Começos inesquecíveis: Miguel de Cervantes

12/04/2009

Desocupado leitor: sem juramento meu embora, poderás acreditar que eu gostaria que este livro, como filho da razão, fosse o mais formoso, o mais primoroso e o mais judicioso e agudo que se pudesse imaginar. Mas não pude eu contravir a ordem da natureza, que nela cada coisa engendra seu semelhante. E, assim, o que poderá engendrar o estéril e mal cultivado engenho meu, senão a história de um filho seco, murcho, antojadiço e cheio de pensamentos díspares e nunca imaginados por ninguém mais, exatamente como quem foi engendrado num cárcere, onde toda a incomodidade tem assento e onde todo o triste barulho faz sua habitação?

Assim começa o romance “O engenhoso fidalgo D. Quixote de la Mancha”, ou simplesmente “D. Quixote”, lançado em duas partes, a primeira delas em 1605, pelo espanhol Miguel de Cervantes (Record, 2005, tradução de Carlos Nougué e José Luis Sánchez). Assim começa o romance.

12 Comments

  • Carlos Augusto Dutra Rodrigues 12/04/2009 at 13:18

    Há uns dois anos atrás descobri num sebo lá em São João del
    Rei, o livro Dom Quixote editado pela Abril Cultural em sua coleção Clássicos da Literatura Juvenil (1972) – época que ainda nos encontrávamos, com frequência, na inesquecível rua Itamury.
    Trouxe o livro, feliz da vida pelas lembranças que evocava e talvez por poder contá-las pra moçada, aqui em casa.
    A turma adorou! E acabei por ler o livro, outra vez. Porém me veio a vontade de ler o Dom Quixote pra ‘gente grande’ mas que tivesse o tempero da época em que foi escrito.
    Por isso, seu todoprosa, com estes ‘começos inesquecíveis’
    agradeço-lhe a dica.

    Aquele abraço!

  • Carlos Mello 12/04/2009 at 18:03

    Pena que o Carlos Dutra não tenha percebido – ou tenha esquecido de comentar – que essa edição da Abril é cheia de erros e empastelamentos, um verdadeitro crime contra tamanha obra-prima.

  • Raphael 12/04/2009 at 19:02

    A visão que fica deste livro é que o verdadeiro herói, Sancho Pança, acompanha o seu chefe sonhador apesar de ter a consciência da loucura da empreitada. Um exemplo de servidão consciente. Verdadeiro herói, Sancho Pança.

  • Pedro Curiango 12/04/2009 at 19:27

    Segundo lugar só para Cervantes, em língua espanhola, no número de leitores que teve, morreu na semana passada na Espanha a escritora Corin Tellado, aos 81 anos. Ela escreveu e publicou mais de 4 mil volumes de ficção e dois dias antes de morrer terminou seu último livro..

  • Harpia 13/04/2009 at 01:26

    Pedro Curiango,

    É isto mesmo? 4 mil livros? em 80 anos de vida dá uma média de cinquenta livros por ano, ou um livro a cada 7,3 dias desde o berço até o túmulo.

    Não deixa de ser um feito.

  • isaac 13/04/2009 at 03:51

    rapaz, essa mulher que o pedro citou nem viveu!!
    só fez escrever e escrever escrever e escrever e escrever…
    deve estar escrevendo até dentro do caixão. uma brás cubas fêmea.
    prefiro o cervantes.

  • Rafael 13/04/2009 at 09:54

    Quase-xará,

    Esta imagem do Sancho Pança, do homem simplório que enxerga a realidade tal como ela é, um contraponto ao idealista cego que é o D. Quixote, deriva dos primeiros episódios do livro, em especial, da célebre aventura dos Moinhos de Vento. Mas ao longo da história, esta imagem vai se nuançando até se borrar completamente: na Segunda Parte do livro, no episódio do Clavilenho, é Sancho quem se entrega às ilusões, mais até do que seu próprio amo, que chega a dizer: “o Sancho miente o Sancho sueña”.

    Depois, não creio que a imagem da servidão voluntária seja adequada: Sancho, desde o início, segue D. Quixote por interesse, pois ele realmente acredita que, mais dia menos dia, receberá por paga uma ilha para governar, e é movido por esta ilusão (palavra inevitável) que se torna o mais célebre escudeiro da literatura.

    Só espero que ninguém aqui diga que Cervantes prefigurou a internet ou o hipertexto.

    Vale

  • Xxnsky 13/04/2009 at 14:31

    Ei, não querendo ser muito chato, mas sendo, eu usaria “Assim começa o romance” para o início do Conto de Genji da Murasaki Shikibu.
    Talvez o fabuloso início de Quixote sirva para “Assim começa o romance moderno” ou “Assim começa o romance no ocidente”, sei lá…

  • Sérgio Rodrigues 13/04/2009 at 16:19

    Xxnsky, sei que os tempos PC gostam muito dessa teoria do Conto de Genji, mas, na mesma linha, por que não O asno de ouro de Apuleio? Prefiro ficar com o Quixote, mesmo porque considero “romance moderno” um pleonasmo. Um abraço.

  • Rafael 13/04/2009 at 17:08

    É isso aí, Sérgio:

    Multiculturalismo sucks!

  • lucifer 15/04/2009 at 18:52

    O estilo medieval ,da introdução,lembrou-me alguns profissionais das letras, de textos rasos,que frequentam habitualmente as páginas dos periódicos. Tratam dos comezinhos eventos rotineiros,abordam com gongorismo assuntos pertinente à república, referem -se as autoridades jocosamente,fazem da gravidade da hora,irreverência. “En un lugar de la Mancha,de cuyo nombre noquiero acordarme…” Os amanuenses,são de memória seletiva,lembram o que lhes convém ou o que melhor lhes paga.

  • adelson 16/04/2009 at 11:26

    Esse é o cara: o maior de todos, o melhor de todos.

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