Eles são os caras

12/12/2007

Ao trazer o mineiro Luiz Vilela no entrevistão do Paiol Literário e o gaúcho Sergio Faraco na seção Dom Casmurro, com a íntegra do conto “O céu não é tão longe”, a edição de dezembro do “Rascunho” junta dois dos maiores contistas brasileiros vivos. Ambos são leitura mais recomendável que nunca neste momento de vale-tudo estético e inflação contística galopante, em que qualquer texto cotó vem tirando onda de “conto”.

Nenhuma palavra dos editores indica que, ao juntar os dois mestres, o jornal curitibano quis fazer uma homenagem a essa brilhante geração de contadores de histórias – Faraco nascido em 1940, Vilela em 1942. Mas fez, e isso basta.

43 Comments

  • rapá 12/12/2007 at 14:56

    Sergio, você continua alimentando o mito de que o Vilela é bom escritor! Daqui a pouco começa a defender a Cintia Moscovitch.

  • Cezar Santos 12/12/2007 at 17:21

    rapá,
    o Vilela, quando acerta, acerta de verdade, produzindo contos sensíveis, embora não alcance nunca, na minha modesta opinião, a categoria de soberbo.
    Mas o que me atraiu no post do Sérgio é o excerto “qualquer texto cotó vem tirando onde de ‘conto'”.
    Acho que a coisa está muito mais lamentável, Sérgio. Com o advento da internet, mais especificamente dos blogs, o que tem de texto ridículo botando banca de “literatura” é uma grandeza. Neguim monta blog e jura que é “escritor”…

  • Black Jack 12/12/2007 at 18:02

    Eu não diria que o Vilela escreve mal, como insinua o “rapá”. Mas realmente está difícil de aceitá-lo entre os maiores contistas brasileiros. Essa lista aliás me parece ser das mais enxutas: Machado, Nelson Rodrigues, Rubem Fonseca, Sabino, Guimarães Rosa… Alguém dá mais?

  • Sérgio Rodrigues 12/12/2007 at 18:37

    Black Jack, tudo bem que listas assim vão ser sempre pessoais, mas Fernando Sabino e Nelson Rodrigues nem contistas foram propriamente.

  • Black Jack 12/12/2007 at 19:04

    De certa forma vc tem razão, Sérgio. Nenhum dos dois se consagrou como “o contista”. Um era “o dramaturgo”, o outro, “o cronista” ou então “o autor de ‘O encontro marcado'”. É uma visão pessoal mesmo, pois o que mais gosto do Nelson é “A vida como ela é…”. Do Sabino, além de ter me emocionado com “O encontro marcado”, eu adorava os contos que ele publicava na Playboy. Uma Playboy que aliás era bem diferente do lixo que é hoje. As coelhinhas que me perdoem…

  • Sérgio Rodrigues 12/12/2007 at 20:23

    Pois é, Black Jack: o Sabino é cronista, e o Nelson de A vida como ela é, embora eu goste muito daquilo, também é. Há nesses textos uma urgência, uma velocidade e uma exploração de clichês que não me deixa considerá-los bem contos, por mais brilhantes que sejam. Mesmo assim, estou pronto a admitir que julgamentos literários são a coisa mais subjetiva do mundo. Pois não apareceu até um sujeito pra dizer que o Luiz Vilela não sabe escrever?

  • Paulo (Outro Paulo) 12/12/2007 at 21:39

    Eu aproveito parasitoriamente o post do Sérgio para homenagear o Rascunho. Dado o tamanho do nosso mercado consumidor de literatura, aquele pessoal de Curitiba deve estar tirando leite de pedra pra manter o jornaleco em pé, mas a iniciativa e o esforço são muito bem-vindos. Parabéns, Rascunho, vocês são uns heróis.

  • Daniel Brazil 12/12/2007 at 22:43

    Creio que em qualquer lista de “melhores contistas brasileiros” constariam nomes como Trevisan, Rubens Fonseca (bem melhor que o romancista, por sinal), J.J. Veiga, Mário de Andrade, Lima Barreto… Não conheço um conto sequer do Sabino ou do N. Rodrigues, nem sabia que praticavam tal arte!

  • Black Jack 12/12/2007 at 23:26

    Daniel, recomendo começar por “O homem nu”. Você encontra esse conto no seguinte link: http://www.releituras.com/fsabino_homemnu.asp

  • Magnificat 12/12/2007 at 23:30

    RubenS Fonseca?

    Quem?

  • vinicius jatobá 12/12/2007 at 23:59

    “As Palavras Secretas” coloca o Rubens Figueiredo na elite dos nossos contistas. Ninguém escreve prosa como o Rubens Figueiredo hoje no Brasil. E esse Amílcar Bettega Barbosa não brinca em serviço, “Deixe o quarto como está” é um grande livro de contos. “Famílias terrivelmente felizes”, “Faroestes” e “Amor, e outros objetos pontiagudos”, todos do Marçal Aquino, são grandes livros de contos. João Anzanello Carrascoza (“O Volume do Silêncio”) e Ronaldo Correia de Britto (“Faca”) também são brilhantes.

  • Rafael Rodrigues 13/12/2007 at 01:02

    Luiz Vilela é um grande contista. O Sérgio que me perdoe, mas nisso aí não entra julgamento literário. Pode ter livros irregulares, mas que é um dos melhores contistas brasileiros, isso é. E, se for falar de contistas, Antonio Carlos Viana, Mayrant Gallo, Menalton Braff, Osman Lins e o “novato” Diter Stein merecem ser lembrados.

  • Rafael Rodrigues 13/12/2007 at 01:04

    Putz. Agora que me toquei: meu comentário ficou parecido com o post “Debate literário”. Ó o “real me” dando as caras… hahahhaa

  • anrafel 13/12/2007 at 02:53

    Mas nenhuma palavra sobre Sérgio Faraco?

  • rapá 13/12/2007 at 09:35

    As pessoas têm o direito de ir contra qualquer glorificação, até do Machado. (Já viram o que o Millôr diz do “Dom Casmurro”?) Acho que o sujeito aqui pode ser levado em consideração quando diz NÃO que o Vilela não sabe escrever, mas que o Sergio Rodrigues dá um importância a ele infinitamente maior que a realidade.

  • rapá 13/12/2007 at 09:38

    Ah, Sérgio, depois você poderia dar sua opinião sobre o que é conto e o que é crônica, porque é realmente uma questão interesantíssima e muito relevante na literatura brasileira, que produziu pérolas híbridas como A vida como ela é… (que o Nelson chamava de contos, visto que saiu originalmente como “100 melhores contos – A vida como ela é…”).
    grande abraço

  • Sérgio Rodrigues 13/12/2007 at 11:04

    Pois é, anrafel: nenhuma palavra sobre o Faraco. As listas de mortos que apareceram por aqui são boas (faltou Clarice, faltou Murilo Rubião, faltou Caio Fernando etc.), mas a minha lista era de vivos. Entre eles, Vilela é sem dúvida alguma um dos grandes, ao lado de Faraco, Lygia, Sérgio Sant’Anna, os lembrados Rubem e Dalton… A intervenção do Jatobá é heterogênea demais, mas também acaba dando uma contribuição: acho que o Marçal já é, sim, candidato a um lugar entre os grandes.

    Claro que a discussão é boa de qualquer maneira. Listas são sempre primitivas, mas têm a vantagem de estimular conversas desse tipo.

    Rapá: de fato, você não disse bem isso. Acabei misturando com outros comentários de sua autoria, feitos sob outras identidades nos últimos tempos (isso já virou uma espécie de campanha, não?). Num deles, você chamou o Vilela de “um dos piores escritores do mundo”. Diante disso, “escrever mal” não seria até pouco?

    Sobre a distinção conto x crônica, que é nebulosa mesmo, já dei minha opinião ali em cima. ‘A vida como ela é’ trabalha com automatismos verbais demais, clichês demais, em busca de um efeito estético predeterminado, que acaba atingindo em série. É genial, mas conto propriamente não é. A menos que se qualifique: “conto popular”, “conto carioca” ou algo assim. (O mesmo raciocínio vale para Fernando Sabino.)

    Rafael: acho que eu estava tentando ser irônico. Nem tudo é tão relativo.

  • Rafael 13/12/2007 at 11:22

    No que diz respeito às identidades, a onisciência do Sérgio explica-se pela visão privilegiada que lhe é outorgada pela condição de dono do blog.

    Quanto a mim, mero expectador, só me resta deduzir os fatos ao modo sherloquiano. Como, segundo a velha máxima de Buffon, o estilo é o homem, tenho quase certeza de quem estamos falando. E mais não digo.

  • Sérgio Karam 13/12/2007 at 17:03

    Eu ia citar o Caio Fernando Abreu e o Sérgio Sant’Anna, mas cheguei tarde. Dois grandes contistas, sendo o Sant’Anna (1941) exatamente da mesma geração do Faraco e do Vilela, e o Caio (1948) um pouquinho mais novo. Quanto ao Faraco, ele é realmente “o cara”, como disse o Sérgio R. Alguém se lembra de um conto dele chamado “Idolatria”? Mas tudo dele é de alto nível.

  • olney 13/12/2007 at 17:07

    Pois eu gostei tanto do conto do Sergio Faraco como da entrevista do Luiz Vilela; e apoio o comentário do “Outro Paulo”: parabéns calorosos para o “Rascunho”.

  • Liana 13/12/2007 at 17:16

    Sempre que posso compareço aos “paióis”. A iniciativa do Rascunho é muito legal – e é de graça. Também sou contra os cotós, Sérgio.

  • francisco 13/12/2007 at 19:25

    Leio diariamente Todoprosa e, além de me informar sobre literatura, busco sempre a dica de um bom autor para conhecer. Rodrigues citou Vilela e o Faraco (existem um lingüista e um gramático ou autor de livro didático com esse sobrernome). Li apenas um conto do Vilela e não me seduziu. Procurarei ler algo do Sérgio Faraco.

    PS: Nélson Rodrigues é um gênio literário. Escreveu teatro, crônicas argumentativa e esportiva, novela, romance, memórias e conto, sim, senhor. Lembre-se que Massaud Moisés diferencia o conto da crônica pois aquele apresenta investigação psicológica, curta, breve, além de esboçar um microcosmo, quer dizer, todo um mundo em que o autor estará sempre revelando ; já a crônica retrata um evento com pouca reflexão (creio que a exceção seria Rubem Braga).

    PS II: Conheçam o “mestre do conto cearense”, nas palavras de Rachel de Queiroz, o excelente Moreira Campos.

  • Chico 13/12/2007 at 20:34

    Acho a lista do Jatoba disparatada nao, Sergio. Na minha opiniao, esse chapa le e sabe do que esta falando em termos de MacLiteratura fast-food. Jatoba, concordo sobre o Rubens Figueiredo e o Carrascosa e coloco ai ainda o Evandro Affonso Ferreira – que parece descompromissado, mas o cara fala de coisas existencias profundas. Faraco eh mestre absoluto do tempo, ritmo e surpresa. No Ondas de escarnio e Lourura tem um conto chamado o silencio que eh excelente.

    ô rapá… sem excramação, mermão. Que papo é esse, o Vilela é bom sim!! Faco minha as palavras do Rafael Rodrigues. Agora, o Marçal ainda tem que tirar aquele negocio cinematografico da literatura dele – pois literatura nao eh so imagem nao, comparsas (caso contrario Clarice, Noll e o Nassar nao seriam literatura). Por isso minha opiniao, de dias atras, sobre o Galera. Acho esse garoto bom pra burro, mas a gente tem que parar de pensar que literatura tem que virar cinema a todo o custo. O Cao sem dono ficou ruim na tela.

    E olha, acho que o Rubao ainda eh um grande contista. Todos ficam na boca pequena com esse papo de que ele perdeu o prumo, mas todo mundo continua lendo velho concupiscente.

    E os restos dos mortos, que em paz descansem… Esse espaco eh muito bacana quando as pessoas querem discutir.

    Xara, vou ler esse Moreira Campos.

  • vinicius jatobá 14/12/2007 at 01:16

    Chico, quanto ao Marçal Aquino, será que o achamos cinematográfico pelo simples fato de que lemos cinematograficamente os livros? Eu considero ‘Desonra’, do Coetzee, um livro de alguém que conhece muito cinema. E isso não faz com que deixe de ser literatura de grande qualidade. A questão com o Aquino é que me parece que estamos diante de um momento em que nos ‘alfabetizamos’ primeiro no audio-visual (nosso contato com a palavra é mediada por imagens), e assim lemos cinematograficamente texto que nos lembrem a estrutura de filmes (descrição-diálogo-descrição-diálogo-descrição). No entanto, o cinema aprendeu a narrar com a literatura e acho curiosa essa inversão: muito daquilo que era estritamente literário e foi saqueado pela gramática e sintaxe cinematográfica parace estar, agora, proibido de ser usado pela própria matriz literária. A grande inovação da literatura do Rubem Fonseca, por exemplo, não é seu vocabulário sujo ou personagens sórdidos, mas sim seu manejo de uma duração agilizada inédita na nosso conto antes tão lento e descritivo: cortes, deslocamentos, contrapontos, supressões. É uma literatura de alguém que conhece muito de cinema, e pensa a literatura a partir daquilo que ela perdeu para o cinema e transforma essa perda em vantagem. Acho que o Marçal Aquino sofre de um preconceito nascido de certa pressa e é tachado sem que muita gente note que nossos olhos estão condicionados a pensar primeiro a imagem e o som, porque o mundo é assim, e quando encontramos no texto algo que corresponda à forma narrativa hegemônica do mundo há um esvaziamento e logo pensamos que isso não deveria ser o efeito provocado por um texto literário. Mas da mesma forma que o modernismo cresceu com a aproximação da literatura com a música e pintura (e até mesmo textos teóricos de montagem de cinema das vanguardas russas), não me parece ruim que hoje se aproxime tanto palavra da imagem, do audio-visual, etc, etc. Eu considero Marçal Aquino um autor gigante no conto. Li seu romance e não gostei, e a novela achei interessante; mas no conto ele é fera e não é muito difícil notar isso. Ler num mundo implodido de sons e imagens é cada vez mais difícil.

  • Deise Guelfi 14/12/2007 at 03:57

    Bem, goataría de contribuir com alguns nomes, de minha preferência:
    Ariosto Augusto de Oliveira
    Caio Fernando Abreu
    Carlos Vogt
    Deonísio da Silva
    Edla Van Steen
    Edward Lopes
    Flávio Aguiar
    Ignácio de Loyola Brandão
    Joyce Cavalcante.

    Há outros. Mas é o bastante.

  • Daniel Brazil 14/12/2007 at 09:48

    Obrigado pela dica, Black Jack. Li o Homem Nu há muitos anos, o volume todo, aliás. (Li também outros volumes de crônicas, além do Encontro Marcado).
    Continuo fechado com o Sérgio. Sabino foi bom cronista, com senso de humor e leveza. Não pode ser comparado, em profundidade, a Paulo Mendes Campos ou Rubem Braga. Também cronistas, e não contistas.

  • Chico 14/12/2007 at 14:17

    Jatoba, pois eh, acho que o consumidor de literatura hoje no Rio e SP esta meio enfeiticado pelo fetiche cinematografico. Mas isso eh um ponto de vista muito pessoal pois pessoalmente tento separar as coisas. Comparsa, quando vc diz que…

    “o cinema aprendeu a narrar com a literatura e acho curiosa essa inversão: muito daquilo que era estritamente literário e foi saqueado pela gramática e sintaxe cinematográfica parace estar, agora, proibido de ser usado pela própria matriz literária.”

    O trocadilho eh infame mas arremedando o Krakauer ler cinema e assistir literatura eh necessario, depurando ambos os campos e nao deixando que ambos te tiranizem. Quer um exemplo dessa separacao? Gosto muito do Raduan Nassar – muita gente diz que ele eh embuste, e do ponto de vista de producao literaria eh mesmo, acho que ele foi meio que fabricado, mas gosto muito do Copo de Colera. Nao sei explicar, simplesmente gosto de reler. Mas o filme ficou lamentavelmente muito ruim. Ou seja, nao deu certo na tela, mas continua sendo muito boa obra literaria Um copo de colera. Um outro exemplo? O Noites Brancas do Dostoievski. Livro de juventude, novelinha rapida que nem ele negou que fosse, mas quando o Visconti – um cineasta inigualavel – resolveu colocar na telona, o negocio virou uma obra grande pra mim ( talvez nao comparavel ao Il Gattopardo, mas ainda assim uma grande obra. Ate o canastrao do Mastroiani ficou bem se encaixando naquele ambiente teatral). A mesma coisa nao aconteceu com os Irmaos Karamazov. Tipo de obra prima que nunca, jamais deveria ter sido adaptada para o cinema. O Yul Bryner nunca deveria ter interpretado um personagem da riqueza do Dimitri.

    Camarada, quer um outro exemplo polemico. So para acabar de jogar lenha. Tropa de elite: livro de sociologia barata. Filme bem meia bomba, mas a producao ( protagonista e antagonista definidos e em campos distintos; cortes rápidos; cenas de ação entrecortadas; gritos, violência e força física para a resolução de problemas; palavrões; tudo isso numa circusntancia oportunista vira sucesso e passa a ser “bom cinema”).

    Enfim, quando eu falei do Aquino, talvez eu tenha carregado na tinta, eh verdade. Ateh por que, confesso que li apenas dois livros do Aquino (Amor e objetos… e o Invasor) alem de uns contos esparsos em coletaneas do inicio de sua carreira. Jatoba, sobre o Amor e objetos… tem uma coisa que eu concordo contigo. O Aquino narra bem, tem um ritmo fera, mas algumas estorias sao previsiveis. Tem uma do personagem que vai jantar com o pai e a nova namorada do pai…a moca e scort girl… poxa, mais do mesmo, nao? Voce nao acha?

    Bom, pra terminar, acho que ha uma inversao de valores brutal no momento em que o mercado (editoras grandes e toda a estrutura por tras delas )influencia ou ateh mesmo determina o gosto do leitor por um determinado tipo de literatura. Pra mim isso eh artigo 59 e 60 da lei de contravencoes penais!! ( risos)

  • vinicius jatobá 14/12/2007 at 15:42

    Chico, a grande literatura, seja ela cristalina, seja ela experimental, a grande literatura é grande porque tem algo que é só dela e se resolve apenas em sua própria linguagem. Da mesma forma que o cinema aprendeu com a literatura, a literatura hoje aprende com o cinema. Imagino que você se incomode com certos autores que fazem mais tratamento cinematográfico que literatura. Esse não é o caso do Marçal Aquino, não é o caso do Daniel Galera. A narrativa hegemônica, hoje, é o audio-visual. Isso libera autores para fazerem inovações formais, ou depura e elimina convenções descritivas anteriores. Um dos motivos de Borges não acreditar mais no romance é porque, para ele, o cinema tinha raptado a épica da literatura. Ou seja: até Borges é influenciado pelo cinema e teve que pensá-lo para fazer sua arte. Pense na influência do cinema expressionista no trabalho do Kafka. Honestamente, o mundo não começou ontem. O melhor é que se não gosta de um livro e o acha ilegível há mais tantos outros que, reunidos, ultrapassam seu tempo vital para lê-los. Bom proveito, e boa viagem.

  • Daniel Brazil 14/12/2007 at 17:09

    Vinicius, não é exagerada essa comparação entre cinema expressionista e Kafka? Quando surgiu o “Gabinete do Dr. Caligari” (1919), marco fundador do expressionismo, Kafka já escrevia. E morreu logo depois, em 1924, não tendo contato com várias outras obras primas do movimento, que teve seu auge na década de 20.

  • Rafael 14/12/2007 at 17:43

    Concordo com o Daniel.

    Kafka não deve nada ao cinema. Sua técnica descritiva, por meio da qual confeccionou cenas e imagens assustadoras, como a audiência do obscuro tribunal onde estava o processo de Joseph K., deve muito a Flaubert.

    Um artista superior como Eça de Queirós, que viveu antes que o cinema fosse inventado, era capaz de tecer imagens muito vivas – como a confeitaria, ricamente pintada n’O Primo Basílio.

  • vinicius jatobá 14/12/2007 at 18:14

    Daniel, sobre essa questão tem um livro muito interessante: “Kafka vai ao cinema”, de Hans Zischler. Acho que você vai gostar. É um livro maravilhoso que toca inclusive em alguns dos pontos que estamos discutindo aqui. Abs,

  • Chico 14/12/2007 at 19:20

    compadres, eu so tento separar um pouco as coisas, pois estou mais ligado apedeuticamente aos classicos e acho que literatura ainda eh algo muito distinto do cinema por isso minha implicancia – mas isso eh coisa de velho. Como o Rafael disse, Beyle, Dostoievski, Flaubert e o proprio kafka ja existiam antes do cinema e nem por isso deixavam de ser ‘cinematograficos’. Alem do Primo Basilio, eu ainda acrescentaria o Tragedia da Rua das Flores – que foi baseado num crime que realmente aconteceu em Lisboa envolvendo, se nao me engano, uma Brasileira. E foi ateh bom aventar esse exemplo, pois havia uma certa animosidade entre Eca e Machado, assim como entre Eca e Castelo – a quem ignorou olimpicamente toda a vida. Alguem sabe dos detalhes sobre as rinhas? Parece que o Machado escreveu um artigo certa vez vendo semelhancas num dos personagens de Eca e Flaubert, se nao me engano, mas gostaria de saber mais….

    nota. engracado, quando eu li o Processo, ha anos atras, eu tive a impressao que as cenas narradas pelo Kafka eram assustadoras, mas ao mesmo tempo engracadas, de tao bizarras. Aquilo parecia o sistema judiciario e cartorial brasileiro (risos). Depois vi o filme do Welles percebi que estava equivocado.

  • pérsia 17/12/2007 at 01:13

    chico, machado ao falar de ‘eça de queirós: o primo basílio’ foi meio pro rude: o português seria “filiado” à escola de zola, (o crime do pe. amaro exemplificaria); as personagens de “o primo”‘ seriam títeres, veículos pra teses deterministas; elogia apenas a construção de juliana, um caráter individual. já para
    silviano santiago (não lembro o nome do texto.) o romance dialoga com flaubert com maturidade.

  • Rafael 17/12/2007 at 10:19

    Deixe-me fazer alguns reparos.

    As ressalvas de Machado ao Primo Basílio foram sobretudo de ordem estética. O naturalismo cru do Eça de Queirós não tinha sabor agradável para o delicado Machado de Assis, mestre das alusões e das litotes. Sim, é verdade os dois artigos que o Machado sobre o livro do Eça foram os mais ácidos entre seus escritos de crítica literária, o que parece indicar ter havido um certo ciúme pelo romancista português, que fazia sucesso tremendo no Brasil (mais que o próprio Machado).

    Apesar disso, não creio que tenha havido animosidade entre os dois autores. Há relatos de um Eça de Queirós extasiado que lia em voz alta aos amigos o capítulo do delírio de Brás Cubas. Machado e Eça trocaram correspondência, sempre em tom respeitoso e afável.

    Por ocasião da morte de Eça, Machado escreveu um belo obituário, em que dizia:

    Que hei de dizer que valha esta calamidade? Para os romancistas é como se perdêssemos o melhor da família, o mais esbelto e o mais valido. E tal família não se compõe só dos que entraram com ele na vida do espírito, mas também das relíquias da outra geração, e, finalmente, da flor da nova. Tal que começou pela estranheza acabou pela admiração. Os mesmos que ele haverá ferido, quando exercia a crítica direta e cotidiana, perdoaram-lhe o mal da dor pelo mel da língua, pelas novas graças que lhe deu, pelas tradições velhas que conservou, e mais a força que as uniu umas e outras, como só as une a grande arte. A arte existia, a língua existia, nem podíamos os dois povos, sem elas, guardar o patrimônio de Vieira e de Camões; mas cada passo do século renova o anterior e a cada geração cabem os seus profetas.

    O artigo de Machado sobre O Primo Basílio e outras páginas de crítica literária podem ser lidos neste endereço: http://www.cce.ufsc.br/~nupill/literatura/criticam.html

  • Chico 17/12/2007 at 13:48

    Obrigado Persia e Rafael. Rafael esse obituario diz bem ao que se propoe, nao? Ao ler, sentindo-se o odor das entrelinhas, tive a impressao que se tratava de uma relacao nao tao amistosa apesar da admiracao autoral mutua.

    A questao estetica a qual vc se refere, tem muito sentido hoje, olhando em retrospectiva. Mas na epoca – como os contemporaneos hoje em dia – eu nao sei se Eca, ou Machado, ou Barreto, ou Euclides, tinham completa nocao do imperativo estetico categorico vigente. Isso eh um tipo de conclusao que se pode tirar a posteriori, afinal o naturalismo cru de Eca nao era o mesmo que o de Aluizio Azevedo por exemplo.

    Percebe-se um respeito medido e isso fazia parte da afabilidade de Machado nao apenas com Eca, mas com todos. O Pedro Calmon diz que o Machado era tao educado e afavel que chegava a raia da neurose em seu comedimento e cortesia. Por isso um tipo de obituario desse nao me surpreeende vindo de quem vem – do entao presidente do Petit Trianon.

    Olha, o Sergio Miceli tem uma tese em que diz que todos os intelectuais tem uma dose de rancor, um certo recalque essencial, que os fazem produzir e se superar (Eh uma tese inspirada num arremedo de uma tese de Bourdieu sobre a tribos de Kabyla na Argelia – que o prutugueis no Brasil chamou de Habitus. Qualquer bunda mole hoje usa essa tese, inclusive eu nao a nego). Por isso eu acho que havia ‘um qualquer coisa’ na relacao entre o Eca que era o camarada do bem frequentado ‘vecidos na vida’, escritor-diplomata, queridinho no Brasil, e o amanuense Machado. Mas isso sao so suposicoes de balde chutado a guisa de lenha na fogueira. Abracos, Chico.

  • Saint-Clair Stockler 19/12/2007 at 22:25

    Mayrant Gallo, da Bahia, é um contista que me encantou nos últimos tempos. Aliás, foi o último que me lembro ter me encantado tanto. Sugiro o livro “O inédito de Kafka” como livro a ser pedido de presente a Papai Noel nesse fim de ano. Acho que vocês não vão se arrepender.

    E meu amigo Lima Trindade lançou recentemente um pequeno volume de contos muito bons: “Corações Blues e Serpentinas”. É meu amigo mas sei separar as coisas: independentemente do fato, trata-se de um ótimo contista.

  • Sergio Faraco 28/01/2008 at 00:52

    Grácias, Sergio, pelas gentis palavras sobre “O céu não é tão longe”, que saiu junto com a entrevista do Vilela no Rascunho. Eu não escrevo para leitor algum gostar, escrevo como sei, mas quando alguém gosta há uma parte minha que se satisfaz, que se vê justificada em seu esforço de dar sempre o melhor e jamais enveredar pela linha de menor resistência.
    A propósito: os guris do Rascunho me convidaram para o Paiol, mas não pude aceitar, não embarco em avião. E de ônibus seria muito cansativo.
    Abraço.

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