Cuba

20/02/2008

A origem do nome Cuba é uma zona conflagrada em que teses eruditas se enfrentam há tempos, sem um vencedor à vista. Se essa guerra língüística de guerrilhas não se compara em ardor àquela outra, política e reavivada pela renúncia de Fidel Castro, entre castristas a anticastristas, ostenta em compensação um número maior de lados na disputa.

Embora cuba seja uma palavra espanhola (e também portuguesa) de bom pedigri latino – derivada de cuppa e com o sentido de tonel, recipiente grande, especialmente para guardar bebida –, o nome do país caribenho nada tem a ver com isso. Todas as teses etimológicas buscam a origem de Cuba em termos indígenas: coa + bana (“lugar grande”), ciba (“montanha”) e ainda cubanacan (“lugar central”).

O Houaiss registra que a palavra aparece no diário de Colombo em 1492. Isso não impediu o navegador de batizar a ilha à moda européia, chamando-a Juana em homenagem a Juan de Castilla, herdeiro do trono espanhol. Mais tarde, os colonizadores ainda tentaram emplacar os nomes de Fernandina, Santiago e Ave María. Acabou prevalecendo Cuba mesmo.

O interesse da questão escapa de ser simplesmente acadêmico devido à transformação pela qual passou a palavra a partir da revolução de 1959. Tornada ícone pop nos anos 1960 e 1970, Cuba embalou milhões de namoros adolescentes em forma de cuba-libre, uma mistura de rum com Coca-Cola hoje fora de moda.

Vista por muitos na época como celebração da “Cuba livre” – livre do imperialismo americano e de um ditador impopular como Fulgencio Batista –, a palavra composta cuba-libre é na verdade bem anterior à revolução liderada por Fidel: segundo o filólogo Antenor Nascentes, nasceu durante a guerra de independência, em fins do século 19, quando, à falta de café, as tropas nacionalistas preparavam no campo uma beberagem quente à base de mel e água.

Publicado na “Revista da Semana”.

28 Comments

  • Pedro Curiango 20/02/2008 at 19:49

    Sérgio: “cuba-livre” como bebida deve ser coisa bem antiga mesmo. Aqui no Brasil já era popular pelo menos durante a Segunda Guerra Mundial (1940), juntamente com duas outras composições fétidas: uísque com guaraná (que o João Bosco imortalizou) e “samba em Berlim” (coca cola com cachaça). Como ninguém aguentava o tal “samba em Berlim” e o uísque (paraguaio) era caro, apareceu, já na década de 1950, uma mistura de conhaque nacional com coca cola e chamava-se a isto de “mosca” – dizem que foi um ator, Carlos Kroeber, o inventor desta mistura… Eram bebidas de classe média – os pobres elegantes bebiam cachaça com fernet nacional [um “amaro” também meio horripilante], o famoso “traçado” de que fala o Nelson Gonçalves. Naquela época o sujeito ia à boite ouvir bolero e beber cuba-livre. Embora possa estar fora de moda no Brasil, o/a “cuba-livre” ainda é muito popular em toda área que vai da fronteira norte-americana até o norte da América do Sul. No Brasil, a moda destas misturas continua: já vi gente, em Brasília, tomando uísque “Old Eight” e uma latinha de bebida enérgética. [A saída de Castro, se mais não fora, dá pelo menos para que a gente se lembre do que bebia antes dele…]

  • Pedro Curiango 20/02/2008 at 19:50

    Adendo: o conhaque nacional usado na “mosca” era o “Castelo.”

  • Kleber 20/02/2008 at 21:22

    Sem querer fugir do tema (se for lá no fundo pode ter alguma relação com as caras que o regime cubano tomou com o tempo…) gostaria de saber se tem intenção de comentar sobre o que as herdeiras do Guimarães estão fazendo tipo vetar biografias, impedir sair o diário… me irrita essa mania, muito forte aqui no Brasil, dos parentes se acharem donos da vida de seus antepassados ilustres, até escrevi algo sobre no meu blog, mas gostaria (se lhe interessar o tema, é claro…rs.) ver sua opinião.
    Abraços

  • Sérgio Rodrigues 21/02/2008 at 00:04

    Curiango, muito bom. Sua erudição alcoólica – pelo menos para bebidas ruins – é tão impressionante que fiquei de ressaca só de ler.

    Kleber, os herdeiros malucos de grandes autores são figuras lamentáveis. Mas não são exclusividade do Brasil. O mais famoso do gênero é Stephen Joyce, neto de um tal de James.

    Abraços.

  • vinicius jatobá 21/02/2008 at 11:34

    Sou plenamente favorável ao controle da família sobre o legado dos autores. Se as pessoas não têm escrúpulos com os vivos, todos os limites são ultrapassados quando estão mortos. O legado de um escritor é de todos no seu impacto cultural, na sua apropriação pela leitura, mas não no manejo sem controle e apropriação individual (no caso de um jornalista, biógrafo, diretor de teatro): se não é assim durante a vida do autor, não vejo motivo para ser quando ele está falecido. Todo material privado de um escritor – cartas, diários, rascunhos, etc, etc – deve ser mantido na esfera privada, estritamente privada. Além disso, há uma industria inteira dedicada à invadir a privacidade das pessoas e a família deve sim cuidar da qualidade daquilo que é feito com o legado dos autores e cuidar para que seus livros (e imagem) sejam tratados com o máximo de competência. Não é porque o autor está morto que pode se fazer o que bem entende com ele até mesmo porque os direitos autorais, dependendo da legislação, ainda duram 60-70 anos para se tornarem públicos. Alguém tem que ficar responsável por isso, seja instituição, família, editores… Todo mundo fala do sobrinho do Joyce mas o que ele impede: adaptações infanto-juvenis do ‘Ulisses’; livros que provam que Joyce era anti-semita a partir daquilo que suas personagens falam (o que é um absurdo); biografia que dedicam capítulos inteiros ao prazer que Joyce tinha se masturbando; um musical da Broadway inspirado no ‘Retrado de um artista’; etc, etc… Quê há de mal vetar essas coisas de péssimo gosto e que não adicionam em nada ao legado artisticamente sério de James Joyce? A compreenção de ‘Ulisses’ será maior a partir desse material não vetado? Acho impossível…

  • Sérgio Rodrigues 21/02/2008 at 11:56

    Vinicius, só serei contra o direito de herança para obras artísticas no dia em que o dono de uma fábrica de salsicha também não puder deixar sua fortuna para filhos e netos. (O bilionário Warren Buffett defende algo semelhante, com a propriedade se tornando social com a morte do dono.) Enquanto isso não rolar, herdeiros terão o direito de administrar obras literárias. Como fazem isso é outra história. Talvez você não saiba, mas Stephen Joyce se dedica à perseguição de acadêmicos sérios também (e cabe a ele decidir o que é sério e o que não é?), é suspeito de ter queimado cartas do avô (não tio) e outras barbaridades. Direito dele? Parece que sim. Como é meu direito achá-lo uma figura lamentável para a cultura universal, dessas tantas que chegam a prejudicar a obra em sua tentativa de viver às custas dela, sem jamais trabalhar. Ha bons herdeiros, sem dúvida, dedicados a gerenciar da melhor forma a obra e a memória dos escritores. E há herdeiros nocivos, malucos, ridículos, às pencas. Simples assim.

  • vinicius jatobá 21/02/2008 at 12:45

    Claro que é simples, muito simples, Sérgio. Mas se você der uma olhada na ‘seriedade’ que ele persegue verá que são, na sua imensa maioria, idiotices. Como essa que falei: como o vício masturbatório do Joyce influenciou as cenas de masturbação de ‘Ulisses’? Isso é importante? Bom, se o acadêmico é de Harvard ou Princeton e qualquer idiotice que escrever será reproduzido internacionalmente acho que é trágico e deve ser combatido, com certeza. Ele vetou ano passado uma adaptação do ‘Ulisses’ para os quadrinhos. Exagero? Bom, seu argumento foi que as pessoas deveriam se esforçar para ler o livro. Que há de errado nisso? Ele quer que o livro do tio seja lido, só isso. O impacto de uma tese estúpida de um catedrático de expressão inglesa no mundo pode ser drástico para o legado de um autor. Por exemplo: os estudos pós-coloniais, sérios, comprometidos, construiram uma imagem de Conrad que não é justa com o autor e seu legado e que é moeda corrente no meio intelectual ainda hoje a ponto do governo inglês decidir não patrocinar ano passado as festividades dos 150 anos de seu nascimento. Viu o quanto a ‘seriedade’ não combatida pode ser daninha e empobrecedora? A questão é: se o pró-colonialismo tivesse escolhido um autor mediano para suas teses qual seria o impacto ‘midiático’ dos seus argumentos? Quando se fala de Conrad todos irão escutar. Uma biografia vetada sobre Nobokov pelo seu filho foi justamente uma que tentava provar tendências pedófilas de Vladimir a partir de uma leitura ‘crítica’ de Lolita e de trechos de sua correspondência, etc, etc. Isso é aceitável, mesmo considerando a ‘seriedade’ do acadêmico e jornalista? Se a gente sabe disso mesmo com o livro não publicado, imagina se estivesse sido publicado? No fundo estamos falando a mesma coisa, só acho que liberdade de expressão deve ter seus limites, e sempre que forem ultrapassados o poder de veto deve ser utilizado. Se Conrad tivesse pessoas realmente tomando conta de seu trabalho não estaria nesse ostracismo de hoje. Até mesmo porque muitas vezes um acadêmico ‘sério’ escolhe um autor não por verdadeira intenção de estudar sua obra e sim por aquilo que de visibilidade esse autor pode lhe garantir. E o que garante mais espaço no mundo de hoje: a polêmica vazia, muitas vezes forçada, ou o trabalho de formiga em busca de focos novos e originais da própria obra do autor? A Maria Kodama foi criticada porque vetou a reimpressão dos trabalhos do Borges pela Pleiade. Mas os argumentos dela: as traduções foram feitas a partir de edições não corrigidas, o material crítico tinha erros crasos e evidentes, e os livros foram editados numa ordem que não foi a estabelecida pelo Instituto Borges. É errado lutar pela melhor edição possível para o autor? A questão é mais ampla que isso tudo, claro, mas cuidar do legado de Borges, Rosa, Faulkner, Beckett, Joyce, etc, etc, é um trabalho gigantesco que não permite passar uma vida “sem jamais trabalhar”. Imagina a quantidade de pedidos de reprodução que o sobrinho do Joyce tem que autorizar por dia? Para cada pedido que ele veta deve ter uns 40 que ele autoriza. Acho mais fácil um acadêmico viver às custas da obra de um autor sem jamais trabalhar, como você disse, do que o herdeiro de um autor incensado como Joyce ou Beckett. É trabalho, trabalho em tempo integral. É o mundo inteiro, todas as línguas… Imagina só…

  • Jonas 21/02/2008 at 12:57

    Bem Vinicius, e você lê os diários do Kafka? As cartas de Flaubert? Se sim, está sendo hipócrita. É claro que a família precisa intervir e barrar coisas como biografias escandalosas que se sustentam apenas pela mera fofoca. Mas não o material de qualidade, que merece ser colocado em público, discutido e estudado por futuros pesquisadores – caso dos diários do Guimarães. A Vilma, como o Stephen Joyce, deseja apenas ganhar visibilidade com essa história. A declaração dela de que é a única biógrafa do pai beira o patético. A família do Bandeira também barrou recentemente a publicação de um perfil sério. Uma pena, uma pena.

  • Sérgio Rodrigues 21/02/2008 at 13:22

    Neto, Vinicius. O cara é neto, não sobrinho.
    O que eu tinha a dizer sobre esse assunto já foi dito. Mesmo sabendo que nossas opiniões são inconciliáveis, recomendo-lhe dar uma olhada nesta reportagem da ‘New Yorker’ sobre o adorável Stephen:

    http://www.newyorker.com/archive/2006/06/19/060619fa_fact

    E sim, o Rosa é um bom exemplo de escritor cuja obra sofre muito mais do que se beneficia do “zelo” dos herdeiros.

    Tem casos em que só o domínio público salva. Resta-nos aguardá-lo ansiosamente. O do Joyce está chegando.

  • Rafael 21/02/2008 at 13:52

    Vinicius,

    Em toda sua apaixonada argumentação, a defesa do legado do autor pelos herdeiros aparece sendo benéfica para memória do escritor, protegendo-o contra difamações e toda sorte de detrações.

    Já ouviu falar de Therese Elisabeth Alexandra Förster-Nietzsche? Foi a irmã do célebre, embora lunático, filósofo Friedrich Nietzsche. Essa senhora foi uma desvelada guardiã do legado de seu famoso irmão, criadora do “Arquivo Nietzsche”. Um dos seus feitos mais notáveis na promoção das obras do irmão foi introduzir sorrateiramente algumas interpolações num livro póstumo e inédito, chamado A Vontade de Poder. A deturpada filosofia de Nietzsche foi deturpada para que parecesse um prenúncio dos ideais nazistas, ardentemente abraçados por Therese Elisabeth. E graças a essa brilhante sacada, o “Arquivo Nietzsche” recebeu rios de dinheiro do regime nazista.

    Não fosse o zelo de sua herdeira mais próxima, Nietzsche jamais receberia a fama póstuma de filósofo pré-nazista.

    E pensar que há malditos acadêmicos empreendendo o odioso esforço de livrar Nietzsche dessa fama.

  • vinicius jatobá 21/02/2008 at 14:14

    Neto, sobrinho, tio, não sabia que essa caixa era um fórum de debates sobre parentescos, Sérgio. Na próxima vez farei uma árvore genealógica antes de comentar, fique tranquilo…

  • vinicius jatobá 21/02/2008 at 14:15

    Bom, Jonas, se você ler o que escrevi afirmei que se deve proteger o autor de exposições contrangedoras. E Diários devem ser editados e neles mantidos apenas aquilo que se refere à vida literária de seus autores. Maupassant fez isso com Flaubert; Brod fez isso com Kafka. Foram responsáveis quando selecionaram o material. E honestamente, pessoas que ficam muito fixadas nesse tipo de bobagem – o diário do kafka é uma bobagem perto dos seus romances, são chatos, arrastados, pomposos; assim como prefiro madame bovary àquela ladaninha sem fim da correspondência de flaubert, todas aquelas descrições afetadas da dificuldade de escrever -, essas pessoas, no fundo são caçadoras de espinhas quando deveriam se ocupar dos livros em si. Agora já li uma edição seleta da correspondência de Flaubert onde não há uma linha sobre sua vida privada e que adorei, é assim que tem que ser… Ah, o Rosa comeu um biscoito com geléia de uva na manhã de 17 de junho de 1953, e isso explica muito ‘Grande Sertões’… Agora há casos fantásticos, como ‘Kafka Vai ao Cinema’, de Hans Zischler, que usa o manterial privado para fazer uma análise luminosa da relação do cinema e a ficção do Kafka. O livro inteiro não tem uma fofoca tola ou apropriação indevida ou manipulação de citação do material privado de Kafka. Esse tipo de livro que deve ser aprovado. A maneira como o Piglia ou Cannetti utiliza esse material privado do Kafka. Não sou contra isso, sou contra, como escrevi, exposições contrangedoras, apropriações indevidas, etc, etc… Querem publicar o diário de Rosa? E se o diário de Rosa for realmente um diário onde ele faz comentários tolos sobre o amanhecer do Rio de Janeiro e fala muito pouco sobre sua ficção?… A família tem sim o direito de preservar a privacidade do Rosa… Claro que sim, que absurdo! Rosa escreveu ‘Grande Sertões’ pro público, mas o Diário é dele! E daí que tem coisas que podem iluminar seu legado? Rosa vai se tornar maior escritor por uma prosa de Diário que não foi polida e escreveu certamente com tédio e sono, não é realmente importante sua prosa artística? Há um centenário do Rosa e os editores querem capitalizar. E a família, certamente, quer que o foco esteja sobre os livros e não na bolacha com leite que ele comeu antes do jantar! Muito curioso isso: os jornalista e críticos devem ter liberdade total para falarem as asneiras que quiserem, mas a família não pode se defender da estupidez das pessoas? Se a família tomasse a decisão de tirar da circulação a ficção de Rosa aí sim seria um crime, um absurdo… Mas é isso que está em jogo? Com certeza não.

  • vinicius jatobá 21/02/2008 at 14:19

    Rafael, Nietzsche é apenas mais um das centenas de autores do mundo que têm seus trabalhos organizados por parentes, grupos, instituições. Há autores que deixam nas mãos dos familiares; outros que criam instituições; alguns que surpreedentemente deixam nas mãos de editores amigos. Há casos de abusos; e há casos de autores que se mantêm vivos e ditados pela luta de familiares. Seu argumento não invalida o meu; e meu argumento não invalida o seu. Combinado?

  • Sérgio Rodrigues 21/02/2008 at 14:52

    Não precisa de árvore geneaólogica não, Vinicius. Basta um certo apreço pela precisão, o mínimo para ser admitido no jogo quando se trata de informação. Mas se isso te incomoda tanto, tentarei ignorar seus deslizes de hoje em diante.

  • Rafael 21/02/2008 at 16:19

    Sérgio,

    Até onde meu entendimento consegue alcançar, a precisão a que você alude é um ideal impossível de ser atingido sem que se viole a “intimidade” e “vida privada” do autor.

    Vinicius leva muito a sério o poema de Alberto Caeiro:

    Se depois de eu morrer, quiserem escrever a minha biografia,
    Não há nada mais simples
    Tem só duas datas — a da minha nascença e a da minha morte.
    Entre uma e outra cousa todos os dias são meus.

    Para Vinicius, por exemplo, é um intolerável escrutínio da vida íntima saber que Rimbaut, o precoce poeta, tornou-se mercador de escravos na vida adulta. Os historiadores deveriam se envergonhar por reconstruirem detalhes da vida da Roma antiga sobre os destroços da correspondência privada de Cícero a seus familiares e seus amigos, especialmente Ático. Coisa perniciosa é o exemplo deixado por James Boswell, o célebre biógrafo de Samuel Johnson, que fez da biografia uma obra de arte. E o diário de Samuel Pepys, então, merece ser lido?

    O que vale é apenas o livro, tal como o autor concebeu para o público, e nada mais. Ao ler Dante, não devemos nos abster de conhecer os fatos básicos de sua vida, como a militância política que culminou com seu desterro de Florença. Ao ler Cervantes, não podemos saber que ele tomou parte na famosa batalha de Lepanto, onde sua mão esquerda foi decepada.

    Nosso conhecimento deve centrar-se exclusivamento no livro. Só o livro, o livro, o livro. As circunstâncias, que Goethe disse ser tão importantes na criação de seus poemas, devem ser ignorados, pois, para os escritores, só há, como disse Alberto Caeiro, a nascença e a morte.

  • vinicius jatobá 21/02/2008 at 17:22

    Rafael: “Ao ler Cervantes, não podemos saber que ele tomou parte na famosa batalha de Lepanto, onde sua mão esquerda foi decepada.” Bom, Rafael, ele escreveu o Quixote mesmo maneta, não foi? Qual o valor dessa informação? Ele escreveria melhor se tivesse outra mão pra segurar o papel?

  • joao gomes 21/02/2008 at 18:38

    ai, ai, ai,

    só tomando um cuba-libre!

  • Pedro Curiango 21/02/2008 at 19:09

    Esta discussão – que passou de cuba-libre a direito de herança – está sendo curiosa por várias razões. Uma delas é que não se fez, até agora, a menor referência ao fato de que o problema está intimamente ligado ao do direito autoral – e principalmente sobre sua extrema vigência (70 anos). Tal validade começou, creio eu, considerando apenas 10 anos, passou a 30 e, agora, atinge até mais de duas gerações depois da morte do autor. E aqui cumpre a pergunta: será que não há um momento em que o interesse geral, dos leitores, deve sobrepor-se ao dos herdeiros. [Isto não quer dizer que os descendentes não devam ter direito… mas 70 anos?!]
    Outro problema sério é o direito da família a impedir revelações sobre a vida de autores mortos. Ora, morto não tem direito jurídico – e o que as famílias defendem são SEUS direitos e não os do autor. Será que o espírito de Joyce se sentiria ofendido porque andam dizendo que, quando ainda “encarnado”, ele era dado aos prazeres de Onan? Vejo, mais que tudo, certa hipocrisia neste caso: os “defensores” de Joyce, que são também os proprietários de seus direitos, ao protestar estão realmente chamando atenção para o caso e causando escândalo e daí, aumentando a possibilidade de venda destas obras, cujos direitos são seus…
    Agora, quanto às interpretações feitas por “acadêmicos” ou seja lá quem for: a família [e eu também!] tem direito de “defender” a memória destes autores , mas não tem nenhum direito de tentar impedir que outras interpretações sejam feitas e publicadas. Se quero escrever um artigo sobre “racismo” em Conrad, ou sobre “reacionarismo” em Machado de Assis, ou “sobre “colaboracionismo com a ditadura de Vargas” em CDA, ou sobre o “direitismo político” de Rosa, ninguém tem nada com isto. A única arma para combater o que eu possa dizer, no caso, é provar ou tentar provar que estou errado e sou um crítico imbecil. O mais é apenas tentativa de impedir a livre manifestação de idéias.
    Quanto às fofocas sobre a vida dos autores: que direito tenho eu de me opor a alguém que goste de fofocas? Não vejo porque a existência de tais pessoas possa fazer mal a mim ou a qualquer leitor ou autor? Se alguém se interessa pelas cartas em que Saint-Exupéry pedia dinheiro emprestado à mãe, que direito tenho de tentar impedi-lo/a? A aceitar tal atitude, amanhã eu começaria por pedir a proibição da música axé, dos romances do Carlos Heitor Cony, de um programa de televisão chamado “o beijo do sapo”…
    Melhor mesmo é abrir uma latinha de coca cola, pôr um pouco de gelo e uma dose de rum (se possível cubano, em homenagem ao adeus do Fidel) – o calor está forte e a tarde já ameaça chuva.

  • vinicius jatobá 22/02/2008 at 10:43

    .

  • Rafael 22/02/2008 at 13:17

    Pedro,

    Vai aqui um artigo muito interessante sobre direito autoral publicado no New York Times. O título é “The Tyranny of Copyright?”:

    http://query.nytimes.com/gst/fullpage.html?res=9801EFDA1439F936A15752C0A9629C8B63

  • André S. 22/02/2008 at 14:42

    Vinícius,

    As informações podem ser irrelevantes, sua apresentação distorcida, mas cabe ao público julgar.

    A família pode rebater e contestar, mas impedir acesso à informação, tirar livros de circulação, isso é um atentado ao direito de expressão.

    Falar sobre a masturbação de Joyce é tolo, mas querer controlar e impedir isso e mais tolo ainda.

  • André S. 22/02/2008 at 14:48

    “Quê há de mal vetar essas coisas de péssimo gosto e que não adicionam em nada ao legado artisticamente sério de James Joyce?”

    Vetar os escritos dos outros deve ser evitado o máximo possível. Cuba livre?

  • HRP Mané 22/02/2008 at 15:35

    Viva a Cuba Libre e Viva Fidel!
    Que viva 110 anos!!!!!

  • vinicius jatobá 22/02/2008 at 15:49

    Liberdade de expressão plena não é sinônimo de abusos de expressão plenos. Se a pessoa desrespeita a privacidade dos outros, ela pode e deve ser vetada caso a pessoa cuja vida foi invadida se sinta prejudicada nessa exposição. A liberdade de se expressar, existe. O que não existe é a exigência de passividade total e cúmplice da pessoa que tem sua vida e imagem prejudicada pela expressão do outro. Quer falar de um escritor, fale da OBRA dele. Porque a vida privada de um escritor é PRIVADA. Se ele PERMITIR, ou se o responsável pela sua imagem PERMITIR, aí sim. Mas por que um artista, alguém que cria um objeto cultural, necessariamente tem que dar acesso às pessoas de um universo que escapa do objeto cultural que ela produz? Se o artista permitir, se a família permitir, ótimo. Não é porque uma pessoa tem uma vida pública a partir de um livro, um quadro, um filme, que sua vida torna-se pública. É curioso uma pessoa que fale da liberdade de expressão defender que uma pessoa não deve ter o poder de defender a sua liberdade de manter sua vida privada, privada. E a família, também. Falar do Rosa seria falar do pai dele, da mãe dele, amigos dele, filhos,clegas de trabalho, etc, etc, etc, quais são os motivos de todas essas pessoas terem suas vidas privadas invadidas porque um membro da família ou colega de trabalho é uma figura pública? Autoritarismo é isso: tentar sujeitar um grupo de pessoas aos desmandos da curiodidade mórbida editorial e cultural dos outros. As coisas devem ter limites. Se todo mundo concordar, ótimo. Mas se alguém se incomodar, não acontece. É simples.

  • Cezar Santos 22/02/2008 at 16:21

    Essa discussão vai longe, uma vez que há arguementos (bons e ruins) contra e a favor…
    Portanto, tigrada, vamos tocar em frente. Sérgio, o próximo tópico (literário), por favor…

  • Daniel Brazil 23/02/2008 at 23:02

    Ia reclamar do Curiango por perverter a cuba libre com conhaque, mas ele se redimiu no último comentário lembrando que a juvenil beberagem é feita com rum.
    Rum (cubano) + coca-cola = cuba libre.
    E havia uma derivação ainda mais hedionda nos bailes de minha adolescência (anos 70), chamada “Russia free”, que era, obviamente, vodka + coca-cola.
    Mas, Vinicius, de onde v. tirou que “Se Conrad tivesse pessoas realmente tomando conta de seu trabalho não estaria nesse ostracismo de hoje.”? Ostracismo? Tá louco? O cara é um dos mais influentes escritores de nosso tempo, como foi anotado aqui há poucos dias.

  • Heringer 26/03/2008 at 18:51

    Sérgio. Fiquei curioso sobre com que acepção o termo “cuba” aparece nos escritos de Colombo. Se puder ajudar…
    Abraços.

  • Sérgio Rodrigues 27/03/2008 at 00:05

    Heringer, aparece, pelo que consta, como nome da ilha mesmo, segundo os nativos.

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