Começos inesquecíveis: o pior de todos

17/07/2006

O detetive Bart Lasiter estava em seu escritório estudando a luz que incidia da única janela sobre seu super-burrito quando a porta se abriu para revelar uma mulher cujo corpo lhe dizia que tinha acabado de comer seu último burrito por um bom tempo, cujo rosto informava que anjos existem, e cujos olhos denunciavam que ela seria capaz de fazer você cavar sua própria sepultura e depois lamber a pá até deixá-la limpa.

Essas linhas, de autoria do californiano Jim Guigli, foram as vencedoras do prêmio literário Bulwer-Lytton de 2006. Criado em 1982 pela Universidade de San Jose, nos EUA, o concurso anual de “piores começos de romances imaginários” homenageia o autor inglês Edward George Bulwer-Lytton, que em 1830 começou de fato um romance, chamado “Paul Clifford”, com a frase que Snoopy e outros amantes de clichês ajudariam a tornar imortal: “Era uma noite escura e tempestuosa”.

São horrorosas as primeiras linhas da história do detetive Lasiter, isso não se discute. Mas concordo com o blog londrino Culture Vulture, que encerrou a notícia da premiação com uma provocação aos seus leitores: sabemos que vocês podem fazer melhor do que isso – ou seja, pior. Quem se habilita?

13 Comments

  • João Paulo Franco 17/07/2006 at 05:00

    Taí. Eu já gostei. O estiilo lembra muito os romances policiais de um detetive das antigas, chamado Shell Scott (Sheldon Scott) e que foi sucesso de crítica e público no mundo inteiro. Só não lembro o nome do escritor. No Brasil foi editado no formato pocket book e era vendido nas bancas. Alguém se lembra?

  • Marcus 17/07/2006 at 05:45

    Paul Auster, antes da fama, escreveu um bisonho romance policial noir para tentar ganhar dinheiro com ele.

    Foi publicado como apêndice de um livro autobiográfico. É pavoroso, e esse início bem podia ser dele.

    • diego 12/12/2015 at 16:33

      “Bisonho” e “pavoroso”?
      Poderia explicar as razoes dessa critica?
      Acho que tu nao entendeste que, nesse livro, Paul Auster brinca com os cliches de livros de detetive propositalmente.

  • Writing Ghosts 17/07/2006 at 11:58

    me habilito, sim!

    que tal… “era uma noite tempestuosa e escura” ?

  • Writing Ghosts 17/07/2006 at 12:00

    essa do Lasiter… horroso e meio, sem dúvida.

  • anraphel 17/07/2006 at 12:09

    João Paulo, eu também gostava muito e também esqueci o nome do autor. Tive que googlar: Richard S. Prather.

    Esse início aí parece um plágio sem a graça e o charme das aberturas dos contos do detetive Ed Mort.

  • Sirio Possenti 17/07/2006 at 16:25

    Era uma noite escura e tempestuosa e eu acabara de comer meu super-burrito quando uma mulher de beleza estonteante fez “psiu!” e perguntou se eu tinha outro burrito. Credo!

  • soulo 17/07/2006 at 17:58

    “… tempestuoso e escuro era o ventre da noite…”

  • Peter Blake 18/07/2006 at 18:12

    “Eu estava debaixo da fraca luz de outono que filtrava pela única janela da sala. Não que eu fizesse muita questão (afinal eu era apenas um burrito, e não poderia alegar minha própria sofisticação em minha defesa), mas aquele não parecia ser exatamente o lugar mais adequado para a digestão de iguarias meso-americanas. Quando a mulher entrou quase morri de susto: ela parecia um burrito muito, muito grande.”

    Acho que não consegui…

  • João Paulo 19/07/2006 at 06:27

    ANRAPHEL: É isto mesmo! Richard S. Prather. Valeu amigo.

  • João Hélio 19/07/2006 at 18:51

    Só para registro, um trecho da entrevista de Umberto Eco publicada no último caderno Mais (Folha de S.Paulo, 17/7/06):

    “PERGUNTA – Pode-se dizer que, em “O Nome da Rosa”, o sr. realizou uma operação moderna e irônica sobre um grande afresco medieval?
    ECO – Digamos que meu romance, assim como outras obras, admite dois níveis de leitura ou mais. Se eu começo dizendo: “Era uma noite escura e tempestuosa”, o leitor “ingênuo”, que não percebe a referência a Snoopy, usufruirá o texto num nível elementar, mas tudo bem. Depois há o leitor de segundo nível, que percebe a referência, a citação, o jogo, e, portanto, sabe que ali há sobretudo uma ironia. Nesse ponto, eu poderia acrescentar um terceiro nível, já que, no mês passado, descobri que a frase é o incipit de um romance de Bulwer-Lytton [1803-73], autor de “Os Últimos Dias de Pompéia”. E é óbvio que Snoopy também o estava citando.”

  • Beatriz 25/07/2006 at 00:26

    “A noite estava escura e chuvosa”

    sera que consegui??

  • Fernando 21/01/2016 at 15:42

    “A chuva escura da tempestuosa noite (…) “.

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