Curiosidades etimológicas: Gravata

29/08/2009

Se passarmos a fita da história ao contrário vamos presenciar, numa daquelas eras que antigamente se chamavam de priscas, o encontro da palavra “gravata”, acessório polido do vestuário masculino, com a palavra “croata”. Veremos então que os dois vocábulos, um tanto surpresos, se apalpam, se cheiram – e se fundem. A cena se passa bem longe dos salões urbanos em que a gravata brilharia: o que vemos ao fundo, contra o céu roxo, são colunas de fumaça numa paisagem sangrenta de trincheiras.

Pois é. A “gravata”, que, já perfumada, nos chegou do francês cravate na virada entre os séculos 17 e 18, antes disso (passando a palavra ao filólogo Silveira Bueno) “veio para o centro da Europa trazida pelos cavaleiros croatas, durante as guerras com a Alemanha desde 1636, depois pelos mercenários croatas dos reinados de Luis XIII e XIV, que compunham o regimento Royal Cravate. A forma primitiva foi o eslavo hrvat passada a um dialeto alemão Krawat”.

Simplificando a prosopopéia: os soldados croatas tinham o costume de amarrar no pescoço uma tira de tecido que, vejam só, caiu no gosto dos europeus urbanos. Entre os alemães, o acessório se tornou conhecido também como “croata”, em versão dialetal. Que virou cravate em francês. Gravata, em português. Ou, numa das divertidas grafias antigas de nossa língua, garovata.

Não deixa de ser apropriado que, tendo partido do campo de batalha, e depois de uma volta pela sociedade chique, a gravata arranjasse um jeito de voltar a campos semânticos violentos na língua brasileira, nomeando tanto um golpe de luta livre quanto, na fala gaúcha, a degola.

Publicado no “NoMínimo” em 4/4/2007.

11 Comments

  • Paulo Mahon 29/08/2009 at 14:22

    Aproveitando o tema abordado, cravate e/ou gravata, lembrei-me de um poema singular e belo: Gravata Colorida.
    ” Quando eu tiver bastante pão para meus fihos, para minha amada, pros meus amigos e pros meus vizinhos. Quando eu tiver livros para ler, então eu comprarei uma gravata colorida, larga, bonita, e darei um laço perfeito e ficarei mostrando a minha gravata colorida a todos os que gostam de gente engravatada…”
    Solano Trindade

  • Thiago Maia 29/08/2009 at 15:57

    Sensacional.
    E o poema também.

  • Dr. Bruno 29/08/2009 at 16:04

    Será que é verdade, ou o autor do texto inventou essa historinha toda…?heheheh

  • Fabiano Shark 29/08/2009 at 16:13

    Interessante.

    Parece que hoje quanto mais cara a sua gravata, mais perigoso você é.

  • Luís Falabella 29/08/2009 at 18:58

    Srs. por mais da metada da vida usei gravata para trabalhar. Para mim nada acrescentou. Hoje trabalho bem trajado é claro, mas sem gravata e ainda não morri e nem perdi negócios por isso. Abraços a todos. Em tempo, desenvolva uma matéria sobre cavanhaque. Por imposição da empresa que trabalhei nunca pude usar, hoje uso … e tudo melhorou.

  • cely 29/08/2009 at 20:02

    Uma explicação divertida e, digamos, bem verossímil!
    Lindo,Paulo.Pena que,gravata faz lembrar colarinho branco!!!

  • clausmir zaneti jacomini 30/08/2009 at 10:23

    Caro Sérgio, ótima a curiosidade. Uma outra pra você: médicos usam gravata no Brasil, sufocados no calor tropical, num anacronismo e impertinência incomuns. E o pior: jamais lavam suas gravatas, que são um dos mais importantes focos de bactérias e outros microorganismos nos consultórios, centros cirúrgicos…
    PS. Sou médico em Goiânia.

  • Heloisa Helena Carvalho 30/08/2009 at 18:05

    A poesia tem uma tônica social chocante! Simples e bela ao mesmo tempo; como devedria ser toda beleza. Mistura bondade, solidariedade, muita ternura e, por que mão, aquele toque apimentado da vaidade. Linda. Mande o nome do livro…

  • Paulo Mahon 31/08/2009 at 14:58

    Heloisa, vá no http://www.quilombhoje.com.br/solano/solanotrindade.htm , assim voçê
    vai conhecer uma das pessoas tão importante para a cultura desse país, e tão insignificante para os “donos do poder”.

    ps. a busca por Solano Trindade, abre as portas da percepção, de A. Huxley, morou na filosofia?
    Abraços, Paulo

  • Plinio Nunes 23/09/2009 at 21:56

    Muito bom. Eu já tinha lido algo sobre a origem da gravata. O interessante é como, de um lugar para outro, através do tempo, as palavras vão trocando de sons e de grafias. Um dia ainda aprenderei como, de croata, a palavra passou a corbada, em espanhol, por exemplo.
    Abrs.

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