Conselhos literários fundamentais (VII)

06/05/2011

Não perca um minuto discutindo com quem prega a morte da narrativa. Evidentemente, o que esse cidadão está tentando fazer é criar uma – sim! – narrativa, aliás ingênua e batida, em que ele próprio é ao mesmo tempo o bandido que mata a velha dama aristocrática chamada Literatura e o mocinho que desvenda o crime, trazendo a boa nova de um futuro em que os narradores serão substituídos por… filósofos da linguagem? Se é verdade que vivemos um tempo de inflação narrativa em que a vida privada se vê transformada em “historinha” de forma instantânea nas redes sociais, a única resposta que a isso pode dar a literatura, arte narrativa por excelência, é narrar melhor. Narrar a narrativa, narrar o processo que fez tudo virar narrativa. Ou criar uma narrativa que dê um jeito de ser tão focada que brilhe em meio à pasta amorfa geral, atingindo o frescor pelo paradoxo da evocação de uma certa luz perdida. Por definição, nunca se pode dizer de onde virá o novo. Mesmo porque a tal inflação não começou há cinco anos, nem há trinta. O modernismo é, entre outras coisas, uma réplica artística à trivialização das histórias promovida por imprensa, rádio e cinema no início do século 20. Parece inegável que a crise se aprofundou e exige novas respostas, mas supor que estas proscreverão sumariamente a pulsão narrativa, mãe de poesia e prosa, é um erro tão simplório que parar para discuti-lo só atrasa a vida – que, como se sabe, é curta. Deixe o cara falando sozinho e vá escrever aquele conto.

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Outros conselhos literários fundamentais.

6 Comments

  • Noah Mera 06/05/2011 at 14:04

    Engraçado como minha próxima coluna no Digestivo Cultural fala exatamente dessa ficcionalização via narrativa da vida particular nas midias sociais: http://www.digestivocultural.com/colunistas/coluna.asp?codigo=3320&titulo=As_Midias_Sociais_e_a_Intimidade_Inventada

    É um dialogo interessante com o seu conselho

  • Marianna 06/05/2011 at 16:05

    Acho um crime que os alunos a partir do Ensino Fundamental II sejam obrigados a escreverem apenas textos dissertativos e abandonarem a narrativa.

  • Vinicius Valero 06/05/2011 at 16:44

    Resposta ao Pécora.

  • Jandeilson Bezerra 07/05/2011 at 01:35

    É inegável que escrever seja o único caminho para a descoberta do novo, não adianta tantas discussões e nunca se ler algo novo, o que adianta querer o novo se só lê os velhos de sempre? Como arriscar o novo se conhece-lo? É verdade que escrever é o único caminho para a renovação e abrir-se ao novo é revelar o tempo que há nele contido!

    Elo das Letras
    http://eloletras.blogspot.com

  • saraiva 09/05/2011 at 21:00

    a narrativa nunca vai morrer, só se deslocou para a narrativa em imagens. a em palavras está anacrônica.

  • Regina 10/05/2011 at 14:16

    Segundo Joseph Nye (importante autor da área de política internacional), em sua obra mais recente “The future of Power”: “Na era da informação, não interessa só qual é o exército vencedor. Interessa também qual é a narrativa vencedora”.

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