David Foster Wallace (1962-2008)

14/09/2008

Essa página do “Los Angeles Times” reúne algumas entrevistas de David Foster Wallace disponíveis no YouTube – imagens que estão destinadas a serem vistas e revistas pelos fãs em busca de uma inexistente “explicação” para o fato de o escritor americano de 46 anos, um dos mais festejados de sua geração, ter se enforcado em sua casa na sexta-feira. Se David Foster Wallace já era um tipo de escritor que, mais que leitores, tinha seguidores, adeptos, conversos, o culto a seu nome deve ter vida longa garantida pelas circunstâncias de sua morte.

Seu único livro lançado no Brasil é a coletânea de contos “Breves entrevistas com homens hediondos” (Companhia das Letras, 2005). O romance que o transformou numa estrela da nova literatura americana dos anos 90, Infinite Jest, permanece inédito por aqui. Talvez por ser um tijolo de mais de mil páginas, ou quem sabe pelo mesmo motivo que, antes da página cem, me levou a abandonar – ou adiar para um futuro indeterminado, o que dá no mesmo – sua travessia: dono de um talento inegável, exuberante, Wallace era tão apaixonado por sua própria voz que fazia da auto-indulgência uma arte. Há quem goste, mas, definitivamente, sou de outra turma. Fico aflito querendo cortar, enxugar.

Mesmo assim, neste domingo chuvoso, triste pelo fim de um sujeito que eu não conhecia, me pego planejando uma nova investida: quem sabe agora, que sua obra ganhou um tamanho definitivo, o excesso de palavras se revele uma medida justa.

21 Comments

  • tiago a. 14/09/2008 at 22:02

    Prezado Sr. Leitor Desse Comentário Que Apita Alguma Coisa na Companhia das Letras,

    A pergunta é simples: o que os Srs. estão esperando?

    Obrigado,

  • Breno Kümmel 15/09/2008 at 07:21

    Agüenta mais algumas páginas, Sérgio. A auto-indulgência passa a fazer sentido depois de um tempo, faz parte da história e das idéias que ele quer passar. E, se te faz sentir melhor, o manuscrito original do Infinite jest era o dobro do tamanho, o que temos hoje já foi enxugado.

    Essa morte foi realmente trágica. Acho que sei agora o que o público brasileiro sentiu com a morte também prematura do Guimarães Rosa. Terrível.

  • Chico 15/09/2008 at 12:20

    Eu achei que tivesse sido overdose. O Foster Wallace era meio genial mesmo, mas concordo com o xerife do todo prosa que ele podia fazer o mesmo com a metade do numero de paginas. A regra vale para o Chabon tambem..

  • alexandre r. 15/09/2008 at 13:17

    caro sérgio.

    eu discordo. acho que a verborragia do DFW não é gratuita e nem falta de talento, mas um recurso absolutamente amarrado e controlado. Fiz um novo post ainda agora a respeito dele.

    foi quase libertador descobrir um escritor que quebrava ao meio esse dogma de que a narração, o fluxo de acontecimentos, é mais importante do que a própria voz ou a reflexão do personagem a respeito dele.

    sempre será questão de gosto, mas como parte dessa existência ímpar de DFW dentro da literatura eu apontaria o conto reproduzido no meu blog e também, principalmente, “a pessoa deprimida”, que é nada menos do que magnifico.

  • Sérgio Rodrigues 15/09/2008 at 13:39

    Caro Alexandre,
    Discordamos, mas não exatamente do modo que você acredita discordarmos. Que a incontinência verbal de David Foster Wallace “não é gratuita nem falta de talento” me parece evidente. O talento dele, como eu digo no post, é inegável. Apenas de um tipo (e aqui estou falando de Infinite Jest, pois há contos do cara em que não sobra nenhuma palavra) que o situa numa turma diferente da que eu prefiro freqüentar. Desconfio que isso seja mais que uma simples “questão de gosto”, mas aí já entraríamos num assunto vasto demais para caber aqui. Um abraço.

  • alexandre r. 15/09/2008 at 14:16

    achei melhor reformular meu comentário, sérgio, pois você de fato não nega o talento dele.

    me aproximando mais do que eu disse no post lá no meu blog: quando os cursos de criação literária começaram a massificar um padrão “normal e desejável” da narrativa surgiu DFW e desorganizou tudo.

    é inestimável um escritor assim quando tudo o que escritor brasileiro está sendo treinado a ser hoje e dia é um sub-ian mcewan ou uma cópia rasteira de mccarthy.

    abraço.

  • Sérgio Rodrigues 15/09/2008 at 14:25

    Alexandre, mesmo compartilhando seu sentimento de perda, que acredito ser generalizado, continuamos discordando. Não vejo os escritores brasileiros sendo “treinados” a serem nada disso – ou nada daquilo outro, por falar nisso.

  • Raul 15/09/2008 at 14:32

    Sérgio, o último parágrafo desse post mais o post Filosofia da (de)composição significam que você está pensando em escrever um catatau?

  • Sérgio Rodrigues 15/09/2008 at 17:26

    Hehe, pode ficar tranqüilo, Raul. O último parágrafo deste post se refere a ler um catatau, não a escrevê-lo. E no Filosofia da (de)composição eu fixo o meu próximo alvo em 200 páginas, coisa modesta.

  • Breno Kümmel 15/09/2008 at 21:52

    Já tentou ler os ensaios do cara, Sérgio? O “Supposedly Fun Thing I’ll never do again” é simplesmente hilário, sem contar que o livro também contem um ensaio sobre ironia que deveria ser leitura obrigatória nas universidades.

  • alexandre r. 15/09/2008 at 22:01

    Consider the lobster é outro grande ensaio dele, assim como aquele que ele escreveu sobre a filmagem de A estrada perdida, que começa com David Lynch urinando. Estão todos ao alcance do Google.

  • beatriz portella 15/09/2008 at 23:24

    Olá Sérgio! Meu nome é Beatriz, tenho 16 anos e sem querer descobri seu blog. Estou gostando bastante. Gosto muito de ler, mas é tanta coisa que não sei bem por onde “começar”. Gostaria de te pedir por gentileza uma “lista” básica de livros que você indicaria para uma jovem que tem interesse em boa leitura. Acabei de ler o Viagem ao fim da noite, do Celine, e agora estou lendo O som e a fúria. Um grande abraço! Muito grata, mas se não puder dar a tal lista mesmo assim continuo sua leitora =)

  • tiago a. 15/09/2008 at 23:27

    Já que, conforme o esperado, ninguém da Cia. das Letras se manifestou, vamos de samizdat, minha gente.

    Tem um conto de Oblivion traduzido aqui. O tradutor, Caetano Waldrigues Galindo, também verteu para o vernáculo um ensaio de DFW sobre David Lynch e um capítulo de Infinite Jest (edição nº 13 da Revista Coyote), que não li porque não estão na net.

    Mas falando em capítulos de IJ, tem dois aqui e aqui, frutos do esforço de Elton Mesquita.

    Ê, Cia.

  • Saint-Clair Stockler 16/09/2008 at 10:48

    Tiago a..

    Brigadão, cara!

  • Saint-Clair Stockler 16/09/2008 at 10:50

    Sérgio,

    Li há tempos Breves entrevistas com homens hediondos, e concordo (o que é raro) inteiramente com você.

    É inegável que o Foster sabia escrever – e muito! Mas também era meio incomodativo o deslumbramento dele consigo mesmo. Seja como for, um livro de contos muito melhor do que 80% do que se publica no gênero, aqui ou lá fora. Não me esqueço do conto do menino que está em cima de um trampolim numa cidadezinha do meio-oeste americano, e não consegue se decidir se pula ou não. Não me recordo do nome do conto, mas ele é impressionante.

  • Breno Kümmel 16/09/2008 at 14:31

    Stockler, no original esse o conto se chama “Forever overhead”, não sei como foi traduzido pro português.

  • Sérgio Rodrigues 16/09/2008 at 15:10

    Breno, obrigado pela dica do Supposedly Fun Thing, do qual falam maravilhas. O pouco que li da não-ficção de DFW, como o Roger Federer as Religious Experience era um ensaísmo jornalístico brilhante, com certeza recomenda ler muito mais. O que pretendo fazer assim que tiver algum tempo outra vez.

    Tiago A., obrigado pelo link de utilidade pública.

    Beatriz, fazer lista para meninas de 16 anos é muita responsabilidade. O cara pode até ser preso por uma coisa dessas, sabia? Agora sério, se você me disser os livros de que mais gostou até hoje, eu penso aqui nuns outros. Se quiser pode mandar pro meu email, sergio@todoprosa.com.br.

    Abraços a todos.

  • gabriel pardal 18/09/2008 at 13:34

    O estilo narcisistico deve ser só estilo mesmo. Ninguém com o ego aflorado passa uma corda no pescoço.

  • tiago a. 18/09/2008 at 21:22

    “motivo que, antes da página cem, me levou a abandonar ”

    Sobre isso, Sérgio, tenho a dizer que a essa altura o livro ainda não começou–por mais absurdo que isso possa parecer. A coisa só engrenou pra mim por volta da página 223, quando os três núcleos de ação já estavam mais ou menos apresentados e a cronologia é finalmente explicada. Antes de chegar aí, eu seguia movido pela promessa que me fizeram de que uma hora aquilo tudo ia fazer sentido. Depois daí, a leitura se tornou compulsiva. Mas, sim, demora pra acabar. O que não é problema: com os recursos que a net fornece, tipo este guia cena-a-cena aqui, dá pra ir lendo aos poucos, sem pressa, entendendo tudo (ou a maior parte de). E o esforço vale muito a pena.

  • Alexandre R. 08/10/2008 at 18:23

    A Playboy, em homenagem ao DFW, republicou seu primeiro conto, Late Night. Aos poucos estão surgindo novos ensaios online dos livros dele. É uma boa chance de conhecê-lo mais, já que Infinite Jest e os livros de não-ficção, ao que parece, não vão sair mesmo no Brasil.

  • Kavera 26/12/2008 at 10:53

    Procuro desesperadamente um exemplar de “Viagem ao fim da noite” de Céline para comprar.

    Grato,

    Kavera
    31-98399837

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