Destaques 2012 (I): cinco resenhas

12/12/2012

“Ficção completa”, de Bruno Schulz: O escritor polonês (1892-1942) ficou marcado pela sombra de Franz Kafka, que como ele era um judeu europeu desenraizado. A ligação entre os dois foi estimulada pelo próprio Schulz, que chegou a assinar uma tradução de “O processo” que não fez, mas tem valor dúbio. A verdade é que sua literatura de estonteante originalidade não deve nada a ninguém. O principal indício da diferença entre os dois escritores está no modo como tratam a linguagem. Em Kafka ela mantém uma superfície lisa, homogênea e próxima do tédio dos relatórios, enquanto a narrativa enlouquece por baixo. Em Schulz o enlouquecimento poético da prosa é o próprio espetáculo. Os dois são alucinógenos, mas Kafka é uma substância injetável e Schulz, uma bebida de estalar a língua e lamber os beiços (leia mais).
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“O espírito da prosa”, de Cristovão Tezza: Livro corajoso e único no cenário brasileiro, em que um escritor de sucesso reflete sobre sua formação, expõe dúvidas e fraquezas e defende teoricamente suas escolhas estéticas no quadro histórico da prosa de ficção. Tezza faz uma defesa enfática de algo que grande parte de nossa inteligência literária tem gostado de tratar como defunto, muitas vezes com a superficialidade dedicada às certezas automáticas: a ficção realista e seu lugar único, que obviamente não é o de uma linguagem em que o autor insufle uma verdade superior, mas o de um cruzamento impuro de linguagens. “No conceito, tudo é objeto”, diz Tezza, atacando a “militarização” promovida pela arte conceitual e defendendo a “experiência do sujeito, ou a sua empatia, como a chave medular da arte literária” (leia mais).
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“A visita cruel do tempo”, de Jennifer Egan: Engraçado, inteligente, sensível, ridiculamente bem escrito, é o melhor livro americano que leio em um bom tempo, mas deixa um travo meio esquisito. Talvez porque permita entrever o sorriso congelado na cara do anfitrião excessivamente preocupado em agradar. É como se Jennifer Egan – que andou declarando dívidas contraídas com as ditas alta e baixa culturas, com Marcel Proust, a série “Os Sopranos” e o filme “Pulp fiction” – tivesse canalizado seu inconformismo com a suposta desimportância da literatura no mundo atual para a confecção de um produto pop-literário perfeito. Em seus próprios termos, funcionou brilhantemente, mas é difícil dizer se sua ânsia totalizadora tem o charme de uma picada nova ou do fim do caminho (leia mais).
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“Joseph Anton”, de Salman Rushdie: O livro é fundamental por trazer o depoimento pungente – na terceira pessoa – de quem esteve num lugar que ninguém sonha visitar: o de um escritor de ficção condenado à morte por um livro, “Os versos satânicos”, que poucos de seus perseguidores leram e que não diz nada do que eles alegam que diz. Num mundo em que o poder da ficção parece abalado por todo tipo de kriptonita, trata-se provavelmente da grande trama “literária” – se forçarmos o adjetivo a abarcar as construções políticas e sociais em torno da literatura – pela qual nosso tempo será conhecido. O que torna o livro vulnerável a críticas vindas do outro lado do balcão que separa “Ocidente” e “Oriente” está enraizado na mesma radicalidade da experiência individual da qual brota sua força (leia mais).
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“Ficando longe do fato de já estar meio que longe de tudo”, de David Foster Wallace: Nenhuma omissão muda o fato de que nessa coletânea de ensaios-reportagens aparece de corpo inteiro o DFW não ficcionista, que não era muito diferente do ficcionista. O autor está no ramo de questionar as certezas automáticas advindas do condicionamento cultural. É preciso que a linguagem, campo privilegiado do automatismo, seja posta em questão. Em vez de explodi-la, porém, como faria a arte conceitual, o artista a interroga incessantemente, tentando forjar com a mesma linguagem que aprisiona a chave da cela, pois do que mais se poderia fundi-la? As palavras são veneno e antídoto. Daí a abundância de digressões reflexivas, ressalvas e notas de rodapé, a famosa prolixidade que, em seus melhores momentos, não é ausência de síntese, mas um desdobrar de sínteses em profusão (leia mais).

4 Comments

  • Guilherme Carvalhal 12/12/2012 at 23:47

    Prezado Sérgio Rodrigues.

    Gostaria de deixar aqui meu comentário sobre as inscrições do Prêmio Literário da Biblioteca Nacional. Falo isso como escritor de pequeno porte, que com todas as dificuldades produz seus livros.

    Minha inscrição não foi realizada por conta de irregularidade com o cadastro do ISBN. E reparando nas inscrições inabilitaddas, percebi que a grande maioria o foi pelo mesmo motivo que o meu.

    Achei absurda esta burocracia, pois se trata de uma ferramenta que está servindo para excluir boa parte das pessoas que produzem cultura neste país de participarem de um evento que visa justamente promovê-las.

    O site do ISBN diz que “O ISBN simplifica a busca e a atualização bibliográfica, concorrendo para a integração cultural entre os povos”. Não foi exatamente isso que senti.

    • sergiorodrigues 14/12/2012 at 18:41

      Seu protesto está registrado, Guilherme. Lamento. Da burocracia brasileira devemos esperar tudo. Abraços.

  • Paulo 14/12/2012 at 13:52

    Sérgio, li A Visita Cruel do Tempo por causa de sua resenha, e realmente achei incrivelmente construído. Não sei se você leu, mas provavelmente ouviu falar de Segundos Fora, de Martin Kohan, que é desenvolvido como uma sinfonia, magistralmente. Recomendável para estas listas de melhores do ano.

    • sergiorodrigues 14/12/2012 at 18:38

      Obrigado pela dica, Paulo. Vou procurar. Um abraço.

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