Eagleton cobra de Rushdie posição firme contra islamofobia

07/08/2010

O crítico literário inglês Terry Eagleton não fugiu da polêmica com Salman Rushdie (veja o texto abaixo), mas minimizou o papel do autor de “Os versos satânicos” no time de intelectuais liberais que, segundo ele, teve reação de “pânico” ao desafio imposto pelos radicais islâmicos e vem descambando para a islamofobia. Um time que ele escala com Christopher Hitchens e Martin Amis no ataque, reservando a Ian McEwan e Salman Rushdie papeis secundários.

“Não me entendam mal, o Islã radical é um fenômeno muito, muito feio, que explode crianças em nome de Alá”, disse Eagleton, crítico literário de formação católica e marxista, na mesa “Andar com fé”, mediada pelo jornalista Silio Boccanera hoje de manhã. “Há obviamente diferenças individuais no grupo que eu mencionei, mas o que me deixa alarmado é que a linha que separa a crítica ao radicalismo islâmico da islamofobia ficou muito tênue e tem sido cruzada com frequência, especialmente no caso de Martin Amis e Christopher Hitchens. Gostaria que Salman Rushdie e outros dissessem em voz mais alta e clara que veem uma distinção entre o Islã e os radicais do Islã, em vez de agirem como se a tradição ocidental fosse absolutamente livre de barbaridades.”

A mesa começou em clima tenso, com Eagleton chamando de “sensacionalista” a apresentação que Boccanera acabava de fazer, em que se encadeavam qualificativos como marxista, católico e punk. “Você me fez parecer um boxeador peso-pesado”, queixou-se, para em seguida, dando razão ao interlocutor, soltar um cruzado de esquerda: “Espero que sejamos intelectualmente sérios aqui”.

Irônico, mordaz e não muito preocupado em fazer média com a plateia – ou não diria, meio a sério e meio brincando, esperar que “nem todas as ruas da América do Sul tenham o mesmo calçamento que aqui” ou que “o futebol é uma conspiração das classes dominantes” –, Eagleton foi o provocador deste ano. Um bom provocador, que parecia não estar só brincando ao apresentar sua principal razão para se manter fiel ao marxismo num momento em que a obra Karl Marx está em baixa no mundo acadêmico: “O melhor de ser marxista é irritar as pessoas”.

Eagleton também falou longamente de sua polêmica com o ateísta militante Richard Dawkins, um dos astros da última edição da Flip. “Por que um debate sobre Deus a essa altura, numa era que se diz pós-religiosa, pós-metafisica, pós-moderna e até, como alguns diriam, pós-histórica? Uma razão muito importante é o 11 de setembro. Acreditando ou não em Deus, temos a responsabilidade intelectual de saber o que significa acreditar em Deus. E Dawkins não tem a menor ideia. Ele é um racionalista do século 19 que acha que Deus é um pseudocientista. Acha que acreditar em Deus é como acreditar em extraterrestres ou no monstro do Lago Ness. Comete o erro de achar que a fé e a razão são completamente separadas. Como Hitchens, ele acredita que as coisas como um todo estejam melhorando, e que basta tirarmos o entulho religioso do caminho para melhorarem ainda mais. Não consigo pensar em nenhuma crença mais supersticiosa do que essa.”

“O capitalismo moderno”, prosseguiu, “é essencialmente desprovido de fé, porque não precisa da crença para funcionar. Não importa se você acredita em algo, desde que não interfira no direito do outro de acreditar no que quiser. Isso se chama liberalismo, uma ideia muito digna. O problema hoje é que o Islã, que não tem problema nenhum de fé, muito pelo contrário, confronta o Ocidente no que ele tem de mais fraco, a capacidade de acreditar em alguma coisa. O mundo hoje se divide dialeticamente entre pessoas que acreditam demais e pessoas que acreditam de menos. Esse é um aspecto pouco explorado da guerra ao terror.”

Se adere ao catolicismo com ressalvas, que incluem críticas à Igreja e uma exortação a que metam o Papa Bento 16 na cadeia, Eagleton é muito mais enfático ao defender a teoria marxista como ferramenta de análise histórica. “O socialismo sobreviveu a muitas crises e está passando por uma muito grave agora, mas sobreviveu porque é uma ideia brilhante. No entanto, Marx não era um utopico interessado em prever o futuro. Apenas dizia que, dados os recursos materiais acumulados pelo capitalismo, já seria possível liberar uma vasta maioria das pessoas de formas degradantes de trabalho. O que era verdade. Na crítica literária, a escola marxista tem sido satirizada, e não sem razão, como se só se preocupasse em contar quantos operários existem num livro. Mas o que me interessa na arte como crítico marxista é a forma, muito mais que o conteúdo. A História habita o texto em seus detalhes linguísticos mais delicados e sutis.”

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