Como não começar um romance

23/11/2013

Ôåäîð Ìèõàéëîâè÷ ÄîñòîåâñêèéAs “franjinhas literárias” que foram tema do último post – aqueles emblemas de literariedade que nada mais são do que uma manifestação do mau e velho clichê, da linguagem morta ou pelo menos artrítica – podem ser mais ou menos antiquadas. É claro que existem as franjinhas modernosas e até as vanguardistas, pois, nas palavras de Ricardo Piglia, “a modernidade é o grande mito da literatura contemporânea”. No entanto, é impressionante o número de pessoas que se lançam à aventura de escrever um romance tendo na mira, de forma consciente ou não, um modelo que já era velho há pelo menos cento e cinquenta anos. A franjinha preferida de todas essas é a descrição.

Qualquer um que já tenha sido obrigado – como jurado de um concurso de prestígio, por exemplo – a ler de enfiada um grande lote de romances contemporâneos sabe que, numa fatia em torno de um terço deles (estou chutando, claro, mas não errarei por muito), a narrativa começa com uma longa descrição. Em alguns casos, de fenômenos atmosféricos, num eco certamente involuntário do mais famoso clichê literário da história – a famigerada frase “Era uma noite escura e tempestuosa”, do romancista vitoriano Edward Bulwer-Lytton, que já comentei aqui.

Quem começa um romance falando da chuva que cai, caiu há pouco ou ameaça cair em breve deveria ponderar a seca condenação de Elmore Leonard no primeiro conselho de seu famoso decálogo: “Nunca inicie um livro falando do tempo”. Essa não é a única implicância do recém-falecido mestre do romance policial americano com descrições. Acrescenta ele: “Evite descrições detalhadas dos personagens. Não entre em pormenores demais ao descrever lugares e coisas”.

Tudo isso goza de excelente saúde na produção romanesca de nosso país – sim, inclui-se aí o território amadorístico da autopublicação. Às vezes o pano do romance se abre para revelar o cenário em que vai se desenrolar (mas não ainda, não ainda) a ação: montanhas, vales, rios, casario, história e costumes locais. Ou, quando se busca um foco mais fechado, uma casa com seus mistérios, seus objetos silenciosamente imantados pelo drama das gerações que ali viveram momentos de felicidade e de dor. Outras vezes a descrição se volta, em minúcias, para os personagens principais, e lá vem uma lista de traços fisionômicos, peculiaridades do vestuário e características psicológicas ou morais. Às vezes essas descrições aparecem juntas, enfileiradas.

Se quisermos ser técnicos – e talvez tão antiquados quanto os romances que começam assim – vamos descobrir com Massaud Moisés, em seu “Dicionário de termos literários”, que as descrições podem ser divididas em categorias como topografia (paisagem), prosopografia (traços exteriores do personagem), etografia (seus hábitos e costumes) e cronografia (sinais do tempo refletidos na natureza, como a tal noite escura e tempestuosa). Todas essas grafias estão bem representadas na produção romanesca contemporânea. Tudo indica constituírem franjinhas de irresistível apelo para quem, como disse Aldous Huxley, faz suas “primeiras tentativas de ser conscientemente literário”.

Em termos estruturais, pode-se explicar a popularidade da abertura descritiva pela ideia de preâmbulo, ou seja, a necessidade ingênua que o autor sente de familiarizar o leitor com cenário e personagens antes de entrar propriamente na história que se dispõe a narrar. Do ponto de vista histórico, é fácil ver que isso corresponde a um modelo romanesco datado do século XIX, quando muitos romances de fato começavam assim. Mesmo então, porém, o modelo já mostrava sinais de cansaço. Veja-se a abertura de “Um jogador”, de Fiodor Dostoievski (foto), lançado em 1866 (tradução de Boris Schnaiderman):

Finalmente, regressei, após duas semanas de ausência. Havia três dias já que a nossa gente estava em Roletenburgo. Pensei que me esperassem, sabe Deus com que ansiedade, mas enganei-me. O general tinha um ar muito independente, falou comigo de modo altivo e ordenou-me que fosse ver a sua irmã. Era evidente que haviam conseguido dinheiro em alguma parte. Tive, mesmo, a impressão de que o general se encabulava um pouco na minha presença. Mária Filípovna estava numa azáfama fora do comum e falou comigo ligeiramente; todavia, aceitou o dinheiro, conferiu-o e ouviu todo o meu relatório. Para o jantar, esperavam Miézientzov, o francesinho e ainda um certo inglês: como de costume, mal se consegue dinheiro, dá-se um jantar pomposo, à moda moscovita. Apenas me viu, Polina Aleksândrovna perguntou por que demorara tanto a voltar e, sem aguardar resposta, retirou-se. Naturalmente, agiu assim de propósito. No entanto, tínhamos que nos explicar. Muitos fatos se acumularam nesse ínterim.

Muitos fatos, sem dúvida: ação pura, personagens desconhecidos entrando e saindo de cena, referências a um passado nebuloso, uma tensão absurdamente… moderna, pois é. Fatos demais, talvez? Essa abertura é provavelmente aquela que usa de forma mais radical e perturbadora, em toda a história do romance, o velho recurso da poesia épica que os latinos chamavam in medias res: o de lançar o leitor no meio da ação, deixando-o momentaneamente confuso – e intrigado, instigado, inquieto – para em seguida, aos poucos e de preferência sem pressa, ir preenchendo as lacunas da sua compreensão.

Não se deve tomar nada do que foi dito acima como condenação sumária da descrição. Não existe prosa de ficção sem alguma dimensão descritiva. No entanto, ressalvados casos excepcionais que serão sempre exceções a confirmar a regra, abrir um romance com um grande bloco expositivo sobre uma realidade estática – em outras palavras, privilegiar o ser sobre o suceder – é, hoje mais do que nunca, o mesmo que convidar o leitor a fechar o livro e sair em busca de alguma coisa mais viva.

7 Comments

  • carlos cezar 23/11/2013 at 09:52

    Genial, caro Sérgio, bastante instrutivo. Aliás, estou lendo O Eterno Marido, outra obra-prima do Dostoievski, que tem igualmente um começo extraordinário. É impossível largar o livro.

  • Walter Santos 23/11/2013 at 13:09

    Castro Alves abriu assim “O Navio Negreiro”, de 1869:

    ‘Stamos em pleno mar… Doudo no espaço
    Brinca o luar — dourada borboleta;
    E as vagas após ele correm… cansam
    Como turba de infantes inquieta.
    ‘Stamos em pleno mar… Do firmamento
    Os astros saltam como espumas de ouro…
    O mar em troca acende as ardentias,
    — Constelações do líquido tesouro…
    ‘Stamos em pleno mar… Dois infinitos
    Ali se estreitam num abraço insano,
    Azuis, dourados, plácidos, sublimes…
    Qual dos dous é o céu? qual o oceano?…
    ‘Stamos em pleno mar. . . Abrindo as velas
    Ao quente arfar das virações marinhas,
    Veleiro brigue corre à flor dos mares,
    Como roçam na vaga as andorinhas…
    Donde vem? onde vai? Das naus errantes
    Quem sabe o rumo se é tão grande o espaço?
    Neste saara os corcéis o pó levantam,
    Galopam, voam, mas não deixam traço.
    Bem feliz quem ali pode nest’hora
    Sentir deste painel a majestade!

  • Marcos Alexandre 23/11/2013 at 13:19

    Caro Sérgio Rodrigues, de há muito leio os seus posts, mas esta é a primeira vez que faço um comentário. Sempre me faltou coragem, isso mesmo, coragem. Sinto necessidade – também há muito tempo – de escrever um romance ou um livro de contos. Não o faço por duas razões: o apavorante receio de não ser lido – se isso já deve ser ruim para um escritor, imagine para um pseudo-escritor como eu -, e o fato de que quero fugir ao lugar comum e franjinhas.

    Minha ambição (ou missão?) não seria necessariamente de receber louros, reconhecimento ou dinheiro com a escrita. Mas apenas esta: de ser lido. Como acredito, porém, que isso não vá acontecer, acabo sempre desistindo, de escrever e, por tabela, de mim mesmo.

    Perdoe-me desapontá-lo com essa confissão sincera, mas pessimista.

  • Alan Orsborn 23/11/2013 at 13:30

    Um exemplo ainda mais interessante para mim do “in medias res” de Dostoiévski que não mostrava sinais de cansaçoé o parágrafo de abertura de Memórias do Subsolo em que estamos, de repente trazido para a loucura em curso dentro da cabeça do personagem. Extraordinário.

    Sou um homem doente… Um homem mau. Um homem desagradável. Creio que sofro do fígado. Aliás, não entendo níquel da minha doença e não sei, ao certo, do que estou sofrendo. Não me trato e nunca me tratei, embora respeite a medicina e os médicos. Ademais, sou supersticioso ao extremo; bem, ao menos o bastante para respeitar a medicina. (Sou suficientemente instruído para não ter nenhuma superstição, mas sou supersticioso.) Não, se não quero me tratar, é apenas de raiva. Certamente não compreendeis isto. Ora, eu compreendo. Naturalmente não vos saberei explicar a quem exatamente farei mal, no presente caso, com a minha raiva; sei muito bem que não estarei a “pregar peças” nos médicos pelo fato de não me tratar com eles; sou o primeiro a reconhecer que, com tudo isto, só me prejudicarei a mim mesmo e a mais ninguém. Mas, apesar de tudo, não me trato por uma questão de raiva. Se me dói o fígado, que doa ainda mais.

  • Onofre 26/11/2013 at 21:55

    A medida que o mundo foi se tornando mais apressado, as descrições foram caindo em desuso. No entanto, não podemos encarar a história da literatura com os olhos de hoje. A maior parte dos maiores romances russos, para aproveitar a deixa do citado Dostoiévski, é constituída de muitas descrições, herança de Gogol de cujo Capote todos vieram. Sua principal característica era o amontoado de detalhes sobre detalhes a respeito de tudo e ninguém consegue largar seus livros! Então, acho que o que se deve evitar é ser mau escritor e não só em relação às descrições, mas também em se tratando de diálogos, etc.

  • Daniela 02/12/2013 at 15:09

    Quando comecei a ler A Menina que Roubava Livros, com aquela interminável descrição das cores da Alemanha, quase desisti de ir até o final. Ainda bem que não o fiz, pois amo esse livro.
    A Sociedade do Anel também é bem enfadonha nas primeiras páginas, mas com coragem de ir com os hobbits até a fronteira do Condado, o leitor só tem a ganhar com uma das melhores sagas de todos os tempos!

  • Saul Neto 23/10/2014 at 12:03

    Essa questão da descrição excessiva me fez pensar no vencedor do Prêmio SP do ano passado. Eu já tinha ouvido falar do Galera como um dos bons escritores novos, quando fui dar uma olhada no Barba Ensopaba… num momento de ócio numa grande livraria de SP. Abri uma página qualquer e não gostei. Botei de volta na prateleira e segui meu caminho (na época estava lendo Os Irmãos Karamazov). Quando li que o livro havia vencido o prêmio SP (e seus incríveis duzentos mil reais) fiquei curioso. ‘Deve ter alguma coisa especial ali para darem toda essa grana, talvez eu tenha caído numa página ruim’, pensei e voltei na livraria e gastei quarenta reais.
    Interrompi Os Irmãos para ler o Barba Ensopada. Eu sempre leio tudo e, às vezes, mesmo sem gostar tento ir até o final, e no caso específico deste livro, me comprometi a ler tudo, a não deixar passar nada. Foram semanas terríveis. Lembro que minha mulher me perguntava se eu havia desenvolvido a Síndrome de Tourette pois ela me ouvia dizer palavrões em meio a leitura. As descrições excessivas de personagens que não duravam mais que meia página e que não tinham importância alguma para a história eram dolorosamente chatas na maioria das vezes e irritantes em muitos casos, assim como a descrição maçante de todo e qualquer cenário. Fiquei com a impressão de que o autor preencheu o livro com mais ou menos umas trezentas páginas completamente desnecessárias, escrevendo um romance medíocre que poderia ter sido um conto mais ou menos.
    Me intriga toda a crítica positiva que vi e ainda mais os duzentos mil. Digamos que o Galera e o seu livro premiado não sejam de todo desprezíveis, mas daí a vencer melhor romance e abocanhar duzentos mil…
    Voltei aliviado para Os Irmãos Karamazov que, do alto de suas mais de oitocentas páginas, me passa o sentimento de que todas as palavras que ali estão, ali devem estar, sem a encheção de lingüiça do Galera. Em resumo, muita descrição para pouca ação e pouca reflexão.

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