Como não começar um romance

13/01/2016

jovem dostoievskiAs “franjinhas literárias” que foram tema de um post barthesiano aqui no blog – aqueles emblemas de literariedade que nada mais são do que uma manifestação do mau e velho clichê, da linguagem morta ou pelo menos artrítica – podem ser mais ou menos antiquadas. É claro que existem as franjinhas modernosas e até as vanguardistas, pois, nas palavras de Ricardo Piglia, “a modernidade é o grande mito da literatura contemporânea”. Estas são até mais perigosas, por disfarçarem melhor sua cafonice e vaziez. No entanto, é impressionante o número de pessoas que se lançam à aventura de escrever um romance tendo na mira, de forma consciente ou não, um modelo que já era velho há pelo menos cento e cinquenta anos. A franjinha preferida de todas essas é a descrição.

Qualquer um que já tenha sido obrigado – como jurado de um concurso literário, por exemplo – a ler de enfiada um grande lote de romances contemporâneos sabe que, numa fatia em torno de um terço deles (estou chutando, mas não errarei por muito), a narrativa começa com uma longa descrição. Em alguns casos, de fenômenos atmosféricos, num eco certamente involuntário do mais famoso clichê literário da história – a famigerada frase “Era uma noite escura e tempestuosa”, do romancista vitoriano Edward Bulwer-Lytton, que comentei aqui.

Quem começa um romance falando da chuva que cai, caiu há pouco ou ameaça cair em breve deveria ponderar a seca condenação de Elmore Leonard no primeiro conselho de seu famoso decálogo: “Nunca inicie um livro falando do tempo”. Não era só isso que o mestre do romance policial americano morto em 2013 tinha a dizer sobre descrições. Acrescenta ele: “Evite descrições detalhadas dos personagens. Não entre em pormenores demais ao descrever lugares e coisas”.

Tudo isso goza de excelente saúde na produção romanesca de nosso país – sim, inclui-se aí o território amadorístico da autopublicação. Às vezes o pano do romance se abre para revelar o cenário em que vai se desenrolar (mas não ainda, não ainda) a ação: montanhas, vales, rios, casario, história e costumes locais. Ou, quando se busca um foco mais fechado, uma casa com seus mistérios, seus objetos silenciosamente imantados pelo drama das gerações que ali viveram momentos de felicidade e de dor. Outras vezes a descrição se volta, em minúcias, para os personagens principais, e lá vem uma lista de traços fisionômicos, peculiaridades do vestuário e características psicológicas ou morais. Às vezes essas descrições aparecem juntas, enfileiradas.

Se quisermos ser técnicos – e talvez tão antiquados quanto os romances que começam assim – vamos descobrir com Massaud Moisés, em seu Dicionário de termos literários, que as descrições podem ser divididas em categorias como topografia (paisagem), prosopografia (traços exteriores do personagem), etografia (seus valores e costumes) e cronografia (sinais do tempo refletidos na natureza, como a tal noite escura e tempestuosa). Todas essas grafias estão bem representadas na produção romanesca contemporânea. Tudo indica constituírem franjinhas de irresistível apelo para quem, como disse Aldous Huxley, faz suas “primeiras tentativas de ser conscientemente literário”.

Em termos estruturais, pode-se explicar a popularidade da abertura descritiva pela ideia de preâmbulo, ou seja, a necessidade (ingênua) que o autor sente de familiarizar o leitor com cenário e personagens antes de entrar propriamente na história que se dispõe a narrar. Do ponto de vista histórico, é fácil ver que isso corresponde a um modelo romanesco datado do século 19, quando muitos romances de fato começavam assim. Mesmo então, porém, o modelo já mostrava sinais de cansaço. Veja-se a abertura de Um jogador, de Fiodor Dostoievski (ali no alto, um retrato do artista quando jovem), lançado em 1866 (tradução de Boris Schnaiderman):

Finalmente, regressei, após duas semanas de ausência. Havia três dias já que a nossa gente estava em Roletenburgo. Pensei que me esperassem, sabe Deus com que ansiedade, mas enganei-me. O general tinha um ar muito independente, falou comigo de modo altivo e ordenou-me que fosse ver a sua irmã. Era evidente que haviam conseguido dinheiro em alguma parte. Tive, mesmo, a impressão de que o general se encabulava um pouco na minha presença. Mária Filípovna estava numa azáfama fora do comum e falou comigo ligeiramente; todavia, aceitou o dinheiro, conferiu-o e ouviu todo o meu relatório. Para o jantar, esperavam Miézientzov, o francesinho e ainda um certo inglês: como de costume, mal se consegue dinheiro, dá-se um jantar pomposo, à moda moscovita. Apenas me viu, Polina Aleksândrovna perguntou por que demorara tanto a voltar e, sem aguardar resposta, retirou-se. Naturalmente, agiu assim de propósito. No entanto, tínhamos que nos explicar. Muitos fatos se acumularam nesse ínterim.

Muitos fatos, sem dúvida: ação pura, personagens desconhecidos entrando e saindo de cena, referências a um passado nebuloso, uma tensão absurdamente… moderna, pois é. Fatos demais, talvez? Essa abertura é provavelmente aquela que usa de forma mais radical e perturbadora, em toda a história do romance, o velho recurso da poesia épica que os latinos chamavam in medias res: o de lançar o leitor no meio da ação, deixando-o momentaneamente confuso – e intrigado, instigado, inquieto – para em seguida, aos poucos e de preferência sem pressa, ir preenchendo as lacunas da sua compreensão.

Não se deve tomar nada do que foi dito acima como condenação sumária da descrição. Além de não existir prosa de ficção sem alguma dimensão descritiva, uma das poucas leis que conheço para a criação literária é a de que recursos gastos por autores medíocres estão sempre à espera de que autores de gênio os resgatem e revalorizem. No entanto, ressalvados casos excepcionais que sempre serão exceções a confirmar a regra, abrir um romance com um grande bloco expositivo sobre uma realidade estática – em outras palavras, privilegiar o ser sobre o suceder – é, hoje mais do que nunca, o mesmo que convidar o leitor a fechar o livro e sair em busca de alguma coisa mais viva.

20 Comments

  • Otto 13/01/2016 at 13:38

    Salve, Sérgio! E o que dizer do Thomas Mann, que depois que esse recurso já estava gasto, usa e abusa da descrição? Me lembro da Montanha Mágica, das inumeráveis páginas descrevendo uma nevasca, ou explicando o método que se usava pra se enrolar num cobertor na espreguiçadeira da varanda — aparentemente sem nenhuma necessidade estrutural na narrativa. Me lembro também que O nome da rosa — e os demais romances do Umberto Eco — se serve bastante de descrições, e descrições longas… Aqui, no Brasil, só pra citar um que vem à cabeça agora, o Mãos de cavalo, do Galera, aquela descrição enorme do acidente de bicicleta… Será que esses livros são bons apesar disso? Ou essas descrições tem uma outra função, que as livra de serem franjas…

    • Sérgio Rodrigues 14/01/2016 at 15:29

      Olá, Otto. Quando ao Galera, vale observar que “Barba ensopada de sangue” é ainda mais descritivo. Eu não diria que os livros são bons apesar disso. Javier Marías, por exemplo, transformou as longas digressões – em princípio um troço perigosíssimo – em marca registrada. Não dá para vetar nada, recurso nenhum, quando se fala de criação em alto nível – tudo vai depender do resultado. O sentido deste artigo é só o de alertar quem está dando os primeiros passos para algumas armadilhas comuns. Um grande abraço.

  • Sergio 14/01/2016 at 10:04

    Magistral. Ao vc falar dessa torrente q nos deixa, leitor, a principio, confuso, lembro de “a consciência de zeno”. Sua abertura é um desconvite aa leitura. Logo mais transforma-se num xou de narrativa. O q outrora estava esfumado torna-se o elan de td o romance

  • Francisco 14/01/2016 at 10:10

    Excelente texto.

  • Tiago Franco 14/01/2016 at 22:48

    Sergio, seu artigo me
    fez lembrar de mais uma exceção à regra: a abertura de O homem sem qualidades do Musil, cujo início propositadamente faz uma descrição do tempo, da pressão atmosférica do ar, etc, mas que, no desenrolar da narrativa, realça o clima de estagnação em que se encontram não só o protagonista como também a Kakania, a sombra do que o Império Austro-húngaro foi um dia.
    Abraço

  • GABRIEL 15/01/2016 at 08:38

    O Musil trapaceia esse axioma de abertura com uma descrição meteorológica objetiva na abertura de O homem sem qualidades.

    • Sérgio Rodrigues 15/01/2016 at 10:10

      Bem lembrado, Tiago e Gabriel. Vejam a resposta que dei ao Otto. Abraços.

  • Alexandre 19/01/2016 at 09:38

    Olá, Sérgio!
    Seu post me fez pensar nessa questão de reutilizar recursos gastos com um brilho renovado, jogando com as expectativas do leitor, inclusive. Me lembrei automaticamente da abertura de “As correções”. Lendo as primeiras três ou quatro frases do livro, pensei comigo mesmo: “sério que vai começar falando sobre o tempo?” Afinal, não é o que se espera de um romance contemporâneo bem reputado. Mas ele segue descrevendo as árvores, os quintais, os zumbidos nos jardins, até enfim mencionar “o cheiro da gasolina com que Alfred Lambert limpara o pincel depois de passar a manhã pintando o sofá de vime”. Só então pensei: “Ah, ok, vamos lá.” O momento inicial de perplexidade foi causado mais pela presença do clichê do que pelo recurso do “in media res”, uma inversão interessante…
    Abraços

  • Xico 25/01/2016 at 21:47

    Por que diz que descrever uma realidade estática é sinónimo de “ser”? não será mais “aparência” (exterior)?

    • Sérgio Rodrigues 16/02/2016 at 15:02

      Não falo em ser, nesse caso, para indicar uma essência, e sim aquilo que está dado e não comporta devir, ou seja, que é hoje o mesmo que era ontem e será amanhã. Aparência ou não, trata-se do contrário de uma história.

  • sérgio lopes 27/01/2016 at 11:40

    …modernidade é escrever como Paulo Coelho. Não detalha nada porque não sabe fazer isso, e detalha o que desconhece porque não corre o risco de que entendam o que escreve. Magia pura, aliás, na modernidade, opte em não escrever nada. Fotografe e poste no facebook.

  • Nuno Figueiredo 21/02/2016 at 23:41

    Olá, Sérgio: gostei imenso do teu texto e compartilho parcialmente a mesma opinião. Acho descrições narrativas muito extensas puro tédio e subterfúgios para o autor preencher espaço. Por outro lado, o método que colocaste no teu exemplo, lançando o leitor numa confusão enorme de eventos e personagens, também considero um pouco precipitado e infeliz. Acredito sinceramente que tudo merece um certo equilíbrio e, claro, bom senso.
    Grande abraço,
    Nuno Figueiredo.

    • Sérgio Rodrigues 22/02/2016 at 10:59

      Obrigado, Nuno. Sim, o ‘in medias res’ pode, se mal empregado, soar confuso mesmo. O exemplo do Jogador está ali mais como contraponto extremo à abertura descritiva, para indicar a amplitude de possibilidades à disposição do narrador, do que como sugestão de “método”. Apareça sempre. Um abraço.

  • Raul 03/03/2016 at 23:13

    Olá Sérgio. Parabéns pelo texto. Sou novo leitor e mais novo ainda, talvez, quem sabe, um dia, escritor. rsrsrs. Antes mesmo de você citar Dostoiévski, me lembrei ao ler as primeiras linhas do romance ‘Crime e Castigo’. Não encontrei ainda, melhor início de texto que aquele. O abri novamente para deixar a citação, porém, não antes de ressalvar que o sentimento que tive durante toda a leitura da obra é inesquecível.

    ‘Ao cair da tarde de um início de julho, calor extremo, um jovem deixou o cubículo que subalugava de inquilinos na travessa S., ganhou a rua e, ar meio indeciso, caminhou a passos lentos em direção a ponte K.’

    Toda vez que inicio um texto, me lembro deste primeiro parágrafo.
    Abraços.

  • André 14/03/2016 at 15:55

    O que falar sobre a primeira parte de Os Sertões, A Terra, que além de ser ultra-descritiva, utiliza termos técnicos da geologia, arquitetura e tal? Na edição que eu comprei, A Terra dura quase 80 páginas! Não sinto o maior prazer lendo aquilo, mas é um desafio e um aprendizado. Acho que um pouco desse rancor com a descrição é resultado da velocidade do mundo contemporâneo. A descrição pára, retarda a narrativa, mas todo mundo quer terminar logo.

  • Régia Passos 09/06/2016 at 23:10

    Sérgio,

    Li o seu texto por indicação da Editora Café e Lápis, responsável pela publicação do meu primeiro romance. Gostei muito dessa leitura e parabenizo-o, inclusive com extensão aos comentaristas que enriquecem o conteúdo com suas indagações, informações e criticas.

    O Josué Montello, por exemplo, é um grande romancista brasileiro; um narrador detalhista, mas que encanta pela riqueza da linguagem e criatividade que prende o leitor até o fim da leitura de seus romances. Os Tambores de São Luís é um romance histórico com quase quinhentas páginas e quatrocentos personagens que já li duas vezes. Veja um trechinho: “Por vezes, no seu passo firme pela caçada deserta, deixava de ouvir o tantantã dos tambores, calados de repente no silêncio da noite, com o vento que amainava ou mudava de direção”.
    .
    O protagonista do meu romance é um interprete de três grandes cantores da musica popular brasileira e um deles é o Raul Seixas e é com ele que vou pegar carona: “Não sou cantor nem compositor, uso a música para dizer o que penso”. Escrevo porque tenho sonhos, ideias e experiência de vida, mas com plena consciência de que ainda preciso fazer um bom casamento com a boa redação. Por isso qualquer apoio será sempre bem vindo, pois costumo dizer que nasci me criei e ainda estou do outro lado dos trilhos.

    Sérgio, pus na minha lista para leitura, dois dos seus livros.

    Obrigada!

    • Sérgio Rodrigues 10/06/2016 at 10:20

      Cara Régia, muito obrigado pela leitura e boa sorte com seu trabalho literário. Um abraço.

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