Começos inesquecíveis: Rodrigo Fresán

09/04/2008

kensington.JPGComeça com uma criança que nunca foi adulta e acaba com um adulto que nunca foi criança.

Algo parecido.

Ou melhor: começa com um suicídio adulto e uma morte infantil e acaba com uma morte infantil e um suicídio adulto.

Ou com várias mortes e vários suicídios em idades variáveis.

Não tenho certeza. Não tem importância.

Como se sabe – se desculpa e se perdoa –, os números, os nomes, os rostos costumam ser os primeiros a se atirar do navio ou a saltar da plataforma durante o naufrágio dessa memória sempre a ponto de ser aniquilada sobre os trilhos do passado.

Uma coisa está clara: no fim do começo, no começo do fim, Peter Pan morre.

Assim começa o romance “Jardins de Kensington” (Conrad, 2007, tradução de Sérgio Molina), do escritor argentino – radicado na Espanha – Rodrigo Fresán. O narrador é um escritor fictício, Peter Hook, mistura de herói e vilão a partir do nome em que se fundem Peter Pan e o Capitão Gancho. Hook, uma cria dos anos 60, alimenta uma obsessão por J.M. Barrie, autor da famosa fantasia vitoriana, e despeja seu drama sobre um ouvinte menino em condições peculiares. A história intrincada e maluquete construída a partir daí, sobre o tema da infância, deve ser desvendada aos poucos pelo leitor ao longo do tijolo de mais de 500 páginas. Tempo não deve faltar: Fresán adora um circunlóquio, mas, depois desse início, abandonar a leitura quem há de? Adendo às 11h49: muitos hão de, se forem representativos os primeiros comentários aqui embaixo.

27 Comments

  • Milton Ribeiro 09/04/2008 at 10:30

    Eu haverei de. Achei um início rotineiro. O livro voltaria à estante imediatamente.

  • joao gomes 09/04/2008 at 11:21

    Assim não dá.
    Não passaria da terceira linha.

  • Sérgio Rodrigues 09/04/2008 at 11:39

    Caramba. Como o mundo, mesmo o pequeno mundo dos leitores, é vário. É uma pena, acreditem, desistir tão depressa. O livro de Fresán, que ainda não terminei, é estranho e bom, com uma ousadia de concepção que lhe compensa as não poucas falhas. Tenho vontade de dizer que é bem melhor que enorme maioria dos nossos, mas esse papo de que faz tempo que apanhamos da Argentina na literatura já cansou. O livro tem um excesso, uma prosa enamorada de si mesmo que incomoda. Esse pecado é geralmente atribuído – sem razão, a meu ver – a um amigo de Fresán que ele, naturalmente, faz questão de recitar, o Bolãno. Bom, méritos do livro à parte, acho o começo razoavelmente climático e bastante instigante na sua promessa de mortes aos magotes, com a lenda de Pan incluída. Enfim, mundo vário.

  • Rafael 09/04/2008 at 11:42

    Mais um pobre literato acometido pela maldição de Sterne. Que os deuses imortais tenham piedade de sua alma…

  • Isabel Pinheiro 09/04/2008 at 13:23

    Adorei. Já me pegou pelos quatro primeiros parágrafos. Gosto demais desse tipo de narrativa instigante e aparentemente sem senso, mas nitidamente inteligente. Por fim, tenho uma queda pelo tema do suicídio.

    Hoje, porém, com o tempo cada vez mais escasso para tanta coisa, a leitura entre elas, livros grandes me causam ataques de ansiedade. Diante de volumes com 400, 500 páginas, o desespero da falta de tempo aumenta e parece que o prazer da leitura diminui. Ler com prazer, acabar a história rápido? Bem, vou tentar o Fresán pra ver no que dá.

    PS: Sérgio, vc me estimulou a retomar o blog. Tem um Zuenir e um Vila-Matas lá. Abs

  • Sérgio Rodrigues 09/04/2008 at 15:04

    Isabel, entendo a ansiedade, mas tento relativizá-la. Tem muitas 50 páginas por aí que são uma perda de tempo dez vezes maior do que certas 500. Gostei muito de saber da sua reconciliação com o blog, assim que tiver um tempinho vou lá ver. Abraços.

  • Mr. WRITER 09/04/2008 at 15:08

    Pegou, já dei um ctrl+c seguido de um ctrl+v para uma página do word a ser consultada em breve.

    Assim como a Isabel Pinheiro, me interesso pelo tem ado suicídio.

    Mais uma vez agradeço a dica Sérgio.

    Abraços.

  • Felipe 09/04/2008 at 16:30

    Também não gostei não. Mas quem sabe o que vem depois? Sou mais o Quincas Berro Dágua, do Jorge Amado, de que li aqui o começo inesquecível, um tempo atrás, e agora sorvi inteiro numa sentada, na reedição da Cia. das Letras.

  • xerxenesky 09/04/2008 at 18:03

    Do Fresán li dois livros: Esperanto e Mantra. O sgeundo tinha tudo para ser ótimo, uma ficção-científica ambientada no D.F. mexicano, fruto de uma espécie de “Amores Expressos” hispanohablante. O livro, entretanto, é uma grande bagunça indigerível.
    Já Esperanto é um livro bacana. Adolescente, amador em alguns aspectos, mas muito bacana.

  • Tibor Moricz 09/04/2008 at 19:04

    Vou fazer coro aos demais. Achei o começo xexelento. Mas isso não garante a xexelentisse do resto. E, ah, não tenho nenhuma atração pelo tema “suicídio”. Já por Peter Pan, sim.

  • Renato 09/04/2008 at 23:01

    Pareceu fraco, muito fraco. O começo é Melville puro: “Call me Ishmael. Some years ago – never mind how long precisely…”. No texto do Frésan: “não tenho certeza, não tem importância… no começo do fim, no fim do começo”. Uma pena, mas á inspiração, óbvia, incomoda.

    Além do mais, o sexto parágrado (“Como se sabe – se desculpa e se perdoa –, os números, os nomes, os rostos costumam ser os primeiros a se atirar do navio ou a saltar da plataforma durante o naufrágio dessa memória sempre a ponto de ser aniquilada sobre os trilhos do passado.”) é de uma pobreza atroz. Se o resto do livro é ainda pior…. putz melhor correr.

  • Sérgio Rodrigues 10/04/2008 at 10:43

    Renato, está certo que o mundo é vário, mas tem limite. Ver Melville nesse início do Fresán só pode ser brincadeira.

  • Felipe 10/04/2008 at 18:03

    Também não “vi” Melville. Aliás, o Sérgio postou um texto, tempo atrás, sobre a tradução da primeira frase do Moby Dick. Muito bom. :)

  • Saint-Clair Stockler 11/04/2008 at 11:31

    Estou há tempos LOUCO pra ler esse livro! Mas agora é que não dá: acabo de gastar meus últimos centavos comprando o Putas assassinas do Roberto Bolãno, o Kafka à beira-mar do Haruki Murakami e o A República 3000 do Menotti del Picchia…

    Alguém aí quer fazer um programinha? É baratinho… Aceito pagamento em livros. Rsrsrsrs.

  • Saint-Clair Stockler 11/04/2008 at 11:32

    Tibor,

    Deixa de ser mentiroso. Tem vergonha não, Pinóquio? Seu interesse não é no Peter Pan. É na Wendy ou na Sininho. Pensa que não sei? rsrsrsrs.

  • discordante 11/04/2008 at 13:52

    Apesar do parágrafo que começa com: “Como se sabe…”. O resto do começo é interessante. Não me parece essa desgraça toda que a maioria aqui está achando. Embora eu não me interesse nem por suicídio nem por Peter Pan, se calhar eu acabo lendo o resto do livro para ter uma opinião mais fundamentada.

  • Saint-Clair Stockler 11/04/2008 at 16:36

    Jogando a merda no ventilador:

    O problema é que todo mundo aqui é especialista em literatura e todo mundo faria uma obra muito, muitíssimo melhor que a desse merdinha argentino que se meteu a dizer que é escritor só porque escreveu um livro.

    É ou não é, pessoal?

  • Cezar Santos 11/04/2008 at 17:29

    Sérgio,
    Tu foi autopreventivo ao dizer que tá cansado do papo da surra dos argentinos nos brazucas, né?
    Tá certo, eu sei que chateia e incomoda.
    A verdade às vezes dói.

  • Saint-Clair Stockler 11/04/2008 at 18:29

    Cezar:

    Que indelicadeza. O Sérgio Rodrigues não é, absolutamente, um mau escritor. O homem que matou o escritor é, na verdade, muito bom. Sobre o Flowerville, nada posso dizer. Continuo esperando que o Extra, a Sendas ou as Lojas Americanas o recebam a R$9,90. Deus há de, um dia. É só a gente ter paciência.

    A não ser que você estivesse dizendo que ele foi “autopreservativo” preservando os escritores brasileiros e não a si próprio. Nesse caso, você tem inteira razão. Atualmente não há mais do que seis grandes escritores brasileiros escrevendo e publicando. Para um país do tamanho do Brasil, é um tanto quanto… como é mesmo a palavra?… vergonhoso.

  • Cezar Santos 11/04/2008 at 18:59

    Saint-Clair velho de guerra…
    Como está esta força?
    Olha, eu não falei que o Sérgio é mau escritor, falei?
    Eu também gosto do “Homem que matou…”, embora não incondicionalmente, aliás, minha natureza praticamente me impossibilita gostar incondicionalmente de alguma obra literária contemporânea.
    Acho que vale muito a pena ler o livro do Sérgio e meu exemplar talvez ganhe uma releitura em breve. Quanto ao “Flowerville”, eu também não o li, mas tá na pauta, porque sei de antemão que poderei até não gostar, mas com certeza verei ali habilidade literária e honestidade intelectual.
    E já manifestei mais de uma vez apreço por escritos do Sérgio aqui, tecendo elogios.
    Portanto, caro Saint-Clair, acho que não houve indelicadeza de minha parte para com o nosso anfitrião.
    Agora, meu comentário teve um venenozinho mesmo, porque acho que o Sérgio deixou trair um certo corporativismo com os escritores brasileiros sim, embora eu não descarte a possibilidade de estar errado — quase sempre eu estou errado nessas coisas.
    Ademais, leio razoavelmente a literatura que se faz no Brasil atualmente e bem menos, lógico, a que se faz na Argentina. E posso dizer sem pejo que no, geral, os hermanos estão com a bola mais cheia mesmo. Questão de gosto e como dizem por ai, gosto e…, cada um tem o seu.

  • tibor moricz 11/04/2008 at 20:05

    Ah, Saint-Clair… francamente, até você faria um começo melhor que esse.

  • Rafael Trindade 12/04/2008 at 21:56

    Nós aqui também somos obcecados com a vida de Barrie. Há boatos fabulosos (como a de que era nanico por razões *psicológicas*). Peter Pan é um livro inacreditavelmente bom.

    Gosto tanto que me altero, nem consigo comentar decentemente. :)

  • Elcaballero 16/04/2008 at 14:27

    O Sérgio comentou sobre a rivalidade Brasil-Argentina até na Literatura, e aproveito pra fazer uma pergunta fora do tópico: Porque no Brasil se lê pouco Cortázar, e ainda, porque se recomenda menos ainda… Todos os Fogos o Fogo está substituindo os Doze Contos Pelegrinos na minha cabeceira…

  • Sérgio Rodrigues 16/04/2008 at 15:38

    Elcaballero: não sei se Cortázar é pouco lido no Brasil, espero que não. O que ocorre é que, nos movimentos cíclicos das bolsas de valores literários, ele parece estar meio em baixa nos últimos anos – pelo menos entre o pessoal mais posudo, mais metido a leitor profissional. Mas essas coisas passam. Cortázar é um monstro de um escritor. Curioso você citar ‘Todos os fogos o fogo’, que sempre foi um dos meus preferidos. Um abraço.

  • Elcaballero 17/04/2008 at 08:24

    Valeu Sérgio… ‘Todos os Fogos o Fogo’ é o primeiro livro dele que estou lendo, e espero ler mais coisas dele. Parece-me que ele fica na sombra dos seus contemporâneos da América dos Sul, ou mais exatamente da Argentina mesmo, mas como ‘leitor amador’, recomendo a todos….

  • Sergio Molina 27/04/2008 at 12:59

    Salve, galera!
    Aqui quem tecla é o escriba a quem coube verter o tal tijolo em pauta.
    Como brasilo-argentino, ou argento-brasileiro, não meto a colher no campo minado das rivalidades transplatinas. Mas dou meu depoimento pessoal sobre o tal começo: eu também demorei um pouco a entrar no clima, tanto na primeira leitura quanto na tradução propriamente dita. Mas acho que o que vem depois, como o próprio agitador deste espaço já disse, vale o esforço de atravessar a zona de arrebentação. Que mais tarde, vista do alto-mar, fica muuuuito interessante.
    E se me permitem a indicação: *La velocidad de las cosas* é O livro do Fresán. (Como o próprio reconhece, diga-se de passagem.) Tem muito desse enamoramento pela própria estrutura do texto, sim, mas é um “borgismo” assumido com uma auto-ironia tão inteligente que faz a gente entregar os pontos.

    Abraços a tod@s! E parabéns pelo blogue, xará!

  • Sérgio Rodrigues 28/04/2008 at 12:02

    Valeu, Sérgio. Obrigado por aparecer. Um abraço.

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