Lendas etimológicas: Crasso

01/08/2009

O post de hoje é a reunião de dois textos publicados no NoMínimo em 7 e 8/11/2005:

O adjetivo “crasso”, do latim crassus (gordo, espesso), ganhou em português o sentido figurado – e hoje dominante – de “grosseiro, tosco”. Pode-se falar, por exemplo, numa pessoa crassa, num acabamento crasso, num discurso crasso, entre infinitas possibilidades mais ou menos crassas. Mas isso é teoria. Curiosamente, “crasso” acabou restrito, no mercado real das palavras, ao emprego de ajudante do substantivo “erro”. Algumas palavras se casam, entre juras de fidelidade eterna, e não é mole separá-las.

*

Volto à palavra de ontem porque vários leitores – alguns deles, justiça seja feita, com uma dose saudável de ceticismo – me escreveram para dizer que, segundo uma tese de sucesso na internet, inclusive na Wikipedia, os erros grosseiros começaram a ser chamados de “crassos” por alusão a um grave equívoco de estratégia militar cometido por Marco Licínio Crasso, membro do primeiro triunvirato romano, ao lado de Pompeu e Júlio César.

Pode ser verdade? Pode, nunca se sabe. Mas que tem cheiro de etimologia romântica, tem. Consultando tomos vetustos e outros nem tanto, não encontrei nenhum etimologista sério que dê crédito a essa tese. De resto, se “crasso” precisa da mediação erudita de um figurão romano para se transformar em “grosseiro”, por que o substantivo “graxa”, que tem a mesma origem, não precisaria também? Será que Marco Licínio Crasso era obeso? Será que inventou a graxa de sapato?

Enfim, o caso de “crasso” me parece suspeitamente semelhante ao de larápio, sem deixar de ter pontos de contato com o de aguardente, termos já comentados aqui na coluna. Cercadas de uma mitologia “etimológica” que, por ser pitoresca, se espalha na internet feito fogo em mato seco, tudo indica que essas palavras sejam veículos de velhas e imaginosas lendas. E quem está ligando para isso?

42 Comments

  • tchelo 01/08/2009 at 16:14

    Interessante, essas lendas. O curioso seria a gente saber em que contexto elas foram criadas, ou, o que que levava o cidadão a por a bufa para criar essas coisas…..tem algumas que mereciam verdadeiras.

  • Jäger 01/08/2009 at 16:18

    Várias famílias de ostras são denominadas como Cassostrea. Aparentemente nada a ver com Marcus Licinius.

  • André Oliveira 01/08/2009 at 16:49

    Marco Licínio inventou a pasta de polir elmos e escudos. Ou você não sabia?

  • José Carlos 01/08/2009 at 16:50

    Meu amigo sejão, de grandes e memoráveis artigos, vou ousar lhe perguntar uma coisinha.

    Você está com febrinha, tá doentinho, ou esta ficando crasso da gente.

  • Marcos Augusto 01/08/2009 at 19:04

    O povo adora estar na moda, mesmo que esta o sufoque. Ver, sentir a morte de algo, ou alguém, se tornou deslumbrante. E se esquecem do que era vivo, do que era certo. O modismo invadiu a fala e está matando a lingua, a prosa, pois o que conta é a anedota.
    Isso me faz querer outros mundos, novas entranhas e dispender meu tempo com Guimarães Rosa.

  • Fernando 01/08/2009 at 19:26

    O tema é de uma importância fundamental. É capaz de ultrapassar as notícias sobre gripe suína (que também não é suína). Por outro lado será que larápio e aguardente tem alguma coisa de comum com a crise atual no Congresso?

  • aurelio pintyo cardoso 01/08/2009 at 21:18

    Erro Crasso vem realmente da história romana por causa da derrota do imperador romano de mesmo nome…
    Assim como vitória de Pirro quer dizer uma vitória amarga, dificil em homenagem ao general romano que derrotou Annibal tendo pesadas baixas..
    Vem da epoca romana e como somos povos latinos.. portanto….

  • Rocha 01/08/2009 at 23:11

    Legal! Pura cultura inítil. às vezes, erro crasso é ler algum post.

  • Rocha 01/08/2009 at 23:14

    Peço desculpas. Erro crasso na escrita. É pura cultura inútil.

  • Deise Gê 01/08/2009 at 23:43

    Em termos de conhecimento, nada é supérfluo ou inútil. Gostei.

  • CanTag 01/08/2009 at 23:59

    Era uma vez….

    A exemplo de todos, também fico comovido pelo crasso amigo de longa data, todavia após operação do respectivo estômago, de crasso só sobrou o erro médico…..

  • CanTag 02/08/2009 at 00:04

    Apesar do crasso rateio da mega-sena, crasso maior é acreditar que ele será rateado….

  • pedro lobão 02/08/2009 at 01:57

    Um erro craso maior, foi quando eu me crasei. o HOMEN NÃO SERVE PARA SER CRASADO, eu amo a minha esposa, mas o nosso namoro era muito melhor!
    Ela vivia perguntando: “vamo crasar”, “vamo crasar”………….. até que, exatamente qdo eu estava com 37 anos”, eu cometi o maior erro e falei: “tá bão, eu crasso”. Foi nessen momento que atestei a maior derrota da minha vida; derrota maior que a do Marco Licinio Crasso.

  • Pedro Bariani 02/08/2009 at 04:41

    Vitória de Pirro:
    Pirro não foi um general romano e sim o rei do Épiro e da Macedonia. A expressão vitória de Pirro se refere ao fato de apesar de ter vencido sua segunda grande batalha (Batalha de Ásculo), contra os romanos a custo de muitas baixas. Cumprimentado pela vitória diz-se que respondeu: “Mais uma vitória como esta e estou perdido´´ .
    Aníbal Barca foi derrotado por Cipião o Africano na batalha de Zama e nada tem a haver com Pirro.

  • Pedro Bariani 02/08/2009 at 04:47

    Em tempo:
    Caio Licínio Crasso era um consul e general da república de Roma visto que o imperio romano ainda não havia iniciado.

  • Pedro Bariani 02/08/2009 at 04:48

    Em tempo:
    Marco Licínio Crasso era um consul e general da república de Roma visto que o imperio romano ainda não havia iniciado.

  • everaldo 02/08/2009 at 08:46

    Ainda bem que as pessoas mais importamtes para a nossa sobrevivência, não estão nem aí para estas questiúnculas, senão nós estávamos fudidos Já pensou se aquele operador de retroescavadeira, meter esta bosta na cabeça, e parar a máquina para responder esta questão ? Ainda bem que não dependemos dos intelectuais ( eu, em parte, no meio ) para sobreviver-mos.

  • everaldo 02/08/2009 at 08:51

    Agora…é um erro crasso desmerecer posts como este, pois os comentários foram excelentes, salvaram o texto principal. Adorei.

  • Wandinha 02/08/2009 at 09:18

    Sergio (bom dia) e que tal LEDO ENGANO?! que p*… é essa?!!!rrsrsrsrsrsrsrsrs

  • Heitor 02/08/2009 at 10:15

    Crassus, não era um general Romano?

  • Heitor 02/08/2009 at 10:16

    Tulius Crassus, não era iste? Como o Túlio do Botafogo, que só errava o Gol.

  • NSalvador 02/08/2009 at 10:39

    Olha só, o caso de “crasso”, tem contato com ligações estreitas com a aguardente, pois com o passar dos tempos estamos aí curtindo, os graves “pecados da língua” do nosso presidente, que se tornou um deslumbrado quando propositalmente transforma o certo no errado.
    E mais Sérgio, considera-se “erro crasso” inventar em cima do inventado, veja só: a gripe suína aqui no sul do Brasil pegou mais que “fogo em capim seco”. No mato é invencionice.

  • Kel 02/08/2009 at 10:41

    Concordo com o Everaldo, os comentários salvaram o texto principal. Se até os dicionários aceitam crasso no sentido figurado como grosseiro!
    O post valeu para que se abrisse uma discussão sobre a origem do crasso.
    Adorei.

  • wilson 02/08/2009 at 10:43

    não sei como vivi até hoje sem ter lido artigo tão útil,fala sério cara!!! está sem assunto?

  • cely 02/08/2009 at 11:33

    Nada mais absurda que a afirmação “cultura inútil”! Erro crasso,meu filho.Cultura nunca é inútil! Nem para os Crassos da vida!

  • paulo 02/08/2009 at 11:41

    Crasso era um general romano,que avido por glorias e comnquistas como Julio Cesar.tentou conquistar a Persia sem consultar e escutar conselhos de povos vizinhos,e acabou sendo massacrado e humilhado junto com as tropas romanas.

  • Craudio 02/08/2009 at 11:42

    Crassos `e meu irmao do meio !!!

  • Eduardo 02/08/2009 at 11:51

    No Mínimo, que saudade, visitava todo dia, inclusive o blog do Sergio Rodrigues.

  • galileu costa 02/08/2009 at 13:21

    Aos internautas contemporâneos do pragmatismo tupiniquim, nestas terras de “big brothers” e da “invenção” do agora famosíssimo “risco de morte”, observo que cultura nunca é inútil. Serve, pelo menos, para que aprendamos a escrever !

  • pasquale 02/08/2009 at 13:50

    Caro sr.Galileu, o sr. não inventou nada . Fui eu que alertei o povo que “risco de vida” é impossivel .

  • Desirré 02/08/2009 at 14:10

    Serjão você devia era cobrar em euro para cada leitura, isso aqui é terapia das boas, eu me divirtu muuuuuuuuito.

  • leticia 02/08/2009 at 15:57

    Senhor Pasquale, talvez o senhor tenha alertado erroneamente seu povo: “risco de morte” além de exposição boba de um nivel intelectual pretendido e não, de fato, alcançado é sim, impossível. Envio ao senhor um link sobre o assunto que possa, talvez, ajuda-lo a entender de uma vez a questão.
    http://www.adur-rj.org.br/5com/pop-up/risco_vida_risco_morte.htm

  • leticia 02/08/2009 at 16:03

    impossível em certos contextos, o que não impede seu uso, não exclusivo, claro. Que tal assumir lugar ao lado do “pedante” “risco de morte”?

  • Marco Antonio 02/08/2009 at 16:28

    A história de que o vocábulo ” crasso” nasceu da alusão à derrota de Marcus Licinius Crassus para os Partas, em uma estratégia estulta e temerária é antiquíssima, desde muitas décadas antes da internet ou wikipédia. Por seu erro, Crasso foi decapitado no deserto, longe da Roma onde se situavam suas incomensuráveis riquezas. Crasso, o homem que enfim derrotou Spartacus, foi o homem mais rico do mundo em sua época. E sabe qual era uma de suas maiores fontes de renda? Acredite se quiser: uma fábrica de perfumes, óleos e graxas. Na cidade de Capua, até onde se estenderam as seis mil cruzes dos gladiadores derrotados.

    Pode haver outra origem. Mas essa versão histórica é completamente verossímil.

  • daisy 02/08/2009 at 16:40

    Então, o presidente é CRASSO?

  • Heitor 02/08/2009 at 21:36

    “Vida em risco”, “a vida corre risco”, “a vida está em risco”, “risco de vida” é uma expressão perfeitamente aceitável e compreenssível, significa que a vida corre perigo.

  • Heitor 02/08/2009 at 21:41

    Querer consertar “risco de vida” é querer consertar a expressão “não há ninguém”, se não há ninguém, então haverá alguém. Diremos então “não há alguém”? Ora, claro que não!

  • morteMortemorteMortemorteMortemorteMortemorteMortemorte 03/08/2009 at 13:13

    A mudança da correta (e , digamos, elegante) expressão “risco de vida” para a pedante (como bem disse a Letícia, acima) e global “risco de morte” é mais um triste sinal dos nossos medíocres e “fat-food”ianos dias…Pior…É mais uma simbólica conquista da funesta “Cultura da Morte” que nos assola…

  • aurelio pintyo cardoso 04/08/2009 at 15:04

    Este Crassus não é Laurence Olivier no filme Spartacus.
    Obrigado pela lição sobre Pirro, que realmente levou uma surra em uma batalha.
    O cara que me corrigiu deve ser phd em história romana.

  • Victor Hugo 06/08/2009 at 04:15

    O que dá pra entender é que existe o Crasso, derivado do latim, que originalmente seria gordo e espesso, e está totalmente em desuso na nossa língua, e também existe o Erro Crasso, que evidentemente não seria um erro gordo, ou um erro espesso, mas sim um Erro à Moda de Crasso, o famoso militar romano (se era consul da república ou general do império pouco importa, o que importa é o tamanho da burrada que deixou ele famoso) e que provavelmente poderia mencionado em várias línguas diferentes, americanos poderiam ter o costume de falar em Crassus Error…

  • Victor Hugo 06/08/2009 at 04:24

    Enfim, não se trata de uma lenda etimológica, o que está havendo é um mal entendimento, assim como ‘risco de vida’ é uma forma elíptica de ‘risco de perder a vida’, ‘erro crasso’ é uma forma elíptica de ‘erro à moda de crasso’… não são palavras que se casaram e juraram fidelidade eterna e não é mole separá-las… é uma frase contraida em duas palavras…

  • Sérgio Rodrigues 06/08/2009 at 12:10

    Caro Victor Hugo, aí é que está: o que você sustenta é justamente aquilo que gerações de filólogos sérios se recusaram a endossar. Erro crasso, para eles, seria apenas um erro grosseiro – outro dos sentidos da palavra vinda do latim. A verdade, porém, é que jamais saberemos com absoluta certeza: etimologia não é ciência exata.

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