Dê um Google: Ahab + baleias = ?

06/10/2006

O Brasil, nariz enfiado no umbigo, finge que não é com ele. Mas continua mundo afora o quebra-pau sobre o futuro do livro e da leitura na era digital, assunto que o Todoprosa – embora seja tão cerimonioso com engenhocas de alta tecnologia que até hoje tem um celular sem câmera, imagine só – acompanha com interesse entre o perplexo e o entusiasmado. O último capítulo é um artigo/resenha (em inglês, acesso gratuito) de Jason Epstein, ex-diretor editorial da Random House, no “New York Review of Books”. Comentando um pacote de cinco livros que de alguma forma abordam o assunto, Epstein observa que…

… a concepção original de (Larry) Page (um dos fundadores do Google) para o Google Book Search parece ter sido a de que livros, como os manuais de que ele precisava na escola secundária, são fontes de informação que os usuários podem pesquisar como pesquisam na Web. Mas a maioria dos livros, diferentemente de manuais, dicionários, almanaques, livros de receita, publicações acadêmicas, manifestos estudantis e assim por diante, não podem ser representados adequadamente googlando-se assuntos como Aquiles/ira ou Otelo/ciúme ou Ahab/baleias. A “Ilíada”, as peças de Shakespeare e “Moby Dick” são, em si mesmos, informação para ser lida e ponderada em sua inteireza.

Confere. Zapear nesses aí seria como cortar a garganta do canário para lhe capturar o canto. Mas que o pessoal vai tentar, vai.

9 Comments

  • Paulo. 06/10/2006 at 16:25

    Estou lendo A Divina Comédia pela internet e estou achando interessante. Com um segundo computador ao lado, comparações, ilustrações e comentários pinçados em outros contextos são excelentes para uma leitura mais profunda. O prazer somente é comparável a dissecar a boneca da irmã aos seis anos de idade.

  • Pedro Curiango 06/10/2006 at 16:53

    Sérgio: curioso é notar que estas discussões sobre o possível “fim do livro” vêem dos EUA. Agora, se tormarmos o número de 29 de setembro último do “Figaro Littéraire” poderemos ver uma série de notas sobre uma espécie de feira literária que está tendo lugar em Vincennes. E sabe qual a maior representação de autores, com LIVROS publicados? A dos EUA. E sabe que país os comentaristas de LE FIGARO consideram como o que tem a mais “fascinante” literatura dos dias atuais? Os EUA. Tão importante é esta literatura que LE FIGARO lhe dedica, além do noticiário geral sobre sua qualidade, quase toda a secção de resenhas da semana. E note bem: a avaliação está vindo dos franceses, que nunca foram lá tão interessados em promover os EUA… Não é estranho que estes dois fatos [a sugestão de um possível fim do livro e a riqueza cada vez maior de uma literatura – publicada em livros, não se esqueça] tenham lugar ao mesmo tempo e no mesmo país?

  • Marcelo Soares 06/10/2006 at 18:48

    Pois olha, Sérgio. Eu tenho sérios problemas pra ler na tela textos mais longos que uma reportagem. Mas, ainda assim, morro de saudades do comando control-F (buscar) quando tenho pressa de encontrar alguma passagem num livro. Muitas vezes, o sujeito quer mesmo é encontrar uma determinada passagem num livro pra citar direito. Ou pra checar se é aquilo mesmo. Tenho em casa as obras completas do Shakespeare em papel e em formato eletrônico. Quando estou traduzindo alguma coisa e uma referência shakespeariana aparece, a versão eletrônica sempre me socorre com muito mais presteza do que a impressa, embora esta seja mais gostosa de ler.

  • Lucas Murtinho 07/10/2006 at 10:21

    Pequena correção ao comentário do Pedro Curiango: a feira literária em Vincennes era um festival de literatura norte-americano – EUA, Canadá, México e, por algum motivo, Cuba – daí a predominância de autores americanos.

    O Jeff Jarvis, jornalista e blogueiro (www.buzzmachine.com), é uma das poucas pessoas envolvidas nesse debate a sublinhar a diferença entre ficção e não-ficção.

    Livros de não-ficção podem mesmo acabar se transformando num único grande livro, como Kevin Kelly previu no seu artigo “Scan this Book!” – e essa transformação talvez seja favorável a estudiosos ou simples leitores, uma forma mais orgânica de organizar o conhecimento humano em todas as áreas de estudo. Para livros de não ficção, o interesse dessa promiscuidade é bem menos óbvio.

    Em http://bonjourlafrance.blogspot.com/2006/08/escolha-sua-revoluo.html escrevi um pouco sobre as diferentes visões de Kevin Kelly e Jason Epstein. Kelly acha que o futuro do livro é totalmente digital; Epstein acredita no livro de papel e, como ele diz no fim do artigo linkado pelo Sérgio, é sócio de uma empresa que criou uma espécie de “caixa automático para livros”, capaz de imprimir um livro de boa qualidade em minutos. Vale ver qual dos dois está certo, mas acho que o melhor seria um futuro em que as duas opções existissem.

  • Sérgio Rodrigues 07/10/2006 at 11:45

    E existirão, Lucas. Pelo menos é o que parece apontar a História, em que as alternativas tendem mais à convivência do que à luta mortal. Um absolutismo como o de Kevin Kelly nunca vence no fim das contas, embora tenha um papel importante como arauto de novidades.

    Sobre a observação de Curiango, gostaria de fazer mais duas ponderações além da sua: a intelectualidade francesa, pelo menos a partir de meados do século XX, é absolutamente deslumbrada por certos aspectos da cultura americana; e todo esse debate sobre o livro digital tem muito mais a ver com o suporte do que com o conteúdo, isto é, não se funda numa percepção de crise literária e sim numa dinâmica tecnológica, econômica, cultural no sentido mais amplo – o que elimina a idéia de uma esquizofrenia, mesmo que fosse verdade (tenho sérias dúvidas) que a literatura americana atravessa um momento particularmente exuberante.

  • Clarice 07/10/2006 at 15:21

    Se for para ler no notebook ainda. Mas ler no monitor é muito chato.
    Nada como cheiro de livro novo. Nada como sublinhar. Nada como ler de novo e se perguntar porque-sublinhei-isto e sublinhar outras partes.
    Papel, claro!

  • Clarice 07/10/2006 at 15:22

    Fora o prazer de ir a livraria… ou ao sebo e achar…

  • mariana 07/10/2006 at 23:29

    Falando em literatura americana, você vai comentar algo a respeito do livro do Thomas Pynchon que sai no fim do ano?

  • Simone 08/10/2006 at 01:02

    Eu tenho um celular Startac-sanduíche que não manda nem mensagens de texto (SMS).
    Mas sou anti-tecnologia só quando ela não vai me ajudar em nada. Por exemplo, defendi uma posição (num debate com os demais alunos de Produção Editorial) de que alguns não gostaram. Quando inventarem um e-paper (papel eletrônico) de qualidade, ou seja, um que não brilhe e forme os caracteres de forma idêntica ao original e que possa ser “carregado” com os textos que se quiser ler, livros em papel “arbóreo” deixarão de ser fabricados, pouco a pouco, como os vinis. Bom para as árvores. Creio até que se fabricarão simulacros de livros “à moda antiga”, com capa, contracapa, e miolo – tudo em e-paper. Cada vez que se “virar” uma página, o texto será rolado para a posição correspondente, dando a ilusão de um livro como os de hoje.
    As editoras poderiam fazer recalls de livros a pedido do autor, atualizando a edição – talvez até deixando as alterações grifadas em vermelho para o leitor poder comparar o novo estilo do autor com o antigo estilo. Ah, e receber tais alterações ficaria, claro, à escolha do leitor.

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