Eagleton: Literatura existe e tem cinco ingredientes

16/04/2012


Meu próprio entendimento é que, quando as pessoas chamam hoje em dia algum texto de literário, elas geralmente têm em mente uma de cinco coisas, ou alguma combinação entre elas. O que elas querem dizer com “literário” pode ser um trabalho que seja ficcional; que comporte uma medida significativa de intuição sobre a experiência humana, em oposição ao relato de verdades empíricas; que use a linguagem num registro peculiarmente elevado, figurativo ou autoconsciente; que não seja pragmático no sentido em que listas de compras o são; ou que seja altamente valorizado como exemplar de escrita.

O novo livro do crítico literário inglês Terry Eagleton – que brilhou como o grande provocador da Flip há dois anos, conforme relatado na época aqui – chama-se The event of literature (“O evento da literatura”) e traz uma surpresa não só para quem tem alguma familiaridade com sua obra como para qualquer pessoa que costume acompanhar, mesmo de longe, as conversas no ambiente cada vez mais rarefeito da crítica literária acadêmica.

Eagleton afirma que, pensando bem e diferentemente do que vinha sustentando até aqui, é possível, além de desejável, definir de forma universal o que é literatura, sim. Para tanto basta introduzir nas lucubrações puramente teóricas uma medida de “senso comum”. As cinco linhas de força que ele considera constitutivas do “literário”, apresentadas sumariamente no trecho acima, são a ficcional, a moral, a linguística, a não-pragmática e a normativa. Para mais detalhes, vale a pena ler a resenha (em inglês) publicada no “Guardian” por Stuart Kelly.

No mínimo, o esforço de Eagleton me parece ter o mérito – utópico? – de buscar reaproximar dois campos que, de algumas décadas para cá, deixaram de se falar: os críticos universitários para os quais a literatura simplesmente não existe e os leitores, que reafirmam no dia a dia a existência da literatura e ficariam muito surpresos se lhes dissessem que existem críticos universitários.

10 Comments

  • Leonardo Meimes 16/04/2012 at 17:04

    Sérgio para os críticos universitários a literatura não existe? como assim? Se vc quer dizer que a crítica universitária não considera a literatura contemporânea de qualidade, portanto não seria literatura, eles estão tão certos quanto os críticos de revistas e da imprensa em geral que só consideram literatura aquilo pelo qual recebem para criticar.
    Leonardo, não me refiro à implicância da academia com o contemporâneo (embora ela acabe entrando na brincadeira), mas à incapacidade teórica de definir o que caracteriza o literário em termos não contingentes, acima do chavão “literatura é o que a elite letrada diz que é literatura”. De todo modo, fiquei intrigado com esses críticos da imprensa a que você se refere. Os que eu conheço pecam talvez pelo oposto disso, um excesso de reverência aos velhos nomôes, mesmo que nunca tenham escrito sobre eles. Um abraço.

  • Jose Roberto da Silva 16/04/2012 at 17:12

    That is good!!!

  • jadson mauricio 16/04/2012 at 17:13

    bom…na posição de estudante de Letras, segundo meus textos de estudo, realmente os críticos defendem que ela (Literatura)não se define, não está contida em si, mas no seu conteúdo. Entretanto, penso como pensa a maioria, que literatura está no dia a dia. A questão seria começarmos a debater um objeto que a literatura tem a literariedade- que é o que está nas canções do rádio, na gíria das ruas, no nosso pensamento. Seria o que tira da realidade e a leva para um âmbito metafórico. Mas começo a pensar que Eagleton talvez tenha achado a primeira pedra rumo ao caminho delas mesmas. Literalmente.

  • Ataliba 16/04/2012 at 17:43

    muito interessante, mas é de suma importância ler a resenha no Guardian.

  • Enaldo Soares 16/04/2012 at 21:24

    Pode ser uma excelente leitura para quem já leu “O demônio da teoria” de Gustave Compagnon

  • Marcio 17/04/2012 at 10:00

    Essa sua última frase do artigo parece ter sido esculpida.

  • José do Norte 17/04/2012 at 17:48

    Esses críticos universitários são realmente um pé no saco, parece que entre os dedos deles e o papel ou tela em que escrevem existem macaúbas que tornam difícil entender o que dizem. Sempre aprecio as críticas literárias da Veja, conseguem estimular a curiosidade sobre o livro. NO momento aguardo a publicação do indicado Fuga do Campo 14.

  • Rogério 17/04/2012 at 17:57

    Críticos literários costumam ser uns frustrados. A solução é polemizar. Se eu pretendo comprar um livro, não vou pedir ou ler opinião de um crítico literário.

  • clara lopez 13/05/2013 at 19:24

    Eagleton está se superando, que bom, gosto muitíssimo de seu trabalho e se agora está elaborando um ‘teoria do literário’, tanto melhor – a literatura agradece, mas ela sobreviverá sempre, acho.
    abraço, clara

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