Dois livros pinçados da avalanche

15/10/2006

Como Drummond mirando com perplexidade as pernas dos transeuntes, qualquer um que acompanhe de perto o volume de lançamentos editoriais tem vontade de gritar de vez em quando: “Para que tanto livro, meu Deus?”. Às vezes – nem sempre – é possível surfar a avalanche no contrafluxo e recuperar novidades de ontem ou anteontem.

Nos últimos meses, dois lançamentos nacionais que passaram em branco por aqui, e pela maior parte da imprensa cultural, ficam ao mesmo tempo acima – na qualidade literária – e abaixo – no marketing literário – da média dos dias que correm. Em outras palavras, são boas dicas de leitura.

“A solidão do Diabo”, de Paulo Bentancur (Bertrand Brasil, 352 páginas, R$ 45), é uma alentada coletânea de 59 contos – necessariamente desiguais, dada a quantidade – que, no entanto, encontram sua unidade no difícil artesanato de uma linguagem madura, econômica, reminiscente do bom conto brasileiro dos anos 60 e 70. A originalidade do livro aparece quando essa simplicidade enganadora, sugestiva de penosos trabalhos de reescritura que infelizmente andam fora de moda, é posta a serviço de uma liberdade narrativa de um tipo difícil de encontrar na literatura contemporânea – um tipo capaz de enfileirar no mesmo fôlego a fábula moral e a história realista, a alegoria (anti-)religiosa e a reflexão filosófica de botequim.

Com esse embaralhamento de registros, Bentancur parece querer recuperar um papel multifacetado que a literatura trouxe de sua pré-história oral – o de instruir, moldar o caráter e divertir, tudo junto. Um papel que, como se sabe, virou peça de museu muito antes do tempo em que Dondon jogava no Andaraí. É claro que essa restauração se dá pela chave da ironia, por vezes feroz, e nunca da ingenuidade. O que garante a “A solidão do Diabo” um sabor inconfundível, definitivamente ausente das prateleiras. Não é pouco.

“A confissão”, de Flávio Carneiro (Rocco, 236 páginas, R$ 31), tem um ponto de partida engenhoso: o narrador despeja seu jorro de palavras sobre uma mulher que acabou de seqüestrar e que mantém amarrada a uma poltrona. A motivação desse crime é apenas uma das revelações que vão se desdobrando aos poucos em sua história mirabolante e sombria, não sem recuos e pistas falsas. Enquanto isso o autor, por cima do ombro do sujeito, se diverte claramente com o potencial metalingüístico da situação: a mulher seqüestrada é o próprio leitor, esse personagem fugidio que, cada vez mais, precisa ser amarrado para prestar atenção em alguma coisa.

O que, claro, deixa ao criminoso o papel do escritor, num simbolismo reforçado por duas particularidades: o ganha-pão do sujeito, roubar livros para vendê-los a sebos, e suas obscuras relações com o tema do vampirismo – mas não convém antecipar mais do que isso. No geral, embora nem sempre, Carneiro se sai bem no desafio técnico do monólogo dirigido a um personagem oculto, uma forma que, com sua profusão inevitável de vocativos e imperativos, está sempre a um passo da artificialidade. “A confissão” tem êxito numa missão que já derrotou muita gente: refletir sobre o ato de contar uma história sem deixar de, ao mesmo tempo, contar uma boa história.

4 Comments

  • Lais 15/10/2006 at 22:12

    realmente você aprecia uma boa literatura.

  • Saint-Clair 16/10/2006 at 18:15

    O Flávio Carneiro é meu professor na Uerj e um grande narrador. Sua prosa é límpida, bem-cuidada, sem gordurinhas. E o “A confissão” é um puta livro. Estou lendo o seu novo romance como quem lava a alma.

    Sérgio, já deu uma olhada no novo livro da Elvira Vigna? “Deixei ele lá e vim”. Em minha modestíssima opinião, uma das mais injustamente ignoradas escritoras brasileiras dos últimos anos. “Ignorada” em certo sentido, uma vez que ela publica a maioria dos seus livros pela Cia. das Letras (o que quer dizer alguma coisa, imagino), mas acho que é meio ignorada pela crítica e pelos leitores. Infelizmente. Seu livro anterior (que a Cia. das Letras recusou) é uma obra-prima: “A um passo”. Um dos melhores livros brasileiros dos últimos 10 anos.

  • yqblcx ihfrekzlj 19/02/2007 at 05:14

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  • pqmb jzhtb 19/02/2007 at 05:14

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