Erico no IMS, McCarthy no Twitter, Franzen na TV

25/01/2012

Amanhã à noite terei uma conversa íntimo-pública com Luis Fernando Verissimo sobre “Incidente em Antares”, o último romance do pai dele, diante de uma plateia de bolso no Instituto Moreira Salles do Rio de Janeiro. Lançado em 1971, o divertido livro em que Erico Verissimo (foto) cutucava a ditadura no auge da repressão e flertava com o “realismo mágico” latino-americano pela via do humor rasgado – além de passar bem perto de antecipar a moda moderninha dos zumbis – já tem um pouco mais de quatro décadas, mas a comemoração do aniversário atrasou.

Fiquei tão honrado quanto surpreso ao ser convidado para o evento por Elvia Bezerra, coordenadora de Literatura do IMS, que detém o acervo do maior nome da literatura gaúcha. Como podia ela saber, se quase nunca falo disso, que em minha adolescência quem me enfiou na cabeça que eu ia ser escritor foi justamente Erico, que tinha presença imponente na biblioteca de meus pais e que eu li de forma compulsiva entre os 12 e os 14 anos?

Pois é, ela não sabia. O que me deixa com a sensação – nada desagradável, devo reconhecer – de ter feito algumas escolhas certas na vida. Não é só numa cidade fictícia com nome de estrela às margens do rio Uruguai que os mortos podem cruzar nosso caminho.

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Como assim? O recluso Cormac McCarthy aderiu ao Twitter? Era alarme falso, mas Margaret Atwood, tuiteira emérita, acreditou. No blog de livros do “Guardian”, Alison Flood lançou um apelo: “Permaneçam reclusos, ó ícones da literatura americana, eu imploro!”.

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Com a produção de uma série baseada em “As correções”, que terá roteiros escritos pelo próprio Jonathan Franzen, e a aquisição dos direitos de adaptação de “A visita cruel do tempo”, de Jennifer Egan, a HBO entra com tudo no terreno – até aqui esnobado pela televisão – da literatura contemporânea “séria”. Boa notícia, certo? No “The Millions”, A-J Aronstein não está tão certo disso e (em inglês) especula que…

…devemos refletir sobre as implicações de sugerir [como teria feito, segundo ele, um empolgado Franzen] que as capacidades estéticas da televisão podem complementar ou mesmo suplantar as dos romances. Uma vez na vida, não perguntemos se “o romance vai sobreviver”, e sim o que significa o fato de seu futuro depender da relação com a TV – e se essa relação será produtiva a longo prazo.

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Em sua coluna de ontem no “Globo”, Pedro Doria saudou a chegada do “gratuito e trivial” iBook Author, software da Apple dedicado à edição de livros eletrônicos para iPad, no qual é simples como jamais foi acrescentar ao texto fotos, vídeos, recursos interativos etc.:

A notícia não é necessariamente boa para editoras. O filho do vizinho pode compor o livro eletrônico e submetê-lo para venda na loja da Apple sem que nenhum editor o veja. Passa por cima do intermediário. Taí um livro que provavelmente não terá qualidade. Muito lixo será produzido. Mas para fotógrafos com vontade de experimentar, designers com projetos dentro da gaveta e autores de livros infantis, a porta se abre repentinamente.

Não duvido que fotógrafos, designers e autores de literatura infantil façam a festa. Mas confesso que estarei mais atento ao que farão com a ferramenta autores de ficção literária adulta. Será o iBook Author a peça que faltava para que finalmente se ponha em curso aquela revolução pregada há alguns anos pelos entusiastas do meio eletrônico – a da explosão da arte narrativa num admirável mundo tridimensional de sons, imagens, interatividade e, bem, até mesmo palavras?

Vamos ver. Meu palpite é que, se a coisa não andar agora, não anda mais.

7 Comments

  • Arthur 25/01/2012 at 15:29

    “íntimo-pública” é o máximo. Queria estar presente.
    Você já leu esse ganhador do Pulitzer? Já comprei, mas ainda está em pré-venda na loja. As correções é obrigatório, depois de eu ter lido todas as comparações (inclusive a tua) entre ele e o “Liberdade”, mas estou esperando a pessoa que o emprestou da biblioteca pública finalmente devolvê-lo — é meio como um jogo mental: se ele estiver na biblioteca, eu TENHO de levá-lo; se não estiver, é porque eu ainda não o mereço.
    (Ah, não posso deixar de imaginar como é a vida dessas pessoas que entram e compram um livro sem pensar duas vezes and get away with it…)

  • Sérgio Rodrigues 25/01/2012 at 15:41

    Estou com o livro da Egan aqui na minha frente, começo ainda hoje. Um abraço.

  • Arthur 25/01/2012 at 15:56

    Massa. Vou ficar de olho e salvar o link da resenha, caso você fale sobre, pra ler logo depois do livro (que tenho intenção de devorar assim que chegar em casa).

    “E foram todos para Paris” foi o primeiro livro que li pouco depois de lançado e que encontrei resenha tua logo depois. Foi legal comentar virtualmente, quando ninguém mais havia lido (sequer no Skoob, quanto mais amigos físicos).
    Pretendo repetir a dose =)

  • Wagner Bezerra 26/01/2012 at 02:35

    O que me assusta é a popularização da “arte literária”, quantos bons escritores podem deixar de ser reconhecido por conta dessa massificação da produção ficcional, pelo simples fato de acharem que tudo que é porcaria é publicado, eu realmente não sei direito o que dizer e pensar sobre isso, preciso refletir um pouco mais…

    Abraço!

  • saraiva 26/01/2012 at 14:52

    Quanto ao IBook Author, devo concordar com Dória de que será “um livro que provavelmente não terá qualidade. Muito lixo será produzido”. E de que será o começo do fim do que você chama “ficção literária adulta”, que se tornará a próxima poesia: cultuada pelos próprios autores e por meia dúzia de gente vivendo absolutamente fora da realidade como ela é entendida por todos.

  • J.Paulo 26/01/2012 at 15:05

    Má notícia essa sobre o J. Franzen. Gosto muito dele, mas não me agrada esse servilismo à televisão. Vou passar longe dessas adaptações. Triste como muitos escritores pecam ao não perceber que a beleza e o encanto de muitos personagens devem-se ao fato de podermos encontrá-los APENAS nos livros.

  • Violeta 31/01/2012 at 16:56

    Como podia ela saber, se quase nunca falo disso, que em minha adolescência quem me enfiou na cabeça que eu ia ser escritor foi justamente Erico, que tinha presença imponente na biblioteca de meus pais e que eu li de forma compulsiva entre os 12 e os 14 anos?
    Bem, você não está sozinho, tive experiência idêntica.

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