Desculpe, mas vou falar de futebol

09/08/2014

no estilo de jaliscoSerá que já eu já posso voltar a falar de futebol? A pergunta é dirigida a mim mesmo, e a resposta acaba sendo – obviamente, ou você não estaria lendo este texto – sim, mas um sim relutante. Falar de futebol foi o que mais fiz nos últimos dez meses, desde que lancei um romance chamado “O drible”. A Copa do Mundo em que o falatório culminou, e que me fez voltar com prazer maior do que eu imaginava possível aos velhos tempos de jornalista esportivo, teve, porém, o fim que se sabe: o inominável 7 x 1 de Belo Horizonte, 8 de julho de 2014, foi um peixe estragado goela abaixo quando o banquete já se aproximava do fim. Todos os pratos anteriores, por mais gostosos que tivessem sido no momento, passaram a embrulhar o estômago em retrospecto. Aí veio Dunga e… dizer o quê? Melhor mudar de assunto mesmo.

Claro que não havia como sustentar o silêncio por muito tempo. Aquela tarde, os alemães ainda se esforçavam para, conservadores e polidos, manter sua contagem em cinco gols e eu já sabia que teria de tratar do massacre. Que provavelmente estava condenado, na verdade, a revisitar o momento por anos a fio, neurótico, rondando o bicho à procura de um ângulo para abatê-lo. Algo parecido com o que fez Paulo Perdigão ao transformar o fracasso de 1950 no livro “Anatomia de uma derrota”, um monumento à obsessão e um dos grandes clássicos da literatura brasileira de futebol.

Desde o início tem sido difícil sacudir a sensação de que aquela goleada – por sua dimensão inédita, seu aspecto comicamente vexaminoso, o desmoronamento minucioso de um orgulho longamente construído – significa mais do que parece significar. Estaremos diante de, meu Deus, uma metáfora? Serei forçado pela enormidade dos números a cair finalmente no truque que me empenhei em driblar ao escrever “O drible”, o de achatar a complexidade do futebol para transformá-lo em uma didática “metáfora do Brasil”? Bom, que o 7 x 1 parece um placar condizente com nosso desempenho, ano após ano, na Copa do Mundo da Educação, isso parece… Com o agravante de que nessa goleada pouca gente está prestando atenção, como comprova mais uma campanha presidencial em que, a julgar pelos primeiros balbucios, o tema da majestosa ignorância brasileira vai passar batido.

Mas por que a pressa, se o 8 de julho continuará aqui por anos e anos?

*

Sou tirado do silêncio pelo ótimo artigo de Nuno Ramos na revista “piauí” de agosto. Sob o título Depois do 7 x 1, o artista plástico e escritor discorre com lucidez sobre diversas faces do desastre do Mineirão, mas sua tese central pode ser resumida na ideia de que perdemos de forma acachapante porque entramos com uma escalação ofensiva e dispostos a massacrar o adversário justo na partida em que enfrentaríamos o melhor time da Copa – isso depois de uma série de atuações medrosas contra adversários piores e, o que é mais grave, estando desfalcados de Neymar e Thiago Silva, nossos principais jogadores. Por que cometemos tal desatino? Ramos atribui a culpa à nossa “cultura esportiva”: porque esse seria o “verdadeiro futebol brasileiro”, entidade mítica cujo retorno estaríamos sempre a esperar, num caso de sebastianismo clássico.

A postura do autor é realista. Faltaria ao futebol brasileiro atual reconhecer suas limitações, que não são poucas, e construir times competitivos a partir daí, explorando as qualidades que também, inegavelmente, temos. Nosso futebol não se enxerga. Concordo com a ideia de que o pensamento mágico é um estorvo. Andei batendo nessa tecla em minha cobertura da Copa, ao identificar no abismo entre a modesta realidade do time e a fantasia ufanista de seu poder – um buraco que se tentou aterrar com pura “emoção” – a fonte do chororô dos jogadores, dilacerados entre duas dimensões inconciliáveis.

Receio, porém, que depois daquele 7 x 1 o realismo seja remédio insuficiente, fracote. Vitórias pragmáticas jamais serão capazes de reconstruir o edifício de prestígio que jaz em milhões de cacos. Só a apoteose improvável de voltarmos a jogar o futebol mais belo, irresistível, revolucionário do mundo pode nos salvar. Que venha D. Sebastião, e de penacho, ou nada mais dará certo – o que para todos os efeitos é o mesmo que dizer que já não deu. Nesse momento chegamos perto do que o 7 x 1 tem de inominável.

*

A melhor resposta a tal tipo de charada sombria costuma vir da imaginação dos ficcionistas. Recomendo a todo mundo que ainda cuida da ferida aberta no dia 8 de julho a leitura do único bálsamo que encontrei desde então: a novelinha “No estilo de Jalisco”, de Juan Pablo Villalobos (Bateia/Realejo, 94 páginas). Escrita diretamente em português pelo autor mexicano de “Festa no covil”, trata-se de uma homenagem comovente ao passado de glória do futebol brasileiro e, ao mesmo tempo, de uma divertida tiração de sarro com a impossibilidade de reviver a glória do passado – qualquer glória, de qualquer passado.

Sem adiantar detalhes que possam estragar o prazer do leitor, acho seguro contar que Villalobos (que a transparência manda identificar como autor da luxuosa tradução de “O drible” para o espanhol, publicada em maio pela editora Anagrama com o título El regate) imagina uma repetição da Copa de 1970 como farsa grotesca. Sósias ou nem-tão-sósias de Jairzinho, Carlos Alberto, Tostão, Rivelino e Gérson vão parar no México, levados por um empresário inescrupuloso, para exibir seu futebol de pelada diante de um bando de sparrings uruguaios. Profeticamente, pois o livro foi lançado antes da Copa, o efeito acaba sendo parecido com o do 7 x 1.

5 Comments

  • Silvio 09/08/2014 at 12:36

    Sérgio, se me permite o trocadilho barato, eu já disse por aqui que não “dou bola” para o mundo dos esportes, mas que reconheço no assunto um tremendo potencial para virar literatura. Por exemplo, tenho certeza que no final deste ano, na esteira do centenário da 1ª Guerra Mundial, vão falar bastante sobre um fato extremamente desconcertante, para não dizer comovente e depressivo. Foi quando inimigos negociaram uma trégua, recolheram e enterraram seus mortos e depois… jogaram uma “pelada”: http://www.telegraph.co.uk/history/9763539/Britons-started-WW1-Christmas-football-match-with-ball-kicked-from-trench.html. Esses acontecimentos (assim como o humilhante 7×1) são grandes histórias à espera de um escritor.

  • j. 09/08/2014 at 18:30

    o PROBLEMA NÃO É O JOGO EM SI

    É TODA A ESTRUTURA ENTORNO

    LOBBY, CORRUPÇÃO, DESVALORIZAÇÃO DO ATLETA ,DO FUTEBOL, POUCO INVESTIMENTO NO ESPORTE

    DESCREDITO EM TUDO. NA EDUCAÇÃO DE BASE

    ALTOS SALÁRIOS MILIONÁRIOS E ROUBALHEIRA

    POUCOS TALENTOS E NENHUM INCENTIVO

    ESSE SISTEMA DESSE PAÍS QUE NÃO AJUDA (SALÁRIOS DE POLITICOS ALTOS E CORRUPÇÃO)

    ENQUANTO ISSO O POVO MORRENDO E TENTANTO SOBREVIVER COM AS DROGAS

    É DEPLORÁVEL

    TEM QUE ACABAR E REFORMULAR O FUTEBOL.

    INVESTIR NAS ESCOLINHAS.

    Enfim evolui o país.

    E não esse marketing podre que tá aí.

    A aLEMANHA SIM SABE O QUE TÁ FAZENDO

    LÁ ELES INVESTIM

    E SE PRECISA O GOVERNO AINDA AJUDA DE TODAS AS FORMAS NAS EDUCAÇÃO DOS MENORES TALENTOS

  • Juão 09/08/2014 at 19:29

    Sergio:
    O principal responsável pela “fantasia ufanista”, que a maioria dos brasileiros não contaminados por “Brasialinite aguda”, já identificavam,
    chama-se Galvão Bueno, capitaneando o oba-oba dos grandes patrocinadores.Minha mera opinião.

  • antonio 09/08/2014 at 20:51

    esse 7×1 vai perseguir seu scolari pelo resto da vida e vai pesar muito mais do que ele imagina

  • José Renato Lima 09/08/2014 at 21:19

    Contrariando gigantes:

    Futebol, Seleção nunca foi e nunca sera uma família como diz Escolari. É preciso que se diga isto de manhã, a tarde e a noite:

    Futebol, Seleção deve ser constituído e visto como empresa! Sim, empresa onde deve haver mito trabalho e obter resultados.

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