Começos inesquecíveis: Will Self

11/03/2007

Bull, um rapaz encorpado e musculoso, acordou certa manhã e não levou muito tempo para se dar conta de que, enquanto dormia, adquirira uma outra característica sexual primária: a saber, uma vagina.

A vagina brotara atrás de seu joelho esquerdo, dentro da covinha macia e flexível localizada no ponto onde terminam os tendões. É quase certo que Bull não a perceberia tão cedo, não tivesse ele como prioridade, logo ao despertar, o hábito de se inspecionar, explorando cuidadosamente todas as suas curvas e fendas.

Qualquer semelhança com Kafka não é coincidência. Nem plágio. Este é o início do primeiro capítulo, chamado justamente A metamorfose, da novela “Bull, uma farsa”, que compõe com “Cock, uma noveleta” o livro “Cock & Bull – Histórias para boi dormir”, do escritor inglês Will Self (Geração Editorial, tradução de Hamilton dos Santos, 2a. edição, 2002). Em “Cock”, em perfeita simetria, é a protagonista que um belo dia descobre entre as pernas um recém-brotado pau. Satirista feroz e, nos melhores momentos, brilhante em sua mistura de erudição, grosseria e delírio pop, Self, de 45 anos, é um autor bem estabelecido na literatura britânica, mas nunca deu certo no Brasil.

Não por falta de tentativas. Além deste livro, a Geração lançou o violentíssimo “Minha idéia de diversão”; a Objetiva, o divertido “Como vivem os mortos”; e a Alfaguara, ano passado, o engenhoso – mas um tanto esticado – “Grandes símios”. (Permanece inédito por aqui o livro de estréia de Self, The quantity theory of insanity, “A teoria quantitativa da insanidade”, de contos, que considero seu melhor trabalho.)

Apesar da insistência louvável dos editores, tudo indica que Will Self não bate muito bem com a sensibilidade literária nacional. Será que a sisudez que por aqui costumamos confundir com seriedade nos impede de apreciar o mais alucinado dos herdeiros de Jonathan Swift? Seja como for, é uma pena. Will Self merece uma chance dos leitores, embora não faça literatura para o paladar de qualquer um.

Bem cotado para vir à Flip este ano, quem sabe o homem não apronta algum golpe publicitário que mude sua sorte? Consta que Self abandonou o vício da heróina, que, quando ele era repórter do jornal “Observer”, em 1997, o levou a ser flagrado cheirando no banheiro do avião do primeiro-ministro John Major – e dali para todas as primeiras páginas da imprensa britânica. Mas outros expedientes hão de lhe ocorrer.

30 Comments

  • Saint-Clair Stockler 11/03/2007 at 08:58

    Esse livro aí, que bizarro, já teve duas traduções e aparece com dois títulos por aqui: “Histórias para boi dormir” e “Cock e Bull: Histórias de phadas e phodas”. Convenhamos: ambos os títulos são horrorosos.

    Me lembro muito bem (não me perguntem a razão, razão não há, a memória da gente é tão bizarra quanto qualquer outro dos elementos que constituem o ser humano) quando ele foi lançado da primeira vez. Não, não li. Nunca li nada do Will Self, embora também seja daqueles por quem guardo certa curiosidade. Me lembro bem é da resenha que saiu, não sei se no Globo ou no JB, metendo o pau (desculpem o trocadilho, foi involuntário), falando que as narrativas eram fracas, pouco profundas, e deixavam a desejar com essa pretensão meio ingênua de “chocar” ao mostrar um homem envaginado e uma mulher empirocada. Não foram esses os termos usados pelo jornal, claro. Estou simplificando. Eles foram mais elegantes na resenha.

    Bom domingo a todos!

  • Saint-Clair Stockler 11/03/2007 at 09:04

    Eu gostaria muito de ser vizinho do Sérgio Rodrigues. Ia pedir a ele sempre que me emprestasse os livros que resenha e os que não resenha (o seu gosto literário é muito mais sofisticado do que o meu; eu costumo ler livros horrorosos pra aprender o que NÃO fazer na hora de escrever uma história).

    Não sei se algum de vocês aí se lembra, mas na década de 90 havia algumas “Locadoras de livros” no Rio. Me lembro de uma em Copacabana e outra na Tijuca. Eu era cliente dessa da Tijuca. Maravilhosa! Você pagava uma quantia singela e podia ler quantos livros quisesse por mês. Li tanta coisa boa! Foi lá que conheci autores como Marguerite Duras e Marguerite Yourcenar, Caio Fernando Abreu e David Leavitt. Que saudades! Do jeito que estão os preços dos livros, vai ser a solução: que alguém reinvente as Locadoras de livros.

  • Areias 11/03/2007 at 09:56

    Domingo de manhã, todos devem ainda estar na cama. Aproveito par dirigir duas palavras: uma ao comentarista acima e outra ao Sérgio (detesto o termo blogueiro, mas vou ter que me acostumar). Saint-Clair, ontem estive na sebo-livraria Berilnjela e, vasculando curiosidades nas estantes, por pura coincidência, vi dois livros com seu nome. Tenho o hábito de abrir a primeira página dos livros usados para ver se trazem alguma dedicatória que o ingrato dedicado desprezou. Não foi o caso com você, que me parece um ser bem elegante. Quando era ainda mais duro do que hoje, eu costumava trocar meus livros no sebo da rua do Carmo. Chegava lá com dez e saía com três ou quatro. Era minha estratégia para não parar de ler. Se os tivesse acumulado todos, atualmente eu teria uma puta biblioteca. E sua biblioteca, tem aumentado ou diminuido?
    Sérgio, posso me enganar, mas com freqüência você fala bem dos primeiros livros de certos autores que já lançaram outros (Rodrigo Lacerda, Rubens Figueiredo e, hoje, do Will Self) será algum tipo de síndrome que faz com que as obras se diluam à medida que o autor vai escrevendo? E há aqueles que vão ficando melhor com o tempo, mas não no momento não me recordo de nenhum. Anyway, divagações matinais que não interessam a ninguém. Bom domingo a todos.

  • Antônio Augusto 11/03/2007 at 10:33

    Caro Saint-Clair, há bibliotecas municipais no Rio com muito bom acervo de literatura.
    Na Tijuca, além da biblioteca da Rua Guapeni, próxima à Praça Saens Peña, existe a “Biblioteca Aluísio Azevedo”, com acervo literário provavelmente melhor que a anterior, numa rua sem saída paralela à Rua Campos Sales, com início na Rua Haddock Lobo.

  • Cezar Santos 11/03/2007 at 11:20

    Sérgio,
    Legal esse livro do Self. Só li dele esse mesmo. Li na Saraiva o início do último (Os grandes símios) e achei interessante, quero lê-lo todo assim que puder. Mas não sei, a literatura do Self me dá a impressão de total descartabilidade, de supérflua…

    Saint-Clair,
    aqui em Goiânia ainda tem locadora de livro. É a Lê-Devolve… paga-se uma taxa mensal e lê-se o quanto quiser (já fui associado, mas atualmente não sou). O diabo é que a prioridade são os best-sellers…
    Agora, sou inscrito em biblioteca municipal e tenho gratuitamente acesso a livros até legais (embora raramente a lançamentos), com empréstimos de uma semana. São as manhas de um leitor que não tem “bala” para adquirir tudo o que gostaria.

  • Clarice 11/03/2007 at 11:29

    Cesar,
    Descartabilidade? Eu fiquei interessada.
    “Como vivem os mortos”; “A teoria quantitativa da insanidade”…
    Deve ser muito bom.
    O humor inglês… Shandy, Shaw, Wilde etc. etc. etc.
    Os ingleses também são ótimos músicos.

  • Trajano Chacon 11/03/2007 at 11:31

    Gostei muito dos comentários do Santa-Clara, mas vou mesmo correndo é comprar A Teoria Quantitativa da Insanidade, pois sofro de TOC. Todos os dias a minha adorável mulher me diz: você está mais doido! Eu respondo: continuo melhor do que o Roberto Carlos. Mas que merda de comentário!

  • Cezar Santos 11/03/2007 at 11:32

    Areias,
    Lembro-me do Sérgio ter comentado isso, de primeiras obras serem melhores que as posteriores… Embora ele tenha se referido mais à questão da perda de certa descontração.
    Olha, quanto ao Rubens Figueiredo, acho que a observação até procede, porque “A samabaia bailarina” e “Essa maldita farinha”(acho que os primeiros dele) são histórias engraçadinhas, sim. Mas não se comparam, em termos de qualidade literária, aos trabalhos posteriores desse autor. “Barco a seco”, por exemplo, em que pese a sisudez, é muito bom.
    A evolução do Figueiredo, daqueles livros iniciais para cá, é brutal, mesmo porque o cara estudou e leu muito para isso, né? Ou seja, pleo menos com ele, não há nada de diluição, pelo contrário.
    Enfim, opiniões…

  • Clarice 11/03/2007 at 11:44

    Trajano,
    rsrsrs
    Você não vai encontrar o que espera, certamente.
    Mas vai se divertir e esquecer seja lá o que se passa na tua mente. É o que? São os pensamentos, tem algum ritual? Acho uma das mais curiosas “habilidades” mentais.

  • Areias 11/03/2007 at 11:44

    Tem razão, Cezar, talvez eu tenha confundido com outro autor. Minha opinião sobre a evolução do Rubens F. é idêntica.

  • Mr. Ghost(WRITER) 11/03/2007 at 17:32

    Já tinha escutado sobre esse cara, achei interessante e assim como Sérgio, achei o começo identico ao começo de “A metamorfose” do Kafka (de quem sou fã de carteirinha – e quem não é?). A curiosdade veio do fato, muito mais disto, de que as situações criadas por Will Self pudessem ser tão engraçadas e absurdas quanto as de K. Mas por algum motivo estranho não anotei o home do cara e nem do livro. Digo estranho porque sempre ando com uma caneta e um pequeno pedaço de papael na carteira… e nesse dia cometi ato falho e perdi a oportunidade de anaotar sobre ele… bendita internet, poderei me reparar com o senhor Will…
    Obrigado Sérgio.

  • João Marcos Cantarino 11/03/2007 at 17:46

    Nunca li “Cock & Bull”. Do autor li “Como Vivem os Mortos”, há uns dois anos. Não é um mau livro, mas lembro-me de à época ter comentado com minha esposa sobre algo que me incomodou no romance: o visível esforço do autor em mostrar as personagens como pessoas muito inteligentes. Disse que se algum dia me aventurasse pela ficção, tentaria compor personagens mais parecidas com pessoas normais, não tão inteligentes como costumamos ver na literatura, ou mesmo no cinema, embora em grau menor.
    Por coincidência ou atenção seletiva, fui encontrado aqui e ali textos e opiniões sobre o assunto, sobre a inteligência das personagens de ficção. Logo depois li uma resenha sobre o filme “Closer”, em que o crítico afirmava que os personagens eram artificiais, tamanha a inteligência dos diálogos. Achei em algum lugar uma citação de Baudelaire, que escreveu que em Balzac até os porteiros são brilhantes (ou mais ou menos isso, pois cito de cor). Depois deparei-me com essa de Nietszche: “O problema de Hamlet não é que ele pensa demais, mas que ele pensa bem demais”. Vi depois um texto em que o autor elogiava a imensa inteligência de Hamlet e Dom Quixote.
    Pensando em nossa literatura, talvez pudéssemos opor Riobaldo a Bentinho. O primeiro é, na minha opinião, a personagem mais inteligente da literatura nacional. Um filósofo de pensamentos incrivelmente raros e profundos. Bentinho, ao contrário, é perfeitamente verossímil, muito parecido, aliás, com algumas pessoas que conheço: intelectualizadas, cultas, que cultivam o pensamento, mas que quase sempre pensam muito mal. Riobaldo é um grande herói, mas Bentinho é meu irmão.
    Por outro lado não tenho certeza se é possível escrever um bom romance com personagens pouco inteligentes. Ou talvez tais romances já existam e eu é que não conheço. Provavelmente.
    P.S.: Sérgio, que tal um post sobre a literatura japonesa moderna?

  • thiago 11/03/2007 at 19:19

    hum… gostei do começo. E como foi dica do Sérgio, vou atrás.

    E uma dica minha: A primeira tradução do livro está em promoção na loja da Geração Editorial. vc compra três livros da seleção feita por eles por 29,70 e ganha um quarto livro de surpresa. Comprei agora, aproveitei e levei outros dois. Como na cultura do conj. nacional (aqui em sp) o livro está custando 31 piletas, vale a pena.

    Segue o linque pra promoção.

    http ://www.geracaobooks.com.br/pascoa/

  • Claudio Soares 11/03/2007 at 20:24

    Antonio Augusto e Saint-Clair: Assino em baixo a indicação do Antonio Augusto.

    Curiosidade: usei bastante a Biblioteca da Tijuca (dentre outras bibliotecas do Rio) para escrever o meu “Santos Dumont Número 8” (pessoal, não é SPAM, justifico :-)

    Como a história do romance tem a ver com os “tesouros” que descobrimos (muitas vezes por acaso) nas bibliotecas, em um dos capítulos faço referência explícita a um certo exemplar que consultei nessa biblioteca. É uma pequena brincadeira que proponho ao leitor dentro do romance. Um hiperlink para fora do livro, para o mundo real. O livro existe e está lá na Biblioteca da Tijuca (exemplar: A863 COR J).

    Tem muitas novidades lá, Saint-Clair. Pode dar um pulo lá, que a dona Josefa Moutinho (bibliotecária chefe) o receberá sempre com a maior atenção. Dona Josefa é nota 10.

    A ótima coordenação das Bibliotecas Municipais do Rio é do acadêmico Antônio Olinto.

  • Saint-Clair Stockler 11/03/2007 at 20:27

    Areias: eu vendi nos últimos dois anos um monte de livros pro Berinjela. Já cheguei a ter 4000 livros, hoje devo ter uns 600, se tanto. Quando eu me mudava de casa, o que mais dava trabalho eram justamente os livros. O resto era mole pro pessoal da mudança. Normalmente não vendo os livros que têm dedicatória pra mim – mas, se estiver muito ruim de grana, faço uma exceção. Mas fico sempre triste.

  • Saint-Clair Stockler 11/03/2007 at 20:30

    Antônio Augusto: é verdade, existem as Bibliotecas Municipais. O problema, em geral, é que elas emprestam os livros com um prazo muito curto. Tenho a sorte de saber ler em francês, portanto a Biblioteca da Maison de France é um paraíso. E sempre tem o Berinjela, que é um sebo de que gosto muito. Sem contar que há a Biblioteca do Instituto de Letras, na Uerj. Às vezes tem algumas coisas legais. E há os amigos, que sempre me emprestam muitos livros (acho que o fato de eu devolvê-los sempre ajuda).

  • Saint-Clair Stockler 11/03/2007 at 20:31

    Cezar: que maravilha saber que em Goiânia tem uma Locadora de livros! Isso sim é uma cidade avançada culturalmente (mesmo com os bestsellers). Maravilha!

  • Saint-Clair Stockler 11/03/2007 at 20:35

    Trajano: você é daqueles que verificam mil vezes se a porta da casa foi trancada, antes de dormir? Que pisa nos quadrados do piso, evitando as linhas? Que conta as pessoas na rua? Que se levanta de noite pra verificar (pela décima vez) se a porta da geladeira está fechada?

  • Saint-Clair Stockler 11/03/2007 at 20:37

    Claudio, o fato de eu morar em outro (e distante) bairro não vai me impedir de pegar livros emprestados na Biblioteca da Tijuca?

    Na década de 90 eu trabalhava nesse bairro e era sócio da Biblioteca.

  • odorico leal 11/03/2007 at 23:47

    Algum comentário neste espaço sobre a morte de Gerardo Mello Mourão seria bem-vindo, pelo menos como divulgação, mesmo que tardia, da obra desse que figura entre os maiores poetas da língua portuguesa (o maior poeta nacional, segundo opinião de Drummond).

    Abraço,

  • odorico leal 11/03/2007 at 23:49

    (lembrando que Gerardo é autor de O Valete de Espadas, um dos textos mais originais da ficção moderna brasileira – já que o nome deste espaço é “todoprosa” e parece não se dedicar à poesia)

  • Clarice 12/03/2007 at 10:22

    Existia a Biblioteca Municipal de Copacabana. Desapareceu. A da Tijuca é na Rua do Matoso?
    O que a gente pode fazer é juntar umas 5 pessoas e cada uma compra um livro por mês.
    Eu não sei desta história de devolver livro emprestado não.
    Sempre soube que “livro emprestado não é roubado”.
    Ai que susto!
    Saint-Clair,
    Eu sou tão preocupada deste negócio de livros de outras pessoas em minhas mãos que já estou pensando em te devolver.
    É livro para ter. Quando tenho vontade de sublinhar e não posso para mim não é leitura. Vou ter de comprar.
    Então posso te devolver quando você quiser. E prepare-se para as aulas de inglês.
    Reading comprehension, listening comprehension… tudinho. Tudo comme il faut.

  • Clarice 12/03/2007 at 10:26

    Odorico,
    Ninguém se importa muito no Brasil com a morte de seus representantes culturais mais elevados.
    É um absurdo. Só se for o Drummond que todos conhecem por causa da pedra no meio do caminho e pelas aulas de literatura.
    No máximo uma notinha ou um pequeno tributo nos devidos cadernos jornalísticos.
    O Gerd morreu e ninguém sentiu falta. E por aí vai.

  • Ernest Thoureau 12/03/2007 at 10:39

    Este é espetacular Sérgio, deixando de lado o ufanismo:

    “Garcia, em pé, mirava e estalava as unhas; Fortunato, na cadeira de balanço, olhava para o teto; Maria Luísa, perto da janela, concluía um trabalho de agulha. Havia já cinco minutos que nenhum deles dizia nada. Tinham falado do dia, que estivera excelente, — de Catumbi, onde morava o casal Fortunato, e de uma casa de saúde, que adiante se explicará. Como os três personagens aqui presentes estão agora mortos e enterrados, tempo é de contar a história sem rebuço…”

    Concordo com você. Será que toda literatura precisa ser sobre costumes? Os nossos compatriotas perderam a capacidade de ler e se divertir.

  • Rafael 12/03/2007 at 11:15

    Achei curioso o comentário aí em cima, sobre a inteligência dos personagens de ficção. Pergutan-se se é possível escrever romances com personagens que não sejam inteligentes. Possível é sim, e a prova é o tocante “Vidas Secas”, de Graciliano Ramos (embora não seja propriamente um romance). Só que, neste caso, os personagens dissolvem-se no roteiro, que se afigura mais importante que eles. Em “D. Quixote” e “Hamlet”, os personagens acabam sendo maiores que a própria história que se conta; basta lembrar os inúmeros diálogos entre Alonso Quijada e Sancho Pança, que muitas vezes monopolizam o interesse da história. Em “Vidas Secas”, e em qualquer romance cujos personagens sejam demasiadamente limitados intelectualmente, o diálogo simplesmente não existe, porque não teria nenhum interesse.

    Quanto ao Will Self, bem não li nenhum livro dele, mas o começo transcrito na nota parece com Kafka apenas na superfície. Ambos criam situações de absurdo, mas em Kafka a atmosfera é opressora demais e essa opressão é metafísica: é como se a própria existência decidisse revelar da forma mais ostensiva o quão absurda ela é. O Will Self parece-me escrever mais para o escândalo, daí a necessidade incontornável de situar o drama das suas histórias nos “países baixos”.

  • Saint-Clair Stockler 12/03/2007 at 11:51

    Clarice: estou louco pra começar nossas aulas. Quanto aos livros, pra mim não tem pressa. Embora o que você falou sobre a necessidade de possuir certos livros seja plenamente justificado no caso em questão :-)

  • Rui de Lucca 12/03/2007 at 17:34

    Mas esse Self é bem sem-vergonha, hein? Pena que eu não havia lido nada dele ainda. Swift filho???

  • Clarice 12/03/2007 at 19:16

    Saint-Clair,
    Eu realmente quero ter os livros.
    A gente tem de marcar então como vai ser estas aulas.
    Eu acho que o Trajano ainda está no banho. Por isto ele não te respondeu.
    Esta foi péssima. Mas fazer o quê?

  • Trajano Chacon 12/03/2007 at 20:15

    Oh gente, por favor, não brinquem com quem sofre de TOC. O pior é que eu não me sinto um “paciente” definido pela psiquiatria. Acho que sou normal e os outros é que são “loucos”! Pra sair de casa é um inferno: verifico janelas, gás, luz, som, TV, torneiras, geladeira, tudo umas dez vezes, no mínimo. Pra tomar banho é outra agonia: enfio a mão nos bolsos da camisa e da calça, ou bermuda, umas vinte vezes procurando dinheiro e documentos. Ah, chega de chateação! Mas não cheguei ao ponto de alterar letra de música! Também pudera, não sou compositor porra nenhuma! Mas o Roberto é. E ele na música “É preciso saber viver” onde havia …”se o bem e o mal existem, você pode escolher”… ele agora só canta …”se o bem e o bem existem, você pode escolher”… Vejam que merda ficou. Tudo isso é parte da “loucura” dos que sofrem de TOC. Outra coisa, Roberto não fala mais em Inferno. Cantar aquela música então, nem pensar. Mas nesse ponto somos iguais, ele uma majestade, eu um zé ninguém. A doença nos igualou. Abraços do

    Trajano

  • Clarice 12/03/2007 at 20:37

    Trajano,
    Eu te provoquei para você aparecer!
    Deu certo. rsrsrsrs
    Imagine se vou brincar com doença, quanto mais psiquiátrica que´sofre estigma.
    Eu já soube de uma moça que apagava as luzes e chegava ao ponto de descer do prédio para ver se as luzes estavam apagadas pela janela.
    Tem também as pessoas que são atormentadas por pensamentos e seguram uma barra terrível.
    O relacionamento médico/paciente é atualmente muito ruim. Na psiquiatria então!
    Boa sorte no teu caminho. Espero que você consiga levar uma vida mais tranquila possível.

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