Começos inesquecíveis: Rodrigo Lacerda

10/12/2006

Eu, Valfredo Margarelon, subscrevo esta declaração no intuito de recolocar a justiça acima dos boatos e restaurar a fachada honrosa do brasão de minha família, sordidamente maculada por três elementos nocivos à ordem e aos bons costumes do reino inglês. Meu espírito simples, desabituado à lida com as palavras, vem a público para desmentir as ignominiosas calúnias feitas contra minha prima, Maria Margarelon, por um desclassificado de nome João Manningham, em conluio com o autor teatral Guilherme Shakespeare, integrante da companhia Homens do Lorde Camarista, e outro chamado Ricardo Burbage, ator na mesma companhia. Juntos, os três espalharam boatos deturpados e desonrosos, que alteram o curso da verdade e mancham a honra de minha prima e irmã de criação. Eu afirmo, perante Deus e a justiça real, que tais aleivosias nasceram de suas mentes imundas e tiveram divulgação a partir de tavernas e bordéis, sítios tão infectos quanto indecorosos. Provarei aqui como sua versão dos fatos é caluniosa, além de muito deturpada pela arrogância que caracteriza o círculo teatral e os que nele perambulam.

O primeiro parágrafo anuncia com todas as letras a delícia que é a novelinha farsesca “O mistério do leão rampante” (Ateliê Editorial, 1995), livro de estréia de Rodrigo Lacerda – até hoje, em minha opinião, não superado por ele. Andei especulando por aqui que a literatura brasileira, tão queixosa da indiferença do público, talvez fizesse bem em se despir de uma certa sisudez para cair na gandaia (do texto), cuidando em primeiro lugar de divertir à larga – e de forma inteligente, claro – o pobre do leitor. “O mistério do leão rampante” faz isso com a maior elegância.

22 Comments

  • O profeta 10/12/2006 at 00:39

    Quer apostar como daqui a pouco vai aparecer o Saint Clair pra dizer que leu?

  • Black Jack 10/12/2006 at 09:11

    Hahahahahaah

  • thomas m. 10/12/2006 at 11:20

    Prezado Sérgio,
    sou leitor assíduo do “Todo Prosa”, e admiro cada dia mais os seus escritos. Mas quem faz um espetáculo à parte são seus “comentaristas” de plantão. Como crianças que disputam um guloseima, eles estão sempre ávidos por lhe enviar o primeiro comentário e lhe disputar a atenção. A esse seleto grupo de leitores do “Todo Prosa” o meu forte abraço.

  • Vinicius Jatobá 10/12/2006 at 12:50

    Mas qual é o problema se o Saint-Clair e outros leitores mais assíduos usem os comentários para exporem seus entusiasmos com livros e autores? Saint Clair tem se mostrado uma pessoa com muita paixão pela literatura e comentários irônicos como esses só podem surgir mesmo de pessoas que talvez, no fundo, não tenham como verdadeiramente colaborar de outra maneira além de tentando tirar o valor das pessoa que estão tentando fazer algo positivo.

  • Vinicius Jatobá 10/12/2006 at 12:54

    …como verdadeiramente colaborar de outra maneira além de tentando tirar o valor de outras que estão tentando fazer algo positivo.

  • thomas m. 10/12/2006 at 13:29

    Caro Vinicius,
    Espero que seu desabafo não se refira ao meu comentário de estréia. De minha parte, gosto de ler os textos do Saint-Clair, da Clarice, e de tantos outros que, com habitualidade e competência, brindam-nos com seus pontos-de-vista. Os textos do “Todo Prosa” se enriquecem justamente com a participação dos internautas. Tenho dito!

  • Clarice 10/12/2006 at 14:01

    Vinicius,
    Que bom te ver!
    Mas é intrigante que o Saint-Clair ainda não tenha se manifestado. Será que está gripado?
    Thomas m., obrigada. A gente tenta.
    Mas o anfitrião é que conduz a discussão. Não dá para comentar matéria ruim.
    O problema é o rombo no orçamento.

  • Clarice 10/12/2006 at 16:04

    agora li com calma. Adorei o “cair na gandaia”. Eu acho que precisa sim, Sérgio. Claro com a restrição que você fez do contrário vira outra coisa. Deve ser bom este livro e gostei deste início. O meio teatral é bem por aí.
    Mas cadê o Saint-Clair? Será que tem algum 1,99 de livros hoje?

  • Silviano Wilson Martins Tinhorão Piza 10/12/2006 at 17:00

    Vinicius, tu és muito estressado mesmo. O profeta lá em cima fez um comentário espirituoso sobre o Saint-Clair, um comentário claramente amigável e tu já levas para o lado ruim. O Saint-Clair é querido de todos aqui, duvido que alguém levantasse um dedo para dritica-lo.

  • Silviano Wilson Martins Tinhorão Piza 10/12/2006 at 17:01

    critica-lo (corrigindo…)

  • Lucas Baldus 10/12/2006 at 17:39

    Pode ser, mas não se deve oferecer ao leitor apenas ambrosia, pão-de-ló, quitandas, pitéus e quitudes. O leitor também precisa receber um tiro na primeira frase, talvez na segunda, quem sabe na terceira. Um tiro certeiro capaz de deixá-lo songamongas, tonteado, um tiro certeiro que possua na primeira (ou na terceira ou na quarta frases) um tum-tum de malefícios (mesmo fingidos), um tum-tum de feitiços (mesmo com falsos despachos). Leitor que é bom deve morrer logo no começo. Mais tarde, mais adiante, devemos revivê-lo, trazê-lo da cova, retirá-lo de seu estado morto-vivo. Um leitor só é bom quando leva no cocuruto uns coques, uns piparotes. Cegar o leitor? Talvez. Calá-lo? Pode ser. Leitor bom a gente pega pelo cangote e enfia o rosto dele na fantasia. Devemos hipnotizá-lo. Uns gostavam de dar no leitor algumas bengaladas. A bengala é uma boa arma tonteante. Mas existem outras. Por exemplo, uma mesa posta com guloseimas. Só que o leitor não sabe onde fica o prato envenenado. Essas coisas. Etc. Sim.

  • Lucas Baldus 10/12/2006 at 17:42

    Adendo besta: “quitudes” também servem, mas servem igualmente os quitutes.

  • Lucas Baldus 10/12/2006 at 17:43

    Amém.

  • João Paulo 10/12/2006 at 18:37

    Mas o que está acontecendo aqui? Um festival de boiolas? Guloseimas…ambrosias…pitangas e quitéus, digo, quitandas e pitéus…
    Façam-me o favor! Mais compostura!! Controlem-se!! Que vexame!!
    Ô PROFETA!! Quá, quá, quá, quá. Foi ótima!

  • Vinicius Jatobá 10/12/2006 at 18:58

    Aniversário de 20 anos de uma obra-prima extraordinária:

    http://www.silverbulletcomicbooks.com/reviews/116577491411149.htm

    Na imprensa brasileira, nada foi dito. Como sempre.

  • Clarice 10/12/2006 at 19:07

    Outro ET? O Lucas Baldus acha que literatura é via de mão única e que o escritor é homem das cavernas:))))))
    Vocês desculpem mas não dá para levar a sério um troço destes. Só rindo!

  • Saint-Clair Stockler 10/12/2006 at 20:39

    Hahahaha, e sabe o que é pior? Nunca li nada do Rodrigo Lacerda. O meu dinheiro não chega pra comprar tudo que quero ler, sabem? Fiquei sumido porque estou relendo João Antônio: “Leão-de-chácara”. Eis o meu começo inesquecível de hoje:

    “O luminoso se acende e, num golpe, fixa as oito letras do nome francês e isto aqui, a que os otários e os espertinhos chamam de buate, está aberto na noite. De olho em pé, aceso e bem. Que para essa gente afobadinha demais, metida a ter vontade, mal acostumada, fantasiada com seus leros e ondas, quase tudo é folgança e prosa afiada. Ainda mais no começo da noite. E o pior é que o movimento e o rumor, as idas e vindas, essa fricoteira toda, para esses caras distraídos e de cabeça fria, é curtição”.

    (Com a licença do Seu Sérgio, porque a idéia dos começos inesquecíveis é dele)

    E, aproveitando, deixo meu msn pra quem quiser trocar dois dedos de prosa: saint-clairstockler@hotmail.com

  • Saint-Clair Stockler 10/12/2006 at 20:45

    Ô meu Pai! Vinícius, eu ADORO essa graphic novel. Brilhante! Fantásticos os vários e simultâneos níveis narrativos… É verdade, você está certo: é preciso comemorar esses 20 anos! (Sérgio, escreve uma nota aqui no Todo Prosa, vai…)

    Aproveitando: você já leu o romance/livro de contos (há controvérsias sobre o que seja) do Moore “A voz do fogo”?

  • eduardo lansky 11/12/2006 at 12:17

    Sérgio, olha aqui um bom começo inesquecível: “Eu tinha vinte anos. E não me venham dizer que é a idade mais bela da vida” (“J’avais vingt ans. Je ne laisserai personne dire que c’est le plus bel âge de la vie.”). Conhece?

  • Sérgio Rodrigues 11/12/2006 at 12:43

    Bom mesmo, Eduardo. Não conhecia, mas o Google me apresentou. “Aden Arabie”, do francês Paul Nizan, você leu?

  • Jarypslon 14/12/2006 at 16:36

    Pelo jeito, ninguém aqui leu mesmo essa obra-prima strictu e latu sensu do Rodrigo Lacerda apresentada pelo João Ubaldo e que encontrei literalmente no chão de uma banca de livros usados, em meio a Sabrinas e quejandos (como encontrasse Flowerville daqui a três meses… brincadeira, mas a realidade ronda). Não é de espantar, uma vez que nunca, até então, havia ouvido falar nessa pequena jóia, uma peça divertidíssima feita da mais fina ironia, aliás cada vez mais rara na literatura em português.

  • leonor 19/01/2007 at 12:01

    À propósito de um comentário do escritor Rodrigo Lacerda no “entre” da Globonews sobre ‘aparência”,o poema:
    REGRESSO

    Quando minha filha chegar de viagem
    (e olha que terão passado uns poucos dias)
    estará diferente e ainda mais parecida
    com a outra que um dia ela verá refletida,
    tão mais bela quanto crescida em meus olhos,
    num espelho d’água e numa fotografia.
    Leonor Vieira-Motta

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