Continho antigo

13/12/2006

O vetusto e alquebrado escritor permanecia inédito, desprezado por casas editoriais grandes e pequenas, não obstante os tenazes esforços do espírito que lhe haviam consumido a saúde na lida com as exigências da criação, as quais, sendo artista consciente e de talento raro, equacionara de modo tão sutil e original que terminou por se distanciar irremediavelmente de seus contemporâneos. Na hipótese mais benevolente, seria compreendido pela geração de seus bisnetos. Bisnetos que, bem entendido, tinham na frase papel meramente retórico, pois entre os departamentos da vida que o artista mantivera lacrados para se entregar por inteiro à literatura, essa górgona voraz, avultava a paternidade.

Tinha um sobrinho; isso tinha. Rapazola tresloucado, boêmio, compunha a figura de um perfeito doidivanas, mas um doidivanas de boa aparência e traquejo social incomum. Sapato bicolor e mecha rebelde desabada sobre os olhos, surgiu-lhe esse sobrinho certa noite, em sonhos, como peça-chave de um plano insensato. O escritor tentou escorraçar a extravagante idéia, decerto germinada no lado negro de sua alma ferida, mas o sonho se repetiu. Noite após noite o sonho se repetiu, até que o juízo combalido do homem lhe desse passagem e ele adentrasse, aos pinotes, a terra da vigília.

Não devemos julgar o artista com demasiada severidade. O sobrinho aceitou o trato, lançou-se o livro pela editora mais prestigiosa, as gazetas se encantaram com autor tão jovial, tão peralta, cabeleira revolta e vida amorosa à beira da indecência. Em menos de meio mês o triunfo era esmagador. Gênio, entoava a cidade, num uníssono de ensurdecer. Nada menos que isto: gênio. Mas será mesmo? Gênio, claro; e estávamos conversados.

Mal teve tempo o escritor de saborear o agridoce, porque vicário, reconhecimento à sua arte maior. Logo o sobrinho lhe exigia novos originais, e bons, e depressa: os editores lhe mordiam os calcanhares, era preciso aproveitar o momento, carpe diem, fortunas vertiginosas estavam em jogo. Perplexo, o escritor viu a nota autoritária no discurso do janota ir de mal perceptível a escandalosa antes que tivesse tempo de articular “enxergue-se”. O manuscrito que passou às mãos do jovem foi descartado com escárnio:

– Tenho uma reputação, tio. Espera realmente que eu ponha meu nome nisto?

Naquela noite, o grande artista lançou o livro rejeitado e as pilhas de escritos de toda uma carreira ao fogo que, alastrando-se pelo ambiente encharcado de óleo de lamparina, em poucos instantes lhe consumia os móveis, as estantes, a casa e a vida. Tristíssimo fim, não se discute. A morte tremenda lhe poupou, porém, o dissabor de ver o sobrinho faceiro multiplicar fama e prestígio com sua segunda obra, esta rabiscada, que remédio, por ele mesmo ao longo de três noites insones e cinco garrafas de absinto. Colcha de retalhos feita de tartamudeios e outras algaravias de semi-analfabeto, o livro foi declarado pelo maior crítico da cidade “superior ao primeiro em todos os aspectos”.

Ao fundo, atrás de um biombo, a górgona tinha uma síncope de tanto rir.

14 Comments

  • joao 13/12/2006 at 15:54

    …. é desgraca pouca é bobabem.
    Mas isso lembra um pouco “Capitao de Longo Curso” de J. Amado. Gostei, tem um suspense e um lado de humor bem brasileiro.

  • Daniel Brazil 13/12/2006 at 18:07

    Cruel, e muito bem escrito. Um “fantasma da ópera” literário, com a vantagem da concisão.

  • Rodrigo Sampaio 13/12/2006 at 18:17

    Muito bom, meu confrade Sérgio. Eis que nos deparamos com um estilo do nível e da lavra da obra capital Maribondos de Fogo do imortal José Sarney ou de mais quantos supimpas senhores modernos que ora integram as cadeiras vetustas da Academia. Tenho certeza que, se vivo estivesse, Coelho Neto iria se jogar aos seus pés peclaros.

  • Sérgio Rodrigues 13/12/2006 at 18:24

    Acho que não, Rodrigo. O Coelho Neto tinha muitos defeitos, mas consta que entendia ironia quando lhe esfregavam uma na cara.

  • Rodrigo Sampaio 13/12/2006 at 18:45

    De ironia, entendia. O que não entendia era de estilo. Acho que, por exemplo, ele não seria capaz, como você fez tão bem, de ironizar um texto arcaico, a não ser que ele estivesse disposto a fazer uma auto ironia (mas para tanto, é preciso ter consciência do próprio estilo). Abraço.

  • O profeta 13/12/2006 at 19:01

    Nocaute.

  • Barfly 14/12/2006 at 00:26

    Por isso alguns evitam contato com outros escritores… sempre a comparação e o recalque, como se se tratasse dos centimetros de suas rolas… Puta que o pariu!

  • Noga Lubicz Sklar 14/12/2006 at 10:28

    insondáveis são os critérios de seleção dos editores, não? bem realista. a vida real é que excede, muitas vezes, a ficção.

  • Deise Guelfi 14/12/2006 at 13:57

    Adorei, Sérgio. Adorei.

  • Gustavo 14/12/2006 at 15:39

    muito bom!… podia nos brindar mais vezes com textos assim

  • João Daltro 14/12/2006 at 21:10

    Gostei, principalmente opinião da crítica sobre o segundo livro. Imagino o faceiro sobrinho escrevendo um terceiro, finalmente de lavra própria, e sendo considerado um gênio da raça. Depois, claro, mudava-se para a Europa e comprava uma casa ao lado do Caminho de Santiago.

  • Vitor Sznejder 15/12/2006 at 09:58

    Caro Sergio: baixou-lhe o espírito — e o texto – do bruxo do Cosme Velho?:-)
    Abs, Vitor

  • jeanette rozsas 18/12/2006 at 00:50

    Acho que as três górgonas andam rindo de mim, presunçosa escritora nestes tristes trópicos. Sérgio, gostei do texto, bateu direto com a minha atual disposição sombria que me impele a queimar tudo o que já escrevi. Parabéns.

  • Delsio 20/01/2007 at 18:47

    Adorei o conto, Sérgio……errrrr…..Claro que você estava esperando há ,mais ou menos, 35 anos por esta abalizada avaliação minha! Pois então…..: aprovado!!!!

    Ehehehehehh…

    Abração!

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