De prêmios, jaguares e tigres

16/10/2008

O jornal português “Diário de Notícias” estranha o fato de não encontrar grande repercussão por aqui a vitória de um brasileiro na primeira edição do gordo prêmio da editora lusa Leya (para romance inédito, em português):

A conquista do primeiro Prémio Leya pelo brasileiro Murillo António de Carvalho, autor do romance “O Rasto do Jaguar”, surpreendeu os portugueses. No seu país de origem a situação não foi muito diferente. É verdade que os sites dos principais jornais brasileiros referiram a vitória do seu conterrâneo, mas não deram grande destaque ao prémio. Durante a tarde de ontem, o DN tentou contactar alguns jornalistas brasileiros, que preferiram continuar anónimos, pois não conheciam sequer o escritor.

Em declarações ao DN, José Menezes, o director de comunicação da Leya, admitiu que a vitória de um nome pouco sonante é uma mais valia para o novo título. No seu entender, “a possibilidade de qualquer pessoa ganhar o prémio”, no valor de 100 mil euros, é um dos aspectos mais interessantes.

Fora o fato de que a matéria aproveita para estranhar também a supremacia dos brasileiros – que eram seis entre os finalistas, contra dois portugueses –, a recepção discreta me parece compreensível. Pouca gente conhece Murilo Antônio de Carvalho, e o livro premiado, “O rastro do Jaguar”, é seu primeiro romance. Antes de lê-lo, é difícil dizer alguma coisa. E a verdade é que prêmios não se tornam culturalmente relevantes apenas por um critério pecuniário – mesmo que seja um belo critério de 100 mil euros, isto é, R$ 291 mil e subindo. Um tempo de maturação se faz necessário. Seja como for, uma boa notícia.

E para falar de um prêmio já maduro: a surpreendente vitória do indiano Aravind Adiga no Booker, com o romance “The White Tiger”, está provocando uma chuva de críticas. Uma das mais violentas é a do irlandês John Self, do prestigiado blog Asylum, que o blog coletivo Amálgama traduziu e publicou ainda ontem por aqui, com grande agilidade. Self chega a insinuar que o livro não merecia sequer ter sido publicado.

A coluna de Ancelmo Góis informa que “O tigre branco” sairá no Brasil já no mês que vem, pela Nova Fronteira.

12 Comments

  • Tibor Moricz 16/10/2008 at 23:18

    Críticas como essa de John Self tornam a leitura de O tigre branco obrigatória…rs

  • Dina Zagreb 17/10/2008 at 09:07

    Não me surpreende se John Self tiver razão…

    Aqui no Brasil, por exemplo, há alguns livros tenebrosos entre os finalistas do Prêmio São Paulo (200 mil reais) na categoria de autor estreante.

  • Fernando Torres 17/10/2008 at 10:57

    Dina, na sua opinião. Quais? Eu aposto uns dois merreis que a contenda ficará entre o Tezza (vencecedor do Jabuti) e a Beatriz Bracher.

  • Fernando Torres 17/10/2008 at 10:58

    Claro que essa não é a categoria de estreantes. mas não te parece um tanto quanto uniformes os prêmios desse ano?

  • Dina Zagreb 17/10/2008 at 14:14

    Fernando,
    eu não aposto em nada. Mas concordo contigo em relação à uniformidade dos prêmios. E, ao contrário do Sérgio Rodrigues, não acho que isso demonstre necessariamente objetividade de critérios (lembro que ele escreveu algo nesse sentido em um post recente). Desconfio muito desses prêmios todos. E isso nem é papo de ressentido, porque nunca tentei nem mesmo publicar nada. Sou basicamente uma leitora e comentadora. Mas tenho certeza de que há variantes extraliterárias que pesam muito mais do que a própria qualidade do texto.

    Até acho que O filho eterno, do Tezza, é um livro muito honesto e bem acima da média da produção nacional. Mas, por outro lado, é lamentável que um texto fraquíssimo como “A chave de casa” seja indicado a tantos prêmios. E outro bem insosso como “Casa entre vertébras” esteja sendo igualmente festejado.

  • Eric Novello 17/10/2008 at 14:35

    tentativa de tradução: o grupo editorial Leya achou que a vitória do Murillo ia gerar um marketing gratuito por aqui maior do que aconteceu de fato?

    Abs!

  • Fernando Torres 17/10/2008 at 16:17

    Espero apenas ser alvo de palavras menos dras da Dina se um dia eu lançar um livro.

  • Sérgio Rodrigues 17/10/2008 at 17:36

    Dina, eu nunca falei em “objetividade de critérios”. Apenas comemorei o fato de que, concordando sobre certos nomes (em que eu também vejo qualidades bem acima da média), os prêmios deste ano parecem apontar alguma convergência de critérios num cenário que há muitos anos anda tendendo ao vale-tudo, ou pelo menos ao cada-um-por-si. Isso para mim é um sinal positivo. Não porque eu pregue a uniformidade, de jeito nenhum. Mas porque sem uma linguagem comum não tem conversa, e eu acho que precisamos (re)aprender a conversar. Agora, quanto a fatores extraliterários pesarem nos concursos, não tenha dúvida de que pesam mesmo. E não só nos concursos. Um abraço.

    Eric: excelente tradução!

  • Maurício Martins de Oliveira 21/10/2008 at 11:37

    A imprensa anunciou que mais 3 brasileiros obtiveram “indicação” no Prêmio Leya. Alguém poderia me responder o que significa isso? E, afinal, quem são esses três?

    Maurício Olveira.

  • Cícero Armando 26/10/2008 at 01:06

    Mas que discussão toda esta, gente? Esse prêmio, por dever de justiça, até histórica, o São Paulo de Literatura, terá que ser na categoria veterano, ao escritor Wilson Bueno. Nunca ganhou um grande prêmio brasileiro, embora finalista em todos e fez um livro classicado por Boris Schnaiderman como o romance do século. Tezza fez um livro bom mas sem a transcendência de A Copista de Kafka, confessional demais, e até bem apelativo. O Brasil deve a Wilson Bueno
    Veronica Costa Santana

  • Mary 29/10/2008 at 16:28

    Olhem esse site é muito legal, nele da pra vcs pra vcs fazerem pesquisas no google com a foto de quem mais gostam, fora as outras formas de personalização q exixte nele…

    http://criative.mysuperyes.com

  • Jo Ghetsi 10/12/2008 at 17:11

    (ainda sobre os Prêmios literários na opinião de uma leitora de romances) O livro de Tezza me pareceu realmente fruto da maturidade do escritor, escrita competente e calibrada mas que, do meu ponto de vista, não parece abrir grandes perspectivas para o romance brasileiro atual. Entretanto, foi o livro vencedor da jovem Tatiana Salem Levy que terminei de ler há poucos dias o que me pareceu muito problemático. E tendo a concordar com a Dina Zagreb, pois apesar da estrutura não convencional, o romance emperra nos clichês de linguagem e tende a um apelo emotivo exagerado que torna a narrativa massante para o leitor, a não ser que ele se identifique pra valer com a narradora e todos os seus dramas. Achei um livro confessional, embora a autora se refira a ele como auto-ficção… enfim, quando comecei a leitura estava entusiasmada pelas críticas positivas, mas agora me pergunto seriamente se dentre os demais concorrentes na categoria estreante não havia um romance com linguagem mais afiada do que o “Chave de casa”. Pretendo ler futuramente os outros romances e assim talvez entenda melhor os critérios do Prêmio São Paulo.

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