Começos inesquecíveis: Machado de Assis

03/09/2006

AO LEITOR

Que Stendhal confessasse haver escrito um de seus livros para cem leitores, cousa é que admira e consterna. O que não admira, nem provavelmente consternará é se este outro livro não tiver os cem leitores de Stendhal, nem cinqüenta, nem vinte, e quando muito, dez. Dez? Talvez cinco. Trata-se, na verdade, de uma obra difusa, na qual eu, Brás Cubas, se adotei a forma livre de um Sterne, ou de um Xavier de Maistre, não sei se lhe meti algumas rabugens de pessimismo. Pode ser. Obra de finado. Escrevi-a com a pena da galhofa e a tinta da melancolia, e não é difícil antever o que poderá sair desse conúbio. Acresce que a gente grave achará no livro umas aparências de puro romance, ao passo que a gente frívola não achará nele o seu romance usual; ei-lo aí fica privado da estima dos graves e do amor dos frívolos, que são as duas colunas máximas da opinião.

Mas eu ainda espero angariar as simpatias da opinião, e o primeiro remédio é fugir a um prólogo explícito e longo. O melhor prólogo é o que contém menos cousas, ou o que as diz de um jeito obscuro e truncado. Conseguintemente, evito contar o processo extraordinário que empreguei na composição destas Memórias, trabalhadas cá no outro mundo. Seria curioso, mas nimiamente extenso, e aliás desnecessário ao entendimento da obra. A obra em si mesma é tudo: se te agradar, fino leitor, pago-me da tarefa; se te não agradar, pago-te com um piparote, e adeus.

BRÁS CUBAS

Muita coisa começou com essas poucas linhas publicadas em março de 1880 na “Revista Brasileira”, e em livro no ano seguinte. A mais óbvia: começava o romance “Memórias póstumas de Brás Cubas” (Nova Aguilar, Obra completa, volume I, 1985), de Joaquim Maria Machado de Assis. Começava também, após uma longa doença e uma espécie de “crise dos 40” que o deixara nove meses afastado da imprensa, a segunda e genial fase da obra de Machado – uma ruptura espetacular com o romantismo de suas primeiras narrativas longas. Por fim tinha início, naquele mesmo momento, a tão ansiada maioridade da ficção brasileira, até então esforçada mas capenga, periférica, quase sempre oscilante entre a imitação de modelos importados e a tentativa de se impor como “nacional” pelo método de encher as páginas de índios, caboclos e jandaias. Três começos inesquecíveis em um: só mesmo um certo receio de, digamos, chover no molhado explica que Machado tenha demorado tanto a aparecer nesta seção. Cousas.

17 Comments

  • Paulo Polzonoff Jr 03/09/2006 at 12:11

    “Por fim tinha início, naquele mesmo momento, a tão ansiada maioridade da ficção brasileira, até então esforçada mas capenga, periférica, quase sempre oscilante entre a imitação de modelos importados e a tentativa de se impor como “nacional” pelo método de encher as páginas de índios, caboclos e jandaias.”

    Você fala do século XIX, mas isso bem poderia ser aplicado aos dias de hoje, não? Troque os índios, caboclos e jandaias por desempregados, bandidos e tresloucadinhas e eis que temos uma literatura brasileira esforçada, mas capenga e periférica.

    Agora vou ali, ver um Vermeer.

    abs

  • Pedro Curiango 03/09/2006 at 13:11

    Parabéns Sérgio Rodrigues e Paulo Poltzonoff Jr! Ambos puseram a mão no ponto exato da “ruindade” geral da arte brasileira – e digo “arte” porque o fenômeno não é apenas literário.

  • Saint-Clair Stockler 03/09/2006 at 13:30

    Ah, discordo do Polzonoff aí em cima – como sempre, ou quase sempre, aliás. Se você pensar em nomes como Elvira Vigna (com o seu magnífico e quase desconhecido “A um passo”), Daniel Pellizzari (com o seu gnômico “Dedo negro com unha”) ou em Sonia Coutinho (com seus contos e romances) ,veremos que a coisa não é tãaaao assim como o Paulo fala não! O problema é que até os críticos se reduziram a sua naniquice e parecem conformados com ela.

    Gosto muitíssimo de algumas observações do Polzonoff, mas essa sua necessidade de espetar todo mundo com uma épée (porque não fica bem o Polzonoff espetando alguém com uma reles “espada”, né não? Tem de ser sempre gente/termos da Oropa: Vermeer, épée, etc. Ah, essa atração e esse nojo simultâneos que a Oropa provoca…), quase como um imperativo íntimo que ele sente, que o direciona, messiânico… Poxa, Polzonoff, você ainda é um rapaz novo, não é de se jogar fora (com todo respeito da sua senhora), chega mesmo a ser sexy… Faz favor, menos rancor nesse seu coraçãozinho sulista! Tem gente aqui no Brasil escapando das falhas que você aponta, sim. Basta dar uma olhadinha… Me lembrei até de um amigo seu (em cujo lançamento do “Morte e vida celestina” estivemos juntos; embora, claro, você não tenha me reconhecido – e como iria? -; você chegou até a me cumprimentar e eu fiquei chocado, juro, me pegou de surpresa: “O Polzonoff não é tão antipático, ele cumprimenta a gente…” cheguei a balbuciar), o Alexandre Soares Silva. Se não me falha a memória – e ela anda me falhando cada vez mais – você chegou a escrever um artigo elogiando muitíssimo o ASS – nessas horas não se pode esquecer disso. “Morte e vida Celestina” também escapa desses pecadilhos que você mencionou aí em cima…

    Se bem que agora me ocorre uma outra questão: Mas por que estar na periferia é tão execrável assim? A periferia é linda, Polzonoff! Pergunta pra Regina Casé (ou será Cazé?). Ela vai te dizer assim: “The PERIFERIA is beautiful!!!” com exclamações e tudo. Porque esse é outro ranço muito chato, muito antigo, dos nossos críticos: dizer que somos “periféricos” e que não temos importância nenhuma. Agora me diga: o que de realmente bom e imperdível está acontecendo lá no Centro, nas literaturas das nações que (co)mandam? Com a exceção de um Philip Roth nos EUA, um Ian McEwan no Reino Unido, uma Margareth Atwood no Canadá… hum… lá lá lá… deixa eu ver, mais quem?… Um Tahar Ben Jelloun (que é da Periferia também, mas é esperto: escreve em francês)… Resumindo: praticamente NADA de verdadeiramente importante está ocorrendo no Centro – e você ainda quer me dizer que nós da periferia somos uns merdas? Pelo menos nos mantemos longe das bombas, moço.

    Agora me ocorre outra questão: mas por que mesmo um Vermeer? Por que não uma Tarsila?
    ______________

    P.s.: Polzonoff, cara, eu no fundo te adoro. Mas eu queria você mais feliz, te sinto tão rancoroso. Deve ser da juventude —– fim do momento “morde depois assopra”. Fui!!!

  • fafafafafa 03/09/2006 at 16:45

    Porque as pessoas ao inves de debater a obra de Machado se Assis,vem falar sobre obra de outras pessoas.O topico e sobre Machado de Assis.

  • Saint-Clair Stockler 03/09/2006 at 17:04

    Garanto que o meu comentário foi muito mais produtivo e interessante que o seu, que só ocupou espaço e não acrescentou nada, seja em que domínio for. Desculpa a franqueza – é que sou mineiro.

  • Saint-Clair Stockler 03/09/2006 at 17:09

    Agora, se você quer discutir a obra do Machado, sugira um tópico. Se não souber/puder, sugiro dois: “O ser versus o parecer em Machado de Assis” e “A ironia machadiana como estratégia literária”. Sua vez de jogar.

  • pérsia 03/09/2006 at 21:50

    pois com esse nome tão lorde, s-c stockler, adorei comentários sobre a bugrada nativa, só conheço pouco pellizari, e g o s t e i muito. pen$arei nas demais dicas.
    no tema: o começo de mpbc é de arrasar mesmo, exala sofisticada ironia e também mal-disfarçada afetação.

  • Saint-Clair Stockler 03/09/2006 at 22:19

    Pérsia, garanto que você não vai se decepcionar. Elvira Vigna, Daniel Pellizzari e Sonia Coutinho são garantia de bom investimento literário. Dica: está para sair, nos próximos meses, novo romance da Elvira pela Companhia das Letras. Chama-se “Deixei ele lá e vim”. Já vi a capa dele e, à parte o excelente conteúdo, é lindíssima. Daquelas que ganham prêmio de design e tudo.

    P.s.: Lorde, eu? Estou mais pra vira-lata…

  • Roberto Pedreira de Freitas Ceribelli 04/09/2006 at 10:34

    Se tem uma coisa que me faz rir neste jornal é este(a) tal de calvin, não que queira ficar calvo, mas se tivesse um filho deste ia rir o dia inteiro com certeza …

  • Roberto Pedreira de Freitas Ceribelli 04/09/2006 at 10:37

    Porque o debate, se o machado é dê assis, não tem mais duvida é de lá que vem, pronto … tanto autor(a) moderno(a) e vivo(a) para ser comentado(a) e agraciado(a) e sempre dão voltas e mais voltas e acabam sempre nos mortos e fixação interminável para sentar ao lado de alguém em algum lugar …

  • fafafafafa 04/09/2006 at 14:40

    Entao peça ao blogueiro que comente autores modernos.O grande problema do brasileiro e acahr que tudo que e do passado e velho,nao serve mais para nada.Muitos livros de autores antigos retratam problemas que ate hoje assolam esse pais.Entao antes de reclamar,leia-os e diga sua opiniao.

  • pérsia 04/09/2006 at 16:17

    SCS, agradeço sugestões. anotadas estão. visitado opiário. bonito!

  • Saint-Clair Stockler 04/09/2006 at 22:56

    Pérsia: vi sua visita. Muito obrigado pelos comentários. Sinta-se em casa, sempre. Abraços!

  • santos 05/09/2006 at 10:10

    até o “Conseguintemente” é de um brilho eterno. obra-prima inapelável.

  • PW 05/09/2006 at 17:12

    cousa de doudo!

  • Rogge 07/09/2006 at 17:03

    Não sei porque, mas sempre que releio Machado sinto que reencontro minha língua, apesar de minha origem germânica. É um reencontro gostoso, como alguém que sai de uma rua nimiamente barulhenta e entra numa casa silenciosa e tranqüila. Enfrentar o português de hoje é …

  • Roberto Pedreira de Freitas Ceribelli 14/09/2006 at 15:17

    Estava pensando, tinha que ser inventado uma nova forma de manifestação que não fosse a da paralisação, manifestações barulhentas e odiosas, … algo mais culto, menso agressivo e com mais poder de abstração, quero dizer de penetração ao alvo, dizendo mais eficaz, estou menos humilhante e desprezível . . .

    Reclamar é solidário, atrapalhar não. Beto .

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