Emma Bovary se despe na rede

07/05/2009

Dia desses, um estudante de Jornalismo de Belo Horizonte me mandou um pequeno questionário por email sobre as relações entre internet e literatura. Quase respondi que está na hora de arrumarmos uma pauta mais original, mas me contive – ainda bem. É verdade que já faz alguns anos que nossos papos andam um tanto obsessivos, mas talvez isso seja compreensível diante da vastidão do tema. Acabei respondendo o que sempre respondo, que a internet não me parece um ambiente muito propício para a criação literária em si, mas é sem dúvida o paraíso para todo o resto: divulgação, debate, circulação, descoberta, pesquisa, tietagem, compra, venda, o diabo.

Um belíssimo exemplo disso é este site da Universidade de Rouen, na França, em que se pode ler o texto de “Madame Bovary” em francês e, clicando num trecho qualquer, abrir o fac-símile do original manuscrito – a maioria, como este aí ao lado, rabiscadíssimo por Gustave Flaubert em sua lendária caça à “palavra justa”. Escoltando a página com os garranchos há uma outra, limpa, com sua decifração/transcrição. À parte a utilidade óbvia para estudiosos de Flaubert, trata-se de um brinquedo genial. E um encontro emocionante entre literatura e internet.

8 Comments

  • Eduardo Falioni 07/05/2009 at 14:21

    tu é pago pra isso?
    tá me zoando
    q texto meia boca

  • Claudio Soares 07/05/2009 at 15:00

    “Ler para viver”, como escreveu Flaubert.

    Assim, a internet [que não se dissocia da vida], onde lê-se e escreve-se como nunca, 24×7, é potencialmente um novo espaço para a criação de narrativas.

    Cada romance publicado em livro, desde o ‘Ingenioso Don Quixote’ recebe, naturalmente, a co-autoria de Gutenberg, pois o meio, sabe-se, influencia o conteúdo.

    Na web, penso, os romances [ou qualquer outro termo que os represente] deverão receber a co-autoria de Tim Bernes Lee. Ou seja, se livro é livro, internet é internet. Mas, o texto ainda é outra coisa.

    É possível existir literatura na internet? Ou ainda melhor, será que ela representará [na internet] o que dela conhecemos hoje?

    Sim, claro, e muito mais. Algo de novo, vê-se, anuncia-se [do contrário, não se discutiria tanto o assunto]. As sombras antecipam o futuro.

    Na internet, eu prefiro ver a literatura atingindo sua mais natural evolução. E não haverá nada de mal nisso.

  • Lya Tapajós 07/05/2009 at 15:43

    Maravilha o site da Bovary.

  • Noga Lubicz Sklar 07/05/2009 at 16:38

    Sergio, adorei este site, obrigada por linkar!

  • Marcus 07/05/2009 at 17:27

    Na verdade esse tipo de experiência já tinha sido feito em ambiente offline, quando, por exemplo, lançaram os textos inéditos do Robert Musil em CD-ROM. Os editores acharam que o hipertexto se prestava melhor a explicar as sinuosas relações entre os textos diversos.

    Por sorte, as tecnologias atuais da internet permitem reproduzir esse ambiente de forma pública e online.

  • Priscilla 08/05/2009 at 09:19

    O meio eletrônico precisa ser bastante utilizado, até ser dominado pela prática literária, e não o contrário.

  • Kelli 08/05/2009 at 10:09

    Eu acredito na internet como uma ferramenta sincera e democrática de comunicação (e aqui, incluo a literatura, por vezes a conversa entre almas, corações e pensamentos). Um lugar onde o anônimo ganha espaço e pode buscar seus pares ou simplesmente compartilhar suas frases, seus escritos. Se isso coloca no mesmo celeiro obras-primas e lixo não reciclável, cabe a cada um fazer o seu processo de seleção. Mas penso que o benefício – exemplificado aqui por este site que você indicou – seja bem maior que o prejuízo e que o meio não possa ser ignorado.

  • isaac 08/05/2009 at 15:58

    fabuloso.
    flaubert é gênio.
    com certeza não gostaria e nem usaria a internet para a sua literatura, apenas para passar o tempo. :-)

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