Adjetivos são legais

22/08/2015
'Quarto em Arles' (1888), de Vincent van Gogh

‘Quarto em Arles’ (1888), de Vincent van Gogh

Sempre achei que a campanha de difamação movida contra os adjetivos, como se eles fossem responsáveis por toda a subliteratura do mundo, errou a mão e avançou alguns quilômetros pelo terreno da injustiça. “Quando conseguir agarrar um adjetivo, mate-o”, aconselhou Mark Twain, naquele que é um dos mais famosos na longa lista de insultos dirigidos à “palavra de natureza nominal que se junta ao substantivo para modificar o seu significado, acrescentando-lhe uma característica” (a definição é do Houaiss).

Adjetivos colorem o texto: não à toa, todos os nomes de cores são também adjetivos. É possível criar um belo quadro em tons de preto e branco, mas ninguém no mundo das artes plásticas chegaria ao extremo de condenar as cores como pragas: “Quando conseguir agarrar uma cor, mate-a!”.

Aprender a usá-las, explorar suas harmonias e desarmonias, isso sim. Mas para tanto é preciso que estejam vivas.

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Entende-se de onde vem a má reputação dos adjetivos. Por definição, eles têm mesmo uma tendência maior à futilidade do que os substantivos que escoltam: pendurados nestes, que trazem a substância no nome, são no máximo adjuntos, nunca a atração principal. Certo discurso beletrista – que ainda hoje há quem identifique ingenuamente com a própria linguagem literária – abusou tanto deles que acabou por dar à classe inteira uma fama suspeita.

É verdade que grande parte dos clichês literários é composta de adjetivos ornamentais grudados viciosamente a determinados substantivos: quantos “cavalos fogosos”, “noites escuras e tempestuosas”, “lágrimas quentes e abundantes”, “aromas inebriantes”, “verdades aterradoras”, “indefectíveis bengalas” e “silêncios sepulcrais” são necessários para deixar o cidadão desconfiado de que os adjetivos têm um pé – ou mesmo os dois – na cafonice?

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Talvez isso não seja o pior. Se o apego ao adjetivo clichezento é um estágio primitivo da sensibilidade literária que qualquer aprendiz menos tonto supera logo, a troca do adjetivo automático pelo inusitado, escolhido cuidadosamente para provocar efeitos poéticos sutis, apresenta riscos mais difíceis de driblar – principalmente o risco do preciosismo, da afetação. “A moda de hoje é o adjetivo eciano”, escreveu Monteiro Lobato. “Aquele ‘cigarro lânguido’ do Eça fez mais mal à nossa literatura do que a filoxera aos vinhedos da Champagne.”

Mas qual será o problema de “cigarro lânguido”, um caso clássico de condensação e transferência em que a languidez de quem fuma contamina o próprio objeto? Para Lobato, bom discípulo da secura da prosa americana do século XX, o problema eram os excessos que o gosto do escritor português pelos adjetivos catados com pinça teria estimulado em autores menores: “Nos grandes mestres o adjetivo é escasso e sóbrio — vai abundando progressivamente à proporção que descemos a escada dos valores”, garantia Lobato. “Um jornalistazinho municipal, coitado, usa mais adjetivos no estilo do que Pilogênio na caspa.” (Cumpre esclarecer, embora isso em nada faça avançar a causa dos adjetivos, que Pilogênio é um velho tônico capilar.)

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A paixão de Eça de Queirós pelos adjetivos costuma ser resumida numa frase famosa: “Há seres inferiores para quem a sonoridade de um adjetivo é mais importante que a exatidão de um sistema… Eu sou um desses monstros”. A tirada é do personagem Carlos, de “Os Maias”, mas a citação costuma ser atribuída ao próprio autor – uma imprecisão que não deixa de fazer sentido.

O capítulo em que Carlos da Maia diz isso começa assim (negritei os adjetivos): “O dia famoso da soirée dos Cohens, ao fim dessa semana tão luminosa e tão doce, amanheceu enevoado e triste. Carlos, abrindo cedo a janela sobre o jardim, vira um céu baixo que pesava como se fosse feito de algodão em rama enxovalhado: o arvoredo tinha um tom arrepiado e úmido; ao longe o rio estava turvo, e no ar mole errava um hálito morno de sudoeste”.

Bonito? Sem dúvida, ainda que excessivo para uma sensibilidade contemporânea. Eu, que também gosto de adjetivos, cortaria meia dúzia.

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Isso não significa dar razão a Lobato na quantificação reducionista – quanto mais adjetivos, pior o escritor – que, no limite, acabaria por nos impor uma dieta literária de substantivos puros. Tal fetichização dos substantivos pode levar um desavisado a acreditar que, atendo-se a eles, seu texto jamais escorregará na irrelevância, no clichê, no convencionalismo, na cafonice narrativa – como escorrega este, que não tem adjetivo algum:

“Ao sair da igreja, num impulso, Teresinha deu ao mendigo o dinheiro que trazia na bolsa. É o que Cristo faria, pensou. Jejuaria aquela noite, mas isso não importava, porque aquele homem que tinha o céu por teto e a lua por lustre enfrentava mais sofrimento em um dia do que ela em uma vida. Lágrimas inundaram os olhos do mendigo e, transbordando, desbravaram trilhas na sujeira de suas faces. Teresinha percebeu que ele tentava balbuciar um agradecimento, mas a voz era um fiapo que os soluços afogavam:

– De-eus… l-l-lhe… pa-pague!”

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Se o número de adjetivos não é, em si, determinante de coisa alguma, acredito que um começo de sabedoria esteja em não demonizá-los. Examinando-os um a um, sem medo, veremos que não são todos iguais – pelo contrário. A variedade é quase infinita, mas talvez seja possível classificar os “desejáveis” em dois grupos.

No primeiro ficam os que são tão sensatos e carregados de sentido, formando com o substantivo uma unidade tão indissolúvel (mas saudável e não viciosa), que cortá-los seria simplesmente aleijar o texto: “olhos castanhos”, “folha seca”, “manga madura”, “literatura contemporânea”. Como abrir mão deles? E como dizer de forma melhor, sem o adjetivo, o que está expresso numa frase como “Fulano acordou gripado”? Naturalmente, nem Mark Twain nem Monteiro Lobato exterminariam tais adjetivos. São os substanciais, praticamente intocáveis.

O segundo grupo é que correria riscos com eles: o dos adjetivos menos necessários à primeira vista, aqueles que, embora possam ser dispensados sem que o texto perca o sentido, têm a capacidade de iluminar de tal forma o conjunto que limá-los seria um ato de selvageria. É a estes, os falsos supérfluos, que o escritor deve dedicar sua mais carinhosa atenção.

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Mas como identificar os falsos supérfluos no tumulto em que se acotovelam os adjetivos clichezentos, os preciosistas, os sensatos, os redundantes, os chochos, os puramente ornamentais?

Não há fórmulas, é claro. A título de ilustração vale lembrar aquela passagem de “Pnin”, de Vladimir Nabokov, que o crítico James Wood cita com admiração embasbacada no livro “Como funciona a ficção”: a cena em que o professor que dá título ao romance está lavando a louça e deixa escapar das mãos um quebra-nozes, que cai na pia “como um homem caindo do telhado”.

Diz Wood: “Pnin tenta agarrá-lo, mas a ‘coisa pernuda’ [leggy thing no original] escorrega dentro da água”. É o adjetivo cômico aplicado ao quebra-nozes, saudado como “brilhante”, que leva o crítico ao orgasmo. Obviamente, Nabokov poderia ter escrito apenas que “a coisa” escorregava das mãos de Pnin: num plano superficial nada se perderia.

Como era Nabokov, deixou o “pernuda” roubar a cena – e ganhamos todos.

9 Comments

  • Silvio 23/08/2015 at 13:27

    Grandes observações, Sérgio. Foi a “mão pesada” nos adjetivos que me fez abandonar, logo nas primeiras páginas, os vários romances de Eça de Queirós que tentei ler. Um dia eu estava assistindo a um extenso documentário da BBC sobre a Primeira Guerra Mundial. Em um dos episódios foi mencionada uma coletânea de textos do Eça chamada ‘Ecos de Paris’, que hoje considero excelente, um dos melhores livros de crônicas que já li. Um dos motivos de tamanha admiração: a “mão pesada” nos adjetivos (!).

  • Cara Chato 02/09/2015 at 14:27

    Na frase … como se fosse feito de algodão…, me pergunto se feito é adjetivo mesmo, já que está em negrito? (No meu entender é o particípio do verbo fazer.) O texto é muito interessante, como todos do talentoso Sérgio Rodrigues.
    Obrigado, Cara Chato. “Feito” é, de fato, particípio do verbo fazer. E também é adjetivo, papel que assume claramente na frase acima por obra do verbo “ser”. Como ocorre com escrito, cozido, rachado, molhado, perdido e mais um número incontável de palavras. Um abraço.

  • Cara Chato 09/09/2015 at 08:55

    Desculpe-me, mas esse argumento não convenceu. Na frase acima, feito não é claramente um adjetivo. É uma locução verbal. Feito não assume nunca o papel de um adjetivo. Numa análise sintática um adjetivo acompanha um nome (substantivo) e não é o caso acima e numa análise morfológica feito não é um adjetivo.
    “Feito não assume nunca o papel de um adjetivo”??? O Houaiss discorda:

    feito

    adjetivo
    1 que se acostumou; acostumado, habituado
    ‹ jovem f. no banditismo ›
    2 que se treinou; exercitado, adestrado
    ‹ espírito f. nas lides políticas ›
    3 que se constituiu; formado, conformado
    ‹ criança bem f. › ‹ móvel f. de madeira ›
    4 que se tornou ponderado, experimentado; amadurecido, maduro, adulto
    ‹ ser um escritor f. › ‹ um homem f. ›
    5 estabelecido de comum acordo; definido, ajustado
    ‹ negociações f. ›
    6 pronto para ser utilizado ou consumido
    ‹ prato f. ›
    7 B infrm. com determinação; disposto, decidido
    ‹ foi f. na direção dos arruaceiros ›
    8 arm pronto para disparar (diz-se de arma)
    ‹ espingarda f. ›
    9 rel iniciado (no candomblé, umbanda e seitas afins), após passar pelo ritual de praxe
    ‹ iaô f. recentemente ›

  • Cara Chato 09/09/2015 at 09:16

    Um abraço também. E obrigado por seu abraço, é uma honra, pois sou seu fã! Gostei muito de sua entrevista para o programa “Umas palavras”, um autor muito sensível ! (Esse detalhes gramaticais no fundo são besteiras, o que vale é o conteúdo. Aliás quem sou eu pra te dizer isso…)

  • Cara Chato 09/09/2015 at 09:29

    Sinceramente, depois que escrevi o primeiro comentário me arrependi, mas não vi um jeito de apagar. É ridículo esse tipo de discussão, isso é assunto para corretores de texto, por isso fiquei envergonhado. Era um dia daqueles em que a gente acorda “com o ovo”, (como dizia minha tia rsrs,) e só faz e fala besteira. Se possível peço a você pra ignorar essas outras respostas minhas. A propósito meu nome é Marcelo. Seria porém em vão afirmar que não sou chato. Você não acreditaria.

  • Cara Chato 09/09/2015 at 11:26

    Fiquei com essa história na cabeça e fui conferir, e, infelizmente tarde demais. Ignorante, confiava nos meus (poucos) conhecimentos de gramática… Feito pode mesmo ser adjetivo! Ai que vergonha, nem é o caso de pedir desculpas, mas peço assim mesmo, já que sou decididamente um chato.

  • Cara Chato 09/09/2015 at 12:12

    A vergonha não sai da minha cabeça agora. Meu adjetivo mais apropriado seria não o chato, mas o burro, ou o louquinuo.
    Relaxe, meu caro. O caso de feito é meio nebuloso mesmo. Mas concordo que isso não tem tanta importância. Outro abraço.

  • Cara Chato 11/09/2015 at 07:03

    Todo esse episódio deixou o cara chato aqui muito chateado. É duro constatar o quanto a própria burrice pode nos surpreender. O cérebro é antes de tudo talvez nosso maior inimigo. Mas devo um agradecimento pela paciência e generosidade. Apesar da saia-justa só fez aumentar minha admiração pelo escritor!

  • Delair 11/09/2015 at 09:24

    Impagável esse Cara Chato! Me escapou uma risada sonora no escritório.

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