Entrevistas do ‘Rascunho’: o que é bom merece bis

03/09/2012


RASCUNHO: Como você avalia a entrada do Paulo Coelho na Academia Brasileira de Letras?

CARLOS HEITOR CONY: Tendo uma vaga, qualquer um pode entrar. O Paulo Coelho namorava a Academia havia bastante tempo. É uma figura polêmica, sua literatura é muito questionada. Mas há uma coisa que não se pode negar: ele é um homem de letras. Ele escreve letras. Escreveu letras para o Raul Seixas. Nunca li nada dele, realmente. Mas ele tem um sucesso comercial muito grande. Está entrando na Rússia. Já vendeu dois milhões de livros no Japão. É impressionante isso. Shakespeare não vendeu, até hoje, dois milhões de exemplares no Japão. Há outra coisa: o Paulo Coelho é uma pessoa muito fina, muito educada. Não responde ninguém, não agride ninguém. Não se vangloria por vender tanto. É muito cavalheiro. Agora, há as evidências. No Salão do Livro em Paris, em março de 1998, a homenagem foi ao Brasil. Havia lá uma réplica do 14-bis, um busto do Machado de Assis. Foram mais de cem figuras da literatura nacional. O (Jacques) Chirac era o presidente, na época. E ele entrou, para inaugurar o Salão do Livro, de braço dado com o Paulo Coelho. Disse que queria prestar uma homenagem especial a ele, o autor de seus livros de cabeceira. Chirac era professor universitário, tem curso superior, foi presidente da França, não é exatamente um débil mental, não é uma macaca de auditório, e gosta dele. A mim, Paulo Coelho não diz nada. Tenho outra visão de mundo. Não acredito que o homem tenha solução. Mas a literatura dele tem um mercado muito grande. E ele entrou na Academia porque insistiu. Foi candidato duas vezes. Na primeira vez não entrou e na segunda conseguiu – em parte também por bobagem do concorrente. Se o (sociólogo) Hélio Jaguaribe fosse menos empoado, o Paulo Coelho não teria entrado. A Academia não pode votar em qualquer pessoa. Tem de votar naqueles que se inscrevem, naqueles que têm a humildade de se submeter a uma eleição.

O trecho acima é uma pequena amostra dos prazeres que aguardam o leitor interessado nos rumos da literatura brasileira contemporânea no recém-lançado “As melhores entrevistas do Rascunho – volume 2” (Arquipélago Editoral, organização de Luís Henrique Pellanda, R$ 39,00). Ao lado de Cony, a esperta mescla geracional que informa a lista de escritores entrevistados pelo jornal mensal curitibano inclui Adriana Lunardi, Ariano Suassuna, Joca Reiners Terron, Marçal Aquino, Raimundo Carrero, Rodrigo Lacerda, Silviano Santiago e muitos outros. (Entre estes, como manda o princípio da transparência que fique registrado, eu mesmo, numa conversa de 2009 a propósito do lançamento de “Elza, a garota”.)

16 Comments

  • Pilar Rodrigues 03/09/2012 at 17:16

    Paulo Coelho concorreu apenas uma vez (estou escrevendo tese sobre ele, buscando tudo na internet, ufa!). A primeira eleiçao nao teve vencedor, foi adiada, e na segunda fase Paulo foi eleito.

  • Neile 03/09/2012 at 18:03

    P´ra mim ele não passa de um Forest Gump.

  • Rafael 03/09/2012 at 18:11

    Cony dixit: “Tendo uma vaga, qualquer um pode entrar.”
    Não conheço melhor definição para Casa da Mãe Joana.
    Resta a dúvida: o humor manifestado pelo Cony foi voluntário ou involuntário? Confesso que a sutileza do escritor carioca é tamanha que não sei responder à pergunta…
    Voluntário, Rafael, pode apostar.

  • Helena Cardoso 04/09/2012 at 00:53

    Em uma entrevista publicada pela Folha de S.Paulo, Paulo Coelho insultou a obra “Ulysses”, de James Joyce, dizendo que se tratava de “puro estilo” e que “nao ha nada” nela. Esta informacao foi publicada no New York Times em 10 de agosto. Sucesso comercial nunca foi sinonimo de qualidade e quem entende apenas um pouquinho de literatura, consegue perceber que ela nao faz parte do mundo de Paulo Coelho. Ele nao faz literatura, entra para a Academia e ainda tem a ousadia de ofender grandes mestres do mundo.
    Quanto ao homem “fino e muito educado” que Cony descreve, nao sei de quem se trata.

  • Claudio Faria 04/09/2012 at 08:23

    Maravilhosa foia a reação (ou melhor, a não-reação) de Lígia Fagundes Telles que pode ser encontrada aqui mesmo no blog “Meus Livros”, de Veja:
    ” “O que me dói é que na lista dos livros mais vendidos não tem um brasileiro”, continuou Lygia, que se absteve de fazer comentários quando disseram que Paulo Coelho estava lá.”

    Um silêncio ensurdecedor e que diz absolutamente tudo.

  • Microempresário 04/09/2012 at 14:04

    Ah, o mundo da internet…

    Se o Paulo Coelho fala mal de Ulisses, é um “insulto”. Se a Helena Cardoso fala mal de Paulo Coelho, é “interatividade”.

  • Rafael 04/09/2012 at 15:13

    Sérgio,
    Relendo a fala do Cony, devo dar a mão à palmatória: o humor é voluntário. E a prova está nesse trecho, que me fez tremer de tanto rir: “Mas há uma coisa que não se pode negar: ele é um homem de letras. Ele escreve letras. Escreveu letras para o Raul Seixas.”
    Genial!

  • Davi B. 04/09/2012 at 18:00

    Que humor fino sensacional! Não posso deixar de pontuar dois trechos: 1, não é “exatamente” um débil mental?; 2, não agride ninguém?

  • Helena Cardoso 05/09/2012 at 03:11

    Sr. Microempresario, o sr. esta enganado. O termo “insulto” foi usado pelo New York Times e eu nao falei mal de Paulo Coelho. Eu so disse que ele nao faz literatura. Eu fiz Letras e sei qual e a definicao de literatura. Se o sr. nao sabe, eu sinto muito. O insulto partiu do autor em questao, que, pelo que escreve, com certeza jamais leu “Ulisses”, e nao da minha parte. Quanto a mim, faltou acrescentar que um critico do The Guardian of London fez o que nao fiz: acabou com a raca de Paulo Coelho com poucas palavras comparando o trabalho dele com um queijo velho. Ai segue: “Coelho is, of course, entitled to his dumb opinion, just as I am entitled to think Coelhos’s work is a nauseous broth of egomania and snake-oil mysticism with slightly less intellect, empathy and verbal dexterity than the week-old Camembert I threw out yesterday.” Apenas finalizando, quem conhece literatura, nao le Paulo Coelho. Acredito que nao seja o seu caso. Ou voce e o proprio escondido atras do nome “Microempresario”.

  • Helena Cardoso 05/09/2012 at 04:14

    A proposito, Sr. Microempresario, Cony usa tanto da ironia que fica dificil discernir se ele esta sendo sarcastico ou sincero quando diz que Coelho e “pessoa muito fina, muito educada. Nao agride ninguem, nao responde ninguem”. Acredito que queira deixar ao criterio do leitor a interpretacao do texto e isto esta bem claro quando diz que o referido e “homem de letras. Ele escreve letras.” Horas, eu tambem sou. Assim como qualquer um de nos escreve – usa – letras. Tenho dito, Sr. Microempresario.

  • Microempresário 05/09/2012 at 12:49

    Puxa, D. Helena Cardoso, não sabia que só formados em letras tinham o direito exclusivo de definir o que é literatura e o que não é.

    Eu já li Paulo Coelho, portanto, não conheço literatura, segundo sua definição. Será que posso pedir um perdão (de alguém que fez Letras, suponho) para voltar a conhecer literatura? É que tenho muitos livros aqui em casa e gosto de muito de ler.

    Quanto às palavras de Cony, realmente não deve ser fácil “discernir se ele está sendo sarcástico ou sincero” para alguém que usa expressões como “acabar com a raca [sic] de Paulo Coelho” e ao mesmo tempo diz que não falou mal dele.

  • Helena Cardoso 05/09/2012 at 18:16

    O sr. esta deturpando minhas palavras. Eu, em momento algum, disse que so formados em Letras tem o direito de definir literatura. Eu apenas disse que sei reconhecer o que e uma obra literaria e, quem conhece, nao le- nao engole, nao atura, nao digere – e nao investe em Paulo Coelho. Mas como a educacao no mundo inteiro esta deixando a desejar, ele esta invadindo o mercado mundial. O fato do sr. ter muitos livros nao significa que sejam obra artistica. Por favor, procure entender melhor o significado do termo “literatura” e depois podemos discutir Paulo Coelho. Quanto ao “acabar com a raca”, o sr. sabe que foi forca de expressao, nao sabe? Ou preciso me explicar aqui tambem? Dou por encerrada a minha discussao com o sr. Tenha uma boa vida.

  • Fernanda Falleiro 06/09/2012 at 15:11

    Sempre me pareceu que o mais importante se perde quando as pessoas julgam saber muito de um determinado tema. Literatura não é esse pequeno nicho que vc, Helena, está certa de conhecer. Literatura é muito mais do que isso, muito mesmo, basta que você, vá conhecer a definição formal da palavra. No entanto o principal, com o qual iniciei este meu comentário, é que sendo de qualidade inferior ou não, Paulo Coelho é um abridor de portas. Não apenas de sua própria vida, mas de centenas de adolescentes que se enveredam pelo caminho da leitura através dele e que mais adiante alçarão voos mais altos, acredito que este, por si só, seja um feito digno. Desde que livros sejam lidos, já estamos caminhando para algum lugar, já estamos evoluindo.

  • Helena Cardoso 07/09/2012 at 22:39

    Eu nao estou certa de conhecer e nem julgo saber. Eu conheco. Tema??? Pequeno nicho???? Nao sei do que voce esta falando, simplesmente porque nao cheguei a definir o que e literatura. E ai voce se contradiz: “literatura e muito mais…va conhecer a definicao da palavra”. Exatamente o que falei anteriormente para o sr. Microempresario. Qualidade??? Abridor de portas???? Para onde???? Ha livros e livros, my dear, e muitos que nao levam ninguem a absolutamente lugar algum. Se as pessoas nao estao interessadas em saber a diferenca entre obra literaria e o material de Paulo Coelho, nao ha nada que se possa fazer. Sinto muito se voce tambem e fa deste autor e se sentiu ofendida. Parece que o Brasil inteiro le Paulo Coelho e, muito mais do que isto, faz a sua defesa. E desolador…

  • Philippe Lobo 16/09/2012 at 10:17

    Uma das minhas maiores curiosidades sempre foi saber o que as pessoas leem, e hoje feliz da vida venho aqui ler sobre a Rascunho, que gosto muito e vejo este bando de comentários, aí voltou minha curiosidade: O que um pessoa nervosa como essa lê? Pq se a “verdadeira literatura” deixa as pessoas estressadas assim, acho que devo ler Paulo Coelho mesmo… Viva o Brasil e seus defensores literários…

  • Jan Dalollio 21/01/2013 at 23:06

    Sou Cony desde criancinha….
    E isso já faz mais de 60 anos.

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