Começos inesquecíveis: Vladimir Nabokov

24/07/2006

Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lo-li-ta: a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta.

Pela manhã ela era Lô, não mais que Lô, com seu metro e quarenta e sete de altura e calçando uma única meia soquete. Era Lola ao vestir os jeans desbotados. Era Dolly na escola. Era Dolores sobre a linha pontilhada. Mas em meus braços sempre foi Lolita.

De uma família aristocrática que deixou a Rússia fugindo da Revolução de 1917, Vladimir Nabokov (1899-1977) se mudou para os Estados Unidos em 1940, depois de passar por Berlim e Paris. Já então um escritor maduro – e finíssimo – em sua língua materna, embora pouco conhecido do grande público, dedicou-se tanto a dominar literariamente o inglês que em 1955 lançou nada menos que “Lolita” (Companhia das Letras, 1994, tradução de Jorio Dauster). O escandaloso teor sexual do romance sobre o amor de um homem maduro por uma adolescente transformou Nabokov num estouro comercial. Talvez mais escandaloso que o tema, porém, seja um russo ter se tornado um dos maiores estilistas da história da língua inglesa – feito que, segundo as últimas medições, está fora do alcance de 99,98% dos bons escritores em seu idioma de berço. O famoso início de “Lolita” é uma boa amostra disso.

26 Comments

  • João Paulo 24/07/2006 at 06:43

    É mesmo! É a história de um romance sexual mais suave de se ler. Gozado. E ninguém falou em pedofilia. Bem situei a personagem, quando lí, entre uns onze e doze anos. Não sei…Talvez fôsse mais velha?

  • daniel 24/07/2006 at 10:00

    No livro, Lolita tem doze anos.

    Da série “tradutores, traidores”: no original em inglês, ele não soletra do jeito que se escreve, mas sim como se pronuncia: “Lo-lee-ta”.

    A idéia de soletrar o apelido tem dois sentidos intraduzíveis: um é que assim o escritor ensina aos leitores a pronúncia certa (ao invés de, digamos, “Lolaita”); outro é que assim ele sugere já pelo próprio apelido que de certo modo ele enxergava em Lolita a sua amada de infância, Annabel Lee – que ele vai rememorar nos parágrafos seguintes do início do romance (e que, na verdade, é uma referência a Poe, a primeira entre muitas do livro – na verdade, Nabokov praticamente transcreve o poema “Annabel Lee”, do Edgar, ao falar da amada de infância de Humbert Humbert).

    Ah, outra coisa: “labareda da minha carne” é leve. Poderia ser uma parte mais específica do corpo. “Lolita, light of my life, fire of my loins”…

  • Bola 24/07/2006 at 10:01

    Acho que a idade é esta mesmo. Num trecho o narrador comenta que a coisa mais triste que poderia acontecer com uma menina era se transformar em uma pequena mulher.
    Mas não achei suave não. A dependencia e conseguente decadencia do narrador (decadencia tamebm dos outors personagens no final) deixam o livro bem pesado. tão pesado, que o livro serve até como um alerta dos perigos de se envolver com garotinhas. Perigo para os adultos!!!

  • Black Jack 24/07/2006 at 11:42

    O começo realmente é excelente, dos melhores que já li. Mas vocês não acham que o livro perde a agilidade ao longo da história? O Humbert começa a fazer inúmeros devaneios floreados… Enfim, o ritmo não se faz muito pela ação depois de determinado momento. Nem por isso deixa de ser uma obra incrível.

  • Sérgio Rodrigues 24/07/2006 at 12:15

    Daniel, concordo que “carne” ameniza o original, mas o eco de Lolita no nome de Annabel – certamente consciente, em se tratando de Nabokov – é menos explícito: o sobrenome da ninfeta precursora é Leigh. De qualquer maneira seria injusto não registrar que a tradução de Jorio Dauster tem uma qualidade e um capricho incomuns. “My sin, my soul” virar “minha alma, minha lama” não é para qualquer um. Um abraço.

  • BCK 24/07/2006 at 13:33

    Pena que mesmo na melhor tradução a aliteração do original se perde:
    “the tip of the tongue taking a trip of three steps down the palate to tap, at three, on the teeth”

  • BCK 24/07/2006 at 13:38

    O livro é lento, mesmo, mas acho que ao invés de prestar atenção na história e o seu andamento o leitor devia prestar mais atenção na voz do narrador.
    (o prefácio do livro também é genial.)

  • Meire 24/07/2006 at 14:12

    Ganhei o livro de presente, nao conseguir ler ate o fim, vi o filme passar na TV e nao conseguir assistir, pelo simples fato de ser a historia de um pedofilo, so que contada pela visao dele, como todo pedofilo ele culpa a crianca , que e culpada por ele a deseja-la, ele faz referencia as meninas de 9 anos a 14, como sendo o objeto de seus desejos , nao entendo como um livro deste, vira filme e ainda se transforma em classico da literatura, nao importa o ingles maravilhoso e poetico, e nem a capacidade dele escrever bem e narrar a hisrtoria, o princiapal e tematica do livro, Apologia explicita a pedofilia.

  • BCK 24/07/2006 at 14:40

    Acho que quem lê o livro e vê isso precisa de mais arroz-e-feijão intelectual.

  • Te 24/07/2006 at 16:05

    Interessante a tradução para “minha alma, minha lama”. Mas gosto literário não se discute, tem livros que uns adoram, outros detestam.
    A descrição cáustica que HH faz das pessoas com quem convive, não perdoando nem a mãe da Lolita que se apaixona por ele, é das melhores coisas do livro. Ele gargalhando da carta de amor dela, realmente, desagrada os espíritos mais suscetíveis.

  • Pedro Curiango 24/07/2006 at 17:28

    Seria interessante que alguém comentasse as duas edições brasileiras do livro – a primeira, feita em fins da década de 1950, sob responsabilidade do Ênio Silveira, da Civilização Brasileira. O livro, grande sucesso internacional então, depois da edição americana (já que a original parisiense, da Olympia Press, não teve grande repercussão…) foi oferecida a várias editoras brasileiras que o recusaram, principalmente em vista da pressão dos religiosos.

  • Meire 24/07/2006 at 18:28

    BCK, se comer mais arroz e feijao intelectual significa ler este livro e achar maravihoso a historia de um pedofilo contada de maneira positiva e poetica o colocando o mesmo ate como vitima das garotinhas, entao eu prefiro continuar sem comer o seu arroz com feijao intectual.

  • BCK 24/07/2006 at 20:23

    Imagino que Dom Casmurro seja um tratado de como as mulheres são pérfidas e os melhores amigos são traidores, então…

  • ALFREDO GARCIA 24/07/2006 at 20:29

    O livro de Nabokov é lindo, poético, lúdico, erótico, amoroso. Essa MEIRE é uma mal-amada isso sim. VIVA NABOKOV! ABAIXO AS FEMINISTAS E AS MAL-AMADAS!

  • Beatriz 25/07/2006 at 00:20

    Eu nem consigo pegar um livro com essa tematica para ler “pedofilia” nada contra quem leu e gostou mas eu não consigo pedofilia vai ser sempre pedofilia independente de quem escreveu e como escreveu

  • Fábio 25/07/2006 at 05:43

    Senhor, realmente, muitos precisam de arroz e feijão intelectual por aqui. Sobre pedofilia, acredito que o Nabokov quis fazer uma crítica a sociedade daquela época(hmmm, será que é uma coisa atual?). Os privilegiados de um raciocínio arguto, logo perceberão que se trata de um professor que tem um, digamos, bagagem cultural imenso, e mesmo assim é pedófilo. O que quis dizer com isso? Ora, será que não é a crítica sobre a hipocrisia da sociedade? Dos bem vestidos e inocentes professores que tem idéias diferentes dessa sociedade que prega o puritanismo?

    O modo como foi narrado é perfeito, e a grande jogada do Nabokov é de que o pedófilo que narra. Deve ser por isso que produz tanta repugnância assim.

    Grande Nabokov!!!

  • Fábio 25/07/2006 at 06:10

    ”Thomas tinha certa razão. É estranho que o sentido do tato, tão infinitamente menos valioso para os homens do que o da vista, se torne em certos momentos críticos o nosso principal, se não o único, meio de acesso à realidade.”

    Esse é um trecho do livro. Por favor, queria muito saber a que Thomas o Humbert se refere. Se o Mann, Pynchon ou nenhum desses.

  • João Paulo 25/07/2006 at 06:13

    DANIEL:Parece que vc leu no original (lingua) o comentário é original, e vc é mesmo bom nisso!Valeu!

  • Vanusa 25/07/2006 at 15:53

    Coitada da Meire….
    Escrever sobre algo nem sempre é fazer apologia.
    Coitada mesmo , dá pra fazer um alista imensa de excelentes livros dos quais ela não poderá chegar perto. Resta a ela toda a série d Harry Porter…

    Lolita é belo, triste e poderoso ( e tudo isso sem que precisemos apoiar a pedofilia)

  • Luiber 25/07/2006 at 21:47

    Estou chegando atrasado no post, mas estou achando interessantíssima a discussão. Podemos começar (ou terminar) com a frase da Vanusa: “Escrever sobre algo nem sempre é fazer apologia”.
    O grande problema é determinar quando é e quando não é. E quem determina.
    No assunto do post, uma obra considerada mundialmente “obra-prima” e de um escritor consagrado, fica fácil dizer que não é apologia. Ou mesmo identificar qualquer outra intenção do autor que justifique a obra e sua apreciação.
    Mas se formos considerar tudo que é escrito, declamado, cantado, etc. sob a mesma ótica, vão faltar pedras! Aqui mesmo no NoMínimo já presenciamos furiosos ataques a comentaristas pela simples menção de determinados assuntos sob determinadas óticas.
    Experimentem falar, por exemplo, da agonia da família do homem-bomba que matou sei lá quantas pessoas? É só depois observar: “Só escrevi a respeito, não estou fazendo apologia!” E vamos ver como a turma reage.

  • Fábio 25/07/2006 at 23:08

    Luiber, concordo com você. Depende muito do ponto de vista, mas por exemplo: se você lesse metade de ”crime e castigo” de Dostoiévski, falaria que ele estaria fazendo apologia ao crime?
    Pois no livro, se não me engano, o Raskolnikov( algo assim) não se arrepende do crime( ou não é isso? não lembro) e inventou até uma filosofia que soa meio preconceituosa de extraordinários e ordinários( ???). Mas isso não seria apologia a um tipo de pensamento que existe superior e o inferior na raça humana? ao crime?
    É claro, quem ler até o final, vai ver que ele é punido. Mas é assim também com Humbert( poxa, também li isso faz um tempinho), que se arrepende no final.

    Sobre esse negócio de ter pena de homem bomba, devemos saber o por quê dele cometer essas atrocidades. Sei muito bem que matar não tem justificativa, mas porquê não analisamos o grau de sofrimento que eles passaram? E com certeza nisso você tem razão: cada um vê através de seu ponto de vista.

  • Beatriz 26/07/2006 at 15:03

    eu acho que todos tem direito de querer ler um livro e não querer ler outro só pq a meire não conseguiu ler Lolita que ela tem que ler Harry Poter eu já li todos os Harry Potters mas também já li Goethe,Emily Bronte,Dostoiévski,Kafka.
    A questão de ser apologia ou não vai da interpretação de cada um.

  • Sergio O 27/07/2006 at 01:19

    Deus fez a mulher apta para reproduzir, portanto pronta para atrair o sexo oposto, após a menarca.
    O fato da sociedade atual não querer suportar o ônus de adolescentes grávidas e cheias de prole é uma questão socio-economica.
    Outras considerações, tais como estar apta a escolher um Presidente aos dezesseis e a poder matar sem punição até os dezoito são eventualidades culturais.
    Literatura é tudo isso e além.

  • Vanusa 27/07/2006 at 16:28

    Ai meus sais…
    Agora o mundo tá assim, uma droga. Não se pode colocar num filme um homem fumando, que é apologia ao tabaco (aahahah, apologia ao tabaco ficou óoootimo!). Cinema, literatura, arte…..me poupem, tudo isso é livre…..eu ler um livro sobre o homossexualismo feminino não vai me tornar lésbica, um outro sobre o suícidio como liberdade pessoal, nada disso vai me fazer pular da ponte, mas vai me fazer refletir ou dependendo do tema, vai apenas me entreter. Já viram o filme `O lenhador”, com o Kevin Bacon? É sobre pedofilia, e a gente acompanha a ótica do pedófilo. Gostei muito do filme e tudo bem que adoro uns rapazinhos de 18 anos…ahahaha. E viva o lado podre da vida, as pessoas nojentas e seus hábitos mesquinhos e asquerosos e Meires(!), aprenda a olhar o mundo e ver que voce faz parte de tudo isso e leia sobre isso e sinta-se mal, sinta-se péssima e continue a vida,porque senão sobra Paulo Coelho e suas baboseiras bonitinhas que vendem milhôes e não mudam o mundo

  • Rodrigo 28/07/2006 at 09:50

    O começo e o resto todo são excelentes. É também uma rasteira nos tradutores, que não têm como manter as aliterações do início: “sin of my soul, light of my life…”

  • pérsia 03/08/2006 at 19:22

    Lolita é ótimo, e O Lenhador é um bom filme. Mas alguma coisa incomoda um pouquinho nos dois. Na Lolita, o quanto é fugaz o brilho dos olhos de qualquer Alice, ô morte certa. N’O lenhador fica assim um travo de que há pedofilias e pedofilias.

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