Conselhos literários fundamentais (VIII)

25/05/2011

Cultive um amuleto para os momentos de desespero. Pode ser Al Pacino perguntando a Diane Keaton em O poderoso chefão: “Quem está sendo ingênuo, Kay?” (Quem está sendo ridículo, cara?) Pode ser qualquer coisa, a memória do ar frio da madrugada entrando em seus pulmões numa manhã de pescaria na infância, um retrato da sua filha sorrindo com a boca sem dentes toda suja de feijão quando tinha um ano, uma estrofe de Bandeira, um labirinto de Escher, uma foto de Gautherot, qualquer objeto material ou imaterial que tenha algo de imantado e permanente e que, invocado como último recurso, agarrado na vertigem do sorvedouro como as sobrancelhas de Capitu eram agarradas por Bentinho em dias de ressaca, o impeça de cair no ralo que cedo ou tarde tenta nos tragar a todos, aquela contabilidade avara de elogios e críticas e gentilezas e esnobadas e alianças e hostilidades e rancores guardados na geladeira em tupperwares etiquetados, nomes e datas, vinganças agendadas, o ressentimento justificado, o ressentimento injustificado – o ressentimento, só. Quando a corredeira dos egos escoiceantes ameaçar transformá-lo num idiota, num paspalhão, agarre seu amuleto com todas as forças e saia em diagonal, dançando um maxixe com ar distraído, para não ter que admitir nem para si mesmo que disso depende sua salvação.

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Outros conselhos literários fundamentais.

4 Comments

  • Jéssica 25/05/2011 at 22:50

    Olá Sérgio,

    sou estudante de mestrado e os blogs são meus objetos de estudo para falar de uma nova configiração literária, a qual é possibilitada pelo hipertexto. Teu blog é uma das minhas propostas de análise e, por isso, gostaria de te enviar uma entrevista acadêmica sobre tua experiência com esse espaço. Poderias me disponibilizar teu e-mail para trocarmos algumas figurinhas?? Se preferires, me envie um e-mail q eu t respondo com a entrevista… Desde já, mto obrigada. Abs!

  • clara 26/05/2011 at 06:05

    No quesito ‘como sobreviver a esse ofício sem braçadas inúteis’, post máximo, ótimo, total clareza, lucidez – a névoa del diavolo perpassa. Melhor, por mais sutil e menos cruel, do qeu amor no tempo dos códices’.
    abraço, clara

  • sergiorodrigues 26/05/2011 at 17:00

    Jéssica, mande suas perguntas para sergio@todoprosa.com.br.

    Clara, obrigado! Mas você não aprecia uma crueldade (literária) de vez em quando?

    Abraços às duas.

  • Joana D'Arc de Oliveira Macedo 29/05/2011 at 19:15

    Realmente esse artigo é muito bom. Eu sempre tenho alternativas para ficar bem e esquecer as tristezas. Uma delas é dizer que ganho “vida”,sempre que recebo alguma mensagem , quando um amigo liga dizendo que está com saudades que lembrou de mim,quando leio um livro e encontro alguma mensagem na leitura. E assim minha autoestima está sempre em alta.
    Joana D’Arc Macedo

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