Destaques 2012 (IV): cinco Sobrescritos

26/12/2012

Geração 90 na revista ‘Grandpa’: anatomia de uma tragédia

Em retrospecto, pode-se afirmar que as sementes da calamidade foram lançadas quando correu a notícia de que a revista Grandpa dedicaria uma edição inteira aos escritores brasileiros com mais de noventa anos. A princípio não seria possível distinguir agitação alguma na superfície do lago estético que a imprensa, dividida, ora chamava de “melhor literariedade”, ora de “verdadeira geração noventa”. Os principais nomes do movimento souberam disfarçar o nervosismo diante de seus tabuleiros de damas na pracinha, ajudados pelo fato de que o tremor nas mãos não era exatamente uma novidade. Dentaduras duplas camuflavam os dentes afiados metafóricos. Bengalas e andadores escondiam tacapes e estiletes, e fraldões geriátricos, a disposição generalizada de cobrir de barro a reputação dos colegas. (Leia mais.)

Nelson Rodrigues está vivo e tuitando

Imagine que Nelson Rodrigues não morreu. Às vésperas de completar cem anos, tem um blog chamado A vida como ela ainda é, que atualiza dia sim, dia não (a idade pesa), embora mantenha com as tecnologias digitais uma relação irônica e cheia de ambiguidade. Aproveita-se do que elas têm de prático, mas sente falta do teclado pesado da máquina de escrever. Só consegue continuar publicando porque já não precisa frequentar redações, resolve tudo do sofá de casa, mas morre de saudade do papo furado com os colegas da Geral e do Esporte. Acha que a humanidade se amarrou de bom grado ao pé da mesa e que o computador pessoal, o notebook, o smartphone, o tablet – que nomes absolutamente abomináveis! – não passam de versões metidas a besta da cuia de queijo Palmira. (Leia mais.)

A vergonha do rei

O rei tinha vergonha de escrever versos. A atividade lhe parecia claramente indigna de um monarca: catar palavras que andavam aos pinotes por aí, debochadas, malucas, incursas em crime explícito de lesa-majestade, e convencê-las sabe-se lá a que preço a contar em jogral tosco, num palco de palito e papel, o que era indizível de saída. Ocupação nada real, evidentemente. Vício de duque ou visconde, vá lá: que mal podia haver num soneto que rimava rosa com vaporosa se se perdoavam fraquezas até maiores nos nobres, havendo os mais fracos entre eles que davam mesmo para devassos, ladrões, assassinos, por que não poetas? Rei era diferente. Civilizar o mundo, manter coesa a massa dos homens para mais bem erguê-los da barbárie, isso era trabalho de rei. Anexar terras, matar a mancheias, ofuscar o sol era trabalho de rei. Só que o rei, mesmo morrendo de vergonha, não parava de escrever versos. (Leia mais.)

Entrevista com Silvério Sombra, o ‘Raduan sem Lavoura’(I)

Encontrei o ex-escritor Silvério Sombra em seu sítio, que ele batizou de Itaguaí por motivos que veremos adiante, embora não se situe na cidade fluminense. O sigilo sobre a localização da pequena propriedade rural de Sombra é apenas uma das cláusulas restritivas que ele impôs como condição para conceder sua primeira entrevista desde que, há sete anos, abandonou tanto os círculos literários em que tinha atuação frenética quanto a própria literatura, recusando-se a acrescentar – conforme suas últimas palavras públicas – “uma linha que seja a uma obra que espero ver esquecida para sempre”. (Leia mais.)

Entrevista com Silvério Sombra, o ‘Raduan sem Lavoura’(II)

“A literatura é uma festa estranha com gente esquisita, como diz o Raul Seixas”, afirma Sombra. “Renato Russo? Ou isso. Festa estranhíssima com gente esquisitaça. Vermes e vermífugos, ególatras, mercenários, doentes, pavões sem mistério nenhum, urubus, hienas, águias de olho furado, comerciantes frios, menininhos lânguidos e ciumentos, meninas de olhar duro, uma gente sem alma e com idade emocional de nove anos. Um dia eu olhei para aquela fauna, depois pro espelho. Me lembrei com clareza de doer da minha miragem inaugural, que era uma beleza de miragem, e de repente entendi.” (Leia mais.)

One Comment

  • Athayde 27/12/2012 at 10:10

    Sérgio, sempre fico fascinado com seus Sobrescritos. Aproveito para pedir desculpas pela ousadia em te enviar o meu livro. Abraços.
    Valeu, Athayde. Imagine, agradeço o envio do livro. Espero poder lhe dar um retorno sobre ele em prazo civilizado. Um abraço.

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