Dizer que escrever contos é mais ‘difícil’ é paternalismo

30/10/2015
Sylvester Stallone apanha em "Rocky 4"

Sylvester Stallone apanha em “Rocky 4”

Você já encontrou a afirmação por aí: “É mais difícil escrever um conto do que um romance”. É possível até que a tenha encontrado tantas vezes que já a considere uma daquelas profundas verdades contraintuitivas da existência. Algo como o equivalente literário de “o café da manhã é a principal refeição do dia”, falso axioma que também costuma ser repetido sem que se leve em conta a motivação do publicitário que primeiro o imprimiu numa caixa de sucrilhos. Não, a ideia não é sugerir que o conto está para o romance como o café da manhã está para o almoço ou jantar. A questão é mais complexa, como veremos.

Mas vamos começar pela motivação. Talvez a primeira pessoa que afirmou aquilo, seja quem for, tivesse um intuito nobre: combater a percepção popular, leiga e equivocada de que escrever uma história curta é moleza. Machado de Assis, magistral tanto no romance quanto no conto, jamais entrou, que eu saiba, nesse joguinho comparativo furado, mas também se sentiu obrigado a defender a narrativa breve da pecha de facinha: “É gênero difícil a despeito de sua aparente facilidade, e creio que essa mesma aparência lhe faz mal, afastando-se dele os escritores e não lhe dando, penso eu, o público toda a atenção de que ele é muitas vezes credor”.

Como apreciador de ambas as extensões narrativas, com dois volumes de contos e três romances publicados, sempre me mantive ao largo da discussão sobre qual delas é mais “difícil” para o escritor. Achava uma perda de tempo. Se trato agora do tema é porque de repente me dei conta do quanto de paternalismo condescendente existe na exaltação da dificuldade suprema do conto. De olhos rútilos, o paladino do Conto Dificílimo, que muitas vezes é um romancista de algum sucesso, quer dizer o seguinte:

Vivemos, mais do que nunca, a era do romance? A narrativa curta é desvalorizada pelo mercado editorial? Vende pouco? Costuma ficar ausente dos grandes prêmios literários, com o Nobel da grande contista canadense Alice Munro funcionando mais como exceção à regra do que como tendência? Ah, tudo bem! Consolem-se, contistas desprezados, porque vocês estão acima de tudo isso. Vocês são os cultores da mais árdua e rarefeita forma de arte que existe nas letras – ou pelo menos na prosa. Na verdade, vocês são os poetas da prosa, e seu dever, como o dos poetas, é continuar cultivando seu canteiro de plantas raras e valiosíssimas mesmo que na feira ninguém queira comprá-las. Mesmo que morram de fome. É o que chamam de sacerdócio. Enquanto isso, com licença, estou indo depositar o cheque do adiantamento que a editora mandou…

Sem a mistificação e o pitaco de orelhada, o que resta da disputa entre conto e romance é uma questão tão absurda quanto esta: “O que é mais difícil, marcar mais de mil gols como Pelé ou correr como Usain Bolt?”.

Excluído o delírio, vamos descobrir que a diferença óbvia entre um conto e um romance – a extensão – determina muitas outras, tanto no plano da estrutura quanto no da linguagem, que apresentam para o escritor desafios específicos. É boa e famosa a tirada pugilística de Julio Cortazar ao afirmar que o conto vence o leitor por nocaute e o romance, por pontos. Embora deixe de fora aquele tipo de conto em que o leitor não vai à lona, mas fica grogue por dias a fio, e o romance que, depois de acumular pontos ao longo de trezentas páginas, guarda para o último capítulo um cruzado mortal no queixo, a frase do escritor argentino aponta para algo verdadeiro: a facilidade maior que se possa ter para uma coisa ou outra depende do tipo de talento, do estilo, do temperamento, da inclinação de cada boxeador.

O escritor canadense Greg Hollingshead se estendeu um pouco mais sobre essas diferenças, num interessante ensaio de 1999:

A diferença primária entre o conto e o romance não é a extensão, mas a carga de sentido mais ampla e conceitual que a narrativa longa precisa levar nas costas de página a página, de cena a cena. Não é uma escolha mais frouxa de palavras que torna o romance difuso, é o percurso de longa distância do sentido. Num bom conto o sentido não é tão abstrato, tão portátil, quanto precisa ser no romance. Encontra-se incorporado de forma mais compacta e inefável nos detalhes formais do texto. Uma cena num conto – e pode ser que haja apenas uma – opera com força centrípeta de concentração. Uma cena num romance gasta boa parte de sua energia olhando não apenas para a frente e para trás no texto, mas também para os lados, para fora do texto, em direção ao mundo material, àquele conjunto de pressupostos considerados como vida comum. Essa energia é centrífuga, aberta, e não busca se enovelar no próprio eixo. (…) Enquanto o conto, como a poesia, quer concentrar o tempo, o romance, parecendo-se mais com a História e sendo a mais secular das formas, quer sobreviver a ele.

Aí vai então uma tentativa de resumir o embate: se no conto cada palavra tem um peso específico maior, o que o aproxima do discurso poético e exige do autor um trabalho mais meticuloso de ourivesaria, é o romance, inclusive por ser um gênero mais tolerante a eventuais barrigas, sobras, sujeiras, que reproduz melhor com sua estrutura abrangente a polifonia e a bagunça moral da vida.

No fim das contas, já que insistem nessa onda comparativa, acho importante dizer que difícil mesmo é escrever qualquer coisa que preste, seja de que tamanho for, mas escrever um conto ruim é sem dúvida muito mais fácil – leva menos tempo – do que escrever um romance ruim. (Mas quem quer escrever algo ruim?) Também me parece possível escrever um bom conto, digamos, no susto, acidentalmente, porque um efeito literário poderoso pode ser encontrado por acaso, e basta um para fazer uma narrativa curta – a parte chata é que a sorte pura é rara e, tendo ocorrido uma vez, dificilmente baterá de novo na mesma porta. Já escrever por acidente um bom romance, com sua sinfonia de efeitos encadeados, é praticamente impossível.

Do ponto de vista do escritor indeciso entre os dois campos, acho que a grande sabedoria está no humor com que o americano T.C. Boyle respondeu a uma enquete sobre o tema proposta pelo Huffington Post em 2010:

O prazer do conto é que você pode reagir ao momento, a eventos do momento. A desvantagem é que, depois que termina um conto, você precisa escrever outro, mesmo que se veja esvaziado de talento ou ideias. O prazer do romance é que você sabe o que vai fazer amanhã. O horror do romance, contudo, é que você sabe o que vai fazer amanhã.

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