Começos inesquecíveis: Tolstoi é o campeão

07/10/2009

Todas as famílias felizes se parecem entre si; as infelizes são infelizes cada uma à sua maneira.

A força de aforismo e o jeitão de verdade universal do início do romance “Ana Karenina”, de Leon Tolstoi (tradução de João Gaspar Simões), conduziram o escritor russo a uma vitória incontestável na eleição do começo mais inesquecível de todos os tempos. Como eu disse no já distante agosto de 2006, quando ele apareceu pela primeira vez aqui no blog, esse início “conseguiu virar aquilo que a maioria dos escritores só ousa perseguir em sonho: máxima, aforismo, provérbio, dito popular, pérola de sabedoria que parece não ter dono, mas brotar diretamente do inconsciente coletivo”.

A disputa foi animada. “O estrangeiro”, de Albert Camus, largou na frente e chegou a dar a impressão de que seria imbatível, mas acabou ultrapassado tanto por “Ana Karenina” quanto por “Lolita”, de Vladimir Nabokov (ah, esses russos…). No fim das contas, o pódio ficou assim: Tolstoi, 41 votos; Nabokov, 35; e Camus, 33.

Nas três últimas posições, houve empate entre “Moby Dick” e “Grande sertão: veredas”, com 23 votos cada um, e a lanterna sobrou para “Memórias do subterrâneo”, o preferido de 14 leitores.

Confesso que, como torcedor, saio um pouco frustrado da disputa. Entre os seis finalistas escolhidos pelos leitores, torci alternadamente por Camus (com a cabeça) e Nabokov (com a “carne”, como ele mesmo diria). Quando falo, ali em cima, em “jeitão de verdade universal”, é por desconfiar que a abertura campeã, vagamente enquadrável na categoria jornalística do nariz-de-cera, tem mais forma do que conteúdo. Não sei se as famílias felizes são todas parecidas ou se a infelicidade familiar carece de um denominador comum. Afirmar o contrário talvez funcionasse também. Mas é claro que, sendo Tolstoi um ficcionista e não um terapeuta, ponderações como essas são meio tolas.

A todo mundo que garantiu o sucesso desta brincadeira (foram 188 comentários apenas na rodada final, enquanto o blogueiro tirava umas curtas mas talvez não imerecidas férias), meus agradecimentos sinceros. E até amanhã.

20 Comments

  • Bertoldo 07/10/2009 at 11:20

    Que tal um certame sobre o melhor “fim” da literatura°?

    Há grandes finais na prosa universal:

    O final de “A montanha mágica”… ou mens clássicos como
    o de “Cosmos”, de Gombrowitz, e do “Apanhador no campo de centeio”….

    E o fim de “Memórias Póstumas de Brás Cubas”????
    Seria um candidato a campeão¹¹!!!!

  • Thales 07/10/2009 at 11:25

    Concordo com o Bertoldo, uma competição entre os finais também seria muito bem vinda!!

    Ah, e por sinal, gostei do resultado dessa.

  • Nilton Quoirin 07/10/2009 at 11:30

    Meu voto foi para o 2o colocado.

    Sergio, estou lendo O mecanismo das águas, cujo começo descobri no seu blog. Que história fascinante e bem escrita. Daria um bom filme, se é que já não fizeram um.

    Abraços

  • Tibor Moricz 07/10/2009 at 11:34

    Oi. Espero que tenha descansado.

  • rodrigo sampaio 07/10/2009 at 11:43

    Não sei não, Sérgio. A máxima tem tudo a ver com o livro. Basta dar uma olhada na vida de Lievin e a princezinha com quem se casou, em comparação com a vida de Oblonsk, ou com a vida de Karenina e o príncipe Vronsk (acho que eram estes os nomes). O equilíbrio emocional traz menos confusões. E confusões levam a formas mais visíveis de comportamento: ódio, raiva, inveja, sofrimento, competição, esquesitices prá todo o lado que dão a falsa impressão de serem vidas mais diferenciadas e, até, mais ricas. O problema, meu caro, é que a literatura, hoje em dia, não pode mais ser assertiva. É um crime. Os escritores, hoje, preferem ser dissimulados, falsos filósofos, investidos sempre da filosofia: tudo que sei é que nada sei, mostrando sua humildade cabotina, que só engana ingênuos.

  • Glaucia 07/10/2009 at 11:49

    Ao vendor: aplausos – ainda q ñ tenha sido Camus. Adorei a brincadeira.

  • Marcus 07/10/2009 at 11:53

    Eu já acho que uma hipotética afirmação contrária não teria sequer uma fração da força do original como “verdade universal”.

    Há que se lembrar que, em “Esplendores e Misérias das Cortesãs, de Balzac”, o período de quatro anos em que Luciano de Rubempré e sua amada vivem uma vida completamente feliz, é exatamente a parte da história que é cortada impiedosamente da narração do romance.

    A felicidade não é um assunto interessante.

  • Marcelo ac 07/10/2009 at 12:51

    Prezado Sérgio, esperamos que suas férias nos brindem com mais surpresas como a que se encerrou. Apesar disso, boa volta e sucesso!

  • Angelo 07/10/2009 at 13:19

    Olá Sérgio,
    Sei não, mas faltou o começo de “A metamorfose”, do Kafka. Menos mal, podemos deixá-lo à parte, como “hors concours” :)
    Grande abraço,

    • Sérgio Rodrigues 08/10/2009 at 15:22

      Angelo: Kafka não se deu bem na vox populi. “A metamorfose” participou da primeira rodada e não se classificou. Entraram “O estrangeiro” e “Lolita”. Outro abraço.

  • jansy mello 07/10/2009 at 14:48

    Lembro que as primeiras linhas de “ADA ou Ardor,” do Nabokov, são parecidas com as do Tolstoi.

    O primeiro capítulo inicia-se com:

    “Todas as familias felizes são mais ou menos diferentes; todas as famílias infelizes são mais ou menos semelhantes,” disse um grande escritor russo no início do famoso romance[…] Essa afirmação tem pouca ou nenhuma relação com o que será relatado aqui, a crônica de uma família cuja primeira parte talvez esteja mais próxima de outra obra de Tolstói, Diétstvo i Otrotchestvo( Infancia e pátria, Editora Pontius, 1858).”

    Ada ou artdor, Crônica de uma família, tradução de Jorio Dauster, Companhia das Letras. 2005.

  • Bárbara 07/10/2009 at 15:51

    Senti falta na disputa de “O Amante”, de Marguerite Duras: “Un jour, j’était âgée déjà, dans le hall d’un lieu public, un homme est venu vers moi.Il s’est fait connaître et il m’a dit…”, mas cada um vai ter uma opinião de que faltou esse ou aquele, né? Abraço!

  • Anna May 07/10/2009 at 19:32

    Merecidíssimo!!! Esperamos o próximo concurso.

  • Xandão 08/10/2009 at 15:17

    Isso pra mim tá igual ao Rio 2016: eu já sabia. Valeu, Sergio! Venceu o melhor (na minha opinião, claro). Mas os concorrentes fizeram dessa uma puta eleição.

  • JK 09/10/2009 at 13:46

    “Finais inesquecíveis” não dá… O pessoal vai começar a contar o final dos livros?

  • Benedito Fonseca 18/10/2009 at 14:59

    Caro Sergio,
    Sou desejoso de sua honrosa colaboração. Estou tentanto comprar os livros citados “Ana Karenina”, “Lolita” e “Memórias do subterrâneo”. Mas, surgiu muitas dúvidas, quanto a tradução, editora, etc. Você poderia me indicar como encontrar? Antecipadamente, e independente da resposta meu obrigado.

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