Diálogo entreouvido na fila do sopão

26/09/2008

Imagine o processo de fazer um livro como se estivéssemos na indústria automobilística. Só faz sentido fabricar um carro se for para ele andar, certo? O livro também precisa andar, quer dizer, cumprir sua própria função. E qual é a função do livro, me diz?

Vender?

Que vender! Se fazer ler, é óbvio. Ser lido. Esta é a viagem, o passeio. Carros precisam andar. Podem se destacar por serem velozes, lentos mas confiáveis, elegantes, econômicos, seguros, bonitos, espaçosos, baratinhos, o escambau. O mundo dos quatro-rodas, como o da literatura, é infinitamente vário. Mas uma característica todos os carros compartilham: precisam andar. Se não andam, não são carros. Não são nada.

Sei.

O problema é que, quando você vai construir o seu carro, ou seu carrinho de rolimã, como quiser, ou puder, você tem que fabricar peça por peça. Tem o design, naturalmente: o projeto geral, a cara do bicho, a distância entre eixos, a, digamos, proposta. Isso é importante e até divertido. O problema que pouca gente leva em conta é que, para o carro andar, tem também um monte de parafusos e porcas e bielas e rolamentos e correias e engrenagens e travas e juntas e molas e rebites e porrinhas, peças que você vai ter que moldar feito um funileiro maluco, preste atenção – uma por uma! Acredite: a certa altura dá vontade de morrer, mudar de nome, ir à esquina comprar cigarros e nunca mais voltar. Sabe o que é que nos salva no fim?

Não faço a menor idéia.

É que nem todas as peças do carro você precisa fabricar sozinho. Escritores roubam, são cleptomaníacos, colecionadores de quinquilharias. Juntam pedacinhos de coisas quebradas para fazer seu próprio ninho, na feliz metáfora de Margaret Atwood: qualquer pedaço de barbante, araminho solto, ripa de papel nos serve.

Gambiarras, é?

Ô, você nem imagina.

10 Comments

  • Isabel Pinheiro 26/09/2008 at 11:29

    Oba, voltou! :-)

  • Sérgio Rodrigues 26/09/2008 at 11:51

    Shh, fala baixo, Isabel… Rsrs. Fiquei feliz com a sua comemoração.

  • Fernando Torres 26/09/2008 at 13:48

    Sérgio, você que deveria falar baixo. Quer dizer, podia tambem não ter revelado esse segredo. Ainda tem uma porção de gente que acha que os escritores são seres divinos e que criam estórias do nada. “Esses ladrõezinhos” vão começar a dizer. Viva a volta dos Sobrescritos!!!!

  • Pedro David 26/09/2008 at 15:44

    Como diria Caetano, naquele famoso discurso, ” eu ia dar este viva aqui…” Mas já o fizeram. E seu proximo carro, Sérgio ? Quando é que poderemos dar uma volta ? Não dá pra liberar nem um ” test drive ” aqui no site ?

    ABS

  • Outro Paulo 26/09/2008 at 16:28

    Bom, diante disso, só posso ser sintético: excelente!

  • Mila 26/09/2008 at 20:56

    Mon bon Sergio,

    Posso te plagiar?
    No lugar da palavra livro, eu boto a palavra filme.
    Mando para minha rede de amigos espalhados pela Bahia inteira (são 762) e falo que fui eu que escrevi.

    Que tal?

  • Sérgio Rodrigues 27/09/2008 at 17:18

    Pedro, o carro está quase pronto, um test drive deve rolar em breve. Obrigado pelo interesse.

    Mila, plágio é crime, mas se você roubar com jeitinho eu nem vou perceber. Toda a arte é essa.

    Abraços a todos.

  • Lehgau-Z Qarvalho 27/09/2008 at 22:28

    Meus sentidos começaram a variar, a oscilar como ramagens finas na brisa de uma aurora longamente antecipada. O mundo encolheu, concentrou-se numa área de poucos metros de raio, a partir da tela do computador. Era provável que contemplasse minha própria ciranda de cenas das letras perfeitas, quem sabe já separando, como eu já fazia quase sem perceber, as imagens/palavras que valeriam a pena entesourar a fim de revê-las pela vida afora; impressas; em mim; em meus escritos. Sim, até gastar-lhes o lustre, por desfastio ou como bálsamo para os momentos menos criativos que o futuro me reservasse. E até para os melhores, os mais ventosos, os mais profícuos… Era o que faltava, sim, senhor! Alguém mais a dizer o que eu digo e repito e gosto de pensar. Era o que faltava!

    Há braços, pois! 8)*

  • shirlei horta 29/09/2008 at 15:04

    Cara, quanto você cobra a sessão?

    Eu estou no meio da montadora, um monte de fornecedores olhando pra mim e eu quero rodas diferentes das que quis um dia, mudei de opinião a respeito da importância do freio e, entre idas e vindas, o projeto se mantém (o que me deixa feliz), mas os “acessórios” mudam a cada vez que eu releio uma página.

    E, para não me perder de algumas idéias, escrevo às vezes parte da introdução, às vezes o desenrolar da trama, e o final é o mesmo, reescrito zeromil zerocentas e zerentas vezes.

    É uma viagem – literalmente falando – então, tem a motivação, a viagem propriamente dita e a volta. Tudo isso dentro de um ser.

    Acabou minha hora? Como assim, “acabou a minha hora”? SÉRGIOOOOOO,

  • João Athayde de Paula 07/10/2008 at 06:13

    O mais constrangedor é que às vezes, inconscientemente, um escritor acaba se repetindo na criação de personagens, situações e mesmo descrições de lugares imaginários. Acontece comigo. De repente, paro de escrever, atrapalhado com um sininho dentro dos miolos – porra, eu já não narrei exaustivamente uma situação semelhante?, pergunto-me. Aí é só remexer nos baús, gavetas e arquivos do computador e lá está a coisa, mostruosamente me arreganhando os dentes.

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