos, do jeito de falar regional, de guetos ou classes sociais. É uma questão mais sutil.

    Eu acho uma dúvida consistente. O que vale mais, num caso onde a fronteira entre a norma e o cotidiano é tênue.

    Eu acho que a regra mesmo é a eufonia. As vezes ler uma colocação errada tá uma dor no cérebro igual a de ouvir a mesma colocação certinha demais. Vai ver que é pelo meu amor a música, mas prá mim o escrito tem antes de tudo que soar bem. Se o formal pode soar forçado no dia a dia, o mesmo pode acontecer para o informal escrito. Se algumas coisa doem quando faladas, há outras que doem quando escritas.

    Chamem-me dói, apesar de correto. Porém, não fosse a aliteração do me-me, eu preferiria a ênclise, pois na construção com o Ismael como objeto indireto minha primeira impressão foi a de ter lido: me chamAm de Ismael, como se o sujeito se separasse do seu nome, o que é o caso oposto, para mim, da idéia de Call-me Ishmael.

    abraços

  • vinicius jatobá 17/01/2008 at 14:35

    A lista de personagens é fascinante, e crescente: Gaston Gallimard, Bemveja, Atordoado, Tibor Moritz (ninguém vai olhar um bebê e dizer: ele não tem cara de Tibor Moricz?), Paulo (Outro Paulo), tem até um Persa aqui, e um tal de Mr Writer. Essa é a fauna mais rica da internet. Fico imaginando se não há uma mente criativa por trás de tudo isso, maquinando sem parar pseudônimos… Se Sir Saint-Clair existe? Esse existe, saiu diretamente de um romance de ficção científica da Doris Lessing pra cá…

  • Carlos Magno 17/01/2008 at 15:15

    Jatobá:

    Embora não seja brilhante, eu existo de um só cérebro.

    E sou da fauna humana, – uma única individualidade, – sem ser um sátiro.

    Ego Sum Qui Sum!

  • Tibor Moricz 17/01/2008 at 15:34

    O chatobá (Hymenaea courbaril L. Var. stilbocarpa (Hayne) Lee et Lang.; Fabaceae – Caesalpinioideae) é uma fruta originalmente encontrada no Rio de Janeiro, muitas vezes no largo do Machado comendo kafta. É comum, em regiões ribeirinhas, compararem-no a pequenos primatas em seus primeiros dias de vida (olha só, não tem cara do chatobá?).

  • Saint-Clair Stockler 17/01/2008 at 15:35

    Vinícius,

    De todos, sou eu o ÚNICO cuja existência você não pode botar em dúvida. Afinal, como já mencionei alhures, somos praticamente “da família”, já meu namorado, seu primo, também é um Jatobá…

  • Saint-Clair Stockler 17/01/2008 at 15:36

    *já que*

  • Pedro David 17/01/2008 at 17:22

    Obrigado Sergio e George O.
    Vou dar mais um voto de confiança à tradução do Bezerra, e seguir em frente. É que na verdade, o que incomoda muitas vezes não é linguagem, e sim aparentes
    “erros de pensameto.” ( É expressão de algum jornalista antigo, que não lembro bem, pra definir o que não é erro de ortografia, concordância, ou linguagem inadequada…). sabe quando o cara descreve um apartamento, os móveis, os quartos, e em seguida um personagem faz um movimento que não faz sentido naquele ambiente ? Sai de um lugar para outro como se tivesse pulado ? Ou surge aquela dúvida numa frase : será que é isso mesmo, é erro de impressão ou eu que estou com sono ?
    Bom, traduzir é muito dificultoso!

    es “el diablo en la calle en medio del remolino”

    Abraços.

  • Daniel Brazil 17/01/2008 at 18:55

    Aliás, virou um filmaço, pouco lembrado. Além do citado Gregoy Peck, tem ponta genial de Orson Welles e – curiosidade literária – roteiro de Ray Bradbury, junto com o diretor John Houston.

  • Daniel Brazil 17/01/2008 at 18:56

    Gregory Peck

  • Cezar Santos 17/01/2008 at 22:14

    Um início e tanto, é verdade. E o livro é todo muito bom, em que pese umas passagens chatas pra burro. Mas toda a literatura do atormentado Melville é sensacional, principalmente “Bartleby, o escriturário”, uma obra de uma modernidade bestial.
    Noga, vai fundo no Ulisses. A tradução do Houaiss é elogiada por muita gente boa que entende desse riscado, muito embora haja uns chatos que a condenem, principalmente umas viúvas do Francis. O Francis gostava de fazer pouco caso do Houaiss por pura birra (ou inveja mesmo, vai saber).
    A tradução do Houaiss é reconhecida inclusive por especialistas da obra joyceana na europa e considerada uma das melhores versões no mundo. Parabéns por decidir-se a ler esse monumento. Ler esse livro pela primeira vez é um prazer maravilhoso, pode crer.

  • Cezar Santos 17/01/2008 at 22:19

    Sérgio,
    a solução “Me chamem …l” realmente é mais fluida…

  • aiaiai 17/01/2008 at 22:32

    Sérgio,

    Desculpe o fora de assunto, mas sei que vc gosta de analisar como o nosso poder jurídico usa a lingua para manter o status e a informação tá no Biscoito Fino, um blog de respeito:
    http://www.idelberavelar.com/archives/2008/01/a_ultima_do_judiciario_parte_328.php

  • Fabio Negro 18/01/2008 at 05:17

    QUEM LEU O LIVRO E QUER DAR PITACO?

    Como o espaço para comentar aqui é até grande, mas ruim de ler textos grandes, vai o link sobre O Caçador de Pipas.

    http://www.joio.com.br/?q=node/1884

  • Saint-Clair Stockler 18/01/2008 at 17:37

    Estou traduzindo um romance de Ficção Científica de um dos grandes autores franceses do gênero e não pensei duas vezes em escrever frases iniciando assim: “Me disseram” ou “Me deixo…”, por mais que o Word insista em me corrigir. A razão? Como disse o Cezar Santos aí em cima, é mais “fluido”. “Disseram-me” e “Deixou-me” já soam formais demais para os nossos ouvidos, não acham?

  • Tibor Moricz 18/01/2008 at 17:48

    Saint-Clair Stockler estreando como um dos mais brilhantes tradutores de obras de literatura francesas do país. Sorte nossa.

  • Saint-Clair Stockler 18/01/2008 at 17:53

    Tibor,

    Bondade sua. Mas, de fato, se tem duas coisas que faço bem na vida elas são traduzir e trepar. Não necessariamente nessa ordem. Rsrsrsrs.

  • Tibor Moricz 18/01/2008 at 17:59

    Saint,

    Tá tudo certo, tá tudo bonito, todo mundo falando coisas inteligentes, as pessoas interagindo com educação e respeito e aí vem você chutando o pau da barraca. Não tem vergonha na cara, não?

  • Saint-Clair Stockler 18/01/2008 at 18:04

    Rsrsrsrs

    Pô, Tibor, foi só uma piadinha… Fica assim, não. Tá bom, vou corrigir: pode retirar “eu traduzo bem” da listá aí em cima. Rsrsrsrs.

    Ninguém tem paciência comigo… :-(

  • Urubu Faceiro 18/01/2008 at 19:49

    Claro… entre os idiotas o “prazer” está sempre em confronto com a “história”. Todos os textos foram escritos hoje, e todos devem se parecer em sua língua geral jornalístico-coloquial-idiotizada. “Me chamem de Ishmael”… Puffffff……..

  • Sérgio Rodrigues 18/01/2008 at 20:15

    É uma pena que o argumento do anacronismo da próclise – respeitável, como eu deixo claro no post – só tenha sido defendido nesta caixa por um sujeito primitivo como esse Urubu, que parece não saber bem o que diz. Aí, claro, não dá para discutir. Também fiquei esperando alguém observar que as segundas pessoas têm um descompasso insanável entre o inglês e o português brasileiro – a ponto de “Chamai-me” ser ao mesmo tempo uma tradução literal e uma grotesca traição ao espírito do original. Então, só para deixar bem claro: a posição do pronome é negociável; essa segunda pessoa do plural, não.

  • Fabio Negro 19/01/2008 at 01:47

    Sérgio, duvido que vocÊ tenha amoral de descer o pau na tradução de O Apanhador no Campo de Centeio.

    Aquela merda.

    Aposto que cê é amigo dos caras, lá…

  • Sérgio Rodrigues 19/01/2008 at 10:06

    Fabio Negro: lamento recusar tão galante desafio, mas só li o livro no original. Quanto a “os caras lá”, você perdeu a aposta.

  • Mr. WRITER 20/01/2008 at 13:28

    Vinicius,
    Você gosta de Stereophonics? Já ouviu o album Just Enough Education to Perfom? Mais especificamente a terceira faixa?

    Se sim, ótimo, se não corra lá…

    Abraços.

  • Mr. WRITER 20/01/2008 at 13:28

    Vinicius,
    Você gosta de Stereophonics? Já ouviu o album Just Enough Education to Perfom? Mais especificamente a terceira faixa?

    Se sim, ótimo, se não corra lá…

    Abraços.

  • Fabio Negro 21/01/2008 at 09:33

    Mas, Sergio, você poderia ler o livro na tradução brasileira.

    Deve ter sido feita ainda nos anos 50, por um grupo de amigos (não são seus trutas? mesmo?) e aparentemnete a Editora do Autor nem pensar em uma retradução menos brasa, mora?

    Porisso é que esse livro não faz barulho nenhum no Brasil.

  • Atordoado 22/01/2008 at 16:57

    O único problema do “Chamem-me” é na hora de ler em voz alta.
    Moby Dick tem em sua língua uma musicalidade inacreditável que leva até alguns estudiosos a considera-lo como um poema em prosa.
    Traduzir gramaticalmente correto é até fácil. Quanto à musicalidade…

  • Atordoado 22/01/2008 at 17:05

    Call me Ismael.
    I’ll be home by noon.

  • Murilo Gabrielli 22/01/2008 at 18:21

    Sérgio,
    onde trabalho, ainda se fala em colocação pronominal correta (ou norma culta). Pior: ela é praticada e exigida.
    O que deve explicar a certa bronca que guardo dela. Adoraria poder começar frases e textos com pronomes átonos. De minha parte, portanto, não vais escutar nenhuma reclamação, nunca, ao ler um “Me chamem”.

  • Sérgio Rodrigues 22/01/2008 at 18:48

    Caro Murilo, não sei onde você trabalha, mas esse veto é bem disseminado, e a prova da burrice que o sustenta é não levar em conta, justamente, que há diferentes registros escritos. A regra que herdamos da fala lusitana (porque colocação de pronome é antes de mais nada eufonia) vigora em nossa grande imprensa inteira, mesmo em textos “leves” (admite-se exceção para alguns textos autorais, de coluna, mas só se o autor se garantir muuuito). Ainda temos um longo caminho à frente. Um abraço.

  • Pedro Curiango 23/01/2008 at 02:32

    Tenho duas traduções de “Moby-Dick:” uma brasileira, de Berenice Xavier, da José Olympio, em 1950 [“Chamai-me Ismael.”]; e uma dos poetas portugueses Alfredo Margarido e Daniel Gonçalves [“Tratem-me por Ismael”]. Mais do que a brasileira, a tradução portuguesa, pela divergência, parece ter enfrentado o problema que esta frase inicial representa. Mas nem por isso saiu-se melhor. Meu tostão furado de opinião: o problema está realmente na referência bíblica de Melville. Em inglês, a linguagem bíblica [King James], a despeito de tentativas frustradas de modernização, é parte da cultura geral da civilização, o que não se dá em português, principalmente na sua variante brasileira. “Call me Ishmael” não é pedante nem popular – é apenas linguagem usual aceitável em qualquer nível. Ao se tratar de uma referência bíblica, entretanto, a frase subentende certo formalismo, uma certa “roupa-de-ir-à-missa,” lavada e passada, e assim deve ter sido lida por quem leu o romance quando de sua publicação. A considerar também que “Moby-Dick,” embora escrito na primeira pessoa, não dá nenhuma ênfase ao aspecto oral da narrativa. Melville (e Ismael) estão ESCREVENDO e não falando, como se pode ver muito bem até mesmo numa pequena amostragem como a que foi traduzida no blog. Nem sequer sabemos a posição narrativa [a “situação épica”] do narrador. Perdoe-me a discordância, mas creio que uma solução mais formal seria mais apropriada.
    Outro problema: o título deste primeiro capítulo é “Loomings,” que, em inglês, segundo os dicionários, pode ser uma de duas coisas: o reflexo especular do mar ou a visão distante que o marinheiro tem da terra ou de outro barco. O substantivo raramente é dicionarizado em inglês, embora a forma verbal (”loom”) seja moeda corrente com seu significado de algo que ameaça ocorrer. Tanto a tradução portuguesa (“Miragens”), como a brasileira (“Miragem”) parecem-me (perdoe a próclise!) falsificar o sentido original. Alguém teria uma sugestão?

  • Rafael 23/01/2008 at 10:56

    Pedro,

    Mas que excelente lembrança! Moby Dick é um livro cheio de alegorias, a começar pela baleia branca, um metáfora de Deus, do terrível Deus do Velho Testamento. Herman Melville pôs em sua obra-prima incontáveis reminescências bíblicas; o tom do texto, para quem ler o original, soa parecido com o da King James’ Bible, talvez o texto mais poderoso da prosa inglesa.

    A prosa de Herman Melville, esse verdadeiro artista da palavra, é fluida, sonora e, por isso, passa a impressão de ser coloquial. Mas é erro crasso vertê-la com base na fala popular, pois foi composta numa tonalidade solene, altissonante, com indisfarçável emulação da retórica do Velho Testamento. Não que a liguagem popular esteja ausente; ela, em realidade, mistura-se admiravelmente com a eloqüência dos profetas antigos.

    A questão não é de purismo gramatical, mas de locução. Esvaziar o livro das suas ressonâncias bíblicas é trair as intenções do autor.

    Loomings: desconheço um vocábulo em língua portuguesa que seja uma tradução exata dessa palavra inglesa. “Miragens” é uma opção honesta; em minha opinião, no entanto, algo se perde com essa escolha dos tradutores. Eu, que não sou tradutor, usaria de certa liberdade poética e daria ao capítulo inicial o seguinte título: “Prognóticos”.

  • Carlos Magno 23/01/2008 at 12:32

    Lendo tantos comentários técnicos sobre colocações de pronomes, fluência do texto, eufonia, etc., confesso meu completo espanto ao preciosismo.

    Perdoem à ignorância: mas ao espírito da obra, à imaginação do autor, aos argumentos, o que sobraria? Quantos por cento valeriam do total forma x conteúdo? Seria a intenção de se dizer “um animal cordado aquático” ao invés de “um peixe”, a colocação proposital mais apreciada e infinitamente mais desejável para se discutir literatura?

    Imagino o Esperanto, com tão poucas regras gramaticais e restrito vocabulário, vindo realmente se tornar a língua universal (espero que não, prefiro ainda o inglês) conforme afirmam os espíritas, onde iriam parar os exigentes analistas?

    No meu tempo escolar as análises gramaticais, léxicas e literárias dos professores eram detestadas pela quase totalidade dos estudantes. Passava por nossas cabeças quão difícil seria um dia escrever bem ou entender literatura. Acho que esses exageros movidos pelo excessivo purismo dos amantes dos textos quase perfeitos, contribuíram e continuam a contribuir para criar grandes entraves e barreiras psicológicas ao despertar do gosto pela leitura.

    E isso explica porque os catedráticos vivem lá nas cadeiras dos imortais, às nuvens, embalados pelos sonhos dos perfeitos, endeusando-se uns aos outros até que a esclerose não os suportando mais, passe mensagem obituária ao nobre órgão vital pulsante a fim de que, um a um e de tempos em tempos, sejam levados para sempre, – conforme previsões oníricas, – aos diáfanos mundos dos raríssimos eleitos, onde se assentarão pela eternidade em trono dourado e onde reencontrarão os antigos cheirando à naftalina.

    Enquanto isso aqui na Terra, pau nos jovens que não querem ler e só pensam em bailes funks, cerveja, carnaval e futebol e outras coisas mais!

  • Sérgio Rodrigues 23/01/2008 at 12:54

    Curiango, seja bem-vindo de volta e obrigado pelo lúcido comentário. Sim, as referências bíblicas do texto já foram muito ressaltadas – ressaltadas demais, a meu ver, a ponto de obscurecer o humor, a ironia e a profunda legibilidade de Melville, que tempera um certo tom ironicamente grandiloqüente, sim, com doses fartas (para a época) de informalidade – escrita, não oral, obviamente. Mas você parece concordar comigo quanto à profundíssima inadequação de “Chamai-me Ismael”, não? (Erro crasso para mim é isso, Rafael, pelas razões já expostas de descompasso entre a segunda pessoa do inglês e a do português, especialmente o brasileiro; o resto é looming.) Se concorda, estou pronto a reconhecer que minha provocação proclítica (atenção, a próclise é a anteposição do pronome ao verbo, e não o contrário) é apenas isso, uma provocação. Aliás, esse “Tratem-me por Ismael” dos portugas, que eu não conhecia, não me parece nada ruim diante das difíceis circunstâncias. Um abraço.

  • Murilo Gabrielli 23/01/2008 at 13:22

    Sergio,
    vc reclama de boca cheia. Se bem me recordo de minha longínqua encarnação jornalística, o tabu da próclise na imprensa se restringe ao começo da frase. No restante da oração podíamos, pimpões, dar vazão a nossas inclinações proclíticas. Nas praias que hoje freqüento, a norma culta é a norma em tempo integral. Até uma mesóclise rola vez por outra.
    Quanto a loom: muito embora miragem seja uma tradução honesta, não traduz o que de nagativo a expressão costuma conter (o que é o caso em Moby Dick). Talvez agouro funcionasse, embora seja muito menos literal.

  • Sérgio Rodrigues 23/01/2008 at 13:38

    Que praia seria essa, Murilo? Direito? Fiquei curioso.

    Quanto ao ótimo desafio de loomings, talvez “espectros” se aproxime de dar conta dos vários lados do original.

  • Murilo Gabrielli 23/01/2008 at 15:11

    Itamaraty.

  • Sérgio Rodrigues 23/01/2008 at 17:51

    Ah, tá certo.

  • Pedro Curiango 24/01/2008 at 01:01

    Sérgio: costumo escrever tarde da noite e alguns espectros mesoclíticos às vezes aparecem para empurrar a gente de ênclises para próclises… Gostei de “espectros” para “loomings” – creio que é bem melhor que “miragem.” A sugestão do Rafael, “Prognósticos,” é também melhor, embora, para mim, pareça ter um sentido mais claro e objetivo, que não parece ter sido a intenção do texto de Melville.

  • denise bottmann 02/02/2008 at 21:03

    muito interessantes os comentários. em tempo, do moby dick conheço só a tradução do péricles eugênio da silva ramos – ele tb consegue manter o tremendo humor do melville, a par de toda a vertente tipicamente americana do protestantismo dissenter. realmente divertido :)

  • denise bottmann 02/02/2008 at 21:05

    p.s. pena que não somos alemães – já pensou que lindo traduzir looming por fatamorgana, p.ex.?

  • sergei chiodi 10/02/2008 at 04:56

    Bacana a discussão. Gostei muito do comentário do Rafael.

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