Conselhos literários fundamentais (III)

16/03/2011

Esqueça o famoso conselho: um escritor não precisa escrever sobre o que “conhece bem”. Quase todo mundo, ao escrever sobre o que conhece bem, produz platitudes que o leitor também conhece bem, antes mesmo de ler. Invente, se der na veneta, um mundo pré-colombiano inteiro, mapas e tudo, com nórdicos e ibéricos que a história não registrou se imiscuindo entre os incas, onde uma princesa chamada Aya, cujo amor pelo louro Thür foi condenado por seu pai, o imperador Tapa-Quichuchu, entra nua e magnífica numa banheira de enguias elétricas enquanto na rua o povo comemora a chegada de um novo ciclo lunar fornicando desavergonhadamente pelos cantos, ao som de trompas de chifre e tambores de lhama. Então, no meio daquela zorra, pare um minuto e dê a alguém, um personagem qualquer, um traço seu: a dor de cabeça da noite passada, por exemplo. Um jeito de andar ou falar. Em histórias menos épicas, pode ser a preferência por uma marca de cerveja. Basta: essa gota de verdade pessoal, essa mísera pincelada no formidável painel, num fenômeno alquímico ainda pouco elucidado, torna de repente lancinante o suicídio da bela Aya, imprescindíveis as enguias, trompas, bacanal, América pré-colombiana de araque ou o que quer que se urda com razoável esmero e que por obra daquele detalhe pífio, daquela gota de experiência, vibra agora tão vivo quanto a vida que temos diante do nariz, só que mais excitante. Ou pelo menos é nesse sentido que você encaminha suas preces.
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Leia outros Conselhos literários fundamentais: I e II.

12 Comments

  • zanzoreia 16/03/2011 at 10:36

    É isso aí, mistura um pouco de tudo no nada, levante um caldeirão enfeitiçado,dê um nome exdrúxulo a história. ( A marca é o segredo).

  • zanzoreia 16/03/2011 at 10:37

    esdrúxulo…kkkkkkkkkk

  • zanzoreia 16/03/2011 at 10:39

    misture; esdrúxulo à história. iiiiiiiii que praga! rsrs

  • Ariston Afonso 17/03/2011 at 08:46

    Olá Sérgio.
    Gostei do seu comentário. Entendo a ficção exatamente dessa maneira. Caso contrário seria um livro técnico.
    Terminei de escrever um livro onde uma turma é confinada na ISS, enquanto ocorre uma tragédia na terra, que dizima a humanidade. Eles ficam presos por lá e depois de seis meses retornam e encontram o caos. Vivem toda a emoção de visitar seus parentes mortos. Instalam na França, de onde logo têm que fugir por força de uma catástrofe nuclear. Se instalam em Goiás, onde concluem estar a salvo da radiação. Aí têm que iniciar a vida, com os poucos recursos disponíveis. Apesar do alto grau de conhecimento que possuem, não conseguem traduzir isso em bem estar. Estou tentando achar um caminho para apresentá-lo a uma editora. Como faço?

    At. Ariston

    • sergiorodrigues 17/03/2011 at 20:32

      Persevere, Ariston. E boa sorte, mdv. Abraços.

  • mdv 17/03/2011 at 19:23

    Agora vai, parte II (ou III).

  • André Felix 18/03/2011 at 10:54

    Sexo, mundo imaginário… é um bom enredo!!

  • João Athayde 23/03/2011 at 01:06

    Sérgio, coincidentemente eu escrevi um conto usando desse artifício. O trabalho se chama A Câmara de Sacrifícios e está publicado no site Recanto das Letras. Se quiser dar uma olhada, acesse: http://recantodasletras.uol/autores/joaoathayde
    Um abraço.

  • João Athayde 23/03/2011 at 05:28
  • João Athayde 23/03/2011 at 05:41

    Sérgio, errei de novo – e eu juro que não bebo há mais de quatro anos. O endereço certo é http://recantodasletras.uol.com.br/autores/joaoathayde
    Mas sou fatalista, não é para o meu comentário sair na sua coluna. Apague tudo, até uma próxima – agora eu vou dar uns murros nessa minha cabeça de jerico.

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