Diálogo com pastinha de hadoque

21/07/2008

Você gostou?

Hein?

Gostou do livro?

O livro é legal.

Legal o bastante para ganhar capa?

Hahaha, calma, as coisas não funcionam desse jeito. Primeiro, não gostei tanto assim. E mesmo que tivesse gostado, a minha opinião é só a minha opinião. Não basta.

Como não? Você não é o editor da revista?

Escuta, querida. Você quer me ensinar a fazer o meu trabalho?

Não, eu…

Eu só aceitei este almoço, no meio de uma semana complicadíssima para mim, porque a gente sempre teve uma boa relação profissional. Acho você uma menina bacana, competente. Mas não confunda as coisas.

Desculpe.

O livro que você está tentando me empurrar é ingrato. Melhor desistir. Poupe sua munição para quando valer a pena.

Certo. É só que você disse que achou legal…

Estava sendo educado. Na verdade eu nem li.

Ah.

Não precisei ler. Leram por mim.

Alguém da sua equipe…

Mais ou menos isso. Vamos pedir?

Para mim, a truta com arroz de amêndoas. Você pode me dizer quem da sua equipe leu?

Taí, eu vou na truta também. Hein?

Quem da sua equipe não gostou, você pode me dizer? Aqui entre nós?

Não.

Entendo.

Parece que não entende, não. Garçom!

Olha, não me leve a mal. É só que…

Duas trutas com amêndoas, por favor.

É só que eu gosto muito do livro. Muito mesmo. Nunca fiz uma divulgação em que eu acreditasse tanto.

Hmm.

Acho que a literatura brasileira precisa de livros como esse.

Hmmm.

Você devia ler, viu? Mesmo que ficasse para um próximo número, não tem pressa.

Jura que não tem pressa?

Claro que não. O tempo da literatura…

Escuta, queridinha, vou abrir o jogo com você. Esse livro não entra na minha revista. Nem este mês nem ano que vem. Nem como capa nem como notinha. Não entra nem arrombando a porta, nem seqüestrando a minha mãe. Ficou claro?

Puxa, mas…

Esse autor é um não-autor na minha revista. Entendeu agora? O dia em que ele for levado a sério pela Textus e pela Finnegans, a gente conversa. Quando ele ganhar elogios estonteantes do Adolfo Pinho Rosa, a gente conversa. Quando o Armazém Typographico contratar seu próximo romance, a gente conversa. Quando a turma do Empório Zero der festinha em homenagem a ele, a gente conversa. Quando a blogosfera bater tambor para ele, a gente conversa. Quando…

Entendi. A sua revista segue a manada.

Que seja. Se é assim que você prefere pôr as coisas.

Desculpe, eu não tive a intenção.

Você tem muito que aprender, não tem?

Eu sei. Desculpe. Não vamos mais falar desse livro.

Acho bom.

Você gostou da pastinha de hadoque do couvert?

A pastinha é legal.

Eu já sabia que o Guia Swinton tinha recomendado, mas só agora entendo por quê.

Realmente fantástica a pastinha.

28 Comments

  • Antonio Houaiss 21/07/2008 at 13:13

    Hadoque. s.m. ict peixe teleósteo gadiforme da fam. dos gadídeos (Melanogrammus aeglefinus), encontrado no Atlântico Norte, que possui uma linha lateral negra e uma mancha escura atrás das brânquias; eglefim [Espécie muito apreciada como alimento.] ¤ etim ing. haddock (sXIV) ‘id.’ < ing.méd. haddok, de origem incerta; o suf. -ok, -ock parece designar dim.

  • ricardo 21/07/2008 at 14:34

    sérgio, você tem ou já teve coragem de escrever um conto longo, novela ou até mesmo um romance à clef, e colocar na rua? Talento eu sei que você tem.

  • Tibor Moricz 21/07/2008 at 15:18

    Eu dava um soco nesse editor…

  • Sérgio Karam 21/07/2008 at 16:09

    Adorei o nome “Armazém Typographico”. Graaande editora!!!

  • Murilo Gabrielli 21/07/2008 at 16:45

    Sérgio,
    completamente off topic.
    Vc já viu alguma vez a série da HBO “The Wire” (não tenho idéia de passa no Brasil).
    Durou uns 5 anos e, em cada temporada, abordou um s aspecto diferente da criminalidade em Baltimore (tráfico de drogas, corrupção nos portos, política e sistema escolar, cobertura pela imprensa).’
    É das coisas mais bem escritas que vi nas telas (grandes ou pequenas), nos últimos anos. Pudera, além dos criadores David Simon (jornalista e roteirista de TV) e Ed Burns (ex-meganha), participaram do roteiro de vários episódios Richard Price, Dennis Lehane, George Pellecanos…
    Os diálogos são uma maravilha (muito embora, confesse, só entenda metade deles acompanhando as legendas em inglês), mas, creio, intraduzíveis. A séria recebeu elogios rasgados da crítica, mas sempre patinou na audiência.

  • Thiago Oliveira 21/07/2008 at 17:46

    Simpático, esse editor. Dos meus.

  • Noga Lubicz Sklar 21/07/2008 at 17:49

    ô mundinho.

  • Sérgio Rodrigues 21/07/2008 at 18:35

    Ricardo, se eu tenho “coragem”? Engraçada sua pergunta. Acontece que romances à clef não me interessam tanto, têm algo de piada esticada. Prefiro piadas curtas como esta.

    Karam: se quiser abrir uma editora com esse nome, é todo seu.

    Murilo, ouvi falar muito, mas nunca vi ‘The Wire’. Alguma relação com o post, mesmo remota? De qq forma vou me lembrar da recomendação.

    Abraços.

  • Jonas 21/07/2008 at 18:52

    Essa revista poderia ser um fanzine com circulação dentro daquela mercearia imunda na zona oeste paulistana…

  • Pandora 21/07/2008 at 20:05

    Sempre encaro as críticas literárias e cinematográficas com desconfiança. A “pastinha de hadoque” explica tudo.

    Que bom que existem cantinhos como este… (Leve massagem no ego do blogueiro – use com moderação)

  • Saint-Clair Stockler 21/07/2008 at 21:23

    Pô, gente, quanta ingenuidade. Será que vocês não perceberam que o Editor é viado? Esse foi o azar da menina. Se ela desse pra ele (supondo-se que ele fosse hetero), tava tudo resolvido! Aposto que ela tem um irmãozinho malhado de academia. Se ela apresentasse o irmão pro Editor, tudo se resolvia…

    Cada vez me convenço que, apesar de exagerado, Vovô Freud tinha razão: tudo – absolutamente tu-do – passa pelo sexo. Inclusive a publicação de muitas obras de literatura. Ou a mera notinha numa revista literária.

    Alguém aí a fim de um boquete?

  • Sérgio Karam 21/07/2008 at 22:00

    Gracias, Sérgio, vou me lembrar da sua geneosa oferta no dia em que resolver abrir uma editora. Rá rá rá! Abraços.

  • Guilherme 21/07/2008 at 22:05

    há alguns posts atrás, quando falava do Richard Price, citei o The Wire.

    realmente das melhores coisas que já vi na tv! é foda!!!!(desculpe meu francês)

  • Dea 21/07/2008 at 23:24

    Ainda bem que ainda ainda virá a truta com arroz de amêndoas. Nada como um diálogo!!! (começando patinando na pastinha).
    Só pra limpar esse bigodinho.

  • Clareza 22/07/2008 at 00:20

    Sinceramente. Menosprezar o conhecimento e a opção de uma pessoa de forma bem rude. Colocá-la em seu devido lugar, dizendo de forma clara e inequívoca que não aceita e nem confia na sua opinião.

  • Hiago R. R. de Queirós 22/07/2008 at 01:01

    Acho que todos os que escrevem, sentem que isso vai acontecer… e quando acontece, o que temos é duas escolhas: ou parar de escrever e deixar de lado esse negócio de literatura; ou ir procurar alguém que apenas queira ver, para depois te criticar… isso é difícil. É o começo, que vai piorando sempre… mas isso ajuda a dar força e uma certa determinação… para quem escolheu continuar.

  • joao gomes 22/07/2008 at 09:39

    … Tambem vi esse negocio pelos olhos do Saint-Clair.
    o arremate final, da pastinha do hadoque só leva a crer nesse hipotese.

    Por outro lado a mulher aparece aí como mais uma vítima da crueldade do mundo chauvinista dos homens…

    a publicacao, a divulgacao e a venda sao as etapas onde naufragam grandes almas e escribas.

    o mar esta cheio de navios militares (dos militantes que diuturnamente batem as portas das editoras, batem aos olhos de editores). Mas os navios mercantes estao com suas bandeirolas em festa e até nas minusculas editores e livrarias de fundo-de-quintal se encontra “os dez mais de V; NYT; E..

    É assim mesmo, mas um dia, mergulhando em Angra dos Reis, vou achar um manuscrito, o diário do capitao Mem de Sá…

    aí voce já sabem, Jô, Amaury vao me convidar.
    Sextante, Alfaguara, Record, Cosac & Naif (…ainda nao vi nome mais fresco), etc faram fila na guarita do edifico Turres de Montezuma.

    mas aí será tarde demais.
    Radicarei residencia nos Alpes.

  • Rafael 22/07/2008 at 09:39

    Coloco-me no lugar do editor: é tanta gente importunando com textos pedantes, pretensiosos e aborrecidamente afetados, são tantas horas de tediosas leituras, são tantos os lugares-comuns escritos em tom de alta novidade, que, por uma questão de sanidade mental, o sujeito vê-se obrigado a fingir-se de estúpido e de arrogante e, por ofício, passa a maltratar os inúmeros prentendentes que o assediam, mais importunos que aqueles que haviam desbaratado o patrimônio de Ulisses.

    Tomando por divisa a sábia observação de Oswald de Andrade (“não li e não gostei”), o editor já de antemão pressente que o livro de que a literatura brasileira precisa não passa de um longo inventário de palavras arranjadas de um modo indecifrável, uma floresta escura de oxímoros, anacolutos e elipses cuidadosamente cultivada para que os incautos que nela adentrem não mais encontrem o caminho de volta.

    Se o editor deixasse à garota um farrapo de esperança ao qual se agarrar, ela insistiria, pegaria no pé, ligaria, ofereceria até uma nova pastilha de hadoque, tudo para conseguir um lugar ao sol. A experiência ensina que o tratamento rude é o melhor remédio, amargo mas indispensável.

    Que a Adolfo Pinho execute a triste tarefa de enfrentar o papelório.

  • joao gomes 22/07/2008 at 09:41

    digo FARAO fila na guarita do EDIFICIO

  • Eric Novello 22/07/2008 at 10:05

    1. Escrevo resenhas de cinema e tenho arrastado a asa para a literatura e música contemporânea. Assim como todas as demais críticas do mundo, me baseio na minha opinião. O que não quer dizer que ela seja suspeita. No caso do cinema, tenho uma visão mais técnica já que estudei para isso. No caso da literatura, tenho a visão de leitor e nada mais. O importante é: minha opinião ninguém compra, nem com sexo.

    2. Saint, você tem toda razão. Li um livro esse ano de uma grande editora e um dos contos (todos são um lixo) tem até dedicatória para o “padrinho”, curiosamente em um conto que a protagonista é puta e o padrinho é o cliente.

    3. Esse editor é um escroto. Fato. O famoso não li e não gostei. Mas representa uma boa parcela dos brasileiros, aquela que acha que quanto menos se estuda um assunto mais se sabe sobre ele.

    4. A escritora não vale muito mais. Obras que mudarão o mundo? Ingenuidade pouca é bobagem. Só faltou dizer que era uma trilogia.

    5. Engolir sapo é uma arte. Alguém aí dá aulas?

  • Murilo Gabrielli 22/07/2008 at 11:50

    Sérgio,
    nenhuma relação com o post. É que tinha visto três episódios na noite anterior (um deles escrito pelo Price, outro pelo Pelecanos) e estava com isso na cabeça quando abri o blog.

  • Thiago 22/07/2008 at 12:22

    Ué, Rafael, é para isso que um editor é pago. é da obrigação dele ler muito, inclusive as porcarias, e dai selecionar o que é bom para seus leitores. Claro, isso é o utópico. A gente sabe que na real o que ocorre é o compadrio, o lobby, o jabá…

  • André Gonçalves 22/07/2008 at 15:56

    e como é que faz, hein?e se o livro for bom?

  • Se os escritores forem analfabetos como esse “joao gomes”, que nem til sabe digitar, os editores têm mais é que não ler e não gostar.

  • joao gomes 23/07/2008 at 18:18

    Rododendro,
    nao preciso de colocar til.
    viva a liberdade de expressao. Acentuar nao significa ser alfabetizado.
    e que tal aprender a fazer uma critica a conteudo nao a forma?
    Que tal alfabetizar-se em civilidade?

  • Max Aue 25/07/2008 at 01:33

    “joao gomes”, o analfabeto com conteúdo, mas sem forma! um escritor nato! quase um milton atum!

  • Rafael 25/07/2008 at 11:48

    Milton Atum, ao lado de Lima Badejo e Arino Surubim, forma o grande trio de autores da literatura aquática brasileira.

  • joao gomes 25/07/2008 at 17:12

    Antigamente, o último refúgio dos velhacos era o nacionalismo. Hoje é o nick.” PUNCHLINER

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Social media & sharing icons powered by UltimatelySocial