Começos inesquecíveis: Mario Filho

08/03/2009

Há quem ache que o futebol do passado é que era bom. De quando em quando a gente esbarra com um saudosista. Todos brancos, nenhum preto. Foi uma coisa que me intrigou a princípio. Por que o saudosista era sempre branco? O saudosista sempre branco, nunca preto, dava para desconfiar. E depois, a época de ouro, escolhida pelo saudosista, era uma época que se podia chamar de branca. Os jogadores claros, bem brancos, havia até louros nos times, ia-se ver: inglês ou alemão. Poucos morenos. Os mulatos e os pretos, uma raridade, um aqui, outro ali, perdiam-se, nem chamavam atenção.

A prosa hipnoticamente despojada de Mario Filho, talvez o encontro mais feliz entre tom coloquial e expressão artística de toda a literatura brasileira, diz a que veio já nas primeiras linhas de “O negro no futebol brasileiro” (Mauad/Faperj, 4ª. edição, 2003), a épica reportagem-tese do homem que batizou o Maracanã. Ah, mas se o livro lançado em 1947 (e revisto e ampliado em 1964) pelo irmão menos famoso de Nelson Rodrigues não é um romance, o que está fazendo aqui? Hmmm. E quem disse que não é um romance? “O negro no futebol brasileiro” pode – e, acredito, deve – ser lido como o grande romance sobre o esporte preferido dos brasileiros, aquilo que críticos e repórteres desinformados vivem cobrando de escritores muito menos íntimos da cheia-de-gomos.

P.S. inteiramente off topic: Hoje à noite, às 23h, no GNT, vou estar na bancada do Manhattan Connection falando do meu novo livro, o romance histórico “Elza, a garota” (Nova Fronteira), que chega às livrarias esta semana.

15 Comments

  • Noga Lubicz Sklar 08/03/2009 at 12:16

    rsrs, gostei de tudo, do encontro feliz, dos críticos desinformados e de, last but not least, do advento de “Elza, a garota”, saudosismos literários fora.

  • Cezar Santos 08/03/2009 at 14:53

    Delicia a prosa do Mário.
    Mas dizer que pode ser lido como “romance” é forçação, Sérgio… Se lermos como “romance” o texto ganhará ume estatuto literário maior?
    Acho que não..ou estou errado?
    Podemos, então, ler como “poesia”?
    Ou “ensaio”?
    Ou “tese”?
    Melhor é ler como crônica mesmo, aceitando as limitações e as grandezas do gênero, usufruindo a beleza estilística do autor.

    PS.: Estarei diante da telinha hoje para ver o MC. E aguardo com certa ansiedade que chegue na minha cidade o Elza.

  • Sérgio Rodrigues 08/03/2009 at 15:48

    Cezar, este livro para mim é um romance mesmo, sempre foi. Trata-se de um amplo painel histórico em que a fabulação ficcional só entra marginalmente, mas tem uma volúpia de narrar que é definitivamente romanesca, e alguns temas dominantes que são sempre retomados e expandidos, formando uma unidade maior. Crônica não é de jeito nenhum, o fôlego épico não deixa. Tecnicamente, seria uma reportagem muito extensa, com tintas fortes de ensaio (jornalístico). Há quem tente lê-lo na universidade como tese sociológica. Mas ainda prefiro o romance.

    De resto, obrigado (e à Noga) pelo interesse pelo Elza. Este é o momento do frio na barriga. Em poucos dias o livro estará nas prateleiras, a sorte está lançada.

  • Bruno M. Oliveira 08/03/2009 at 17:10

    Acho interessante o fato de o Sérgio muitas vezes encarar obras de não-ficção como romance. Isso, a meu ver, reforça a tese de que, mais importante do que o “rótulo” que o autor dá a seu livro, é o olhar do leitor sobre ele.

    Abraço. E boa sorte com o livro novo.

  • O iluminador 08/03/2009 at 19:07

    Parabéns, Sérgio. Assistirei.

  • Claudio Soares 09/03/2009 at 10:48

    Lembro aqui, ainda no tema, o belo livro do jornalista Claudio Nogueira “Futebol Brasil Memória – De Oscar Cox a Leônidas da Silva (1897-1937)”, de 2006.

    Sérgio, parabéns pelo lançamento e ótima sorte ao “Elza”.

  • Mr. WRITER 09/03/2009 at 16:30

    Legal.
    E olha que nem gosto de futebol.

    Mas o que mais me intriga nessa história é o uso das palavras negro, mulato, preto e branco…

    Será que a patrulha nojeta do politicamente correto não viu isso? É de admirar que não tenham implicado com esse livro e com este post Sérgio.

    Não conheço a tragetória do livro por isso pergunto: Sérgio, ninguém implicou com essas palavras? Nenhuma acusação de racismo contra o livro e contra o autor?

    Sabe como é, hoje em dia não se pode falar dessas coisas. Desses assuntos. É “errado”, como dizem uns.

    P.S.: Parabéns pelo livro Sérgio.

  • JH 09/03/2009 at 18:41

    “…irmão menos famoso de Nelson Rodrigues”? Não creio. Poderia esclarecer? Que outro mais “famoso”? Roberto? Morreu muito jovem e, talvez por isso mesmo, não deixou uma obra comparável à do MF e tampouco teve mais visibilidade. Lembrando que o MF fez muito mais do que escrever bons livros.

  • Sérgio Rodrigues 09/03/2009 at 19:47

    JH: irmão menos famoso de Nelson Rodrigues = menos famoso que Nelson Rodrigues.

  • Felipe 09/03/2009 at 20:12

    Boa sorte com o livro, apesar dele já estar fazendo com os reaça do país (só ver o enorme e gentil espaço que o site dos patetas militares lhe deram no site da “verdade(sic) sufocada”).

    De resto, parabéns pela iniciativa de fazer um romance histórico.

  • Felipe 09/03/2009 at 20:13

    fazendo sucesso*

    (sempre escrevo rápido demais e não lembro de revisar antes de mandar)

  • Sérgio Rodrigues 09/03/2009 at 21:15

    Felipe, obrigado. Quanto aos “reaças”, não posso controlar o que gente imbecil ou previamente comprometida pensa do livro (sem lê-lo, certamente). Leia-o, é só o que posso recomendar.

  • JH 09/03/2009 at 22:45

    OK. Grato por esclarecer. Agora, ficou claro. Pra mim.

  • Marcos Alexandre 10/03/2009 at 07:50

    Oi Sérgio, eu sou o criador do fã-clube do Manhattan Connection, que tem também um blog com comentários sobre cada edição semanal do programa. No post desta semana comentei a sua participação e coloquei um link para o seu blog também. Dê uma olhada em http://blogmanhattan.wordpress.com/

    :-)

    Marcos Alexandre

  • Interessante 10/03/2009 at 10:23

    No Blog do Gerald Thomas

    Por: O Vampiro de Curitiba

    “Para desgarrar muitos do rebanho, foi para isso que vim.”

    (F. Nietzsche: Assim falou Zaratustra)

    Orgulho-me de alguns textos que escrevi. Orgulho-me, também, daqueles que deixei de escrever. Principalmente se esse deixar de escrever significa não seguir o rebanho. Falo do caso do Bispo que excomungou uma menina que havia sido estuprada pelo padastro? Também.

    Não escrevi sobre esse drama porque o assunto é de tamanha miséria humana que não me senti confortável em comentá-lo. Em respeito mesmo à familia. Sinto orgulho em não ter feito parte da manada que se aproveitou de uma catástrofe familiar para pregar o ódio e a intolerância, o preconceito e a ignorância. O caso, como vocês estão cansados de saber, começou quando uma mãe de duas meninas levou para morar na sua casa um maníaco. Enquanto ela assistia a novela das sete o maníaco violentava suas filhas. Engravidou uma de 9 anos de idade, que era violentada desde os seis. Levada aos médicos por sentir dores, a menina foi submetida a um aborto. A Igreja Católica, que defende a vida e considera o aborto um assassinato, excomungou todos aqueles que participaram do ato. O estuprador foi preso. Pois bem. O rebanho se indignou com o estuprador? Com a mãe que era conivente com tanta crueldade praticada contra suas próprias filhas? Não, a mãe amante do maníaco é mulher, é pobre… Está mais para vítima que para algoz. Não faz parte do ideário “progressista” se indignar contra uma verdadeira “oprimida”. O alvo da ira santa da manada foi o Bispo que comunicou a tal excomunhão.

    Olhem aqui: não sou católico, não sou cristão, não creio em deuses. Seria muito cômodo para mim me aproveitar dessa tragédia e descer o sarrafo na Igreja, como todos fizeram. Conseguiria uns 15minutos de fama e algumas centenas de comentários. Mas sejamos sinceros: O único que agiu com coerência nessa triste história foi o Bispo. Ele foi coerente com sua Igreja. Tanto é que o Vaticano saiu em sua defesa. Aliás, o que faltou a essa familia foram justamente certos valores pregados, inclusive, pelo catolicismo. Afinal, se a mãe não houvesse se divorciado do pai de suas filhas, nada disso teria acontecido, não é mesmo?

    Então por que tanto ódio ao tal do Bispo? Porque o rebanho não suporta ver pessoas fiéis a seus princípios quando este mesmo rebanho vive do relativismo moral, da hipocrisia, da auto-ilusão. Esse Bispo é a antítese dos progressistas que têm seus valores relativizados sempre conforme às circunstâncias. Para eles, a corrupção é algo pernicioso quando praticada pelos inimigos. No entanto, quando um deles é pego assaltando cofres públicos, inventam mil e uma razões para justificar a atitude do companheiro. Lembram do Collor? Não era o demônio em pessoa? Agora é um fiel senador da base aliada. Será o fiscal do PAC. O fiscal da Dilma. Chegou a tão cobiçado cargo pelas mãos de Renan Calheiros. Renan só não foi cassado porque o PT o protegeu. Collor e Renan serão eternamente gratos ao PT.

    Da mesma forma, acordos internacionais serão cumpridos. Desde que sejam benéficos aos nossos interesses, óbvio. No caso David Goldmam (ver post abaixo), por exemplo, exigimos que se cumpram os acordos da Convenção de Haia, mas quando outros países exigem o cumprimento, inventamos mil e uma hipóteses para fugirmos de nossas responsabilidades.

    O mesmo rebanho oficial que se apressou em comparar o povo suíço a corvos, quando do caso da brasileira que teria sido agredida por racistas; o mesmo rebanho que quis excomungar o Bispo, como se o Bispo tivesse inventado algo terrível; o mesmo rebanho que demonizou Collor e agora o tem como aliado; esse mesmo rebanho está agora santificando um homem: Protógenes Queiroz. Protógenes, dizem, está lançando sua biografia: “Protógenes, a lenda.” O Governo Lula tirou Protógenes da Operação Satiagraha. O Governo Lula afastou o padrinho de Protógenes, delegado Paulo Lacerda, da Abin. O Governo Lula está investigando Protógenes. A Polícia Federal divulgou documentos onde mostra claramente que Protógenes agiu fora da lei, investigando, por conta própria, desde o filho do presidente Lula até Zé Dirceu, passando pela ministra Dilma. Protógenes, no entanto, virou herói nacional do rebanho. Para a manada quem praticou o crime não foi nem o Governo Lula, nem Protógenes Queiroz, foi… a Revista Veja! Por ter publicado os documentos da PF (que não estão sob segredo de Justiça).

    O fato é que eles criaram um mito. Um santo que iria prender toda a “burguesia”. Iria limpar o Brasil dos corruptos. Na confusão mental em que vivem, não são capazes de verificar que se o delegado Protógenes estiver certo, quem está errado é o Governo Lula, governo que eles defendem. Não são capazes de perceber que, mais uma vez, foram traídos por aquele que tinham como Salvador.

    “Aquele a quem chamam Redentor impôs-lhes grilhões…”( Nietzsche, Assim falou Zaratustra”)

    O Vampiro de Curitiba

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