Cony inédito: e a Madre Teresa, hein?

08/05/2006

O Adiantado da HoraExcelente notícia: Carlos Heitor Cony, um dos poucos escritores propriamente ditos da Academia Brasileira de Letras, comemora seus 80 anos (completados dia 14 de março) lançando romance novo, o primeiro desde 2003. Chama-se “O adiantado da hora” (Objetiva, R$ 32,90) e quando sair, no próximo dia 18, promete causar algum escândalo. Nada que se compare ao caso das caricaturas de Maomé – o catolicismo é bem mais flexível, afinal. Flexível mas nem tanto: vale lembrar a recente tempestade de protestos que desabou sobre os falos desenhados com terços pela falecida artista plástica Márcia X., e que fez o Centro Cultural Banco do Brasil cancelar a mostra “Erotica”. Acontece que Cony, um ex-seminarista que já decretou, pela boca de um personagem do romance “Informação ao crucificado” (1961), que “Deus acabou”, continua afiado em sua tensão espiritualidade x anticlericalismo. “O adiantado da hora” é uma farsa furiosa, de humor escrachado e absurdo, em que Madre Teresa de Calcutá, beata a caminho da santificação, torna-se personagem de uma tórrida cena de sexo – mas talvez tudo não passe de mentira de um certo Seabra…

O adiantado da hora (trecho)

Ninguém sabe por que nem quando o chamavam de Seabra – nem ele, que por cautela adquirida com o tempo nem mesmo se chamava, deixando isso para os outros.

No Registro Civil, na Inspetoria de Trânsito, na Receita Federal e na Ordem dos Velhos Jornalistas, da qual era sócio fundador e remido, em várias delegacias especializadas ou não, constava o seu nome verdadeiro, Antônio Ferreira de Araújo, sendo que nesta última instituição, para melhor identificação, depois dos nomes oficiais, aparecia o Seabra, entre parênteses, como uma espécie de fórmula química (H2O), para a água; como uma família botânica (Cucumis sativus), para o pepino; ou identificação de um micróbio (Treponema pallidum), para a sífilis.

Seria um mistério em si, nome imposto pelo uso e adotado pelo consenso, não fosse o próprio Seabra um mistério à parte, ninguém tinha certeza de nada quando dele lembravam ou quando procuravam esquecê-lo.

Mas como esquecer o sujeito que garantia ter sido seduzido pela Madre Teresa de Calcutá, em 1935, quando viajava pelo Oriente (onde nunca pôs os pés) e passou a noite num albergue em Bombaim, onde fora recolhido após assombrosa bebedeira.

Colocado numa esteira de bambu, Seabra curava o porre quando uma freira com cara de retirante nordestina aproximou-se e perguntou se ele precisava de alguma coisa. Sim, ele precisava, a freira estranhou aquele desconhecido ali jogado na esteira de bambu, entre indigentes, mas com furiosa vontade de trepar, trepar o que fosse, uma vaca sagrada (estava na Índia), um camelo, um encantador de serpentes, até mesmo uma serpente, embora fosse complicado transar com uma delas.

É de ignorância geral como se passaram as coisas, nem mesmo ele sabia ao certo. O próprio Seabra contava o episódio em diferentes versões, que poderiam ser assim classificadas:

a) em 78 rotações, curtas como os primitivos discos das vitrolas antigas;

b) em longa duração, como nos discos de vinil, em 33 rotações, um pouco mais compridas;

c) em CD, narração que durava mais de uma hora, com detalhes escabrosos nos quais a freirinha revelava uma luxúria que deixara Seabra de língua dura e pau mole.

Quando, anos depois, soube que a madre ia ser elevada à glória dos altares, como santa, ele acrescentou um lance ao episódio: após saciado pela gula da freira, ela o teria obrigado a recitar os sete Salmos Penitenciais, dos quais Seabra não tinha conhecimento prévio, nem deles teria depois, apesar de, voltando ao Ocidente e procurando se informar, ter arranjado com um beneditino de Solesmes um livro de orações que tinha os referidos salmos em versão latina e francesa.

Seabra não sabia latim nem francês, o livro de orações de nada lhe serviu, mas segundo constava, foi trocado por uma imagem do Senhor dos Passos atribuída ao Aleijadinho ou a um de seus discípulos, troca que inauguraria Seabra ao mesmo tempo como eventual comerciante de obras raras, entendido em barroco mineiro, jornalista e desocupado nas horas vagas, que eram muitas, para não dizer, todas.

9 Comments

  • Vaqueiro 08/05/2006 at 17:46

    Essa cabra Coni não precisa chamar a madre Teresa para escrever cena tórrida. Basta botar o nome dele como precursor dos “mensaleiros”, um sujeito que enraiba a Pátria todos os meses nalguns milhares de cruzeiros e já enraibou nalguns milhões. Para que mais torridez do que enraibar a viúva?!

  • Daniela Abade 08/05/2006 at 17:59

    E a polêmica teve início.
    Adorei ver você “todoprosa”. Boa sorte nessas novas palavras.

  • Sérgio Rodrigues 08/05/2006 at 20:33

    Obrigado, Dani. Apareça sempre.

  • Amigo do Blergh! 08/05/2006 at 20:47

    Mas quando afinal teremos Literatura (com “L” maiúsculo) de novo? Com 32,90, tiro fotocópia de um livro de Cecília Meireles e lucro muuuuuito mais.
    My God, o que a idade não faz com os escritores?

  • Delsio 08/05/2006 at 22:42

    Cony?! Blerghhhh…… Está certo que escreve bem mas não dá!

    Abs.

  • Pedro Curiango 09/05/2006 at 18:59

    Cony não escreve bem – sua prosa é pedestre, se comparada a quaisquer dos realmente bons escritores brasileiros. E suas opiniões são quase sempre de uma mediocridade avassaladora. Num determinado momento, quando integrava o número de cronistas do “Correio da Manhã”, nos seus “áureos” anos da década de 1960, ganhou certa fama por escrever contra a ditadura militar (embora seus escritos nunca tivessem sido realmente censurados – tenho um livro dele, com coleção de crônicas políticas, publicado naquela época!). Foi com ela, a fama de contestário de araque, que conseguiu entrar para a Academia, uma opulenta “indenização” (até hoje não sei porquê) e uma salário eterno. E continua escrevendo “protestos” que mais parecem coisa de adultescentes, como diria o Sérgio Rodrigues…

  • Joao Gomes 19/05/2006 at 11:31

    Acho que o Cony esta mais parecendo uma personagem de John Cheever. Com este adiantado da hora esta mais para nao tras novidade. Nao é as memorias de Sade. E continua se repetindo. E sobre fazer parte da Academia. Isso, “a esta altura do campeonato” nao significa, pois la tem entrado ultimamente quase todomundo. Por exemplo: um cineasta que nunca escreveu livro! A Academia é um mausoléu, um fóssil, uma lareira de vaidades e nulidades. Me perdoem os puros, ingenuos e crentes do pensamento unico midiático! A tradicao e o conservadorismo da academia esta vindo abaixo atraves de suas mais estranhas campanhas de “renovação” com a nominata e eleição dos mais díspares seres. Não ficarei admirado se amanhã ela venha a ter entre seus pares “eleitos” e homenageados para ocupar uma das 40 cadeiras daquela caverna chamada Petit Trianon “compositores” de raps, funks, pixadores e grafiteiros.

  • joao gomes 19/05/2006 at 12:57

    queria dizer: “mais pra la do que pra ca” no trecho: […Com este adiantado da hora esta mais para nao tras novidade.] Ops! Perdao!

  • Matheus Broll 16/09/2007 at 09:25

    Apesar de gostar da imagem da Madre Tereza sendo enrabada (gostaria até de ter sido eu o Seabra, pois a albaneza foi uma linda mulher na sua juventude) o velho Cony e sua literatura não me interessa para nada. Aliás, todo sujeito que aceita ir para a Academia é um crápula que, apesar da farsa literária que qualquer um pode inventar, não tem nada a dizer. E depoiis, foi quase padre, sabe latim, mama em no corporativismo vil dos jornalistas, dá palpites idiotas na CBN etc. Enfim, quem está adiantado da hora é ele. Esse país não é apenas uma bosta, ele engendra bostas.

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