Começos inesquecíveis: Franz Kafka

23/09/2006

Quando Gregor Samsa despertou, certa manhã, de um sonho agitado, viu que se transformara, em sua cama, numa espécie monstruosa de inseto.

Eis o primeiro parágrafo de “A metamorfose” (Civilização Brasileira, tradução de Brenno Silveira, 5a edição, 1988), do escritor tcheco Franz Kafka (1883-1924). Sem comentários.

32 Comments

  • Pedro Curiango 23/09/2006 at 17:41

    LI, tempos atrás, uma versão americana, comentada, da “Metamorfose”. A palavra que Kafka teria usado para designar este inseto é a que corresponde ao nosso “rola-bosta” (em inglês: “dung beetle”). Alguém pode esclarecer? O fato é curioso porque, no Brasil, por muito tempo, se pensou numa “barata” – até o Sérgio Santana tem um conto que se refere à “novella” kafkaiana e que tem como personagem central um Guilherme Barata…

  • Sérgio Rodrigues 23/09/2006 at 18:24

    Nesse primeiro parágrafo, a referência é vaga: o original fala em ungeheueren Ungeziefer, algo como “monstruoso inseto repulsivo”. Em outros pontos Kafka parece se referir a um inseto da família dos coleópteros, enorme, mas sem maiores qualificações. Esta família é ampla o suficiente para incluir besouros, joaninhas e vagalumes, por exemplo. Segundo um ensaio de Nabokov, grande admirador da novela de Kafka, a única pessoa que chama Samsa de Mistkäfer, ou seja, escaravelho mesmo, besourão, rola-bosta, é a velha faxineira da família. Mas Nabokov acha que ela faz isso para ser “amigável”. E segue em frente: “Ele não é, tecnicamente, um escaravelho. É apenas um beetle grande. (Devo acrescentar que nem Gregor nem Kafka enxergavam o bicho muito claramente.)”

    A confusão, como se vê, parece ser proposital. A popularidade da idéia de que Samsa era uma barata vem dessa indeterminação, e também do fato de a palavra beetle, em inglês, ser usada de modo informal também para baratas – embora estas sejam de família diferente. Ignoro se o mesmo se passa em alemão.

  • Saint-Clair Stockler 23/09/2006 at 21:07

    Pensei que a noção popular de que o inseto é uma barata vinha do fato de que estes insetos são extremamente repulsivos.

  • Heleno Barroso Silva 23/09/2006 at 21:26

    Não há baratas na Alemanha. Alemães não conhecem baratas. Acho melhor mesmo arrumarem outro inseto.

  • BCK 23/09/2006 at 22:23

    Kafka eu acho que é o autor que eu mais vi traduções. Toda hora que eu abro um volume empoeirado num sebo eu vejo um tradutor diferente…

  • ne 23/09/2006 at 22:50

    Uma perguntinha, esse Kafka bebia?

  • Lucio 23/09/2006 at 22:58

    Sergio Rodrigues,
    Acompanho e gosto dos seus “Começos Inesqueciveis”…Tolstoi… Juan Rulfo…Kafka.
    Permita-me sugerir acrescentar mais um tema: Equivocos ou Mentiras Literárias,
    Exemplo 1 – No caminho com Maiakovski (atribuido a Bertold Brecht).
    Exemplo 2 – Instantes (atribuido a JL Borges)
    Exemplo 3 – texto da famosa “Carta do Chefe Seatlle”.
    Ainda hoje ouvi numa FM a leitura toda cerimoniosa da tal carta. Não seria interessante essa desmistificação?

  • francisco maciel 24/09/2006 at 08:48

    “Quero contar-vos, senhores, mesmo que não desejais ouvi-lo, porque nem sequer consegui tornar-me um inseto. Declaro-vos solenemente que muitas vezes quis tornar-me um inseto. Mas nem disso fui considerado digno”, escreveu Dostoievski em “Notas do Subterrâneo”.
    Kafka conseguiu registrar no século XX a mais digna metamorfose – escaravelho besouro barata joaninha percevejo beetle beatles – do homem subterrâneo do século XIX.

  • Clarice 24/09/2006 at 12:26

    Achei o blog dos meus sonhos!
    Virei sempre checar a partir de agora.
    Sérgio Rodrigues, faz tempo que li “A Metamorfose” e me lembro muito bem de ter ficado surpresa em não encontrar nada a respeito de barata.
    É preciso sempre lembrar que Kafka tem um enorme senso de humor. A palavra “kafkiano” é muito infeliz por que apaga esta peculiaridade deste autor que adoro.

  • Gabriel Ramalho 24/09/2006 at 12:52

    Achei que esta tradução do Brenno Silveira (em especial a parte “numa espécie monstruosa de inseto”) tirou um pouco do que me agradava em outra tradução, da qual não recordo agora: a surpresa e terror na constatação “num monstruoso inseto”, sem especificar que seria uma “espécie de” e sem identificar qual seria, assim mesmo, o bicho.
    Já que falaram de Nabokov e o tema é “Começos inesquecíveis”, sugiro o parágrafo inicial de Lolita. Dá vontade de ficar revirando os éles na língua.

  • Sérgio Rodrigues 24/09/2006 at 12:58

    Clarice, apareça sempre.

    Gabriel, a Lolita já passou por aqui, no dia 24 de julho – confira lá no arquivo.

    Abraços.

  • Gabriel Ramalho 24/09/2006 at 13:15

    Sérgio, acabei de ver e estava vindo exatamente me redimir. Você chegou antes.
    Abraço!

  • Fabio Negro 24/09/2006 at 15:51

    É um livro bem aborrecido, assim com o é 1984, do George Orwell.

    Dane-se a síntese do homem do século XIX. E usou do século XXI.

    Alguém nessa ciaxa de comentários já acordou alguma vez com a sensação de que ler 90% dos aclamados clássicos é um perda de tempo tanto pela estética quanto pela efemeridade da obra?

    E que tornar um livro “clássico” é ignorar justamente que a força dos livros está em representar o seu meio e a percepção do seu autor?

    E, FINALMENTE, que aprender o contexto histórico de um perído já morto só pra apreender um livro é apenas vaidade?

    Por isso Shakespeare não envelhece, mas Balzac já deu nos cornos faz tempo.

    Alguém quer discutir ISSO?

  • fabius maximus 24/09/2006 at 18:53

    Vc disse tanta bobagem que nem vale a pena discutir.

  • Fabio Negro 24/09/2006 at 23:32

    Eu disse tanta coisa contra a opinião largamente estabelecida que você deitou no travesseiro E CHOROU!

  • Ramon 25/09/2006 at 06:22

    A vantagem de ler clássico está em, como tanta gente já leu e falou que é bom, corre-se menos riscos de perder tempo com porcarias. E tempo é precioso. Como é.

  • sonho bom 25/09/2006 at 07:47

    Quando lí Metamorfose, fiquei por muito tempo com a impressão de que, a qualquer momento, poderia me transformar em um inseto asqueroso.
    Guardei o livro, longe das minhas vistas, no fundo de uma gaveta.
    Fabio Negro, aquí, junto do Sérgio, todas as opiniões são válidas.
    Quanto aos clássicos, serve para nos mostrar o vaivém da vida, sem poupar ninguém. Todos estão sujeitos às vicissitudes da vida.
    Na ISTOÉ desta semana, uma nota sobre a esquizofrenia:
    Cerca de 1% da população mundial desenvolve esquizofrenia.
    No Brasil, 1,8% milhão de pessoas têm essa enfermidade mental.

  • sonho bom 25/09/2006 at 07:49

    Desculpem o lápso ” servem para nos mostrar”.

  • sonho bom 25/09/2006 at 07:51

    Desculpem de novo, “lapso”.

  • sonho bom 25/09/2006 at 08:06

    Nossa! A menção deste assunto, me deixa fora de órbita. Já lí em algum lugar que, nós todos, vivemos no limiar da loucura.

  • Saint-Clair Stockler 25/09/2006 at 12:01

    Não há baratas na Alemanha? Como assim???? Existem baratas por TODO o universo!

  • Flávio Rios 25/09/2006 at 17:17

    Acho que o Fábio Negro é o Leitor Rabugento da coluna Oops! (“Nhé! Isso aqui não presta”) do UOL, que era a única forma tolerável de ler essas fofoquinhas de gente famosa.

    Engraçado é que a tamanha genialidade do Shakespeare é uma das que mais é “contextulizada” para ser compreendida, chegando a ouvir todos os detalhezinhos da vida teatral na Inglaterra do Século XVII…

    mas deixa pra lá… mau humor cada um tem o seu

  • joao gomes 25/09/2006 at 18:28

    Só hoje encontro um link de Kafka com os criadores de Matrix [ I ]. Muito interessante, quando vi o filme pela primeira vez em 1999 o absurdo de Kafka opressivamente ficou navegando em meu inconsciente até hoje! Valeu Sérgiou por trazer este insight!

  • Fabio Negro 25/09/2006 at 19:15

    Pois eu li duas peças do Shakespeare (com a sensação de estarem mal traduzidas), gostei demais e não sei nada sobre o contexto. Não sei sobre sistemas monárquicos e nada sobre mouros, mas entendi perfeitamente Rei Lear e Othelo.

    Agora, 1984 fora do contexto histórico é um porre, um futuro distópico rrrrédículo e muito, MUUUITO mal escrito.
    Diferentemente de A Revolução dos Bichos, que é mais alegórico ainda, mas que se sustenta como fábula. MUITO bom, e MUITO melhor que 1984 (que tem em O’Brien um dos vilões mais ridículo-e-fascinante da literatura anglo-saxã)

    A Metamorfose também não significa NADA, e é escrita de forma muito sem sal.
    Pouco se aproveita.

    Eu acho que o Flávio é mais ou menos como o outro lá em cima: “se alguém discorda da opinião cristalizada e oficializada, eu vou desmerecê-lo”.

    E eu sou mal-humarado em relação ao Ricardo Calil, que basicamente é um otário em cinema-e-indústria, mas segue copiando e colando os textos da imprensa americana como se a terra aqui estremecesse em resposta.

    Coincidentemente, o último post dele é muito bom, sobre os veteranos dociema sem oportuniade de filmar.

    Sérgio Rodrigues é um cara legal, com um blog legal e cujo conteúdo às vezes eu discordo e venho democraticamente meter o pau. Vai lá no meu meter o pau em mim.

  • BCK 25/09/2006 at 19:40

    Pois o mesmo Kafka “sem sal” influenciou praticamente todos os escritores que vieram depois dele. Quem se esquece do que Garcia Marquez disse, que foi depois de ler A Metamorfose que ele decidiu ser escritor? E o Nabokov que diz que A metamorfose é o melhor conto do século XX?

    Mas talvez os dois sejam também sem sal e de pouco proveito… Cada um na sua, né?

  • Fabio Negro 25/09/2006 at 21:00

    E o Jackson 5 influenciou todas as boys band da História, de Menudos a Backstreet Boys.

    E DAÍ?

  • Besouro Suco 26/09/2006 at 13:04

    Li, mas não lembro onde neste momento, que Kafka usou um termo como inseto hexapode… dai em diante ficou vago demais que inseto seria… quanto aos caras de opiniões metidas e polêmicas, estou pouco me lixando para vocês… ler é um prazer para quem gosta, há quem goste de festas, bares, cinema ou até mesmo tudo junto, gosto é igual cara, cada um tem a sua… obrigado Sergio por sempre trazer algo de bom por aqui…

  • Besouro Suco 26/09/2006 at 13:08

    fábios negros são como insetos produzidos pela sociedade para se acharem contraventores e subversivos porque se dizem andando contra a maré… não passam de mais um no monte de seres produzidos em massa e sem personalidade que acham que são iconoclastas… verdadeiros insetos, diga-se, operários, daqueles que integram uma colônia para equilibrarem a balança do poder… acham que mostram o que está errado, mas não mudam nada, são meros operários que assimilam seu papel de irem “contra” . Só isso…

  • Raquel 29/09/2006 at 15:53

    Sempre imaginei o inseto de Metamorfose uma barata obesa, daquelas que quando a gente pisa em cima, faz “pleft”!

  • Clarice 07/10/2006 at 18:23

    Raquel,
    Corajosa você, heim? Você pisa em barata?
    Felizmente não entra barata aqui em casa. Mas eu pego logo o inseticida e afogo se aparecer uma em minha frente. Pisar, nunca… jamais… Irk…

  • Clarice 07/10/2006 at 18:24

    Mas foi bom saber que alguém acha 1984 chato. Eu nunca consegui ler. Sempre pensei que era por que o livro é em inglês e o inglês do Orwell não combinava com o meu…. rsrs

  • Writing Ghosts 13/10/2006 at 02:26

    … então, de acordo com o que diz o Francisco Maciel lá em cima, os Beatles assim se chamam porque surgiram no subterrâneo (“Cavern Club”)…?

    curioso hiperlink histórico, esse!

    …vai saber (do que um ácido é capaz).

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