Conselho aos ‘leterados’

29/06/2006

Porque muitos que são leterados não sabem treladar bem de latim em linguagem, pensei escrever estes avisamentos para ello necessários.

Primeiro, conhecer bem a sentença do que há de tornar, e poê-la enteiramente, não mudando, acrescentando, nem minguando alguma cousa do que está escrito. O segundo, que não ponha palavra latinadas nem doutra linguagem, mas todo seja em nosso linguagem escrito, mais achegadamente ao geral bom costume de nosso falar que se pode fazer. O terceiro, que sempre se ponham palavras que sejam dereita linguagem, respondentes ao latim, não mudando umas por outras, assi que onde el disser per latim “escorregar”, não ponha “afastar”, e assi em outras semelhantes, entendo que tanto monta uma cousa como a outra; porque grande deferença faz pera se bem entender, serem estas palavras propriamente escritas.

Em homenagem à seleção treinada por Felipão, que encara neste sábado a Inglaterra, vai aí um fragmento delicioso – e cheio de verdade, é só prestar atenção – do “Leal Conselheiro”, clássico do português medieval escrito por um rei de verdade, D. Duarte (1391-1430), que carrega pela história afora o simpático epíteto de “primeiro filósofo da saudade”. O fragmento foi colhido no livro “Era Medieval”, de Segismundo Spina, primeiro dos cinco volumes da coleção “Presença da Literatura Portuguesa”, lançado em 1961 e cuja 11a edição acaba de sair pela Difel (288 páginas, R$ 39). Para quem tem com nossa língua uma relação amorosa, é papa fina.

12 Comments

  • Writing Ghosts 29/06/2006 at 18:16

    bons tempos aqueles em que reis e imperadores eram, além de estadistas, destacados músicos, poetas, pintores, filósofos, astrônomos, matemáticos e sei-lá-o-que mais.

    será que voltaremos a ter deste tipo de governantes no trono do nosso esculhambado império verdiamarelo?

    ou a modernidade de 9 dedos continuará a nos assaltar com ditados populares, “mingau que se come pelas bordas” e rasteirices do gênero..?

    (suspiro)

  • Leticia Braun 29/06/2006 at 18:33

    Que bonitinho. Bonitinho mesmo! Pena que o público-alvo do texto é ileterado e, mesmo que não o fosse, não saberia treladar nem entender tais avisamentos. Pobre dom Duarte!

  • jose 29/06/2006 at 19:44

    Para homenagear Felipão que tal um texto em um hipotético vocabulário neanderthal.
    Estou até imaginando um certo locutor aplaudindo e se esvaindo em berros enquanto ele, o delicado e educado técnico, agita sua borduna.

  • Peter Blake 29/06/2006 at 21:17

    Sérgio, impressão minha ou D.Duarte cerra com a turma do Aldo Rebelo? Essa conversa de “não ponha palavra latinadas nem doutra linguagem, mas todo seja em nosso linguagem escrito, mais achegadamente ao geral bom costume de nosso falar que se pode fazer” parece alguns dos nossos gramáticos e oportunistas xenófobos, não parece?

  • Sérgio Rodrigues 29/06/2006 at 23:13

    Não seja tão duro com D. Duarte, Peter. O português era só uma criança na época, natural que exigisse cuidados especiais. E, até onde sei, nunca passou pela cabeça dele multar quem não seguisse seus conselhos.

  • Clara 29/06/2006 at 23:59

    Não faz muito o meu gosto.

  • Sirio Possenti 30/06/2006 at 09:24

    Sérgio:

    Um texto assim serve para muitas coisas. Menciono uma, em forma de pergunta: por que é que os que acham que português bom é o antigo e não gostam de exprerssões populares não escrevem como o rei?

  • Leticia Braun 30/06/2006 at 09:30

    Nada, dom Duarte certamente ficava chocado com o uso e abuso que se fazia do latim, e erradamente. Como acontece até hoje.

  • Victor, o Espezinhador 30/06/2006 at 10:07

    Interessante é constatar que muitos destes anacronismos ainda sobrevivem no português “caipira”: “Dereito”, por exemplo, um empregado do sítio de meus pais no interior de Minas fala até hoje. Guimarães Rosa também escrevia com ecos desta linguagem.

  • sonho bom 01/07/2006 at 01:04

    Eu não gosto. Lembra-me um senhor português muito metido que me infernizava a vida qdo. dizia:” Brasileiros acabaram com o Brasil. Para o salvar, só devolvendo para Portugal.” Ai, que raiva!

  • Leticia Braun 02/07/2006 at 18:04

    Taí, eu gosto. Não defendo que devamos voltar ao idioma português de Portugal, mas textos assim são interessantíssimos. Faz uns anos li uns trechos das Ordenações Filipinas e achei tudo muito fantástico.

  • Renato 04/07/2006 at 10:56

    Clássicos são simplesmente indispensáveis! Que pobreza não serem matéria obrigatória em nossas escolas! Sem termos contato com as origens de nossa língua culta, acabamos falando como bugres suburbanos que, sem se adaptarem à sociedade branca e lusófona, acabam também esquecendo as próprias tradições…

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