Crimes suecos, crimes brasileiros

30/10/2009

Por que não temos uma tradição de escritores dedicados à ficção policial? Logo o nosso país, com sua espiral incontrolável de violência urbana e enredos de crimes de fazer inveja às mentes mais febris. Tantos que basta esticar a mão e colher as histórias como se brotassem em árvores. Pode ser por isso? A gratuidade daquilo que permeia nosso cotidiano afastaria nosso interesse?

As perguntas são feitas por Paulo Lima num artigo de anteontem para o site “Caos e Letras”. Na infinita câmara de eco da internet, uma resposta vem hoje de Londres, no ensaio de Nathalie Rothschild sobre o sucesso planetário do sueco Stieg Larsson, publicado no site “sp!ked” (em inglês, acesso gratuito):

Talvez seja precisamente a força da imagem da Suécia como uma sociedade civilizada, democrática, igualitária e pacifista – uma boa menina situada imediatamente a oeste do antigo bloco oriental – que dá a seus autores de ficção policial, muitos dos quais se tornam best-sellers internacionais, seu apelo. Quanto mais calma a superfície, mais poder têm as revelações de suposta sordidez fervilhando abaixo dela.

Um raciocínio parece confirmar o outro, mas será isso mesmo? Sabendo que questões desse tipo nunca têm uma resposta única e simples, Lima aponta outra possível explicação:

Ou seria mero preconceito, por julgar a literatura policial menos digna dos esforços mais elaborados?

Hmmm, melhor tentar de novo. Consta que tal preconceito existe no mundo inteiro, o que certamente inclui a Suécia.

19 Comments

  • Rosângela 30/10/2009 at 15:57

    Hum! Eita textinho para aguçar!
    Meu Deus! Cala-te boca!

  • Rosângela 30/10/2009 at 16:00

    E o que eu procuro antes de tudo aqui, são aquelas frases originais e certeiras ali ao sudeste do livro branco…bem abaixo do Todo Prosa…

  • gilvas 30/10/2009 at 16:26

    o brasil, a julgar pelos letristas do mpb, sempre torceu o nariz para gêneros menos elaborados. prefere fazer peças curtas de exibição pedante dignas de um virtuose a se lançar em esforços mais longos onde a estrutura geral e suas sensações é que geram o efeito do prazer literário.

    excelentes elucubrações estas expostas hoje.

  • rodrigo sampaio 30/10/2009 at 16:58

    Acha que o bandido iria torcer para a polícia? Não. Se ele tem recursos intelectuais, torna a polícia mais bandida e bandido mais polícia. Romance policial precisa ter o bem e o mal – não é coisa para tupiniquim. Ou você já viu alguém mole de caráter torcer para alguém firme? Acham que os escritores não ressentem a moral baixa da sociedade em que vivem? Acham que são seres moralmente superiores? Não temos tradição de romance policial porque, como disse inteligentemente o Givas aí em cima, somos gênios demais. E honestos de menos. Coincidência, né, o romance ser forte na Suécia? Não seria interessante verificar se existe esta tradição em países de terceiro mundo?

  • Elton 30/10/2009 at 17:10

    Acredito que a primeira explicação tem bala na agulha. Parece-me mais natural ao escritores brasileiros, em vez de jogarem o crime numa lâmina para que os leitores o apreciem pelo microscópio; jogarem o próprio leitor num chiqueiro de criminalidade e fazê-lo ser devorado até os ossos por uma infinidade de figuras hediondas. Talvez essa seja a diferença: ao invés do crime (a violação da ordem legal, social), a violência (a violação do corpo, animal).

    É essa a impressão que tenho lendo coisas como Macho Não Ganha Flor, do Dalton Trevisan, e todos os contos do Rubem Fonseca.

  • John Coltrane 30/10/2009 at 17:18

    A primeira pergunta é muito boa e pertinente, a primeira resposta também. Não tenho outro palpite, ainda, mas taí uma coisa na qual vale a pena pensar.

  • Paulo Ilmar Kasmirski 30/10/2009 at 17:36

    Em breve a historia do Bruxo de Benjamim Constant, tera uma celula, dentro da ficção, sobre isso

    Para todas as idades ser sugada, se não aprender vai ser o que na praça

  • joão sebastião bastos 30/10/2009 at 22:13

    Os vilões na literatura policial de hoje, são preferencialmente as grandes corporações.O assassino solitário ,maníaco homicida,etc.etc, estão ficando sem vez na literatura policial do século XXI.Interessante como um genero supostamente menor, atraiu até Borges,que tirou a sua casquinha, criando um detento detetive.Aos descrentes do policial brasileiro, recomendo atrevidamente Informações sobre a vítma,de Joaquim Nogueira(também um delegado de polícia,a exemplo do Rubem Fonseca, apenas mais verossímil).Um outro nórdico,o Jo Nesbo , também está dando suas cacetadas e até vendendo um bocado no Brasil,pra não deixar de falar dos bons gringos.

  • Rosângela 30/10/2009 at 22:15

    O problema maior para mim é que muitos escritores escrevem verdades como se fossem mentiras e escrevem mentiras como se fossem verdades. Aí, o que deveria ser um bem à humanidade tendo a cultura como instrumento, é muitas vezes, um grande mal. Percebo isto nos tipos de leitura que crianças e jovens lêem, quando lêem. Se não nos alimentamos de verdades, como queremos um mundo sem corrupção?

  • Rosângela 30/10/2009 at 22:21

    Outra coisa: tudo na vida tem princípio, meio e fim. O crime tem princípio, meio e fim; as tramas do mal na política tem princípio, meio e fim. Mas os livros, os teatros e muitas músicas são na maioria uma esquisofrenia só. O caos alimenta a corrupção, pois enquanto estamos lendo, e nos entretendo com coisas partidas, os espertos estão muito bem articulados, com bastante conhecimento de causa e fazendo de tudo para que as consequências sejam todas em prol dos seus objetivos… que são sempre de alto nível…

  • Rosângela 30/10/2009 at 22:53

  • kylderi 31/10/2009 at 10:51

    Recordo-me que Massaud Moisés considera a literatura policial subliteratura. Preconceito? Quando se utiliza a ficção para revelar algo do ser humano ou da sociedade, é arte, não importando a classificação.

    PS: Rubem Fonseca faz literatura policial, vende muito e é respeitado pela crítica. Vem por aí mais um livro dele.

  • Hélio Jorge Cordeiro 31/10/2009 at 15:25

    Sérgio, a literatura brasileira tem uma boa gama de novos escritores caminhando para os romances e contos policiais. Uma boa iniciativa foi a da Multifoco que lançou este ano Assassinos S/A Volume I – Contos policiais brasileiros. Quem quiser conferir é só procurar no site da Multifoco.

  • Rosângela 01/11/2009 at 12:27

    Ah, Hélio… ao mesmo tempo em que me aguça estas leituras me deixa perpelxa diante do não poder fazr nada. Se vem como ficção para a auto proteção, deixa sempre aquela coisa: ” Já pensou se isso é mesmo verdade? … mas é ficção…”

    E aí… a Ficção continua…

    Se vem como Realidade, estamos expostos a toda situação das mais constrangedoras. Já passei cada uma! Na própria Flipinha. No ano de 2007, escolhemos fazer uma homenagem do Diunner Mello, prata da casa em Paraty. Foi lindo… e foi verdade. Mas a uma Coordenadora Regional de Ensino ( professora de Literatura) foi categórica: Rosângela é doida… nada a ver.

    Nós estamos tão acostumados com ficção( outro nome para mentira) que quando estamos diante de alguém que quer ver a belezura criativa espalhada, ficamo meios perplexos e achamos que o outro é que está doido, sem noção, e eticétera e tal. Mais tal que eticétera.

    É isso…

  • Rosângela 01/11/2009 at 12:29

    Desculpa os erros aí… é falta de atenção mesmo… sou sem noção..rsrs

  • Rosângela 02/11/2009 at 09:52

    Interessante, acordei com vontade de vir aqui trazer uma canção. Quando entrei no computador uma foto me chamou a atenção. Entrei em agonia e falei a verdadem logo.
    bem a canção que me acordou hoje foi essa:

    E logo pensei… vou colocar no Todo Prosa…

    Bem… está aqui…

  • chato 03/11/2009 at 16:30

    Aqui no Brasil não existe a figura do investigador (menos de 4% dos crimes são solucionados, e tenho pra mim que mais por coincidências ou confissões do que por investigação policial).

    Ausente tal personagem, não há trama policial. Aliás, o policial aqui só existe como representação pura e simples da força bruta, em composição com a violência de traficantes e maníacos de todo gênero.

    No Brasil falta, pois, realidade para a trama, faltam personagens. Aqui a literatura nunca será policial, mas uma tarantinesca exibição de violência gratuita, como em Ruanda ou Bagdá.

  • Inútil 06/11/2009 at 11:52

    Alguém imagina um crime no Brasil desvendado com grandes análises técnicas, perfis psicológicos ou algo assim? Creio que aqui a polícia baixaria a porrada nos suspeitos, conseguiria confissões e prenderia os caras ou os mataria simplesmente.

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