Em trinta anos, seremos todos amigos

27/07/2011

Ao entrar no bar, Rodolfo tem certeza de que ninguém sabe que está entrando um escritor. Ou ex-escritor, se é que existe essa condição. Às vésperas de completar setenta anos, os últimos vinte passados em silêncio e fora de todos os catálogos editoriais, ele acha que não faz diferença.

Numa mesa ao fundo, perto do banheiro, o também escritor ou ex-escritor Romualdo, de trajetória semelhante, está bebendo sozinho. Vê Rodolfo antes de ser visto por ele e, num velho reflexo, sente seu corpo se retesar na cadeira.

Rodolfo e Romualdo, companheiros de geração, nunca conversaram, embora tenham se visto e laboriosamente se ignorado meia dúzia de vezes em eventos literários do passado. Todas as suas trocas de ideias opostas se deram por meio de resenhas ácidas, artigos venenosos e maledicências variadas. Sempre se consideraram inimigos.

Rodolfo acaba de perder a mulher para um câncer fulminante de fígado, mas Romualdo não tem como saber disso. O único filho de Romualdo morreu há três meses num acidente de trânsito, mas Rodolfo também ignora essa informação. Se um dia tiveram amigos comuns que pudessem ser condutores de tais notícias, hoje a maioria está dispersa ou morta.

Rodolfo não consegue dormir mais de duas horas por noite desde que a mulher morreu. Romualdo recebeu do médico a ordem de parar de beber imediatamente, sob o risco de morrer em questão de meses, mas tem feito o possível para não pensar nisso.

Procurando uma mesa vazia inexistente, Rodolfo enfim vê Romualdo, que está olhando para ele. Sem se dar conta, ergue o braço numa saudação tímida.

Seguem-se alguns segundos de indecisão. Romualdo não retribui o aceno. Rodolfo está quase indo embora do bar quando se lembra de uma frase do Ricardinho, o doce Ricardinho, prosador fino e também esquecido, no auge daquelas datadíssimas batalhas literárias do início do século:

– Em trinta anos, seremos todos amigos.

É o eco da voz de Ricardinho, que morreu de infarto há quase uma década, que conduz Rodolfo até a mesa de Romualdo. Com a mão meio trêmula, agarra o encosto de uma das cadeiras vazias e tenta sorrir:

– Posso?

– Nem se atreva, seu verme, subliterato de quinta!

Rodolfo ergue o dedo médio e o sustenta no ar pelo que parece uma eternidade, encarando Romualdo, antes de dar meia volta.

Como era ingênuo aquele Ricardinho.

8 Comments

  • Felipe Holloway 27/07/2011 at 12:26

    Hahahahahaha!

    Hilário!

    E coitado do Ricardinho, talvez ele só tenha cometido um erro de cálculo. Essas sentenças temporais costumam ter margem de erro de uma década, para mais ou para menos.

    Excelente, Sérgio!

  • sergiorodrigues 27/07/2011 at 12:51

    Valeu, Felipe. Meu lado otimista acha que o Ricardinho está coberto de razão, na verdade. O problema é que tem o outro lado… Em trinta anos saberemos. Um abraço.

  • @JoaoMattheuz 27/07/2011 at 20:24

    Certo Romualdo. Perco um amigo mas nao perco o orgulho…

  • Carol 27/07/2011 at 20:33

    Ainda acredito que em 30 anos seremos todos amigos. Principalmente pelo grande aumento de pessoas que interagem em redes sociais!

  • léo mariano 29/07/2011 at 11:58

    eu tbm acredito no ricardinho, que não er bobão! já os amigos ro e ro , olha a linguinha pra eles: hrummm…velhos bobões!

    ótimo escrito Sérgio

    abs

  • Leonardo 01/08/2011 at 14:22

    Belo texto, um tantinho amargo e abrupto. Você deveria escrever mais frequentemente ficção, Sérgio.
    Eu sou um partidário ainda mais precoce do Ricardinho. Mas há pessoas cuja própria efígie é por demais sacra para dela se desfazerem.

    Mais frequentemente que todos os dias, Leonardo? Imagino que você se refira a publicar aqui no blog. Bom, aí é questão de hora e lugar. Obrigado e um abraço.

  • Leonardo 03/08/2011 at 11:22

    Corrijo-me então: você deveria PUBLICAR mais frequentemente ficção, Sérgio. Gosto demais do seu blog. Acompanho sempre.

  • Heli 06/08/2011 at 20:04

    Quem passou dos 50 conhece bem esses personagens…

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