Começos inesquecíveis: Graham Greene

21/02/2007

Uma história não tem princípio nem fim: arbitrariamente, escolhe-se o momento vivido de onde se deve olhar para trás ou para a frente. Eu digo “escolhe-se” com o orgulho incorreto de um escritor profissional que tem sido elogiado – quando observado com seriedade – pela sua habilidade técnica, mas será que, de fato, escolho aquela noite escura e úmida de janeiro no Common, em 1946, a figura de Henry Miles atravessando, inclinada, o grande rio de chuva, ou são essas imagens que me escolhem? É conveniente e correto, segundo as regras do meu ofício, começar exatamente aqui, mas se eu tivesse acreditado então em um Deus, poderia também ter acreditado numa voz, sugerindo ao meu ouvido, “Fale com ele: ele ainda não viu você”.

Eis o começo do fim, ou melhor, de “Fim de caso” (Record, 2000, 3ª. edição, tradução de Léa Viveiros de Castro), romance lançado em 1951 pelo escritor inglês Graham Greene (1904-1991).

65 Comments

  • Saint-Clair Stockler 21/02/2007 at 20:33

    Belo começo. Nunca li um livro de G. G. – em parte porque minha cabeça tem a tendência a confundir Graham Greene com John Le Carré (sim, é sério). Por isso nunca li. Vi o filme feito a partir deste romance, com a maravilhosa Julianne Moore.

  • Clarice 21/02/2007 at 20:41

    Olá Saint-Clair,
    Adorei o começo. Mas não li nada dele.
    Saint-Clair, pior sou eu que confunde John le Carré com John dos Passos. Esta é de amargar e acho que serei proibida de frequentar o Blog mas é sério tb.

  • Saint-Clair Stockler 21/02/2007 at 20:47

    Welcome, Clarice!

  • Cláudio Soares 21/02/2007 at 20:50

    A história é uma leminiscata.

  • Saint-Clair Stockler 21/02/2007 at 22:04

    A história do livro do G.G. ou a História, com H maiúsculo? E em que sentido é a H/história uma leminiscata? Nietzscheanamente falando, pensei que ela(s) fosse(m) um círculo.

  • alvaro 21/02/2007 at 22:06

    Fui ao dicionário. Concordo.

  • Cláudio Soares 21/02/2007 at 23:00

    Retorna. Mas não retorna igual. Como uma tira de mobius.

  • João Marcos Cantarino 22/02/2007 at 00:42

    Não li este. O filme do Neil Jordan, com Ralph Fiennes e Julianne Moore, tem diálogos muito bons.

  • Pedro Curiango 22/02/2007 at 01:04

    LEMNISCATA

  • Éd Lascar 22/02/2007 at 09:39

    Hei! Este lance da lemniscata eu ignorava totalmente! Se bem que a idéia é do séc XV, mas creio quem aplicou o modelo de maneira mas esquemática na área religiosa-filosófica foi Pietro Ubaldi, que publicou uma série de 20 livros que desdobravam os conceitos d’ “A Grande Síntese”. A vida é concebida espiralmente ,em vários níveis -ou estados- da matéria-antimatéria- só que ao desenrolar desta nunca se está num mesmo ponto do espaço, então ela é única apesar de diferente. Retornando ao ponto de partida para um novo impulso para a conquista da perfeição.
    Desculpe as incorreções -e barateamento- do pensamento de Ubaldi, mas o cara foi cultíssimo, o que estou anos-luz de ser! Aliás, os primeiros trabalhos eram-lhe ditados pela entidade “A Voz”. Ele veio para o Brasil para se dedicar ao trabalho e morreu em no Hospital São José, de São Vicente. Se o São José é uma caca hoje, imaginem 40 anos atrás!

    Abs.

  • Éd Lascar 22/02/2007 at 10:01

    Tem este lance mediúnico também na digressão de Graham Greene. Isto deve assaltar os escritores, vira-e-mexe. Eu sei que assalta os médiuns, que não escapam as torturas da dúvida quando psicografam algo: “- Será que interferi de algum modo; será que isto é produção alienígena ou saiu de algum substrato de mim mesmo?! Coisas assim!

    Tem:
    -As Tábuas da Lei
    – o Alcorão
    -“Ainda que eu fale a língua..”
    -“A Doutrina Secreta”
    -“O Livro dos Mórmons”
    -A Obra de Chico Xavier

    Todas obras ,se não ditadas, aparentemente alienígenas.

    Há casos de escritores que divulgam estas dúvidas, que eu me lembre é o caso d”A Cabana do Pai Tomás” e obras de intersecção entre as duas produções como o término do livro inacabado de Charles Dickens, o Mistério de Edwin Drood. Dickens ,surpreendido pelo Mr.Reaper deixou o romance na metade , o que foi retomado por um simpleton do meio-oeste americano no exato ponto em que parou. O resultado foi impressionante.

    Abs.

  • Jonas 22/02/2007 at 10:46

    O Greene é muito bom.

  • nad 22/02/2007 at 10:57

    Acabo de ler “O Terceiro Homem”, escrito para o cinema, mas muito bom. Ali, ele também usa a metalinguagem. Aliás, o protagonista é um escritor de romances de faroeste, destes vendidos em bancas de jornais, e isto é motivo de várias brincadeiras ao longo da história.

  • nad 22/02/2007 at 10:59

    Saint-Clair, você não confunde Graham Green com John Le Carré à toa. O primeiro é inspiração declarada do segundo, que o emula tanto em estilo quanto nos temas que aborda. Mas não significa que o Le Carré é um pastiche, pelo contrário: é muito bom. Mas alguns romances dele, como O Alfaiate do Panamá, são evocativos de outro do Greene, como Nosso Homem em Havana e Um Lobo Solitário.

  • Cláudio Soares 22/02/2007 at 11:42

    Ed, o que vc comenta faz muito sentido. Se a ignicao vem do mediunico ou do subconsciente nao sabemos. Guimaraes Rosa fala sobre essa experiencia (relaciona-a a mediunidade) ao escrever GS:V. Inclusive, ele termina o livro com um simbolo de infinito (tem o formato de uma curva lemniscata). Eu lancei um livro recentemente em que determinadas passagens me pareciam ditadas (acho que muitos escritores passam por isso). Uma das que mais me intrigam fala da ligacao que escritores tem com outros escritores do passado, mais ou menos assim: “E escrevendo meus pensamentos, tambem comunicava-me com meus autores, pois se somos histórias contadas pelo sonho de outros que nos sonham e nos contam da mesma forma que sonho e conto minhas histórias é possivel que possa me comunicar com esses sonhadores atraves desses sonhos lucidos, ou seja, através da literatura.” Borges fala disso, Cortazar, Rosa, Alencar, uma lista grande. Forte abraco!

  • Tibor Moricz 22/02/2007 at 12:31

    É bastante comum uma história tomar as rédeas de sua própria evolução, sair correndo à nossa frente, disparada, a nos deixar lá atrás, esbaforidos, com a língua pra fora, numa tentativa infrutífera de alcançá-la. Mediunidade? Um espírito brincalhão a nos pregar uma peça? Prefiro acreditar que a própria história tem força suficiente para isso e se liberta de nosso jugo com o objetivo de dar credibilidade a si mesma. A permanecer sob nosso controle, acabaria como uma historiazinha medíocre, sem nenhum futuro.

  • Cláudio Soares 22/02/2007 at 12:49

    tlvz (ou certamente) algo q ja esteja no subconsciente? (abrindo-se as portas da percepcao – nao necessariamente com mescalina ou afins :)

  • Clarice 22/02/2007 at 13:05

    Cláudio Soares,
    Visitei o teu Blog e achei o texto não publicado do Rayuela. Adorei.
    Só não concordo com o poema IF do R. Kipling. Este poema foi traduzido e rolou pelo mundo afora. Tinha cópia dele em barbearias, consultórios médicos, amigos mandavam um para outro que o troço com uma frequência que o poema perdeu toda a força.
    O José Paulo Paes fez a seguinte paráfrase:

    Kipling Revisitado
    se etc
    se etc
    se etc
    se etc
    se etc
    se etc
    se etc

    serás um teorema
    meu filho

  • Tibor Moricz 22/02/2007 at 13:09

    Não necessariamente com mescalina ou afins…

  • Clarice 22/02/2007 at 13:11

    Segue o Blog que tem muito material de pesquisa dos latino-americanos e isto nunca é demais.
    Estou é com uma dúvida
    Saint-Claiiiiiiirrrrrr,
    Você já leu o Carlos Ruiz Zafón? Ganhei “A Sombra do Vento”, traduzido em num sei quantas línguas e com o seguinte aval:
    “Uma obra ambiciosa, capaz de conjugar os mais variados estilos sem perder por um segundo seu poder de fascinação.” -Qué Leer

    “A Sombra do Vento anuncia um fenômeno da literatura espanhola.”
    -La Vanguardia

    Com estas referências eu estou com muita vontade de trocar o livro.
    “fenômeno da literatura”
    Faltou o “assombroso”, mas nem tudo é perfeito.

  • Antônio Augusto 22/02/2007 at 13:28

    Graham Greene, dá prazer ler todos os seus romances, seus livros de memórias.
    Livros que por qualquer razão não esqueci, mas há mais, muito mais: “O cônsul honorário”, “O fator humano”, e meu preferido, “Um lobo solitário”. Sua autobiografia, cujo título esqueci, está entre o melhor da sua obra. Pena que a Record, sua editora no Brasil, se descuida tanto do que publica, até mesmo dos bons autores.
    Ao ler Greene, temos garantidas diversão, emoção e maior conhecimento da vida.

  • fat james 22/02/2007 at 15:56

    Concordo com o Antônio Augusto, sem esquecer de “Nosso homem em Havana”, um dos melhores livros do Graham Greene.

  • fat james 22/02/2007 at 16:00

    Clarice: genial a paráfrase do José Paulo Paes. Vou guardar.

  • Cezar Santos 22/02/2007 at 16:10

    Fim de caso é um dos melhores do Greene. Mas discordo do Antonio Augusto, de que todos os livros do Greene são bons… Ele tem umas porcarias, francamente caça-níqueis.
    A confusão com o Carré é normal, eu também tinha isso quando comecei a ler as obras deles, na adolescência.
    Quanto ao filme, é muito bom, um dos poucos feitos a partir de livro que não fica devendo… aliás, o Neil Jordan é
    um dos melhores diretores atualmente. Agora, me desculpem a ignorância, mas acho que tô meio boiando nessa de “leminiscata” que o Saint-Clair falou sobre o romance do GG…. como diria o finado meu pai, o que tem a ver o cu com as calças?

  • Cezar Santos 22/02/2007 at 16:12

    Sim, porque Fim de caso é uma história passada durante a Segunda Guerra, com início, meio e fim… não tem nada de “leminiscata”, pelo menos não no compreensão lógica do enredo…enfim…

  • Tibor Moricz 22/02/2007 at 16:14

    O Pedro Curiango já corrigiu lá em cima, é LEMNISCATA.

  • Saint-Clair Stockler 22/02/2007 at 16:47

    É. O Pedro Curiango deve ser revisor de alguma editora.

  • Saint-Clair Stockler 22/02/2007 at 16:51

    Clarice. Ôxi! Nunca li nada desse cara, não. Aliás, nunca nem tinha ouvido falar antes. Literatura em língua espanhola, prefiro a argentina (mas não sejamos rigídios demais, que nem cadávares, hahaha).

    Aliás: Clarice, você já reparou como a literatura européia, de um modo geral, anda meio anêmica? Pois é: nada de grandioso. Aparece um ou outro autor que se destaca (Inglaterra: Ian McEwan; França: Michel Houellebecq, que os franceses sacanas chamam de “Michel Où est le bec?”, hahahaha; das outras literaturas européias não conheço o suficiente pra citar exemplos), mas se compararmos com o que ocorria há 100 anos atrás, a literatura européia atual é uma pálida fulguraçãozinha.

  • Clarice 22/02/2007 at 18:50

    O Éd finalmente entendeu o Blog. Uffa, que alívio.
    Leminiscata? Eu lá sabia que existia isto!
    Pensei que fosse coisa do Paulo Leminski.
    Ubaldi? Hoje o dia rendeu por aqui.
    Fat James, incrível o José Paulo Paes. Ele

    Saint-Clair,
    Ainda bem que você, que é estusiasmado com todas as literaturas – você sabe que é raro, no meio literário mesmo, uma pessoa que se dedique a ler como você e não a eleger seu paideuma e estudar o resto da vida suas obras. Isto te enriquece muito. Você fez graduação em Letras tb? Na minha época era impressionante como se teorizava e se lia pouco. Você deve ver isto ainda lá na UERJ.
    Mas então, vir de você que a europa está anêmica me deixa aliviada. Aliás a europa está anêmica é de cultura em geral. Os pensadores tem um na Polônia outro na Itália, outro alí e outro acolá. Mas falta uma certa cultura do pensar.
    A música também anda mal.
    Sei lá. Eu acho os tempos atuais muito esquisitos. Será que estou velha?

  • Mauro Castro 22/02/2007 at 19:00

    É o caso do livro “Taxitramas”, do taxista, músico, desenhista e blogueiro Mauro Castro. Suas crônicas de uma página cada, que já são publicadas no jornal “Diário Gaúcho”, têm o sabor dos “causos” bem narrados. Sucinto e irônico, na melhor tradição da narrativa gaúcha, é um daqueles livros bons, difíceis de largar antes da última página.

  • Clarice 22/02/2007 at 19:17

    É isto Cláudio. O final com o símbolo do infinito do Guimarães Rosa. Eu aprendi nas aulas de física na adolescência e sempre me fascinou. Quando vi no Guimarães, imagine.

    Mas então Saint-Clair,
    eu dei uma lida sem abrir o livro totalmente e parece que é bom o tal do Ruiz Zafón. Não é por que está em lista de melhores que a gente vai desprezar, né?
    O começo é um menino que descobre um livro de um autor cuja obra vem sendo destruída não se sabe como nem por quem.
    Promete. Vamos ver.

  • Clarice 22/02/2007 at 19:22

    Esqueci: para quem tem filhos sobrinhos estas coisas: “A Terra dos Meninos Pelados” do Graciliano Ramos. É muito bom. Deu aula com ele há muitos anos e as crianças adoraram.
    A cabeça é que é careca, antes que pensem mal.

  • Éd Lascar 22/02/2007 at 19:45

    É, Clarice, sempre aprendo por aqui! Eu pensava que Lemniscata era personagem do desenho “O Rei Leão”!!

    Hakuna matata, ou coisa assim! Parente do Obladi-Obladá!

    Ahahah (inside joke aqui, desculpem os outros participantes)!!!

  • Cláudio Soares 22/02/2007 at 20:31

    Lemniscata é uma “idéia-arcabouço” interessante para se desenvolver uma história. No meu romance (Santos-Dumont Número 8), veja como funciona: a história tem um fluxo sequencial e outro hipertextual (os fãs de Rayuela, podem ter uma noção do que isso significa, mas adianto que procurei expandir o conceito de Cortázar, que expandiu Macedônio, etc…). Assim, a história (que se repete ou, como prefiro, se explica melhor) não é mais circular. A releitura (no sentido dado por Roland Barthes) salva, literalmente, o texto da repetição. É mais ou menos isso. Clarice: obrigado pela visita à “Última Biblioteca” (dê uma olhada na seção de vídeos, tem links para entrevistas de Borges, Onetti, Cortázar, entre outros). Inclusive, a vc que gosta de literatura latino-americana, confesso que devo o nome do blog à inspiração que me foi dada por Borges e Piglia. Sobre Kipling: apesar de meio “batido” :-), acho o poema IF ainda pode ser considerado uma grande lição de vida (claro, se depois dos vários “Ses”, obtivermos sucesso no resultado final, comprovamos que o poema também é um teorema :-)

  • Saint-Clair Stockler 22/02/2007 at 22:43

    Clarice: para o bem e para o mal, sou cria da Uerj: graduação em português-francês (depois de um pequeno período fazendo grego clássico), mestrado agora em brasileira. E, pelo andar da carruagem, doutorado por lá mesmo…

    Antes de entrar pra Academia, eu já era um grande leitor. Graças aos deuses nunca deixei que os preconceitos e imposições acadêmicas me amputassem (a imagem é bem essa: vejo um bando de gente amputada por aí). Sou, dentro de folgados limites, uma alma livre. É claro – e você, mais do que ninguém por aqui, sabe disso -, vezenquando sou obrigado a pagar o preço da minha “audácia”. Os “deuses do Olimpo acadêmico” costumam punir aqueles que não prestam a devida homenagem às suas mesquinharias… Mas eu pago alegremente o óbolo ao barqueiro e, cantando e semeando, sigo de mãos dadas com o meu amado Luciano de Samosata – que foi padrinho de Machado de Assis, imagina você!

    (aliás, como sempre, tenho uma história sobre isso: eu lia Machado de Assis e cismava, dizendo: “Esse cara deve ter lido Luciano de Samosata! Duvido que não. Ao menos ‘O diálogo dos mortos’. Não é possível”. Procurei referências à influência do Luciano na obra do Machado e nunca encontrei – seja porque não procurei direito, seja porque não havia mesmo. Mas pra mim, era pra lá de certa essa influência, apesar de não haver comprovação. Daí, um dia, fui numa visita cantada à casa de Machado de Assis (a cantora era nada menos que a grande Itamara Koorax), e qual não é a minha surpresa ao ser “apresentado” ao armário de livros de machado de Assis, uma edição em francês de… sim, ele… Luciano de Samosata! Naquele dia, juro, apesar dos meus 1,85m e 125 quilos, eu quase chorei que nem um bebê. Me senti ganhando um troféu: “A-ha, eu sabia!”. Voltei pra casa leve que nem um passarinho. Fim da história)

    P.s.: e antes que algum Pedro Curiango da vida venha corrigir a minha ortografia, esclareço dizendo que há duas grafias: Samósata e Samosata. Eu, por questões que só Herr Freud explicaria, prefiro a segunda.

  • Cláudio Soares 23/02/2007 at 01:56

    Saint-Clair: acredito que é esse tipo de intuição, insight,conexão (dos quais vc dá o seu testemunho) que faz a literatura tão divertida (para um determinado grupo de leitores). Ao lermos um livro, procuramos algo mais, o tesouro escondido nas entrelinhas. Podemos um dia cair na crítica literária? É possível. Mas, tb pode ser que não, por que o caminho já se faz ao caminhar-se (não é?). Eu tenho uma desconfiança parecida ligando Guimarães Rosa e Cortázar. Isso é natural. Nestes primeiros dias de fevereiro de 2007 me encontro lendo Lovecraft por causa de um conto de Borges. Seguindo a genealogia já cheguei em Hoffman. Seguindo por Cortázar, passando por Verne e Allan Poe chego lá tb. É um jogo (histórico) muito divertido. Acho que isso tb pode ser chamado de “literaturar”. Não me esqueço de um poster muito interessante que vi na Maison de France, consulado da França, aqui no Rio, com a genealogia da literatura francesa. No fundo, todos se comunicam mesmo, são todos da mesma família (até quando supostamente não um não gosta do trabalho do outro, como o caso de Borges em relação a Lovecraft – quer saber a minha opinião? Duvido!). Forte abraço!

  • Cláudio Soares 23/02/2007 at 02:01

    Sérgio e demais colegas de blog: lendo o comentário da Clarice sobre o livro do Ruiz Zafón (e por experiência própria), lanço uma questão: escrever sobre o escrever é o futuro do escrever?

  • Clarice 23/02/2007 at 06:40

    Éd, mas este menino!

    Cláudio,
    Deve ser muito legal o teu livro. O número 8 tem a ver com o símbolo de infinito pois é sua forma na horizontal?
    Depois eu vou lá pesquisar as entrevistas. Tenho algumas leituras do Cortázar de seus contos mais breves e alguns depoimentos. Um é muito engraçado em que ele diz que trabalhava em 1951 como tradutor simultâneo das “Atualités Françaises” e diz que a sua pronúncia do espanhol consternaria a qualquer fonólogo. Teve uma vez em que ele teve de traduzir uma luta de boxe e se entusiasmou de tal maneira com as imagens que ninguém entendeu nada. O México mandou uma carta dizendo que se não botassem na rua o tradutor eles iam embora. Parece que os argentinos também não entenderam lá muito o espanhol do Cortázar.:o)
    O IF quando eu era adolescente li e achei legal. Até que meu pai me explicou que o poema era manjado demais. Depois dei com o Paes. Nunca mais consegui ler o poema sériamente.

    Saint-Clair,
    Eudaimonia! Grego clássico foi uma tortura de um ano que suportamos e colamos muito na prova. Infelizmente o ensino de Grego e Latim na UFRJ de minha época fazia qualquer um querer matar as aulas (confesso que matei muitas e todos mudamos de classe para a de um professor que nas provas ficava lendo, olhando pro teto, saía da sala, sabe-se lá por que motivo. Acho que ele achava absurdo aquilo também.
    Sei muito bem o preço da audácia. Tive de refazer um trabalho de uma optativa por causa dela e outros probleminhas.
    Você poderia ter chorado diante do exemplar do Luciano de Samosata na biblioteca do Machado. Hoje em dia o celular nos permite tudo. Era só dizer que recebeu um telefonema com uma notícia muito ruim. “-Mas o que foi que aconteceu.” “-Algo tão terrível que prefiro calar.” e seguia chorando.

    Cláudio,
    Escrever sobre o escrever é mais uma maneira de escrever.(ficou maus mas vá lá) Acho que não podemos dizer que só se escreverá assim.
    Quanto ao “literaturar”:
    “-Trata-se de uma citação? – perguntei.
    -Certamente. Restam apenas citações. A língua é um sistema de citações.” Borges

  • Cláudio Soares 23/02/2007 at 11:46

    O 8, no livro, representa o que está lá e muitas vezes não é visto. Tem forte ligação com o símbolo do infinito. “Historicamente”, o SD8 foi a invenção que Santos-Dumont nunca divulgou (ele criou do Santos-Dumont 1 ao 22, sendo que do 7 pulou para o 9 e para o 14 criou um “bis”). Duas frases de Marc Bloch, historiador francês, nortearam a escrita do livro: “o conhecimento do passado é uma estrutura em progresso” e “as causas não devem ser postuladas e sim buscadas”. Por isso a história é centrada em um estudante de história (Abayomi) e não exatamente em Santos-Dumont. “Literaturar” foi invenção do meu cansaço mesmo (viu a hora que postei? :-). Mas o “escrever sobre o escrever…” é de Haroldo de Campos. Sobre o “eterno retorno” da H(h)istória x lemniscata: ontem fiquei com o meu filho acordado até às 3 da manhã (acreditem) para assistir ao último capítulo da série The O.C. (“The Orange County”, vcs já devem ter assistido por aí), que passou ontem nos EUA (assisti pelo site da KTVU/FOX, de Oakland, CA – broadcast de excelente qualidade). Pois, o final do seriado foi exatamente nos moldes do que conversávamos aqui ontem. Uma volta ao começo, o retorno ao início de tudo, mas com uma mudança de papéis, o personagem principal (Ryan Atwood) agora mudava de posição e não era mais o observado, mas o observador. Dá ao expectador uma idéia de como expandir por conta própria a história (pois a série foi encerrada). Sobre Machado: quem quiser fotos do espaço Machado de Assis (escrivaninha, cadeira, etc…) na ABL, me avise que eu envio por e-mail.

  • Cláudio Soares 23/02/2007 at 11:55

    Um pouco “off topic” mas nem tanto: Para quem gosta de filmes de mistério, suspense, terror, estréia hoje nos EUA “The Number 23” com Jim Carrey. Curiosidade: em “Santos-Dumont Número 8” falo muito sobre Superstições. Existem um capítulo no livro exclusivamente sobre ocorrências do número 23 na “natureza” (relaciono o número tb com o 2 elevado ao cubo, ou seja, 8). Parece que o filme vai estender esse tema, notabilizado pelo escritor William S. Burroughs como “the 23 enigma”. Deve ser uma boa diversão para quem gosta do gênero. Abs.

  • Rafael 23/02/2007 at 12:21

    Saint Claire,

    No “Dom Casmurro”, há um capítulo em que Machado de Assis alude diretamente a Luciano de Samósata. É o capítulo LXIV (“Uma idéia e um escrúpulo”), do qual cito o seguinte trecho:

    “Antes de concluir este Capítulo, fui à janela indagar da noite por que razão os sonhos hão de ser assim tão tênues que se esgarçam ao menor abrir de olhos ou voltar de corpo, e não continuam mais A noite não me respondeu logo. Estava deliciosamente bela, os morros palejavam de luar e o espaço morria de silêncio. Como eu insistisse, declarou-me que os sonhos já não pertencem à sua jurisdição Quando eles moravam na ilha que Luciano lhes deu, onde ela tinha o seu palácio, e donde os fazia sair com as suas caras de vária feição, dar-me-ia explicações possíveis. Mas os tempos mudaram tudo.”

    Deixe-me destacar a alusão a Luciano: “Quando eles moravam na ilha que Luciano lhes deu (…)”.

    Luciano de Samósata deixou, entre outros, um livro chamado “História Verdadeira” no qual, se me lembro bem, relata uma viagem fantástica à Lua e uma jornada conduzida por uma baleia e pela qual alcançou um mar feito de leite e uma ilha, a ilha dos abençoados, onde moravam diversos personagens mitológicos. Essa ilha, parece-me, é a ilha onde os sonhos exerceriam sua jurisdição, segundo Machado, prova de que o escritor carioca havia lido mesmo Luciano de Samósata.

  • Saint-Clair Stockler 23/02/2007 at 13:05

    É Rafael: o Luciano pode ser considerado, com um pouco de boa-vontade, como um dos precursores da Ficção Científica com aquela sua viagem à Lua.

  • Tibor Moricz 23/02/2007 at 13:15

    Quem veio primeiro? Luciano ou Verne?

  • Rafael 23/02/2007 at 13:19

    Luciano antecede Verne, pelo menos, dezenove séculos. Ele viveu, segundo o verbete na Wikipedia (fonte não muito confiável, mas à mão), entre os anos 120 e 180 D.C.

    Digamos que, naquela época, o tatatatatatatatatatatatatatataravó de Júlio Verne ensaiava os primeiros passos…

  • Tibor Moricz 23/02/2007 at 13:23

    Puxa vida… uma viagem à Lua escrita nos idos de 180? Esse cara era um iluminado. E depois dizem que as primeiras obras de ficção científica começaram de fato no século XIX…

  • Rafael 23/02/2007 at 13:31

    Em realidade, Tibor, não se trata propriamente de ficção científica pela simples razão de que, no Século I, a idéia de ciência, como a concebemos modernamente, não existia. O propósito de Luciano era essencialmente satírico, assim como era o do seu grande sucessor, Jonathan Swift. A viagem à lua narrada por Luciano não era resultado da técnica do homem, do avanço da ciência. A lua, na obra de Luciano, é antes um lugar mitológico, que se alcança navegando através dos marés.

    A contribuição de Júlio Verne é explorar, pela ficção, os possíveis acontecimentos que adviriam com o desenvolvimento da técnica: a invenção do submarino, por exemplo. Júlio Verne, seguido depois por H. G. Wells, vislumbrava as aventuras que o homem viveria graças à invenção de máquinas. Luciano não tinha essa preocupação…

  • Tibor Moricz 23/02/2007 at 13:45

    Rafael,
    Concordo que não podemos chamar a obra de Luciano como ficção científica pelo simples fato de que ciência naquela época se restringia a como prender uma roda numa carroça sem precisar de quatro pregos. Mas, não podemos ignorar que uma viagem à Lua, seja motivada por propósitos satíricos ou não, exige um exercício considerável de imaginação. Continua sendo uma viagem à Lua, independentemente da forma como ela é feita, seja num barco singrando os mares, seja num foguete.
    Se, por um lado, Júlio Verne escreveu ficção científica apoiando-se em desenvolvimento de técnicas científicas modernas (na época), sua viagem à Lua é tão fantástica e (quase) inverossímil quanto a de Luciano. Nesse sentido ambos eram ficcionistas admiráveis, descontado o termo “científico” da ficção.
    A meu ver, fora a ingenuidade de Luciano e de sua época, seu trabalho é um precursor da ficção científica, podendo até ser incluída nela. É difícil para alguém que desconhece ciência (como a conhecemos) escrever sobre ela. Ele usa então alegorias que a ele parecem suficientes para exprimir o seu conceito.
    Posso até estar errado, mas, by the way, é o que eu penso.

  • Cláudio Soares 23/02/2007 at 14:48

    Sérgio e galera: o bom desse blog é que ao mesmo tempo que se troca uma idéia, a gente aprende e muito. Parabéns a todos pelas ótimas informações postadas. Já estou aprendendo (e me interessando) pela obra de Luciano de Samósata (dos primordios da genealogia literaria de Verne e Assis, pelo que vejo :-) Info: observei que o Project Gutenberg disponibiliza algumas obras dele.

  • Carlos André Moreira 23/02/2007 at 16:14

    Ainda no quesito Viagem à Lua, não esquecer o escritor Savinien Cyrano de Bergerac (o personagem real, que viveu no século 18 e que inspirou a criatura de Edmond Rostand, conforme nos lembra Ítalo Calvino no “Por que Ler os Clássicos”). Savinien escreveu um poema imaginando sete maneiras fantásticas de se viajar à lua, tema que inclusive é citado pelo próprio Cyrano na peça de Rostand, na cena em que, com a narrativa de seus métodos de viagem à lua, ele atrasa o pretendente de Roxanne dando tempo a ela de casar com o belo amigo do audaz espadachim. Grande abraço a todos.

  • Carlos André Moreira 23/02/2007 at 16:32

    Correção: “viveu no século 17”.

  • Cezar Santos 23/02/2007 at 16:55

    Puxa, Saint-Clair,
    O Rafael desmontou o “achado” que tu pensava ter sido uma grande sacada tua com o Samósata/Machado… ele mostrou que o lance está claro, explícito e evidente dentro de um dos livros mais conhecidos do Machadão.
    Não estou falando isso pra lhe diminuir, não me entenda mal…
    Acredito que vc leu aquele trecho e a alusão sobre o Luciano ficou na sua cabeça. Depois, vc “linkou” diretamente em alguma leitura do Luciano e, como não se lembrava da alusão no livro do Machado, ficou achando que era uma “sacada” sua… A literatura tem disso e muitos plágios são cometidos dentro dessa lógica… um autor descreve situações e mesmo histórias sem se lembrar que já tinha visto aquilo antes. Embora tenha os espertalhões, que fazem de má-fé mesmo.

  • Rafael 23/02/2007 at 17:04

    Tibor,

    Para mim, o Luciano foi não propriamente o precursor da ficção científica e sim o criador de certas, digamos assim, “imagens” que compõem parte do imaginário explorado pelos autores de ficção científica.

    Por falar em viagem à lua, para mim, a mais engenhosa (e divertida) que há na literatura está no engraçadíssimo livro “As Aventuras do Barão de Munchausen”, coleção de histórias narradas por um mentiroso incorrigível e publicadas no final do século XVIII. Faz tempo que li o livro, mas nunca me esqueço da maneira como desceu de volta à terra: com dois pedaços de corda; ele descia por uma; quando chegava à ponta, pegava a outra e a amarrava na ponta da que terminara; descia mais um pouco; desatava a que ficara em cima e a amarrava embaixo, e assim sucessivamente, até chegar ao chão.

    Muitos desenhos animados, um século e meio depois, se inspirariam nessa cena.

  • Clarice 23/02/2007 at 17:07

    Cezar, pois eu jamais ia sacar esta mensagem aí do Machado sobre o Luciano. Aliás, eu nunca li o Luciano.
    Este post foi muito bom.

  • Clarice 23/02/2007 at 17:10

    Oba! Tem Luciano de graça no Gutemberg!
    Obrigada Cláudio.

  • Rafael 23/02/2007 at 17:28

    A propósito, quem quiser ler (ou reler) as “Aventuras do Barão de Munchausen”, a versão integral (em inglês, claro) pode ser encontrada aqui neste endereço: http://bulfinch.englishatheist.org/baron/Baron.html

    Salvo talvez o “Dom Quixote”, não conheço outro livro que seja tão engraçado.

  • Cezar Santos 23/02/2007 at 17:47

    Clarice, eu também nunca li o Luciano Samósata… pelo menos não que eu me lembre, por que na infância/adolescência eu li coisas que nem me lembro mais, lógico…e se o cara tem essas coisas de viagem à lua, sei lá, eu lia muito disso quando criança, então, quem sabe?
    Mas vou atrás agora…

  • Saint-Clair Stockler 23/02/2007 at 17:55

    Não, Cezar: se bem me lembro, li o romance do Machado DEPOIS de ter tido o insight sobre o Luciano. Eu tive um problema muito sério com o “D. Casmurro”: era um romance que eu não gostava de jeito nenhum. Tentei várias vezes lê-lo e não passava do terceiro ou quarto capítulo. Até que um dia as dificuldades sumiram e eu me deslumbrei. Cada livro tem sua hora de ser lido. A do “D. Casmurro” comigo demorou a chegar…

  • Saint-Clair Stockler 23/02/2007 at 18:05

    Clarice, Cezar: tentem ler “O diálogo dos mortos”, do Luciano. É maravilhoso.

    Aliás, temos algumas noções que não correspondem bem à realidade: todo mundo está cansado de saber que o “romance” foi inventado no século XIX, certo? Mais ou menos… os antigos gregos já tinham obras literárias que se aproximavam MUITO do que veio a ser chamado “romance” no século XIX. O próprio Luciano de Samosata chegou a escrever alguns. Eram mais parecidos com folhetins (o que não quer dizer nada, um folhetim é um romance), muito movimentados e cheios de peripécias. Em geral os títulos eram os nomes dos protagonistas.

    Aqui estão disponíveis as “Complet Works” do Luciano:

    http://www.sacred-texts.com/cla/luc/fowl/index.htm

  • Cezar Santos 23/02/2007 at 18:15

    Brigadu, Saint-Clair…
    Cara, uma rapida pesquisinha por aqui, nos ultimos 10 minutos…
    Me ficou claro que o Machado teria lido o cara, mesmo por que ele lia em francês e em inglês…então ele tinha acesso à literatura do Luciano que chegava de Portugal e da França e Inglaterra mesmo. Além disso, o Samosata era um satirista, um dos tipos de literatura predileta do Machadão…
    Saint-Clair, a tese de influência do Samosata sobre o Machado já é estudada há um bom tempo (A poética do hipocentauro, de Jacyntho Lins Brandão, Editora UFMG), dentro da chamada tradição luciânica…
    Cara, esse lance de literatura é o maior barato mesmo…

  • Rafael 23/02/2007 at 18:15

    A noção de que o romance foi inventado no século XIX é absurda. Cito vários livros que são romances e foram escritos muito antes: “Tirant lo Blanc” (séc. XV), “D. Quixote” (Séc. XVII), “Henry Fielding” (Séc. XVIII), “Moll Flanders” (Séc. XVII), “Ligações Perigosas” (Séc. XVIII), “Werther” (Séc. XVIII), “Afinidades Eletivas” (Séc. XVIII).

    O século XIX apenas vulgarizou esse gênero literário.

  • Saint-Clair Stockler 23/02/2007 at 18:46

    É verdade, Rafael, mas eu não vejo muita gente remontando as origens do romance até os antigos Gregos…

  • Cláudio Soares 23/02/2007 at 19:18

    pois é, fica-se mais ali pela França, séc XIX.

  • Antônio Augusto 23/02/2007 at 20:34

    Poxa, esqueci de “O americano tranqüilo”, talvez o romance mais premonitório do século XX.

  • Clarice 23/02/2007 at 20:50

    Ninguém quer sair daqui:o) O papo tá muito bom.
    Cezar,
    eu, ao contrário, lembro de todos os livros que li na adolescência. Até do “Servidão Humana” do Somerset Maugham que hoje não consigo reler. E vamos ler o Luciano que já está pegando mal para o nosso lado. Tá todo o mundo discutindo e a gente está boiando. E vai ver que você leu e não sabe.
    “Cara, esse lance de literatura é o maior barato mesmo…”, estou morrendo de rir . Desde que você não faça Faculdade de Letras ou seja assim como o Saint-Clair. A tal da “ousadia” que ele tem que significa não prestar muito atenção nas aulas entre outras façanhas.

    Saint-Clair,
    Eu tinha quase certeza que o teu presságio e descoberta era sem saber da passagem. Eu também não li Machado na adolescência. Uma vez fui dormir na casa de uma tia peguei um livro e li “Dom Casmurro”. Eu me lembro de pensar: “O que é Casmurro? Não tem cara de ser algo muito bom não. Mas este livro parece bom mas eu não vou entender nada. Vou ter que ler mais tarde.”
    E quem diria que eu ia me graduar em “Literaturas”:o)

    Achei o Diálogo dos Mortos no site que você indicou no endereço
    http://www.sacred- exts.com/cla/luc/wl1/wl146.htm

  • Pedro Curiango 24/02/2007 at 00:49

    A idéia de que o romance seja um gênero literário moderno (sec XVIII) foi problema levantado pela crítica inglesa. Acontece que, em inglês, há duas palavras – “romance” e “novel” para designar gêneros próximos mas não iguais. O “romance” é uma “narrativa fictícia na qual o cenário e os acontecimentos estão muito distantes daqueles que existem na vida comum, e a palavra é usada principalmente para certo tipo de obras em prosa de ficção dos séculos XVI e XVII, nas quais a história é cheia de digressões intermináveis” (definição adaptada de dicionários ingleses)
    Os espanhóis chamavam este gênero “novela bizantina” e Cervantes, depois de ter escrito o “Dom Quixote,” escreveu outra obra-prima, “Os Trabalhos de Persiles e Segismunda” (que, dizem alguns biógrafos, era sua preferida!), que pode ser usado como exemplar do gênero. No Brasil, temos um “romance” deste tipo: “Máximas de Virtude e Formosura com que Diófanes, Climena e Hemirena, Príncipes de Tebas, Venceram os mais Apertados Lances da Desgraça” [1752], de autoria de uma mulher, a paulista Teresa Margarida da Silva e Orta [irmã daquele Matias Aires que escreveu um tratado sobre a Vaidade]. Poucos anos atrás este livro foi reimpresso, com modificações meio bárbaras, que atingiram até o nome dos personagens. Trata-se do PRIMEIRO romance brasileiro e merecia melhor sorte! Dizia-se “bizantina” porque o gênero era claramente ligado aos chamados “romances gregos.”
    Ao mesmo tempo, os críticos ingleses acham que o gênero “novel,” embora incorpore algumas coisas do “romance,” é verdadeiamente uma invenção do século XVIII. Seu aparecimento estaria diretamente ligado ao desenvolvimento de uma economia capitalista, e “Robinson Crusoe” seria a primeira obra que já tem todas as características do gênero. Metaforicamente, “novel” é uma forma de captação de riqueza, já que, como a ópera no mundo musical, procura usar de elementos de todos os outros gêneros literários. Em miúdos: “romance” trata do improvável imaginativo; “novel” é gênero cimentado em fatos do mundo real e nas leis de probabilidade [ainda de dicionários ingleses).
    Não vale a pena querer adaptar a dupla portuguesa “romance/novela” a este sistema inglês, já que a nossa “novela” considera outros elementos (como extensão, por exemplo) e se aproxima mais do italiano de Bocaccio. Mas isto já é outra história como diria o de Samósata (que também escreveu um tratado sobre como escrever História, de que existe tradução portuguesa).

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