Começos inesquecíveis: J.M. Coetzee

03/03/2007

Para um homem de sua idade, cinqüenta e dois, divorciado, ele tinha, em sua opinião, resolvido muito bem o problema de sexo. Nas tardes de quinta-feira, vai de carro até Green Point. Pontualmente às duas da tarde, toca a campainha da portaria do edifício Windsor Mansions, diz seu nome e entra. Soraya está esperando na porta do 113. Ele vai direto até o quarto, que cheira bem e tem luz suave, e tira a roupa. Soraya surge do banheiro, despe o roupão, escorrega para a cama ao lado dele. “Sentiu saudade de mim?”, ela pergunta. “Sinto saudade o tempo todo”, ele responde. Acaricia seu corpo marrom cor-de-mel, sem marcas de sol, deita-a, beija-lhe os seios, fazem amor.

E já que andamos falando do homem, vai aí o começo do tétrico romance “Desonra”, obra-prima do escritor sul-africano J.M. Coetzee (Companhia das Letras, 2a. edição, 2003, tradução de José Rubens Siqueira). O professor universitário David Lurie, personagem solitário, orgulhoso e triste, logo vai descobrir – a um preço alto – que não resolveu tão bem quanto imaginava “o problema de sexo”.

31 Comments

  • Eline 03/03/2007 at 09:06

    Na minha opinião, J.M.Coetzee é um dos grandes escritores de todos os tempos. Seu livro “Desonra” e “Reparação”, de Ian McEwan, pertencem à categoria dos clássicos universais.
    Eline

  • tibor moricz 03/03/2007 at 10:32

    Acaricia seu corpo marrom cor-de-mel, sem marcas de sol, deita-a, beija-lhe os seios, fazem amor.

    Cinqüenta e dois anos e ainda não aprendeu que beijar rapidamente os seios não é exatamente o que se espera de um amante experiente? Se depois disso o que restou foi “fazerem amor”, então não surpreende que os problemas sexuais do indigitado senhor (não li o livro, não sei seu nome) ainda não estivessem resolvidos. Provavelmente Coetzee sofre dos mesmos problemas. Ou a imaginação é que anda mal.

  • Jonas 03/03/2007 at 10:45

    Um dos livros mais perturbadores que já li. Aquela cena do estupro, Deus do céu.

  • Cezar Santos 03/03/2007 at 11:45

    Tibor…
    Essa disposição de ir “contra” é legal…
    Mas, o texto fala que foi rapidamente? Não, não fala, então vc concluiu ou inferiu…
    A descrição do Coetzee é sucinta, sumária, elíptica…ou seja, omite imagens, omite palavras… e o leitor então pode concluir (ou inferir) como melhor lhe aprouver.
    O diabo é que normalmente o leitor usa a própria experiência ou expecativa para fazer essas inferÊncias quando se depara com textos elípticos.
    Coetzee é um escritor muito bom mesmo. Sua obra, normalmente, inquieta o leitor. Acho que essa é a maior qualidade que um escritor pode ter, a capacidade de inquietar.

  • tibor moricz 03/03/2007 at 13:45

    Vamos lá… mesmo que não tenha sido rapidamente, o que você diria de um sujeito que ficou vários minutos ou até horas beijando os seios da amada? Teve que sacudir ela pra acordar, se não, não haveria sexo… Ô meu Deus… falta imaginação há mais gente além do Coetzee.

  • tibor moricz 03/03/2007 at 13:52

    Oi Cezar, tudo bem?
    O texto está lá, direto, objetivo. Uma ou duas palavras mais e tudo estaria resolvido.
    Com relação ao “rapidamente”, realmente não estava lá. Mas suponhamos que o senhor da história tenha ficado então vários minutos ou até horas beijando os seios da amada. Ele teria que acordá-la aos solavancos, se não, não haveria sexo.
    No mais, adoro essas palavrinhas como ‘elíptico’, ‘oblíquo’, que significam muito e não dizem absolutamente nada.

  • tibor moricz 03/03/2007 at 13:54

    Esqueça um dos dois comentários. A droga da observação falhou na primeira mas parece que foi só pra me enganar.
    Tive que repetir e ficou esse pastiche aí.

  • Roberson 03/03/2007 at 14:45

    Desculpe, Tibor, mas esse livro é fantástico. E não só por essa breve descrição. Leia o livro.

  • Clarice 03/03/2007 at 16:00

    meninos,
    Quem tem que se preocupar com o tempo é a Soraya. Você inventam cada motivo para discutir. Que coisa.

  • Sérgio Rodrigues 03/03/2007 at 17:02

    Essa discussao é engraçada. A Soraya é uma puta. O sexo que ela e o Lurie fazem é triste, tristíssimo. Não acho que o Coetzee pudesse ter deixado isso mais claro sem estragar o começo desse livro estupendo. No mais, só lendo.

  • Mr. Ghost(WRITER) 03/03/2007 at 17:14

    Sérgio, o que você disse está implícito no começo do começo…
    Ficou claro que Soraya é uma prostituta, garota de programa ou algo do gênero… então, sexo com ares românticos e grandes descrições da cena “amorosa” não são tão, digamos, necessários… até porque o ato em si, realizado com uma mulher de programa, não é bem o ideal de romantismo que se pode esperar de um livro de um autor como COetze…

  • Gregório 03/03/2007 at 17:15

    Concordo com o Sérgio. O sexo em Coetzee, ao meu ver, é sempre triste. E um pouco maquinal, como essa descrição, seca, objetiva, “eliptica” (boa palavra, de fato).

    Este parágrafo é um dos meus começos favoritos, também, acho perfeito. O personagem já está todo delineado aí.

  • Mr. Ghost(WRITER) 03/03/2007 at 17:22

    digo, Coetzee…

  • mausoleu 03/03/2007 at 17:51

    Nunca fiz sexo em Coetzee… Ainda bem, como a coisa é sempre triste, evitarei de ir para lá. Há tantos lugares bons para fazer sexo.

  • Gregório 03/03/2007 at 17:52

    Então, tá.

  • Paulo (outro Paulo) 03/03/2007 at 18:34

    Sérgio Rodrigues tá certo e o Tibor comete erro grosseiro de interpretação. A mulher é uma prostituta. Quem tem de demonstrar experiência é ela e não ele. A cena é de um realismo perfeito: homens não beijam prostitutas na boca, seria dar ao encontro um tom de romantismo totalmente incongruente com o seu caráter negocial.

  • Mr. Ghost(WRITER) 03/03/2007 at 19:52

    Paulo (outro Paulo),
    Na verdade são as prostitutas que não beijam na boca dos homens…
    As profissionais do sexo guardam este agrado para quando encontrarem o homem que amam, que esteja disposta a tirá-las da “vida”…
    Acredito que suprimindo o ato de beijar por livre e espontânea vontade, Coetzee deu um ar ainda mais baixo-astral a cena, além de dar um aspecto mais melancólico ao encontro dos personagens…

  • tibor moricz 03/03/2007 at 20:02

    Que bom ver que despertei a polêmica. Todos metendo o pau em mim. Que beleza. Que maravilha. Que surpreendente.
    Tá certo… ela é uma prostituta. Eita discussão babaca essa. Esqueçam tudo o que eu disse até agora. É sábado e nos sábados eu não funciono direito. O Tico e o Teco vão descansar em destinos diferentes. Gente, bom final de semana e até segunda-feira, revigorado, mais animado e menos propenso a falar besteiras.

  • Saint-Clair Stockler 03/03/2007 at 21:45

    Tibor, eu estou aqui bem quietinho, sem falar nada. De prostitutas eu não entendo porra nenhuma, desculpa o trocadilho. Ainda se fosse um michê…

  • Paulo (outro Paulo) 03/03/2007 at 21:50

    Ghost, eu jamais estive com uma prostituta, porque, nos dias que correm, convenhamos, a contraprestação sexual é a commodity que mais superabunda (sem trocadilho) no mercado, não se fazendo necessário pagar por ela. De qualquer modo, sua observação talvez seja verdadeira.

  • João Marcos Cantarino 04/03/2007 at 02:59

    Ia fazer um comentário sobre o nível elevado do moralismo aqui, mas percebi que seria moralismo demais da minha parte. Sobre o livro, é um bom romance, só não acho que seja um começo especialmente interessante. Nonada.

  • Mr. Ghost(WRITER) 04/03/2007 at 17:59

    Paulo (outro Paulo),
    ouvi essa história em um documentário, infelizmente já se faz um tempo desde que o vi, então fica meio difícil de lhe informar a fonte… mas era um bom documentário, esra sobre as ditas mulheres da vida, que segundo as mesmas, beijar na boca não é parte do ofício…
    Nunca perguntei a nenhuma se a regra é fato e nem tenho como comprovar se ela, a regra, se aplica a todas em qualquer lugar do mundo…
    Não tenho conhecimento de causa, até porque não estou muito disposto a pagar por sexo… há tanto por ai e de graça, como você mesmo disse

    A Carla Rodrigues ia adorar este post…

  • Jonas 04/03/2007 at 20:43

    A Carla provavelmente diria que há uma atitude de submissão na prostituta que se humilha a ponto de perguntar se o homem sente saudade. Mulher moderna não pode fazer isso, onde já se viu?

  • Abell Achtervolgd 04/03/2007 at 21:43

    gente, o Tibor nem fez um comentário tão ruim assim. Comparem os comentârios dele com o mausoleu por exemplo…

  • Hefestus 05/03/2007 at 14:12

    Que coisa…
    Achei o comentário do Mausoléu engraçadíssimo. Acho que vocês estão ficando muito sérios.

  • Roberto R. 05/03/2007 at 15:36

    Nunca uma caixa de comentários me divertiu tanto. O Coetzee é tão bom que até os detratores me ajudam a fazer o dia.

  • mausoléu 05/03/2007 at 17:57

    Como assim, “não resolveu tão bem quanto imaginava o problema de sexo”? Isso não faz sentido. Desde quando sexo é problema? Eu, heim…

  • Clarice 05/03/2007 at 18:13

    Ô mausoléu!
    Acorda. A escala de prazer tem várias pontuações. Maior do que a Escala Richter que vai até 9 como você sabe.

  • Abell Achtervolgd 05/03/2007 at 20:16

    apesar de eu não ser entendido do assunto(*vergonha*), pode haver muitos problemas no sexo mausoleu…

    Bem… falando sobre Cotezee, eu não li esse livro dele, mas eu li o primeiro capítulo inteiro que tem lá no site da Companhjia das Letras. Muito, mas muito bom mesmo…

  • Martin Froener 10/03/2007 at 18:55

    Pensei que você estivesse falando de “Memórias das minhas putas tristes”. Altere alguns pontos e terei pensado certo. Abraços.

  • tom paixão, bh 14/03/2007 at 13:10

    um homem de 52 anos indo fazer amor com uma prostituta, por mais gostosa que ela seja, por mais uisque que tenha ingerido, é sempre um ato triste.
    o “sentiu saudade?” dela é so um tópico de conversa.
    poderia ter dito “que calor, hein?”
    a vida é mais complexa que supõe a vã besterola comentarística bloguiana.

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