Conselhos literários fundamentais (V)

20/04/2011

Não precisa ser a primeira preocupação do escritor ao se sentar diante do suporte físico ou etéreo em que gravará suas palavras, mas em algum momento do processo é recomendável que ele tenha em mente a questão do texto que se fagocita contra o texto que se degusta aos poucos, em fatias finas, como um carpaccio. A oposição estabelecida por Andrônico de Rodes, o primeiro editor de Aristóteles, e ampliada por diversos pensadores, dos quais Montaigne não será um dos menos ilustres, vive desde o Modernismo uma crise de cognição. Hoje, quando se refere à questão do texto que se fagocita contra o texto que se degusta aos poucos, em fatias finas, como um carpaccio, o crítico erudito tende a pensá-los como dois países autônomos. Talvez influenciado pela famosa oposição entre intelecto ativo e intelecto passivo proposta pelo Estagirita que Andrônico seguia, imagina cada um desses territórios entregue a seus próprios habitantes, com autores de livros para fagocitar atendendo à demanda de leitores fagocitadores, e produtores de carpaccio à dos apreciadores de fatias finas. Equilíbrio que não deixa de ser precário, como atestam as guerras diplomáticas entre as nações antípodas, mas é, de todo modo, reconfortante. Se retomarmos o fragmento original, porém, veremos que alguma coisa se perdeu desde a intuição fulgurante do obscuro peripatético: “Histórias comidas com vagar alimentam o intelecto, histórias engolidas de uma vez alimentam a alma”. Ora, o que se perdeu é algo que, ao lançar na arena uma oposição de outro nível epistemológico e moral, descola o humilde Andrônico do campo aristotélico da moderação: o fato bastante óbvio de que o bom leitor (fiquemos em bom, para não invocar um ideal platônico) precisa nutrir tanto cabeça quanto alma, e portanto não se satisfará com uma coisa só. É provável que se torne então um leitor voraz e eclético, do tipo que intercala livros para fagocitar com livros para degustar aos poucos, em fatias finas, como um carpaccio. Mas também pode ser que, não contente com tal arranjo, passe a procurar escritores que revezem como ele os dois estilos, brincando de gangorra com carpaccios e fagocitoses, numa alternância que será o motor da própria escrita, às vezes com bruscas inversões dentro da mesma frase ou, pensando bem, da mesma palavra. O leitor verá que esses escritores não são fáceis de encontrar, mas procurá-los é preciso. O que você tem a fazer é lutar com todas as forças para ser um deles.

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Outros conselhos: I, II, III e IV.

6 Comments

  • Augusto Treppi 20/04/2011 at 18:49

    Será que a minha reflexão-desabafo sobre Decisões e Encruzilhadas se encaixa um pouco nestes conselhos? Aliás, reflexão literária é o que não falta no MUNDO DE TREPPI. Já convidei, refaço o convite,dá uma passadinha lá. 😉

    http://acapa.virgula.uol.com.br/blogs/mundo-de-treppi/95

  • Danilo Maia 20/04/2011 at 18:55

    Dentro da mesma palavra?

  • Rosângela 22/04/2011 at 10:26

    Show!

  • Wagner Bezerra Pontes 29/04/2011 at 21:15

    Amei a frase: “Histórias comidas com vagar alimentam o intelecto, histórias engolidas de uma vez alimentam a alma”. E o que está acontecendo comigo ao ler “Mito de Sisifo” de Albert Camus, estou num vagar muito doloroso e delicioso… XD

  • santanoviski 04/05/2011 at 03:17

    Sei não, sei não. Você analisa e escreve muito bem sobre literatura, nossa paixão comum. É, a meu ver, um crítico abalisado, e é por isso que o leio, que o procuro. Mas acho que no momento de redigir esse artigo estava – peço sinceras desculpas – , um pouco alterado. Certas substâncias não nos permitem perceber as redundâncias que vamos cometendo ao escrever. Ficou registrado, nesse caso, a repetição abusiva da metáfora expressa no verbo “fagocitar” e na apreciação do carpaccio. Abraços.

    A substância se chama reiteração.

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