Conselhos literários fundamentais (VI)

04/05/2011

Não tenha preguiça de reescrever. O escritor que não reescreve o que acabou de escrever, mesmo que por pura mania, mesmo que para deixar o texto indiscutivelmente pior, não merece ser chamado de escritor. Será, no máximo, um excretor a sujar de palavras fisiológicas em estado bruto um mundo que não precisa de sua contribuição para se assemelhar a um aterro sanitário de símbolos. Se escrever dez linhas, reescreva-as dez vezes em dez horas, e mais dez vezes a cada dez horas dos dez dias seguintes: corte, amplie, pregue, serre, lixe, solde, cole, mude tempos verbais e a ordem dos parágrafos, exercite a sinonímia e a intolerância. (Este conselho, por exemplo, foi reescrito ao longo de nove meses de trabalho diário. Em sua primeira versão, dizia: nunca reescreva o que acabou de escrever.) E caso ocorra a circunstância nada improvável de retornar nesse processo de edição a um texto muito semelhante ao original, ou mesmo idêntico a ele, saiba que a sensação de tempo perdido será uma ilusão e que o fruto da reescritura, como o Quixote de Pierre Menard, terá por trás das mesmas palavras uma densidade incomparavelmente superior. Claro que também é preciso reconhecer o momento de parar de reescrever, aquele ponto a partir do qual, como nas cirurgias plásticas em série, qualquer nova mexida só pode resultar em desastre, mas isso não é tão difícil: ele costuma vir acompanhado do impulso de golpear repetidamente o cristal líquido com o teclado para ver qual quebra primeiro.

*

Outros conselhos: I, II, III, IV e V.

15 Comments

  • thiago 04/05/2011 at 12:52

    “aterro sanitário de símbolos”, um belo exemplo de desperdício.

  • Jandeilson Bezerra 04/05/2011 at 13:00

    Sem dúvida alguma reescrever é o caminho!

    Jan
    http://eloletras.blogspot.com

  • Cláudio 04/05/2011 at 14:13

    Como disse Graciliano Ramos, o ato de escrever é como o de lavar roupa: deve-se esfregar, ensaboar, torcer, espremer, até que fique tudo limpinho.
    Um abraço.

  • Fernando 04/05/2011 at 17:05

    Sinto dificuldade em soltar o pensamento. Ideias vem e vão só sinto um bloqueio. O primeiro passo seria quebrar este bloqueio para ai sim soltar o dedo sobre o teclado e deixá-lo conversar com a mente.
    Se para escrever já sinto dificuldade imagina reescrever… ta danado!

  • Fedor 04/05/2011 at 18:22

    “Este conselho, por exemplo, foi reescrito ao longo de nove meses de trabalho diário. Em sua primeira versão, dizia: nunca reescreva o que acabou de escrever” – AHAHAHAHAHHA!!

  • Rogerlando Gomes Cavalcante 04/05/2011 at 22:19

    Escrevo, n~ reescrevo – reescrever reescreva/ – E reescreve! – quem leia; leia, /Reescreva, à alteridade se atreva:/ versões e in, distorções, alusões…/ E n~ deixa de ser Santa nem, sim, bolo, ceia / – O inexplicável resiste a explicações.

    Quando escrevo nunca penso no escrito:/ Dispenso a finitude em prol do infinito.

    http://www.rogerlando.com

  • Ataíde 04/05/2011 at 22:45

    Já estava desistindo de uns escritos de tanto rescrevê-los mas agora animei.

  • Regina 05/05/2011 at 16:49

    OK. Texto excelente. Conselho anotado.

  • Lucas 05/05/2011 at 20:55

    A conselho do grandioso parnasiano, Olavo Bilac, devemos trabalhar, teimar, limar, sofrer e suar; tal como um beneditino para que nosso esforço seja reconhecido – além de que a repetição, em alguns casos, é o caminho à perfeição.

  • Rosângela 09/05/2011 at 16:28

    Eu nem quero saber se é preciso reescrever um texto. Só sei que trileio seus textos e nem tô aí. kkkkkk são ótimos. Primeiro porque muitas frases me fazem escorregar e tenho que subir de novo, mesmo que seja para escorregar novamente( não ficaria bem aqui o “de novo”… kkk…). Segundo, que seus textos são inteligentes pegadinhas. Terceiro porque nem sempre sei o signficado das palavras. E quarto porque reler seus textos é como tomar um sorvete após aquele almoço predileto.

  • Rosângela 09/05/2011 at 16:32

    Ah!Um detalhe: Sorvete de chocolate com menta, por favor.

  • Rosângela 09/05/2011 at 16:44

    Ah…avise isso nos concursos que pedem redações. Seria bom que o concursado tivesse o tempo necessário para a tal reescrita, né? Bem, já me dei mal porque não passei tudo à limpo.

  • Rosângela 10/05/2011 at 21:05

    Ah Sérgio… quando reli o que escrevi, me deu frio na espinha. É que fui demagoga. SIm, meio hipócrita. É que menti sem querer. Na verdade, apesar de reler seus escritos e gostar e achar legal, é o reler a Palavra de Deus que é meu pão e minha luz. Amo reler e reler a Palavra de Deus, que na verdade é meu alimento. Desculpa aí meu exagero. Uma das coisdas que aprendemos em, discipulado é que devemos ser sóbrios e verdadeiros. Sim, releio seus escritos, mas meu pão é reler as Escrituras.

  • Monica Diniz 20/05/2011 at 14:57

    De fato, é necessário reescrever o que se escreve. Do contrário, fica um texto bruto, como um diamante não polido ainda pelo ourives: belíssimo, porém, sem o a “chama” que o artista deixa impregnado ao lapidá-lo. Um certo “elan” que lhe empresta aura de vida própria, quem sabe…
    Monica Diniz

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