De Steinbecks e Alencares

31/03/2008

Mas se toda a obra de Steinbeck está em catálogo quarenta anos depois de sua morte (em 1968), e apesar da dieta forçada de seus livros imposta a centenas de milhares de estudantes – e da canonização oficial pela Library of America –, por que será que ele está tão decisivamente excluído do mapa literário? Além de Brad Leithauser, que em 1989 publicou uma perspicaz homenagem ao qüinquagésimo aniversário de “As vinhas da ira”, quem nos Estados Unidos o leva a sério hoje, com exceção de meia dúzia de acadêmicos steinbeckianos e alguns entusiastas locais em Monterey?

O duro artigo de Robert Gottlieb em “The New York Review of Books” (via Arts & Letters Daily), a propósito da conclusão, pela Library of America, da “consagradora” edição da obra de John Steinbeck, me deixou aqui pensando se algum escritor brasileiro estaria em papel semelhante – ao mesmo tempo literariamente morto e respirando por aparelhos nos currículos escolares.

Alguém disse José de Alencar? Tá legal, passa no mínimo perto. Só não vou assinar embaixo com entusiasmo irrestrito por reconhecer meu fraco kitsch e quase lacrimejante por aquela prosa poética de Iracema, “Verdes mares bravios de minha terra natal, onde canta a jandaia nas frondes da carnaúba”. Coisa de louco, sô. E se alguém leu ironia aqui, recomendo ler de novo.

41 Comments

  • Pedro 31/03/2008 at 11:49

    Recentemente reli “A Leste do Eden”, do Steinbeck. É muito bom!

  • C. S. Soares 31/03/2008 at 13:51

    Não deviamos abandonar à própria sorte os clássicos. É nosso dever não deixar que se percam (o que seria assinar em baixo o desprezo por nossa própria memória).

    Precisamos mais deles do que eles de nós, certamente. Penso que muito ainda podemos aprender com José de Alencar, por exemplo. Recentemente, escrevi sobre ele no Pontolit. Logo, logo, falarei sobre o Coelho Neto também.

    No final de 2006, participei de uma mesa redonda em uma das unidades do Colégio Miguel Couto (rede de ensino médio no Rio). Eramos um analista de sistemas + 5 jornalistas das organizações Globo falando sobre literatura e internet.

    Discutíamos se era válida a “imposição” da leitura dos clássicos por parte das escolas, quando uma menina de 15 anos reclamou (espontaneamente) da dificuldade em encontrar livros de J. G. de Araújo Jorge (poeta de sua predileção).

    Quem leu A Cauda Longa do Chris Anderson, autor já citado por aqui, sabe que essa dificuldade tende a ser atenuada nos próximos anos.

    Agora, vejam que curioso: elogiamos a obra de Cortázar e Borges que elogiavam Lugones, Macedônio e outros já esquecidos pelo “cânone”. Elogiamos Machado que elogiava Alencar (e criticava Macedo, mas este, era bastante reconhecido em seus dias). Hoje, depois da eficiente “blitzkrieg” dos modernistas, o tricolor Coelho Neto (virou até nome de bairro), praticamente desapareceu das prateleiras (felizmente, na internet e na Folha Seca, na Rua do Ouvidor, ainda o encontramos). Coelho Neto, criador do epiteto Cidade Maravilhosa, co-fundador do Tricolor das Laranjeiras, já foi o “principe dos prosadores brasileiros”. Podemos gostar ou não de sua prosa, mas jamais deixar de reconhecer sua importância, ou simplesmente varre-lo para baixo do tapete (como absurdamente Gottlieb sugere que se faça com Steinbecks).

    Isso significa dizer que um dia, no futuro, renunciaremos a Machado? Hemingway? Faulkner? Borges? Cortázar? Rosa? Apenas em nome da “onda” da vez?

    Definitivamente, estamos perdendo nossas tradições e memória. Um exemplo: ontem, pasmem!, haviam jovens comemorando o rebaixamento do America (que tradicionalmente sempre foi o segundo time de todos os cariocas)!

    Vivemos tempos difíceis. E porque não temos memória, estamos fadados a reviver o passado, como essa absurda epidemia de dengue assola o Rio e mata nossas crianças…

    Precisamos mudar, urgentemente, nossos conceitos. Não devíamos esquecer como e porquê chegamos aqui. Evoluir sempre, claro, mas sem esquecer nossa História.

  • C. S. Soares 31/03/2008 at 13:57

    “Assim, não me julgo habilitado a escrever um romance, apesar de já ter feito um com a minha vida”. – José de Alencar, prólogo publicado apenas em folhetins e na primeira edição de O Guarani (1857).

  • Jonas 31/03/2008 at 15:08

    Vejo o Steinbeck mais próximo a Erico Verissimo (que o traduziu, aliás) do que Alencar. Como Verissimo, ele sofreu – e ainda sofre – muito preconceito por ousar escrever sem grandes malabarismos verbais em um cenário em que isso é ultrapassado. É claro que Steinbeck não é tão bom quanto Faulkner (ou Hemingway), assim como Erico não é tão bom quanto Rosa, digamos (ou Ramos), mas não devia ser menosprezado. A Leste do Éden é um baita romance.

  • Cássio 31/03/2008 at 16:36

    Guimarães Rosa sobrevive por meio de aparelhos e em regime de cuidado intensivo prestado por dedicados acadêmicos dos melhores círculos. Ninguém mais lê um livro de Guimarães Rosa. Ele é servido aos nossos secundaristas em pequenas porções homeopáticas, e da mesma maneira que esse método misterioso de cura, os professores esperam que ele faça algum efeito nos alunos além do estranhamento com aquelas palavras desconexas.

    Proponho a segunda trivia: qual autor com sucesso retumbante de início está caminhando a passos largos para o oblívio?

  • Rafael 31/03/2008 at 17:04

    Cássio,

    Qual ou quais? O rol me parece interminável…

  • joao gomes 31/03/2008 at 18:19

    Li “A Leste do Éden”. Nota dez. “As Vinhas da Ira” não tive oportunidade. Mas, esquece-lo acho um erro. “claro que Steinbeck não é tão bom quanto Faulkner (ou Hemingway). Acho que é uma tremenda impropriedade tal comparacao. Hemingway nao me impressionou nem um pouco ao ler “O sol também se levanta”. Acho que o primeiro goza de uma posição superior em no trabalho de escrita. A narrativa de Steinbeck flui como quase como uma história passada de pai para filho numa roda de fogueira. Bucólico. E em certos trechos parece uma reportagem. As etapas da transformação dos USA é narrada dentro do núcleo de uma família. …talvez meu espírito seja mais contemporâneo dele do que de Hemingway.

  • francisco 31/03/2008 at 18:24

    Recentemente José de Alencar ganhou uma biografia, “O inimigo do rei”, em que se sabe que foi bastante influente em sua época, além de grande polemista.
    Além de Iracema, outras obras-primas dele são Senhora e a mais grandiosa: O guarani, que inspiraria Carlos Gomes.

  • dona de casa gorda 31/03/2008 at 19:22

    alguém disse josé lins do rego?
    alguém?

  • Pedro Curiango 31/03/2008 at 19:53

    A opinião de Gotlieb é respeitável, mas não diz tudo sobre Steinbeck. Há um lado populista de sua literatura que ainda sobrevive e nada tem a ver com o meio escolar. Seria bom lembrar que, pouco tempo atrás, Oprah incluiu um de seus livros entre os que recomendava aos seus telespectadores – e por isso mesmo a obra teve uma reedição popular, que vendeu muito. Como disse alguém aí acima, Steinbeck é o Érico Veríssimo americano, um autor que, embora tenha escrito algumas obras sólidas (como o Veríssimo que escreveu “O Tempo e o Vento”), nunca apresentou uma contribuição que lhe desse permanência temporal. Seu estilo é confundível com qualquer autor popular de qualidade e sua temática e seus valores praticamente nada acrescentam. Aliás, este é um dos males de que sofrem autores cuja preocupação pelo social é maior do que sua contribuição estética. Ao contrário daquele Henry James, cuja mente era tão fina que nela não entrava nenhuma idéia, Steinbeck tem uma mente grossa, cheia de “idéias.” Mas ele ainda tem leitores – e realmente onde pouco se lê Steinbeck é na escola. A “canonização” na “Library of America (a “Pléiade” americana…) é a prova disto – finalmente colocaram o autor naquele túmulo que vamos visitar no Dia de Finados.
    Outra possibilidade de “renascimento” é o cinema e a televisão, ambos numa verdadeira crise de busca de “contéudo” para o imenso número de horas e canais que estão disponíveis. Upton Sinclair (de quem ninguém se lembrava mais) virou best-seller depois do filme “Sangue Negro”. Se olharem o catálogo da Amazon verão que estão à venda umas cinco edições de “Oil!”
    No mundo anglo-saxão o que se lê realmente na escola, sem absolutamente nenhuma exceção, é Shakespeare. O resto decorre de modas do momento ou interesses criados (o professor escreveu sua tese sobre um determinado autor, logo seus alunos têm de ler obras do dito). Não creio que Steinbeck hoje seja lido na universidade a não ser em cursos como “Os autores da romance social da década de 1930” ou coisa parecida, nos quais todos estes fantasmas aparecem. Mas isto atinge apenas uma minoria insignificante. A maioria de estudantes de literatura lê Melville, Hawthorne, Faulkner, Hemingway, Fitzgerald – e talvez um ou outro mais. [Isto sem falar dos ingleses.]
    Outro americano esquecido – que, por sinal, é mais interessante que Steinbeck– é John dos Passos.
    No Brasil, o fenômeno é diferente porque temos pouca “tradição.” Suponho que livros como “O Guarani” talvez não apresentem muito interesse para um leitor mais sofisticado; mas não resta dúvida que poderia, se apresentado num sistema escolar mais comprometido com cultura, tornar-se uma leitura agradável para adolescentes. Mas, para isto, seria necessário que este adolescente tivesse hábito de leitura, ou seja, que em princípio achasse que ler é algo prazeroso.
    Por exemplo: Coelho Neto é um autor de certa solidez, dentro do panorama literário brasileiro, mas hoje é quase impossível encontrar um jovem, de nível universitário, que consiga entender o que ele escreve. Se a clareza machadiana já é difícil, que dizer de um autor cujo vocabulário era umas dez vezes mais extenso do que o de um brasileiro culto de hoje?

    Sérgio: também tenho minha “queda” pela prosa poética de Alencar, mas, de certa maneira, um professor jogou-me uma bacia de água fria no entusiasmo, ao sugerir que eu lesse um livro de um outro, mais esquecido ainda: o inglês James Macpherson, de nome “Ossian,” que escrevia no mesmo estilo de “falso Homero.” E me indicou exatamente um livro chamado “Temora” (que Alencar teria traduzido para o português, tradução talvez perdida), que começa como “Iracema””(“Blue waters of Erin…”) e continua muito parecido com “Ubirajara.” Para parodiar a linha final de Alencar, lugar comum que Machado repetiu em seu obituário, só resta dizer: “Nada de novo sobre a terra.”
    [Desculpem a extensão e o desconjuntado da mensagem.]

  • Sérgio Rodrigues 31/03/2008 at 20:13

    Jonas, o paralelo com Erico Verissimo é muito interessante, em estilo e temática. Mas Erico não me parece tão lido assim nas escolas – fora do Rio Grande do Sul, pelo menos.

    Curiango: Gottlieb não diz que Steinbeck é lido por estudantes de literatura, pelo contrário. Fala de adolescentes mesmo, leitura obrigatória de high school. Como Alencar, daí minha lembrança. E sim, ele cita o caso da Oprah.

    Se bem entendi, o xis da questão não é nem que Steinbeck não tenha leitores “espontâneos”. Tem. A acusação central é sua irrelevância propriamente literária, o envelhecimento de sua obra e sua pouca fecundidade para a futura (parte dela já passada, a essa altura) literatura americana.

    Acusação que Alencar tira de letra, aliás, pelo menos no que se refere à fecundidade. Tudo indica que não teria havido Machado sem Alencar, o que basta para justificar qualquer vida e qualquer obra.

    Abraços a todos.

  • Sérgio Rodrigues 31/03/2008 at 20:21

    Quanto a Ossian, Curiango: não li, mas acho difícil que a influência seja tão grande a ponto de tirar o brilho da “líquida esmeralda aos raios do sol nascente”.

  • Simone 31/03/2008 at 20:30

    Esse foi abandonado inclusive pelos currículos escolares: Marques Rebelo. Colecionador de desafetos, também…

  • Chico Motta 01/04/2008 at 06:21

    josé de alencar é um ótimo exemplo, porém não o único, acredito que tirando Machado, a maior parte dos escritores que se passa para ler no colégio já estão meio moribundos literáriamente…

  • Saint-Clair Stockler 01/04/2008 at 10:12

    Lucíola é um livro maravilhoso, apesar de ter um final “falhado”. Acho que é um dos grandes romances de todos os tempos na literatura brasileira.

    O problema do José de Alencar é essa veia indianista dele, que acho um saco (mas reconheço como válidas as pretensões dele ao escrever e publicar essas obras; o Alencar quis fundar uma literatura nacional, afinal de contas, o que não é pouca coisa, ainda mais hoje em dia, em que os autores brasileiros parecem querer só fundar – afundar? – uma pousada às margens de seu próprio umbigo)

    Eu acho que a gente abandona muito fácil os autores nacionais… Mas brasileiros é capaz de trocar/largar tudo mesmo por dois tostões cunhados “in English”… ¬¬

    A Simone Campos citou Marques Rebêlo. Êta autor bom pra cacete! Ninguém mais lê, mas é maravilhoso. A estrela sobe é uma delícia.

  • Eric Novello 01/04/2008 at 10:14

    Ah, eu ia perguntar se era o único que adorava Lucíola, mas surge então Mr. Clair e mostra que não estou só.
    O Glauco Mattoso fez recentemente uma versão de um livro de Alencar, não sei qual mas certamente tem pé no meio, o que também é um jeito de manter os moribundos vivos, não?

  • Saint-Clair Stockler 01/04/2008 at 10:18

    Eric,

    Eu ADOOOORO o Lucíola! Tem a cena de suruba mais bonita (e de bom gosto) que conheço, sem que o Alencar tenha precisado usar uma só palavra vulgar.

    O Gustavo Bernardo, da Uerj, escreveu anos atrás um romance “recontando” este livro do Alencar. O dele chama-se Lúcia.

    Não sabia dessa do Glauco. Mas se é do Glauco, é bom (e polêmico, certamente).

  • joao gomes 01/04/2008 at 10:27

    Pois é Saint-Clair,

    Também achava chato aquele aspecto politicamente correto de mostrar os valores e ideais dos Guaranis. Coisa que, alias, acho que foi influenciada pelo James F. Cooper de “O último dos Moicanos”.

  • Cezar Santos 01/04/2008 at 10:39

    Lúcio Cardoso?
    Marques Rebelo, com certeza está entrando (ou já entrou?) nessa. E é um baita escritor, o Rebelo…

  • Rafael 01/04/2008 at 10:48

    O José de Alencar merece ser lido, pelo menos, por uma razão singela: ele sabia escrever.

    Oxalá um dia os escritores brasileiros descubrirão que o domínio dos rudimentos da escrita é essencial para quem pretende seguir carreira das letras!

    Neste aspecto, a leitura de Alencar é indispensável.

  • Rafael 01/04/2008 at 10:54

    Ossian exerceu uma influência enorme sobre os escritores românticos graças a Goethe. Nos capítulos finais do Werther, num dos momentos mais emotivos do livro, Goethe quase que transcreve um poema de Ossian integralmente. O Werther foi provavelmente o livro mais lido do romantismo; nenhum expoente do movimento ficou indiferente à sua influência. José de Alencar, obviamente, não escapou desse influxo.

  • C. S. Soares 01/04/2008 at 11:02

    Curiango e Sérgio: Como escreveria Gois, faz sentido. “Machado de Assis, leitor de Ossian” é um dos estudos em A biblioteca de Machado de Assis, organizado por José Carlos Jobim, publicado pela ABL e Topbooks (2001).

    A importância dos velhos e ótimos autores citados está, historicamente, justificada na nossa própria formação como brasileiros (o mesmo cabe a Steinbecks quando relacionado aos estadunidenses).

    Definam-me, por favor, o que significa estar “literariamente morto”? E atentem aos exemplos aqui citados: Veríssimo, Rego, Rosa, Alencar, …

    Isso é muito preocupante. Estamos, reafirmo, perdendo nossas raízes. Esquecendo nossa própria história.

    No caso dos autores supracitados a questão que os define, friso, não é modernidade, é a eternidade.

    Curiango acertou na mosca: ler é hábito, hábito adquire-se e dele faz-se o monge. A leitura pode ser prazerosa ou não dependendo do autor, claro, mas também do leitor.

    Não é somente “facilitando” a leitura, que capturaremos (e criaremos) os novos leitores.

    Contextualize-se, por exemplo, Coelho Neto, e pode ser que ele volte a ter novamente os seus 6 fieis leitores (número que, segundo minha querida Maria José de Queiroz, mineira, participante dos históricos Sabadoyles, já será bastante adequado a um escritor).

    O grau de literariedade interdependerá (no final das contas) do grau de “leiturariedade”…

    Lembrando Oprah: comentei lá no Pontolit, há semanas, a abertura, para download grátis, de e-books das obras do Clube da Oprah. Em 33 horas foram contabilzados mais de 1 milhão de downloads. Na Amazon também foi observado, nas semanas seguintes, um aumento na venda dos p-books (livros de papel) correspondentes.

    O papel do “Clube” mostra-se importante em termos da divulgação de obras e estimulo à leitura (ser celebridade serve para isso também).

    Quem sabe (fica a sugestão), o Jô Soares não prestaria um bom serviço à literatura brasileira criando um “Clube do Jô” aos moldes do Clube do Livro de Oprah Winfrey?

  • Rafael 01/04/2008 at 11:24

    C. S. Soares,

    Até acho que não seria uma má idéia o Jô copiar a bem sucedida idéia da Oprah. No entanto, enquanto a escola, no Brasil, não cumprir a sua missão de educar, o passado, literário ou histório, permanecerá esquecido.

    Há sim autores que morrem com a passagem do tempo, ainda que talentosos. Excessivamente presos às convenções da sua época, não provocam interesse nas gerações mais novas, e são esquecidos.

    Alencar, excelente exemplo lembrado pelo Sérgio, tinha imaginação fértil e escrevia muito bem. Sua obra, entretanto, não é mais referência para nenhum escritor atual (apesar das paródias citadas), pois baseada em convenções que não nos dizem respeito. O indianismo de Alencar soa-nos falso, suas tramas são muito sentimentalóides e beiram ao inverossímil. E foi um bom escritor.

  • C. S. Soares 01/04/2008 at 17:59

    Concordo Rafael, mas hoje, a escola (educação) já é um reflexo da sociedade que a institui. E nesse caso especificamente, os professores tentam adotar os clássicos, mas são criticados. É um paradoxo, não acha?

    J. de Alencar não se resume ao indianista. Vale a pena ler também o cronista de “Ao Correr da Pena”.

    Neste volume é imperdível a leitura de “O Livro da Semana”, uma crônica a respeito de um livro que ainda precisa ser escrito. Na verdade, um folhetim-livro.

    E segue Alencar escrevendo sobre como escrever este livro. Existe algo mais atual do que escrever sobre o escrever? Pois Alencar escreveu essa crônica na semana de 11 a 18/11/1855!

    Escreve Alencar: “Neste volume a cidade do Rio de Janeiro faz as vezes de papel de
    impressão, os habitantes da corte são os tipos, os dias formam as páginas e
    os acontecimentos servem de compositores.”

    Depois, Alencar segue detalhando as partes de uma obra: título, dedicatória, prólogo etc.

    (SPOILER) No fim, resignado, conclui que não valerá a pena escrever tal livro pois “um livro hoje em dia não é mais do que o título, o prólogo, a introdução, e o índice dos capítulos”.

    Mas não deixa, a melhor maneira de Jorge Luis Borges, de inventar um trecho deste livro jamais escrito, uma série de censuras que termina com uma censura a si mesmo: “Finalmente censuro-me a mim mesmo, porque não penso como os outros; e censuro ao meu leitor pôr não ter melhor empregado o seu tempo”.

  • Clara 01/04/2008 at 18:42

    Sérgio, de fato John Steinbeck práticamente faz parte do currículo de qualquer high school em qualquer ponto dos EUA, com mais de um livro, inclusive.

  • Pedro Curiango 02/04/2008 at 02:53

    Sérgio e Rafael: Continuando a nota: Ossian foi traduzido no Brasil desde pelo menos 1825, por José Bonifácio de Andrada e Silva, o “Patriarca da Independência.” Uma [péssima] tradução do belo poema “Colma”, dos “Songs of Selma” aparece na edição parisiense dos versos do brasileiro [1825], sob o título de “Ode” [“”Que triste escuridão! Desamparada / Na serra me acho das tormentas…”] Mais importante tradutor brasileiro foi Francisco Otaviano – aquele do “Quem passou pela vida em branca nuvem.” Em 1872 ele publicou os “Cantos de Selma,” numa edição que transcreve uma carta de Salvador de Mendonça a ninguém menos que José de Alencar. Nunca vi este livro, mas consta o boato de que Otaviano só mandou fazer 10 exemplares, criando assim uma das maiores raridades da bibliografia brasileira. Não sei se o boato é verdadeiro.

  • Cezar Santos 02/04/2008 at 11:11

    Gozado, nuita citação a Ossian, mas ninguém falou que o sujeito não existiu…

  • Rafael 02/04/2008 at 11:37

    Pedro,
    Impressiona-me imensamente o seu conhecimento bibliognóstico!

    Cezar,
    Atendendo ao seu pedido, deixo o registro de que Ossian teria sido uma invenção do poeta escocês James Macpherson. Usando de um expediente “borgiano”, James Macpherson publicou um livro intitulado Fragments of Ancient Poetry Collected in the Highlands of Scotland, fragmentos esses que seriam de autoria de um tal de Ossian. A essa publicação seguiram-se outros livros, que conteriam “traduções” desse obscuro Ossian.
    Segundo pude apurar, existe ainda controvérsia se as traduções basearam-se em fontes autênticas, porém modeladas por James Macpherson ao espírito da época, ou se seriam mesmo uma mera invenção.

  • vinicius jatobá 02/04/2008 at 11:56

    Pode-se falar o que se quiser de Steinbeck, mas a questão é que ele tem ao menos uma obra-prima (‘Vinhas da Ira’), um grande romance (‘A Leste do Eden’), e uma série de livros capazes de empolgar leitores adolescentes como ‘Tortilla Flat’ e ‘Ratos e Homens’. A obra dele até ‘Vinhas’ é muito interessante e rica. Uma prosa ótima, grande comprometimento social, uma mistura curiosa de marxismo com certo sentimento religioso. É ótimo que jovens tenham contato com um autor de tanta qualidade tão cedo. Inclusive os livros dele são talhados para isso, não há mal nisso. O que aconteceu com o Steinbeck após ‘Vinhas’ foi que ele secou e ao invés de se dar um tempo decidiu escrever apenas pelo hábito de escrever e aí os livros são péssimos: pouco inspirados, forçados, irritantes. Mas os dois primeiros volumes da edição da LOA, que cobrem o período 1932-1941, valem cada centavo. Lendo-os dá para entender o motivo de Steinbeck ter um Nobel de literatura. É claro que Nabokov e Greene seriam melhores ganhadores que Steinbeck, mas o homem tem uma obra-prima. Quem tem obra-prima pode até cometer alguns livros e ainda assim vai direto pro céu.

  • vinicius jatobá 02/04/2008 at 12:05

    No Brasil um autor como Graciliano Ramos tem sua sobrevivência mantida praticamente pelas leituras obrigatórias de colégio. Eu mesmo, ao longo da minha vida juvenil, li quatro títulos do Graciliano na escola. Fui obrigado, claro. Só tive prazer relendo os livros depois, com maturidade… ‘Angústia’ aos 14 anos? Acredito, realmente, que nas escolas a leitura deveria ser dissociada de questões nacionais e se comprometer apenas com qualidade e eficácia na tentativa de formar um leitor saudável e sem medo dos livros. Deveria se ter aulas de leitura. Ponto final. E aulas divertidas… E principalmente autores de qualidade… Kafka, García Márquez, Camus, Tchekhov, Mansfield… Todos têm livros absolutamente legíveis e interessantes que ajudariam a formar o gosto para leitura melhor do que esse engodo chatíssimo chamado ‘Iracema’, por exemplo. Quem sabe o desisteresse do leitor adulto por autores nacionais não nasce justamente desse primeiro momento traumático de ter 12 anos e ser obrigado a ler um péssimo romance como ‘Iracema’? Só me deram livros chatos para ler: ‘O Mulato’, ‘O cortiço’, ‘A moreninha’… Que prosa fedida de latrinha esse livros possuem! Se tivessem me dado aos 12 anos ‘Cem anos de solidão’ teria uma relação mais saudável com livros na adolescência. Só lia policial em casa porque eram os únicos livros que pareciam falar a mesma língua que eu… Ao invés dos adultos me apresentarem na escola livros que me estimulassem a ler, justamente me empurravam goela abaixo uma série de livros idiotas escritos numa prosa afetada e palavrosa ou complexidades machadianas muito além da minha maturidade naquele momento! Como uma criança terá prazer lendo aos 14 anos ‘Memórias póstumas’? Que tipo de retardado empurra um livro tão difícil goela abaixo de uma criança? E ainda tem que ler para fazer prova… Ou seja, uma leitura angustiada, sob pressão, de um texto que trata de um mundo malicioso que um jovem não vai entender… Um conto do Hemingway, quem sabe ‘O velho e o mar’, um romance de maturidade do Amado, até mesmo um livro marítimo do Conrad como ‘Lorde Jim’ seria mais saudável do que ler uma obra sofisticada como ‘Memórias Póstumas’… Não é a toa que mesmo quem tem dinheiro não compra livros no Brasil. Devem pensar: para quê vou comprar livro, para me sentir humilhado como no colégio?!? Com 14 anos deve-se ler Steinbeck, não Faulkner! Dickens e Austen, não Joyce e Beckett. Orígenes Lessa, não Machado e Rosa!

  • Rafael 02/04/2008 at 12:14

    Vinicius,
    E não é que concordo com seu último comentário? Eu mesmo, que adoro sobretudo literatura antiga, desenvolvi meu gosto pela literatura lendo os livros da Coleção Vaga-Lume, infinitamente mais atrativos para o adolescente do que O Ateneu ou São Bernardo. Monteiro Lobato, num artigo interessantíssimo, sustentou uma idéia parecida, observando que o melhor livro para estimular os meninos a lerem era Tereza, Filósofa, clássico da literatura erótica que os garotos liam escondidos.

  • Clara 02/04/2008 at 16:29

    Também eu achei a colocação do Vinícius perfeita.

    Odiei praticamente tods os livros que a escola me impõs, essa literatura que para o adolescente é chata e modorrenta.

    Já a minha filha deu a sorte de ter livros indicados bem mais apropriados à faixa etária juvenil. Pedro Bandeira foi o primeiro autor à que ela foi fiel. Depois de “A Droga da Obediência”, ela leu todos os livros dele, todos!

  • Clara 02/04/2008 at 16:32

    E, mil vezes melhor ler “Vinhas da Ira” do que Iracema, por exemplo, eu que li os dois em épocas relativamente próximas(casa um na sua língua original).

  • Uma 02/04/2008 at 18:21

    Steinbeck é um dos maiores autores americanos. É impressionante o repúdio que os próprios americanos tem por ele. Uma pena.

  • andréa 02/04/2008 at 18:46

    bobagem, essas discussoes nao arranham a forca dos escritores, que nao sao perfeitos, mas que sao grandes em suas visoes de literatura. longa vida a alencar, iracema é ainda um segredo permanente a se descobrir.

  • Sérgio Karam 02/04/2008 at 20:14

    “Érico Veríssimo (…), um autor que, embora tenha escrito algumas obras sólidas (…), nunca apresentou uma contribuição que lhe desse permanência temporal”. Então tá: quer dizer que “O Tempo e o Vento” não está entre os melhores livros jamais escritos por um autor brasileiro? E não deu “permanência temporal” à obra do Erico Verissimo? Give me a break!!!

  • Isabel Pinheiro 04/04/2008 at 00:27

    João do Rio, em 1905 ou 1908, não se sabe ao certo, publicou um livro chamado “O momento literário”, recentemente (e pessimamente) reeditado. Ele entrevistou 30 e tantos escritores que estavam no auge na virada do século (Machado foi convidado a depor; recusou por falta de tempo). Dos 30 e tantos, de quem sabemos ainda hoje? Olavo Bilac, por certo. Coelho Neto, chatíssimo. Luís Edmundo? (Ele tem coisas ótimas sobre a vida cultural da época.) Afrânio Peixoto? Osório Duque Estrada, que só é conhecido como o autor do Hino Nacional? E Inglês de Souza? Guimarães Passos? Rodrigo Otávio?

    Esses caras foram famosos e lidos em sua época. Não sabemos nada deles. Não encontramos seus livros — a conseqüência boa é que ninguém vai indicá-los como leitura obrigatória nas escolas. É evidente que a literatura pode acabar datada. De todos esses autores, sobraram os que tinham alguma coisa pra dizer, e continuam tendo.

    Estar “literariamente morto” é exatamente isso: não ter o que dizer ainda hoje. Cair no esquecimento porque a obra não resistiu ao tempo. Sou menos pessimista em relação a Guimarães Rosa, Erico Verissimo e Graciliano Ramos: acredito, e espero, que suas obras permaneçam, ainda que, daqui a sei lá quantos anos, um bando de leitores as discutam online como “datadas”, “difíceis”, “desatualizadas”, etc. E Jorge Amado? E Rubem Fonseca? E Milton Hatoum, Bernardo Carvalho, Lygia Fagundes Telles? Permanecem ou acabariam como os entrevistados de João do Rio?

  • Sérgio Rodrigues 04/04/2008 at 11:24

    Isabel, concordo inteiramente. Podemos no máximo fazer apostas sobre o futuro. Acrescentaria apenas que esse jogo do tempo, mesmo tendo a ver, é claro, com mérito literário, nunca vai abolir alguns lances de puro acaso também, só pra complicar ainda mais a vida das pitonisas. E mudando de assunto: por que você parou de atualizar o blog?

  • nelson lott 05/04/2008 at 00:35

    Steinbeck retratou uma época e uma classe praticamente esqucida por todos os demais escritores americanos, daí – entre outra coisas – a razão de sua grandeza e imortalidade. Qual outro norte-americano retratou a vida dos “sem terra”, das vítimas da crise de 29 nos campos, do desemprego, das pequenas propriedades penhoradas por dívidas bancárias, dos camponeses expulsos pelas grandes propriedades e mecanização da lavoura? Ou o problema agrário ianque só existiu nos romances dele? Neste caso poderíamos colocá-lo entre os grandes criadores de circunstâncias e personagens.
    Os seus contos são de qualidade igual ou superior aos dos bons e respeitados cultores do gênero.
    Quem não conhece “Vinhas da Ira”, Ratos e Homens”, eternos enredos de bons filmes. Temos ainda o “Inverno de Nossa Desesperança”, “Doce Quinta-feira” como romances de tarde calma para leitura.
    Os contos juvenis são de largo consumo e frequentemente republicados. Consultem a “Amazon” e poderão perceber a quantidade de edições disponíveis e também o grande número de livros nos quais a obra de Steinbeck é comentada.
    De qualquer forma, lembrar Steinbeck é sempre muito bom, principalmente para os leitores por prazer e não por profisssão.
    Quem viveu a época lembra-se do furor causado por Steinbeck ao tentar explicar a missão americana no Vietnam. Um autor esquecido não provocaria tamanho alvoroço.
    Quanto aos comentários sobre Guimarães Rosas: “Nonada”.
    Nelson Lott

  • Isabel Pinheiro 05/04/2008 at 11:56

    Sérgio, falta absoluta de tempo (e uma tendência, nos últimos meses, a ler temas particularmente bizarros, sobre medicina e doenças). Mas já ganhei o dia ao saber que vc espia o blog! Abraço,

  • Pedro Curiango 06/04/2008 at 17:05

    SIC TRANSIT – No ano de 1936, Andrade Muricy, conhecido crítico em sua época, publicou uma antologia, de prosa e verso, intitulada “A Nova Literatura Brasileira” (Livraria do Globo, Porto Alegre). Nela aparecem, como romancistas, entre outros: Adelino Magalhães, Álvaro Moreira, Amando Fontes, Barreto Filho, Brasilio Itibirê, Carlos da Veiga Lima, Jackson de Figueiredo, Jaime Balão Junior, José Geraldo Vieira, Luiz Delgado, Plínio Salgado. Será que algum leitor deste blog já leu algum romance de Barreto Filho, ou Brasílio Itiberê, ou Carlos da Veiga Lima, ou Jackson de Figueiredo, ou Jaime Balão Júnior, ou Luiz Delgado, ou mesmo Plínio Salgado?
    Agora, uma curiosidade: em 1936, Graciliano Ramos publicava “Angústia.” Já tinha publicado “Caetés” (1933) e “São Bernardo” (1934). Ele não aparece na antologia de Andrade Muricy. Nem tampouco Raquel de Queirós…

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