Começos inesquecíveis: Virginia Woolf

30/11/2008

Ele – pois não havia a menor dúvida a respeito de seu sexo, embora a moda da época contribuísse para dissimulá-lo – empenhava-se em desferir golpes de espada numa cabeça de mouro que pendia das vigas do teto.

Faltava Virginia Woolf nesta seção. Não mais: eis a primeira frase do magnífico “Orlando”, romance publicado em 1928 (Grafton Press, 1986, tradução caseira). O gancho de suspense plantado ali entre os travessões só vai se explicar lá pelo meio do livro, quando Orlando acorda de um sono mórbido de dias:

Ele se espreguiçou. Levantou-se. Ficou de pé diante de nós, inteiramente nu, e enquanto as trombetas ressoavam, Verdade! Verdade! Verdade!, não nos resta outra saída senão confessar – era uma mulher.

31 Comments

  • Saint-Clair Stockler 30/11/2008 at 09:57

    Meu caso de amor com V. W. é um dos mais complicados. Levei anos tentando gostar dela, sem sucesso. Mas insisti, porque achava que ela merecia isso. Até que um dia, finalmente, consegui ler Ao farol, e me apaixonei. Há trechos daquele romance que ainda sei quase que de cor, as imagens estão vívidas na cabeça. Mas ainda não consegui “vencer” o Orlando, que acho um livro cansativo. Continuarei tentando, claro. V.W. é melhor do que 98,87% de toda a literatura brasileira publicada atualmente. E, cada vez mais, sigo a regra: “Na dúvida, volte aos clássicos!”

  • Cezar Santos 30/11/2008 at 11:20

    Saint-Clair,
    Gozado, tenho praticamente a mesma opinião sobre “Orlando”, ao qual acho enfadonho, cansativo. Li-o às duras penas. Mas quanto ao “Mrs. Dalloway”, puxa vida, que maravilha… é uma delícia!

    PS. Dia desses, ao entrar numa Siciliano, quase não acreditei. Vi uma novíssima edição da Cosac, dos “Contos Completos” da Virginia, capa dura, quase 500 página… a 27 reais. Rsss… era o último e naturalmente está agora abrigado aqui no meu criado-mudo. Ganhei o dia…

  • Milton Ribeiro 30/11/2008 at 11:40

    Eu recém cheguei a teu blog. Te “conheço” faz um ano, no máximo.

    Mas tinha CERTEZA que o começo de Orlando já estava aqui…

    Grande abraço e bom findi.

  • Saint-Clair Stockler 30/11/2008 at 12:17

    Cezar,

    Então você ganhou um presente dos céus. 27 reais? Quase dado! Ainda mais porque os livros da C&N costuma ser caríssimos (uma ediçãozinha minúscula, sem capa dura, do A invenção de Morel tá custando quase 40 pratas!)

  • Thiago Maia 30/11/2008 at 13:01

    Acho então que todas as lojas da Siciliano estão vendendo Cosac & Naify (e de outras) em promoção: aqui no ABC deparei com vários e pesquei O vermelho e o negro (de 70 por 40).

  • Sérgio Rodrigues 30/11/2008 at 13:41

    Milton, confesso que sua certeza me fez investigar o arquivo. Sei lá, a memória às vezes nos prega peças – no meu caso, com freqüência cada vez maior. Mas Virginia Woolf não tinha mesmo aparecido na seção até hoje. Fico contente de pagar essa dívida com ela e comigo mesmo – fui apaixonado pela dona nos anos 80. E para quem tiver ficado em conflito diante de minha recomendação enfática e da resistência manifestada por alguns leitores, convém dizer o seguinte: Orlando é um livro exigente, sim. Tem a pretensão de bordar na mesma tela e no mesmo fôlego 350 anos de Hstória (do mundo) e de história (do/a protagonista). É tão difícil quanto, sei lá, Rosa ou Proust. Para funcionar depende um pouco mais do que a média do investimento do leitor e, principalmente, do momento vivido pelo leitor. Vale a pena tentar assim mesmo? Vale, sempre, ontem ! Porque se os santos se cruzarem a experiência resultante será mais do que estética, será daquele tipo que se aproxima da religiosa. Não são tantos assim os artigos que se encaixam nessa categoria. Orlando é um patrimônio da humanidade. Abraços a todos.

  • mirianne 30/11/2008 at 13:47

    eu a conheci por um filme. dizia “you can not find peace avoiding life, Leonard”. quero ler algo de Woolf, porque ainda não li, embora seja linda (desde já, vejo-a assim). faz-me sentido o que tenho conhecido dela.

  • Mariana 30/11/2008 at 13:51

    De minha parte, fico agradecida pela dica. Foi um lindo jeito de apresentar o livro, ficou impossível resistir.

  • Outro Paulo 30/11/2008 at 21:27

    Poxa, acho que o post merecia um spoiler warning…

    Abs.

  • Raul 30/11/2008 at 21:49

    Bem, era o que faltava… Assim que passar o vestibular, vou criar vergonha e pegar na biblioteca pública um volume que tem Mrs. Dalloway e Orlando, com tradução do Mário Quintana e da Cecília Meireles respectivamente, se não me engano. Espero que seja tão bom ou melhor que Ao Farol.

  • Sérgio Rodrigues 30/11/2008 at 22:01

    Outro Paulo, em geral tomo cuidado com spoilers, mas a metamorfose de Orlando é tão segredo de Polichinelo quanto o sexo de Diadorim. E vai por mim: saber disso de antemão não atrapalha nada.

  • ADRIANO NUNES (ASTRIPASDOVERSO.BLOGSPOT.COM) 01/12/2008 at 01:39

    CARO SÉRGIO,

    SOU ESCRITOR, POETA, MÉDICO E POSSUO UM BLOG. SOMENTE ESTE ANO RESOLVI EXPOR OS MEUS ESCRITOS. GOSTARIA MUITO, SE FOSSE POSSÍVEL, QUE VOCÊ VISITASSE O MEU BLOG. JÁ TIVE UM SONETO MEU “SONETO IV” POSTADO NO BLOG DO ANTÔNIO CÍCERO… E EM ALGUNS OUTROS DA ÁREA LITERÁRIA. SOU ALAGOANO E AMO DEMAIS A POESIA. O ENDEREÇO É: http://astripasdoverso.blogspot.com. DESDE JÁ AGRADEÇO A VISITA. E SE VOCÊ ACHAR ALGO DIGNO E DE MÉRITO, FICARIA GRATO SE POSTASSE EM SEU BLOG UMA CRÍTICA SOBRE OS MEUS ESCRITOS!

    PAZ E LUZ!

    ADRIANO NUNES, MACEIÓ/AL.

  • Saint-Clair Stockler 01/12/2008 at 10:55

    Adriano,

    NÃO GRITA, PORRAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA!!!

    Fala baixo, faz favor…

    Netiqueta: http://www.icmc.usp.br/manuals/BigDummy/netiqueta.html

    Atenção à primeira regra!!!

    rsrsrs

    (Será que isso é o tal do “vencer no grito”?)

  • Drex 01/12/2008 at 13:28

    Sérgio, licença para um off-topic.

    É vc o Sérgio Rodrigues citado pelo Millôr na Veja desta semana, não?

    Se não, desculpe nossa gafe. Se sim, parabéns pelo elogio e pelo novo livro. Não vai contar mais sobre ele por aqui?

  • Sérgio Rodrigues 01/12/2008 at 14:53

    Sou eu mesmo, Drex, obrigado. É um pouco cedo para falar do livro. O Millôr teve a ele um acesso, digamos, privilegiado. O lançamento será só em março, logo no início do degelo editorial. Ainda pretendo falar (muito) sobre esse romance aqui. Um abraço.

  • Tibor Moricz 01/12/2008 at 16:37

    Parabéns, Sérgio.

  • Saint-Clair Stockler 01/12/2008 at 17:09

    Espero que tenha sorteio por aqui pros fiéis leitores.

    Até hoje não consegui ler as Sementes, pobre de mim.

    Fico aqui esperando o Lula lançar um bolsa-livros.

    É ruim, hein?

  • Sérgio Rodrigues 01/12/2008 at 18:09

    O sorteio fica oficialmente prometido, Saint-Clair.

  • ADRIANO NUNES (ASTRIPASDOVERSO.BLOGSPOT.COM) 02/12/2008 at 00:54

    Caro Saint-Clair Stockler,

    Vencer no grito, não! Liame poético é algo além … Aliás, etiqueta serve a poucos. Será o seu caso? A proposta que fiz foi digna e decente.Gostaria que o Sérigo conhecesse a obra dos poetas alagoanos atuais, inclusive a minha. Não preciso de nada além disso. Vínculo literário e mais nada. Sou bastante feliz e realizado, mas A Poesia levo muito a sério. Sei lapidar o que faço.
    Por favor, não seja inconviniente! Postei para o dono do blog! Agora, você pode apreciar as minhas dádivas. Fico grato também!

    Adriano Nunes,

  • ADRIANO NUNES (ASTRIPASDOVERSO.BLOGSPOT.COM) 02/12/2008 at 00:59

    P.S.: INCONVENIENTE! A PROPÓSITO!

    PROPOSITAL MESMO PARA QUE VOCÊ PERCEBA A GRAFIA ERRADA ANTERIOR E ENTENDA!

    ADRIANO NUNES.

  • ADRIANO NUNES (ASTRIPASDOVERSO.BLOGSPOT.COM) 02/12/2008 at 04:22

    Caro Sérgio,

    Um dos meus sonetos! Abraço forte!

    SONETO IV (PARA PÉRICLES CAVALCANTI)

    O PENSAMENTO
    PESA O POEMA.
    POR QUE SUPÕE
    SER ASSIM LEVE

    COMO UMA PENA?
    POR QUE SEQUER
    NADA PONDERA
    OU PRINCIPIA?

    O PENSAMENTO
    É MESMO CEGO.
    POR QUE NÃO VÊ

    QUE SÓ O POEMA
    TUDO SUPORTA,
    TUDO SUSTENTA?

    ADRIANO NUNES, MACEIÓ/AL.

  • Saint-Clair Stockler 02/12/2008 at 08:03

    Dr. Adriano Nunes,

    Não tenho nada contra a sua proposta! PORÉM É CONSIDERADO FALTA DE EDUCAÇÃO INTERNÉTICA ESCREVER EM CAIXA ALTA, PORQUE DÁ A ENTENDER QUE SE ESTÁ GRITANNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNNDO!!! Você tiraria meleca em público? Pois então: escrever em caixa alta é a mesma coisa.

    Aproveitando o ensejo, eis um poema meu, rsrsrs:

    “Estou aqui esperando o Senhor”

    Para Carmencita la Serenissima

    Estou a esperar o Senhor.
    Disseram-me que daqui a 5 minutos ele passará
    por esse caminho.
    Estou sentada e espero.
    Espero com as mãos cruzadas no colo,
    como antes de mim fizeram minha mãe
    e todas as mães do mundo.
    Mas minha mãe não esperava o Senhor,
    esperava seu homem.
    Que era, ao seu modo, o Senhor dela.
    Eu não tenho homem.
    Eu já tive muitos homens,
    mas nenhum deles foi meu senhor.
    Estou sentada e espero.
    O calor queima-me as pernas
    (quem mandou vir esperar o Senhor
    com essas saias tão curtas?)
    Sinto uma gota de suor que brota da minha nuca
    e escorre gravidade abaixo
    até chegar ao meio das costas
    e some.
    Estou sentada e espero.
    Doem-me os pés, que noto agora
    sujos de poeira
    (achei que fariam boa figura
    sandálias de couro, tão franciscanas)
    Doem-me os pés e ainda por cima estão
    sujos.
    De repente canso-me de esperar,
    sozinha debaixo do sol.
    Uma estranha idéia ocorre-me
    súbita
    como a gota de suor que há pouco
    brotou em minha nuca e
    escorreu pele das costas abaixo:
    E se o Senhor já estiver aqui?
    Se ele for este pedaço morto de árvore
    no qual estou sentada?
    Se ele for a poeira da estrada
    nas sandálias
    ou
    aquela pedra do outro lado, jogada
    dentro da vala, perto da bosta de vaca?
    O mundo é cheio de mistérios e o Senhor
    pode já ter vindo.
    Aliás, pode até mesmo ter-se
    cansado e ido embora.
    Fiquei eu.

  • Tibor Moricz 02/12/2008 at 11:25

    Saint-Clair, vai arrumar alguma coisa pra fazer, vai…rs

  • Eric Novello 02/12/2008 at 11:38

    Escrever tudo em maiúscula e achar bonitinho merece o prêmio ‘sem noção’ da semana. Mas o Saint se sentiu ameaçado e roubou o prêmio para si com essa poesia. rs.
    Abss!

    ps. parabéns pelo novo livro.

  • ADRIANO NUNES 02/12/2008 at 12:11

    Sr. Saint-Clair Stockler,

    Você ainda se prende às regras da comunicação? Então, seria incapaz de apreciar um poema concreto ou visual, ou até mesmo as canções de Carlinhos Brown ou Djavan. Jamais entenderia O disco Araçá Azul de Caetano! Se a caixa alta das palavras tanto o incomoda – sempre há o agravo de não satisfazer ao leitor o que se é proposto – ao menos devia ter sido educado, para dar o exemplo, não acha? Há zil formas de apontar erros, sem ser grosseiro ou ridículo!

    Abraço forte!
    P.s.: gostei do poema!

    Adriano Nunes.

  • Sérgio Rodrigues 02/12/2008 at 13:00

    Adriano, obrigado pelo link e muito boa sorte com seus escritos. Se me permite um palpite, acho que não devia levar o Saint-Clair a mal, vamos em frente. Um abraço.

  • ADRIANO NUNES 02/12/2008 at 13:12

    Grande Sérgio,

    Grato! felicidades!

    Adriano Nunes.

  • Mr. WRITER 02/12/2008 at 18:28

    Belíssima escolha Sérgio…
    Realmente é um começo e um livro inesquecível.
    E como disse um amigo mais acima, Mrs Dolloway também é maravilhoso.

    Orlando é um livro pelo qual tenho carinho especial. E sempre que falo em Virginia, lembro-me de Clarice. Simplesmente perfeitas.

  • Hefestus 03/12/2008 at 11:44

    “Você ainda se prende às regras da comunicação? Então, seria incapaz de apreciar um poema concreto ou visual, ou até mesmo as canções de Carlinhos Brown ou Djavan”

    Primeiro: um comentário para fazer propaganda de um blog de poesia não é a poesia propriamente dita, então sim, neste caso é saudável se ater às regras de cortesia.

    Segundo: não sei o Saint-Clair, mas acho Carlinhos Brown e Djavan um saco.

    Terceiro: esperemos o romance. Até hoje não consegui ler as “sementes…” também.

  • Guilherme Freitas 07/12/2008 at 22:44

    Tem razão, para ler Virgina é preciso estar em um estado de espírito especial, é preciso estar devidamente desejoso de vivenciar uma experiência de tal magnitude.
    Orlando é realmente um tesouro da humanidade. Eu não me esqueço do cheiro de armário da rainha Elizabeth, da tribo nômade da Turquia, da conversa com o poeta (qual era o nome dele? Green?) ou o duque/duquesa com aparência de urubu… hahahaha!
    Inesquecível!!!!!!!!

  • Gisele Lemper 10/12/2008 at 23:02

    Orlando pode ser para uma autodidata um caso de amor à primeira vista. E foi. Como nominimo e o todo prosa e projetoreleituras e o rafael galvao, e por aí vai pela blogosfera que gosta Muito de você. Que bom. ;-)) Um abraço da leitora do DF; -)

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