Entrevista com Silvério Sombra, o ‘Raduan sem Lavoura’ (I)

05/09/2012

"Caipira picando fumo" (1893), de Almeida Júnior

Encontrei o ex-escritor Silvério Sombra em seu sítio, que ele batizou de Itaguaí por motivos que veremos adiante, embora não se situe na cidade fluminense. O sigilo sobre a localização da pequena propriedade rural de Sombra é apenas uma das cláusulas restritivas que ele impôs como condição para conceder sua primeira entrevista desde que, há sete anos, abandonou tanto os círculos literários em que tinha atuação frenética quanto a própria literatura, recusando-se a acrescentar – conforme suas últimas palavras públicas – “uma linha que seja a uma obra que espero ver esquecida para sempre”.

A obra de Sombra, composta de dois romances e dois livros de contos, foi esquecida sem demora, como ele desejava. Seu nome, porém, tem teimado em pairar como um fantasma sobre as conversas literárias nacionais, sobretudo depois que alguém cunhou para ele o epíteto maldoso de “Raduan sem Lavoura”, que pegou. O nervosismo com o imperativo jornalístico de lhe perguntar em algum momento da entrevista o que achava desse apelido me atazanou a viagem até o sítio. Contudo, assim que saltei do jipe um homem de meia-idade descalço e maltrapilho, saco de milho na mão, cercado de galinhas, acabou com o problema.

“Aqui não tem lavoura mesmo não”, disse Sombra com um sorriso largo, dentes manchados de nicotina. “Só a galinhada, meia dúzia de cabritos, um casal de porcos e um vira-lata caolho, o Adolfo. E a minha Mirtes, que é analfabeta, graças a Deus, além de surda-muda. Sinto um pouquinho de falta de bater papo, não muita, mas um pouquinho eu sinto. Vamos chegando.”

Na cozinha de terra batida de seu casebre, tomando café com rapadura em canequinhas esmaltadas ao lado do fogão a lenha enquanto Mirtes – uma mulher robusta com cara de índia que não olhou para mim uma única vez – preparava o almoço, Silvério Sombra e eu tivemos a conversa a seguir:

O apelido “Raduan sem Lavoura” incomoda?

– O que incomoda é pulga (risos). Eu gostei quando soube. Uma coisa é largar tudo, negar a literatura depois de escrever “Lavoura arcaica”, outra bem diferente é fazer o que eu fiz. Concordo muito com o apelido. Achei “Lavoura arcaica” ótimo quando li, obra-prima mesmo. E a minha obra-prima ainda era futura, no máximo, se é que ia ser, mas mesmo assim eu parei com a besteirada. Qual a diferença? A diferença é que tem que ter muito mais coragem pra fazer o que eu fiz. Repudiar a literatura e ficar com a glória é fácil. Quero ver ficar só com as galinhas.

Por que repudiar a literatura e ficar com as galinhas? Aquele texto de despedida em que você pedia para ser esquecido não explicava nada.

– Porque não tem que explicar. Não tem que dar esse cartaz pra literatura. Se eu fosse ficar filosofando, tentando atribuir um sentido maior à coisa, o que seria isso? Literatura, pois é. A ideia era virar as costas e não dizer ó pessoal, vou virar as costas, reparem, estou virando, hein? Isso é o Vila-Matas, não sou eu.

Mas deve haver um motivo que possa ser expresso em linguagem não literária.

– Bom, se você faz muita questão, acho que eu posso dizer que fiquei sem estômago. Sabe quando as entranhas reviram só de pensar em comida? Comecei a ver a literatura como aquela mulher muito feia que a gente só descobre que é feia depois que ela passa dos vinte e tantos, porque enquanto é um brotinho esbanja graça, até os defeitos viram qualidades. Ah, aquelas olheiras de um roxo profundo, aquele dente torto, sabe esse tipo de mulher? Nariz grande, olho vesgo, cabelo espigado, tudo fica exótico e atraente na companhia de dois peitinhos duros e uma cinturinha de dezoito anos. Depois é que cai a ficha. A literatura foi isso pra mim: um dia a ficha caiu.

(Continua aqui.)

3 Comments

  • Pedro Leal David 06/09/2012 at 12:42

    Excelente personagem. Merece, mesmo, continuação. Ri bastante no começo, mas o sorriso foi ficando meio sem graça na parte da mulher feia.Há, aparentemente, uma ambiguidade: o fazer literário é a tal mulher que, enquanto jovem, te dá certo prazer mas quando envelhece mostra a verdadeira face. Por outro lado, a própria obra do escritor jovem pode se comportar desse jeito. Toleramos suas imperfeições e exaltamos suas graças, mas aos quarenta (nossos e dele ?) isso muda.

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