Como escrever uma boa resenha má

27/08/2012

Incineradores de livros do filme "Fahrenheit 451", de François Truffaut, baseado na obra de Ray Bradbury

Esse artigo (em inglês) de J. Robert Lennon na revista eletrônica Salon.com traz boas – e divertidas – reflexões sobre a ética da resenha literária negativa. Qual é o limite entre descer o malho com desassombro em livros que o resenhista julga merecedores de malho e aquele espetáculo sádico de espinafração em que o foco é transferido dos problemas da obra para a verve exibicionista do próprio resenhista?

O autor parte do contraste entre sua própria crítica negativa do novo livro de Paul Auster, que ele acredita estar no primeiro caso, e uma resenha cruel assinada por um colega, que classifica no segundo, para elaborar sete regras que vale a pena conhecer. Elas estão aí embaixo, em versão condensada, traduzidas por mim.

Não são poucos os pontos de contato entre as observações de Lennon e as seis regras de ouro de John Updike, que publiquei aqui em 2009.

Em primeiro lugar, forneça um contexto. Isso significa ler o máximo possível da obra do autor, tomando notas sobre todos os livros e não só o que você está resenhando. Foi por isso que me senti justificado em malhar o livro de (Paul) Auster – nem sempre gosto dele, mas às vezes sim, e sei que ele pode fazer e já fez trabalhos melhores.

Em segundo lugar, tenha um pouco de humildade sobre sua opinião. Mesmo que você não goste nem um pouco do escritor que está resenhando, reconheça, pelo menos para si mesmo, que algumas pessoas gostam, e que tal fato não é irrelevante. Em sua resenha, deixe o leitor saber o que agrada aos outros. Se discordar, manifeste essa discordância de modo não condescendente. O objetivo é explicar e persuadir, não ferir.

Terceiro: se o escritor for um iniciante – digamos, em seu primeiro, segundo ou terceiro livro – dê-lhe algum crédito, especialmente se você tiver muito mais experiência. Caso você já tenha publicado, vamos dizer, dez livros, vá à estante, pegue o primeiro e leia algumas frases. São sensacionais? Pois é, imaginei mesmo que não fossem. Você se lembra de como era ter 26 anos?

Quarto: não resenhe seus inimigos. Nunca. Isso é o corolário de outra regra: não resenhe seus amigos. Você pode pensar que conseguirá ser objetivo, mas está errado.

Quinto: não seja babaca. Tudo bem: se tudo no livro que está resenhando o ofende, se nada de bom pode ser dito sobre ele, então não diga nada de bom. Mas não se gabe disso. Você não está empalando Hitler nem protegendo o Condado de Saruman.

Sexto: seja equilibrado. Se o livro é 5% horrível e 95% bom, não gaste 75% de sua resenha citando as partes piores. As pessoas fazem isso quando estão irritadas. Eu compreendo: às vezes, quando estou lendo um livro, odeio as coisas que odeio com muito mais força do que gosto das coisas de que gosto. Mas sucumbir ao ódio significa dar aos seus leitores uma visão desequilibrada da obra.

Por fim, quando seu próprio livro for trucidado, abra uma cerveja, ponha os pés para o alto e diga: ora, ora. Porque isso não significa nada. Todo mundo vai esquecer a resenha. Seus leitores ideais ainda nem nasceram – eles vão descobri-lo na biblioteca pública daqui a 25 anos, quando não terá a menor importância o que algum idiota disse sobre você na Idade da Pedra.

6 Comments

  • Um escritor 28/08/2012 at 06:12

    Este comentário não será publicado porque contém um link externo. Mas já que você se interessa pelo tema, ofereço “A resenha gentil do século?”, com algumas questões importantes não abordadas na Treta do “Ulisses”:
    http://artedaspalavras.wordpress.com/2012/08/18/o-momento-da-verdade-do-protagonista/

    Como diz a Lionel Shriver, “Precisamos Conversar sobre Resenhas”, Literatura. E como diz o Paulinho da Viola, “Não é assim que se faz”, Idelber.

    Um abraço

    • sergiorodrigues 28/08/2012 at 18:31

      Um escritor: o comentário foi publicado porque o link externo é pertinente à conversa. Muito bem argumentado e com uma pesquisa de fôlego. Valeu pela contribuição. Com certeza não é assim que se faz, e também acho que precisamos conversar sobre resenhas. Um abraço.

  • mdv 29/08/2012 at 15:12

    Não gosto desta visão. Não se trata de análise crítica de texto de um aluno de uma oficina literária. O compromisso da cr?tica é com o leitor da publicaçào x ou y, boa ou ruim (isso é com o leitor), que vai gastar seu dinheirinho na compra do livro. E se a obra em questão é ruim, e além de ruim, é ridiculamente pretensiosa e equivocada, mercece, sim, levar uns cascudos, por que não? E nào importa a idade do escritor, ou se ele é ou não um estreante, isso nào existe, quem tem medo do ridiculo (e dos críticos enfezadinhos) não pode almejar ser um artista, abs

  • THIAGO MACEDO SAMPAIO 16/09/2012 at 14:00

    Meus novos livros já estão disponíveis pra leitura em meu blog. Disponibilizei minhas primeiras produções voltadas pra crianças e adolescentes, inspiração recente e desejo antigo. Os contos, crônicas e romances mais complexos estão sendo revisados e em breve também serão publicados. Estou formando este ano em Direito e sou servidor público, mas sigo lutando para realizar meu sonho de ser colunista em alguma grande revista brasileira, sonho este que me fez, aos 16 anos, abandonar a fazenda aonde fui criado na Chapada Diamantina, Interior da Bahia e seguir pra Brasília e Goiania para estudar. Hoje, 10 anos depois, moro em Salvador aonde me inspiro em meu ídolo – Jorge Amado – para escrever sobre temas variados. Se for possível alguém da produção apreciar meus livros, em especial observar meu modo de escrever, seria uma grande honra pra mim, sobretudo se houver crítica. Segue o blog.
    http://tmsnovoscontos.blogspot.com.br/

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