Começos inesquecíveis: Albert Camus

23/05/2007

Hoje, mamãe morreu. Ou talvez ontem, não sei bem. Recebi um telegrama do asilo: “Sua mãe faleceu. Enterro amanhã. Sentidos pêsames”. Isso não esclarece nada. Talvez tenha sido ontem.

O Todoprosa completou um ano no início deste mês e paga agora uma dívida que tem a mesma idade: foi nas férias, pensando na vida, que me ocorreu o absurdo (palavrinha apropriada) de ainda não ter publicado nesta seção o primeiro parágrafo de “O estrangeiro” (Record, tradução de Valerie Rumjanek), novela lançada em 1957 pelo escritor franco-argelino Albert Camus (1913-1960). Parece que todo esse atraso teve algo a ver com a determinação de fugir do óbvio ou coisa parecida. Desculpa porca. Mais do que proporcionar ao leitor um começo realmente inesquecível, o narrador Mersault, ao anunciar a morte de sua mãe em tom tão frio, está escrevendo a epígrafe de uma época que ainda é a nossa.

32 Comments

  • Saint-Clair Stockler 23/05/2007 at 22:17

    Tive/tenho a felicidade de poder ler este romance no original. Lembro-me da primeira leitura: foi dos livros que mais impacto produziu em minha modesta pessoa. Fiquei “ruminando-o” um tempão. Acho que até hoje – anos depois – ainda não o digeri bem. O mesmo aconteceu com O processo, do Kafka. E, atualmente, está acontecendo na leitura da novela As noites de Flores, do César Aira. Aliás, a vontade é a de pegar um avião e ir bater na Argentina, pra ter uma conversinha particular e esclarecedora com o autor. Êta argentino ardiloso, sô! Vou te contar… Andou me fazendo até mal.

  • Marcelo 23/05/2007 at 23:19

    Sergio, dê uma olhada nessa resenha sobre o livro do ministro do STF, Eros Grau. Ele ganhou a comenda Bruna Surfistinha de pior livro do ano. http://www.revistabula.com

  • Marcelo 23/05/2007 at 23:19

    Sergio, dê uma olhada nessa resenha sobre o livro do ministro do STF, Eros Grau. Ele ganhou a comenda Bruna Surfistinha de pior livro do ano. http://www.revistabula.com

  • Rafael Rodrigues 24/05/2007 at 00:39

    Um dos três livros que me deixaram dias e dias inerte.

  • Lucas Murtinho 24/05/2007 at 03:10

    Sérgio, você viu um artigo no blog de livros do Guardian sobre primeiras frases? Acho que saiu durante as suas férias, e me fez pensar no “começos inesquecíveis” daqui. Mas uma frase só é meio redutor, e “O estrangeiro” (que o cara não deixa de citar no Guardian) é um bom exemplo: o que conta para tornar esse começo sensacional é o que vem depois da primeira frase, a dúvida desinteressada sobre a data da morte da mãe. Abraços, e bem-vindo de volta.

  • João Paulo 24/05/2007 at 07:17

    Um dos três livros que me deixaram dias e dias à custa de sais.
    Brincadeirinha. Estou apenas galhofando, viu Rafael?

  • ivo cunha 24/05/2007 at 08:58

    Quando li o Estrangeiro, senti como se o chão sob meus pés derretesse, mas na verdade só descobri que em tempos como o nosso : “tudo que é sólido se desmancha no ar”.
    Um abraço.

  • ivo cunha 24/05/2007 at 08:58

    Quando li o Estrangeiro, senti como se o chão sob meus pés derretesse, mas na verdade só descobri que em tempos como o nosso : “tudo que é sólido se desmancha no ar”.
    Um abraço.

  • Leandro Oliveira 24/05/2007 at 09:04

    Engraçado como são as coisas. Li “O Estrangeiro” e não achei nada demais. Daí li “A peste” e esse sim me conquistou.

  • Noga Lubicz Sklar 24/05/2007 at 09:44

    Me inspirei no comentário do Marcelo aí em cima para a crônica de hj, no blog pra quem quiser ler.

  • Flávio 24/05/2007 at 10:32

    Eu tenho dois cds do Camus lendo O estrangeiro inteiro para um programa de rádio francês. É um livro espetacular.

  • Juliano 24/05/2007 at 10:46

    Sérgio, tardiamente, te dou as boas vindas. Senti falta do seu blog nas suas (merecidas, claro) férias. É uma das melhores coisas que No Mínimo pode apresentar. Já colhi várias ótimas sugestões de leitura aqui e já presenciei alguns debates muito bons, daqueles que são interessantes e que podem ser feitos durante a rotina, muitas vezes massacrante, de nossas atividades diárias. Bem legal. Valeu.

  • fat james 24/05/2007 at 10:58

    A parte em que o personagem condenado à morte recebe o padre para a confissão é admirável. “O Estrangeiro” é mesmo um grande livro.

  • Mr. Ghost(WRITER) 24/05/2007 at 10:58

    O Sergio voltou a todo vapor das férias hein…
    Gostei do começo, ainda não li nada de Camus, vou tomar este começo inesquecível como ultimato para a iniciação…
    Mais uma vez, valeu pela dica Sérgio…

  • Lucas Colombo 24/05/2007 at 13:58

    “O Estrangeiro” realmente tem um dos melhores começos da literatura mundial. “Cem Anos de Solidão”, do García Márquez, “A Metamorfose”, do Kafka, e “Vidas Secas”, do Graciliano Ramos têm frases iniciais igualmente poderosas. Ah, claro: e “Ana Karenina”, do Tolstói.

  • Lucas Colombo 24/05/2007 at 14:04

    Todo o niilismo de Camus está exposto nessas frases iniciais d’O Estrangeiro.

  • romano 24/05/2007 at 14:16

    mais perturbador, para mim, foi A Queda, não sei, me falou mais diretamente e foi o primeiro livro do autor que li, depois vieram O Estrangeiro e A Peste. Os títulos de seus livros são sempres justos… Sérgio, bom tê-lo de volta.

  • Lucas Murtinho 24/05/2007 at 14:23

    Eu também prefiro “A peste”, embora também goste muito de “O estrangeiro”. O “A queda” é que não me seduziu, mas acho que foi culpa das circunstâncias: ele foi lido em duas viagens de ônibus, com sono e dor de cabeça, e meu francês era claudicante na época. É um na lista das releituras.

  • Saint-Clair Stockler 24/05/2007 at 17:19

    Eu também tenho o Camus lendo o livro (no meu caso, pirateei os cds). Muito bom. Ele tem uma bela voz. Quer dizer, tinha.

    Tenho também Duras lendo Les petits chevaux de Tarquinia, Catherine Deneuve lendo Duras (La jeune fillet et l’enfant); Aragon lendo Les yeux d’Elsa; cds com vários filósofos lendo suas obras (o que mais me emocionou foi uma gravação muito ruim, quase inaudível, com a voz de Bergson).

    E também Daniel Pennac lendo, em francês, Bartleby o escriturário, do Melville, e a Nathalie Sarraute lendo fragmentos de suas obras – estes dois últimos, originais. Paguei 80 reais por cada um dos cds. Céus, eu já estive louco e não sabia!

  • Gustavo 24/05/2007 at 17:36

    realmente inesquecível ! talvez apenas metamorfose seja tão incrível quanto…

  • Dúvida Livreira 24/05/2007 at 17:44

    Alô – assunto urgente: Por que a badaladíssima nova Livraria Cultura foi fechada pela Prefeitura? Até o prefeito estava na inauguração, e agora está lá fechada a superloja, como se fosse um botequim que vendesse ovo podre colorido.

  • Cássia Salles 24/05/2007 at 18:16

    Caro Sérgio, eu já havia cobrado uma nota sobre Camus, lembra-se? O trecho escolhido é magnífico, mas em se tratando de Camus, qualquer outro seria igualmente admirável. Sigo atenta aos posts e aos comentários, embora na sombra. Feliz regresso!

  • Pedro Curiango 24/05/2007 at 23:30

    Uma curiosidade: pouco tempo atrás, o presidente Bush declarou estar lendo O ESTRANGEIRO. Creio que queria se informar sobre os árabes… [Que ninguém tome isto como crítica ao livro, que é excepcional, e cujo estilo deve muito aos “potboilers” americanos.]

  • Pedro Curiango 24/05/2007 at 23:30

    Uma curiosidade: pouco tempo atrás, o presidente Bush declarou estar lendo O ESTRANGEIRO. Creio que queria se informar sobre os árabes… [Que ninguém tome isto como crítica ao livro, que é excepcional, e cujo estilo deve muito aos “potboilers” americanos.]

  • humilde miriápode 25/05/2007 at 01:20

    Peralá, Camus não era niilista. Não sei como pode haver dúvida, mas, em todo caso, basta ler “O homem revoltado”. E, pra mim, o melhor dele é “A queda”, talvez o livro que mais tenha marcado minha vida.
    Minha vida de miriápode, of course.

  • Aline 25/05/2007 at 09:47

    Observo que no primeiro ou segundo dos “Começos Inesquecíveis”, um dos comentaristas já reproduziu essa passagem. O blogueiro só lembrou nestas férias pq não leu os comentários…

  • Aline 25/05/2007 at 09:47

    Observo que no primeiro ou segundo dos “Começos Inesquecíveis”, um dos comentaristas já reproduziu essa passagem. O blogueiro só lembrou nestas férias pq não leu os comentários…

  • Sérgio Rodrigues 25/05/2007 at 10:04

    Aline, agora que você menciona, tenho vaga lembrança disso. Mas releia a minha nota. Não houve “esquecimento” nenhum. Submeti Camus a um ostracismo ativo, estava determinado a fugir dos começos óbvios, esses que aparecem em qualquer almanaque. Na época, o tal comentário do leitor deve ter reforçado essa decisão. Só o tempo corrige coisas assim.

  • mstcampos 25/05/2007 at 11:02

    É verdade o que ouvi sobre a morte do Camus, que a poucos minutos da chegada de seu trem um fã lhe ofereceu carona, aceita com relutância pelo mesmo e aí…..

  • Aline 25/05/2007 at 11:05

    Humm… entendi. Nada como o tempo para deixar original e interessante até as obviedades de almanaque.

  • Sérgio Rodrigues 25/05/2007 at 11:40

    A concordância podia ser melhor, mas a idéia é basicamente essa, Aline. O tempo nos ensina que nem tudo que é óbvio é burro. Embora às vezes seja, claro.

  • Záze 29/05/2007 at 23:53

    Toucheé!

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